O declínio da era medieval relaciona-se diretamente ao estabelecimento do paradigma moderno que passará por uma transição que acompanhará o declínio do papado desde os anos 1305 a 1517, anunciando a aurora da modernidade, com a crise instalada no papado e a via de mão dupla que impunha ao povo obediência tanto ao senhor feudal como ao papa, cria-se um conflito de interesses em distintas situações.
Pouco mais de um século antes dos eventos que marcaram a Reforma Religiosa do século XVI, várias questões religiosas, políticas e econômicas fizeram com que ideais reformistas fossem divulgados tanto por motivações religiosas, quanto por interesses particulares. O clero estava desacreditado pelos leigos em suas normas hierárquicas e éticas, e sua pesada estrutura e baixa contrapartida social levaram ao questionamento das bases da Igreja pelos leigos com o florescer da renascença.
Sérios conflitos entre França e Inglaterra, países líderes mundiais em armada e economicamente inimigos, ampliavam as animosidades entre a Inglaterra e a Igreja. O rei da França, valendo-se de sua influência sob o papa francês Clemente V, de fraca liderança e moral duvidosa, transferiu a sede do papado de Roma para Avignon, na França. Esse ato piorou as relações entre a Igreja Católica Romana e a Inglaterra, que não admitia estar financiando um papado com sede em seu maior rival politico.
Os impostos papais eram um estorbo para a organização das nações-estados. Além de altos, o serviço prestado pelos clérigos aos leigos era deficiente, mecânico e incoerente com o rigor das regras da Igreja. Diante dessa crise entre o papado e as nações-estados autônomas, nasce um movimento popular que exigia maior piedade e devoção por parte dos líderes cristãos, os “Místicos”, de onde surgem personalidades que levantam causas que desencadearão as propostas de Reforma Religiosa na Igreja.
1.2.1 John Wycliffe (1328-1384)10
Foi professor e tutor na Universidade de Oxford, teólogo e reformador religioso, trabalhou na primeira tradução da Bíblia para o idioma inglês traduzindo-a a partir da Vulgata Latina de Jerônimo, (Tradução livre à mão). Ele entendia que a Bíblia deveria ser à única base de doutrina da Igreja e da fé cristã. Defendia que a Escritura deveria ser um livro acessível aos cristãos, e que o homem comum pudesse ler.
Dentre seus ataques ao poder do papado e à hierarquia eclesiástica da época, estiveram tanto questões teológicas quanto políticas. É compreensível que um teólogo como Wycliffe, diante da confrontação da tradição e da influencia política do clero, conseguisse adeptos a seu posicionamento. As ideias de Wycliffe espalharam-se na Inglaterra pelos interesses da nobreza em confiscar bens e terras em poder da Igreja.
Diante da animosidade entre Inglaterra e França, Wycliffe, despertando o nacionalismo inglês, entendia que o poder da Igreja devia ser limitado às questões espirituais, e o poder temporal exercido pelo Estado representado pelo rei. Seu livro De officio
regis, defendia que o poder real era originário de Deus, respaldando seu argumento nas
palavras de Jesus Cristo: "dai a César o que é de César". (Cairns, 1995).
A Igreja convocou o Concílio de Constança, (1414 – 1418), aonde Wycliffe foi declarado herético, determinou-se que seus escritos fossem queimados, e doze anos mais tarde, ordenou-se que seus ossos fossem exumados, queimados, e suas cinzas fossem lançadas no rio Swift.
Acerca da Eucaristia, o questionamento da transubstanciação apontava para a superação do paradigma medieval pelo Renascentismo. Sobre esse questionamento, o professor de História da Igreja, da Bob Jones University, Panosian (2010)11, afirma que: “Os ensinamentos de Wycliff, que o levaram a questionar doutrinas como a da transubstanciação, a necessidade da confissão verbal, e outras, afirmaram mais uma vez a autoridade das Escrituras em lugar da autoridade da igreja como instituição”.
Movimentos reformistas como o da Boêmia, liderados pelos mártires Jan Huss e Jerônimo de Praga foram influenciados por Wycliffe como veremos a seguir.
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John Wycliffe, (1328-1384), é considerado o precursor das reformas religiosas na Igreja Católica Apostólica Romana não só na Inglaterra, mas em todo movimento da chamada Reforma Protestante desencadeados desde o século XV e consumados no século XVI.
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FLAMEJANTE a chama, parte 1: o inicio da reforma protestante. Family Christian Movies Com. Manaus: BV Films, 2010. 1 DVD vídeo (76 min.): DVD, son., color. Legendado. Port.
1.2.2 Jan Huss (1369-1415)12
Jan Huss iniciou sua vida de serviços a Igreja cantando nas missas e auxiliando os vigários nos serviços sacerdotais. Estudioso, tornou-se bacharel em Letras em 1393, e bacharel em Teologia em 1394 vindo a tornar-se mestre em Teologia em 1396. Quatro anos mais tarde foi ordenado padre em 1400. Veio a ser reitor da faculdade de Filosofia de Praga em 1401, e em 1403 reitor da Universidade Carlos.
Foi atraído pela profissão clerical tanto pela vocação quanto pela tranquilidade de servir a Igreja. Não sabia ele que viria a tornar-se um mártir por seus ideais reformadores. Huss tinha uma personalidade forte, foi ideologicamente influenciado por John Wycliffe, cujos escritos lhe foram acessíveis através de Jerônimo de Praga que havia estudado em Oxford, sede da propagação de sua ideologia confrontadora.
Suas ideias, majoritariamente as de Wycliffe, impregnaram a Boêmia, e seus seguidores eram chamados hussitas. Huss pregava o sacerdócio universal dos cristãos, e defendia que toda pessoa pode comunicar-se com Deus sem a mediação sacramental e eclesial. Esta oposição ao poder papal lhe custou à excomunhão em 1410 e condenação pelo Concílio de Constança em 1415 onde segundo Cairns (1995), morreu cantando.
O martírio de Huss acendeu a fogueira de muitos outros mártires. Antes de sua morte, Fox (2002), afirma que Huss disse ao carrasco: "Vais hoje assar um ganso (pois o nome Hus significa "ganso" em boêmio), porém dentro de um século, surgirá um cisne que não poderão nem assar nem ferver.", essa declaração é identificada pelos historiadores protestantes como uma referência a Martinho Lutero que tinha em seu escudo de armas a figura de um cisne. Fox (2002). Huss morreu privado da comunhão.
O duque da Baviera esteve solícito a Huss, buscava que ele se retratasse, ao que segundo Fox (2002), ele lhe disse: “Não. Jamais preguei alguma doutrina com más intensões, e aquilo que ensinei com meus lábios agora selarei com meu sangue”. Intolerância e violência marcam a trajetória da cristandade. Parece antagônico falar desse binômio através da História das religiões, porém Mata (2010, p.108) o ressalta,
Para aqueles em que o interesse pela história se confunde com um gosto mórbido pela violência, a história das religiões oferece espetáculos sem igual. Em sua guerra de conquista religiosa dos saxões, sob a liderança de Carlos Magno, os cristãos
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Jan Hus, (1369-1415), apesar da origem humilde, tornou-se um erudito pensador e reformador religioso sendo nomeado pregador na Igreja de Belém de Praga onde desenvolveu sua trajetória a frente de instituições educacionais. O grupo religioso que recebeu de forma direta a influência de seus ensinos são os Irmãos Morávios.
decapitaram, num só dia, 4.500 “pagãos”. Apenas dez anos antes da publicação do
Discurso sobre o método, de Descartes, uma testemunha do cerco católico à cidadela
calvinista de La Rochelle relatou que os sobreviventes “não tinham já força para abrir as covas para enterrarem os mortos”. Até a assinatura da Paz de Vestfália, em 1648, calcula-se que as guerras entre católicos e protestantes consumiram algo em torno de quatro milhões de vidas.
Conforme Aguiar (2011)13, a um de seus discípulos de nome Havlik, que se opôs a dupla comunhão, (pão e vinho), Huss escreveu da prisão onde aguardava sua execução: “Não se oponha ao sacramento do cálice do Senhor, que foi por Ele próprio e por Seu apóstolo instituído. Nada nas Escrituras opõe-se a ele, apenas um costume que, suponho, cresceu por
negligência. Nós não devemos seguir o costume, mas o exemplo e a verdade do Cristo”.
(grifo meu). Sua opinião expressa à forma errônea como a Santa Ceia era administrada pelos clérigos que privavam os leigos da participação do cálice.
Os mártires pré e pós-reformadores, vítimas da intolerância religiosa, somam as dezenas de milhares conforme Fox (2002). Questões como não subscrever as cerimonias da Igreja de Roma; não ter ao papa por cabeça da igreja; não aceitar a presença real de Cristo na hóstia; não crer na doutrina da Transubstanciação por considera-la ingênua e supersticiosa, era suficiente para que pessoas pagassem com a vida por sua insubmissão.
A Reforma Religiosa do Século XVI caracterizou-se pela contribuição da religião aos ideais do renascimento na aurora da modernidade. O mundo estava transformando-se tanto política quanto socialmente. Invenções como a prensa de tipos móveis do alemão Johannes Guttenberg, proporcionariam no ambiente religioso que o questionamento dos reformadores quanto à administração não só dos sacramentos, mas de outras questões, ecoasse por toda Europa e ocidente conforme veremos a seguir.
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XXVI SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA. 2011, São Paulo. Anais do XXVI Simpósio Nacional de
1.3 PRINCIPAIS PERSONALIDADES REFORMADORAS