Şema 4.1. Kahramanmaraş’ta bulunan Sinemilli Ocağı’nın alt kolları
5. SİNEMİLLİ OCAĞI’NDA İNANÇ YAPISI 1. Allah
5.11. Dâr-Dâr’a Durma
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Figura 01: Jurema florida. Fonte: acervo pessoal do autor
A árvore (na verdade, uma série de espécies, dentre as quais a mimosa hostilis benth, jurema preta, a mais referenciada no campo) é um arbusto, da família das leguminosas, bastante comum na caatinga nordestina, conhecida pela marcante quantidade de espinhos em seus ramos e pelas propriedades medicinais (utilizada no tratamento contra dores e inflamações) e enteógenas, ambas já exploradas desde a era pré-colombiana pelas populações indígenas nativas do nordeste brasileiro13. O seu uso é mencionado em diversos documentos, que vão desde autos da inquisição do século XVIII, relatos etnográficos e até mesmo em obras de ficção, como Iracema, de José de Alencar.
Tem-se aí, portanto, a polissemia da Jurema-planta, que se constitui como planta medicinal e enteógena, sendo este último uso proscrito pela disciplina religiosa e moral e, ao mesmo tempo, o que mais despertou interesse de pesquisadores e sujeitos, aos quais Grunewald (2008) chama de psiconautas, que a procuram em busca de sentir estes efeitos que fizeram os povos indígenas trata-las como uma planta diferenciada em relação as demais.
Enquanto a química e a farmacologia trataram a Jurema-planta nos termos de suas propriedades medicinais ou psicoativas e as ciências sociais preocupem-se com o seu culto
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O culto centrado na jurema, árvore aparentada das acácias, pode ser associado a tantos outros que tinham nas demais plantas da sua família. Com especial atenção percebi muitas referências que permitem sua associação com a Maçonaria, sobretudo por toda a discussão em torno do Rei Salomão. O Rei Heron, reverenciado na Jurema, a meu ver, tem sua origem no Rei Hiram, que governava o Líbano à época da construção do Templo de Salomão, com quem manteve aliança (I Reis 5, 5 ss), ou no artífice de mesmo nome, que teria sido morto por ser o único a saber decifrar as escrituras do templo, o que pode ser associado com a detenção de ciência, conceito central na cosmologia juremeira. Ambos são figuras presentes no imaginário maçônico, que também tem na acácia um símbolo sagrado, cuja divulgação se tornou mais efetiva no Brasil após a gravação, por Luiz Gonzaga, da música acácia amarela.
enquanto fenômeno cultural, a ciência da jurema14 a concebe, tanto na Jurema indígena quanto na de terreiro, como uma árvore sagrada, capaz de estabelecer uma conexão entre este e o outro mundo, onde habitariam os encantados, chamado de Juremá. Este entendimento, aliás, é o principal fator de conexão entre as duas manifestações deste culto.
Na Jurema de terreiro, diante da influência do elemento cristão, esta sacralidade da jurema teria se dado como forma de gratidão pelo fato de a Virgem Maria, durante a viagem de exílio ao Egito, ter escondido o menino Jesus em uma moita de jurema, versão amplamente divulgada em um dos pontos cantados mais populares, que se reproduzirá a seguir. Outra versão conta que a coroa de espinhos com a qual Jesus foi coroado no ato de sua paixão teria sido feita com galhos da jurema, o que a teria tornado sagrada.
Sobre o culto a árvores, porém, afirma Eliade (1992, p.74):
É nesses símbolos de uma Árvore cósmica, ou da imortalidade ou da Ciência, que se exprimem com o máximo de força e clareza as valências religiosas da vegetação. Em outras palavras, a árvore sagrada ou as plantas sagradas revelam uma estrutura que não é evidente nas diversas espécies vegetais concretas. Conforme já salientamos, é a sacralidade que desvenda as estruturas mais profundas do Mundo. O Cosmos só se apresenta como uma “cifra” segundo uma perspectiva religiosa. É para o homem religioso que os ritmos da vegetação revelam o mistério da Vida e da Criação, e também da renovação, da juventude e da imortalidade. Poder-se-ia dizer que todas as árvores e plantas consideradas sagradas (por exemplo, o arbusto asbvatba, na Índia) devem sua condição privilegiada ao fato de encarnarem o arquétipo, a imagem exemplar da vegetação.
No culto, a árvore transcende a importância que se dá às folhas no Candomblé, assumindo um protagonismo que se percebe tanto nas referências contidas nos pontos entoados quanto no uso dos seus troncos na preparação dos assentamentos dos Mestres e Caboclos e da própria bebida, essencial em determinados rituais. Por outro lado, em que pese a Jurema-planta ter a centralidade no Catimbó, outras espécies também são utilizadas, e consideradas em dignidade semelhante. Na pesquisa de campo pude observar uma veneração, também, ao angico, vajucá (jucá ou pau-ferro), junco, aroeira, umburana de cheiro e manacá, todas de presença comum na vegetação nordestina. Sobre a sacralidade da Jurema e destas outras espécies falam os seguintes pontos:
Oh Jurema encantada/que nasceu no frio chão/dai-me força e ciência/ como deste a Salomão.
Jurema fulorô/jurema do vajucá/ desenrola essas corrente/ deixa o mestre trabalhar/o pau que é mais forte/ eu vou é derrubar/ só não derrubo a jurema o angico e o vajucá.
A jurema é minha madrinha/Jesus é meu protetor/ a jurema é um pau sagrado/onde Jesus descansou.
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Jurema é um pau encantado/ é um pau de ciência/ que todos querem saber/ mas se você me pede jurema/ eu dou jurema a você.
Jurema é ciência fina, manacá nobreza pura/ aroeira é um bom mestre, tanto mata quanto cura.
A jurema, portanto, não é apenas um instrumento ou elemento ritual, alcançando uma dimensão tão central no Catimbó, que Andrade (1963) enxergou nele a ocorrência de algo próximo a uma fitolatria, isto é, a adoração mesmo à árvore como divindade. Todavia, observei que o culto à jurema-planta alcança um caráter duplo, referindo-se tanto ao seu reconhecimento enquanto espécie sagrada, a partir de suas propriedades enteógenas ou pela fundamentação nas lendas relacionadas à figura de Jesus e amplo uso na preparação da bebida de mesmo nome; quanto à sua utilização no processo de iniciação, pela implantação de suas sementes no corpo do discípulo ou, após ritual próprio, como representação-fetiche dos Mestres15 e Caboclos, em semelhança ao otá16no Candomblé.
Nos terreiros de Jurema urbanos, o assentamento é feito colocando um pedaço do tronco da árvore em um alguidar, espécie de bacia de barro, juntamente a outros elementos, que incluem um pedaço de fumo de rolo, vagens, moedas e cachimbos. Esta forma de assentar as entidades diferencia-se do observado por Vandezande (1975) e Lima Segundo (2015) na cidade de Alhandra, que ainda o fazem na própria árvore plantada no chão.
Todavia, Mãe Dé tem o seu Mestre Félix assentado em um tronco plantado diretamente no chão, em um alguidar sem fundo, por exigência do mesmo. Recebi, ainda, relatos que dão conta de um Mestre assentado da forma tradicional em um terreiro localizado na zona rural de Campina Grande, e de outro cujo tronco, mesmo cortado e posto no alguidar, teria brotado, o que foi entendido como recado para o seu replantio no chão.
Sobre esta utilização, Eliade (op.cit , p. 13) atenta para o fato de não ser a pedra ou a árvore o sagrado em si mesmo, mas sim a sua representação:
O homem ocidental moderno experimenta um certo mal estar diante de inúmeras formas de manifestações do sagrado: é difícil para ele aceitar que, para certos seres humanos, o sagrado possa manifestar-se em pedras ou árvores, por exemplo. Mas, como não tardaremos a ver, não se trata de uma veneração da pedra como pedra, de um culto da árvore como árvore. A pedra sagrada, a árvore sagrada não são adoradas com pedra ou como árvore, mas justamente porque são hierofanias, porque “revelam” algo que já não é nem pedra, nem árvore, mas o sagrado, o ganz andere.
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É possível, porém, que o assentamento do Mestre ou Caboclo seja preparado no tronco de outra árvore. Na pesquisa de campo observei o uso da umburana de cheiro no assentamento de Mestras, e no Templo de Umbanda Rainha da Mata, o Mestre Zé da Porteira, para o qual Wagner Araújo foi iniciado em 2014, foi assentado num tronco de angico.
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Otá é a pedra consagrada ritualisticamente que, colocada em um assentamento que pode ser de louça, barro ou madeira, a depender do Orixá, passa a ser a sua representação física na terra, recebendo inclusive sacrifícios.
A jurema-planta, portanto, encontra no catimbó uma dupla veneração, consubstanciada na alegação de que teria o dom de conectar os dois mundos, seja por suas propriedades químicas ou pelo alegado mérito de ter servido a Jesus, seja por sua utilização enquanto representação, sendo esta última mais concreta no Catimbó urbano, uma vez que a bebida preparada com a planta tenha suas propriedades originais praticamente eliminadas, embora ainda haja referências a estas capacidades, como se falará a seguir.