3. Filmde Görsel Zaman-Mekan Kurgusu
3.4.1. Filmsel Zaman
3.4.1.5. Kamera Hareketleri ve Zamana Etkisi
Se a identidade é uma construção cultural e relacional, é preciso frisar o papel dos sujeitos nessa construção. “Indivíduos não são necessariamente prisioneiros dos discursos que ajudaram a criar suas identidades. Em vez disso, [...] indivíduos podem chegar a refletir sobre o conteúdo dos discursos em que se inserem” (DRYZEK, 2000a, p. 163).2 Esse aspecto já é ponto pacífico nas discussões sobre identidade (GIDDENS, 1991; 2002; HALL, 2000; 2004). A identidade é uma construção reflexiva, sendo que o questionamento do eu se torna mais acentuado na modernidade tardia, momento em que a dúvida é colocada no cerne da existência.
A configuração de uma visão coerente em torno do self supõe uma incessante
narração, elaborada no interior de um projeto reflexivo (TAYLOR, 1997; SOMERS; GIBSON,
1994; CANCLINI, 1996; PATRICK, 2002; BENHABIB, 2002; MARQUES, 2003). A narrativa do eu é formada e reflexivamente revisada pelo sujeito a partir dos significados partilhados que lhe são acessíveis e que ele reinventa em seu fazer cotidiano. Olhamos o tempo todo para nossa história e, “na medida em que recuamos, determinamos o que somos por meio daquilo em que nos tornamos, pela história de como chegamos ali” (TAYLOR, 1997, p. 71).
Nesse sentido, os modos de subjetividade não se reduzem aos sentidos dados pela cultura. A identidade é fruto de uma negociação em que o indivíduo se posiciona frente aos discursos que o interpelam, em um permanente jogo de encaixes. Interessante observar que a mediação entre sujeito e cultura é feita através da linguagem.Por meio dela, os indivíduos constroem a cultura, ao mesmo tempo em que a interiorizam e que são moldados por ela. Exatamente por isso, tornou-se lugar comum afirmar que os sujeitos se produzem discursivamente, na medida em que são perpassados por narrativas que os configuram ao
2 Do original: “individuals are not necessarily prisoners of the discourses that have helped to create their identities.
mesmo tempo em que reelaboram essas narrativas (HALL, 2000; GIDDENS, 2002; DRYZEK, 2005; CALHOUN, 1994).
Neste ponto, vale resgatar o instigante pensamento de G. H. Mead (1934), que frisa a centralidade de um diálogo interno na conformação do “eu”. Segundo o pensador norte-americano, o self pode ser analiticamente subdividido em duas estruturas que vivem em permanente interação: o mim e o eu-mesmo. Enquanto a primeira é responsável pelos impulsos e desejos que caracterizam a individualidade, a segunda é moldada pelo Outro
Generalizado3, sendo composta pelos padrões culturais internalizados.
O self é a costura tensa entre mim e eu-mesmo. O diálogo entre elas ocorre na
mente, entendida como uma construção social que atua como um espaço para efetivação da reflexividade. Tal reflexividade, uma espécie de ponderação, é uma ação de ligação entre o
gesto e o significado que conduz à interposição, entre estímulo e resposta, de uma organização. Ancorando-se em uma ideia desenvolvida por Dewey, Mead percebe que, entre estímulo e resposta, coloca-se a ação da mente que possibilita uma recursividade em que a resposta interfere no estímulo antes mesmo que ele se produza. A mente diz respeito à capacidade do indivíduo de conversar consigo mesmo. Ela permite que os seres humanos selecionem e organizem estímulos, projetem futuros, ressignifiquem o passado, ponderem alternativas e façam escolhas, evidenciando a capacidade de autonomia do sujeito.
Nesse processo circular em que sociedade, mente e self se constroem mutuamente, Mead chama a atenção para o papel da linguagem: ela “é uma parte de um processo social, e é sempre a parte por meio da qual afetamo-nos como afetamos aos outros e intervimos na situação social graças a essa compreensão do que dissemos” (MEAD, 1934, p. 75).4 A ideia dele é a de que empregamos gestos significantes, os quais nos permitem perceber, antecipadamente, o impacto de nossas ações, remodelando-as diante das expectativas que temos sobre as ações do outro. O encontro de ego e alter, na linguagem, funde-os em um complexo jogo recursivo. É por meio da linguagem que o indivíduo internaliza a cultura e a coloca em diálogo com seus próprios impulsos. Mead (1934) defende, assim, que os indivíduos não são pré-definidos, mas se constroem no agir diante do outro.
A percepção de certa autonomia dos sujeitos tem impactos políticos profundos. Se os sujeitos interpretam, reflexivamente, as experiências com as quais se deparam,
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O conceito de Outro Generalizado refere-se ao social pensado de maneira universal: é a cultura que se expressa em uma série de ações, sujeitos e símbolos, mas pensada sem referência a nenhum desses elementos em particular. Trata-se de um universal de cultura, de que os sujeitos se apropriam nas suas interações.
4 Do original: “is a part of a social process, and it is always that part by means of which we affect ourselves as
reconstruindo seus próprios eus, podem elaborar narrativas e discursos capazes de desafiar significados e práticas sociais opressivas. A reflexividade implica um parar e pensar, capaz de deslocar fragmentos das redes tácitas de significação (DEWEY, 1954; MEAD, 1934, SCHÜTZ; LUCKMANN, 1973). Pessoas atingidas pela hanseníase podem deslocar sentidos negativos sobre seus eus e lutar para generalizar novos significados. Na condição de agentes, elas podem se apropriar dos constrangimentos e possibilidades que encontram, construindo algo criativo a partir deles (YOUNG, 2000, p. 101).
É nesse sentido que a construção da identidade pessoal tem um potencial político, na medida em que “definições impostas por poderes externos se chocam com necessidades de autorrealização dos indivíduos” (MELUCCI, 1996, p. 105).5 O processo de construção da identidade é agonístico e marcado por tensões, reivindicações e críticas (PATRICK, 2002). Cotidianamente, sujeitos que se veem desrespeitados podem sustentar projetos de vida distintos daqueles que lhes reservam posições de inferioridade. Identidades podem apresentar- se como projetos políticos:
Nossas identidades estão sempre embasadas, em parte, em ideais e aspirações morais que não podemos realizar inteiramente. Há, assim, uma tensão dentro de nós, que pode ser tanto locus para um conflito pessoal, como fonte de uma política da identidade que objetiva não à reles legitimação de identidades categoriais falsamente essenciais, mas à existência de valores sociais e morais mais profundos (CALHOUN, 1994, p. 29).6
O que se nota é que, frequentemente, ações reivindicatórias dependem da formação de algum sentimento de coletividade. Honneth defende a importância do surgimento “de uma semântica coletiva que permite interpretar as experiências de desapontamento pessoal como algo que afeta não só o eu individual, mas também um círculo de muitos outros sujeitos” (2003a, p. 258). Os impulsos à luta se concretizam em ações políticas quando sujeitos que vivenciam situações opressivas estabelecem teias simbólicas que articulam suas experiências pessoais de desrespeito em identidades coletivas (PATRICK, 2002; MELUCCI, 1996).
Importante perceber que as identidades coletivas mobilizadas politicamente não são meros instrumentos para que indivíduos alcancem interesses específicos. Como percebe Gutmann (2003, p. 14), tais identidades, frequentemente, alicerçam os interesses dos sujeitos, permitindo o surgimento de anseios antes inimagináveis. Movimentos sociais atuam como profetas descortinando novas possibilidades de futuros, reintepretando o passado e instaurando
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Do original: “definitions imposed by external powers clash with the self-realization needs of individuals”.
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Do original: “Our identities are always rooted in part in ideals and moral aspirations that we cannot realize fully. There is, therefore, a tension within us which can be both the locus of personal struggle and the source of an identity politics that aims not simply at the legitimation of falsely essential categorical identities but at living up to deeper social and moral values”.
descontinuidades no tecido social (MELUCCI, 1996, MENDONÇA, 2007c). Eles não são o resultado de uma crise, mas o sinal (e o motor) de transformações profundas (MELUCCI, 2001).
Defendemos que identidades coletivas políticas geram possibilidades efetivas de transformação da realidade, visto criarem novos sentidos, estabelecerem laços de solidariedade, engendrarem a canalização de recursos, aumentarem a eficácia política e convocarem outros atores sociais a dar respostas a um interlocutor antes inexistente. É nesse intuito que se fundou, no Brasil, o Morhan: Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase. No restante desse capítulo, dedicamo-nos a contextualizar o surgimento e o desenvolvimento desse ator coletivo, que ilustra bem aquilo que buscamos explorar ao ressaltar a dimensão política das identidades.