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As estratégias que predominam são baseadas na planificação central, geralmente articuladas pelo Governo Federal ou pelo Estadual, onde se articulam relações verticais “de cima para baixo”. Entretanto, essa visão tradicional vem recebendo a companhia de ações “de baixo para cima”55

Apesar de serem consideradas, tanto no Brasil quanto no debate internacional, controversas, pouco consensuais e até antagônicas entre si (CALDAS e MARTINS, 2008), as ideias sobre desenvolvimento local vêm ganhando terreno, ajudando a afirmar um confronto ao tradicionalismo centralizado na questão do desenvolvimento nacional. Para alguns, apenas uma nova face da expansão capitalista a partir das CTNs centrais, para outros, nele está inserida uma dinâmica própria e há ainda os que entendem essas iniciativas como uma forma de experimentar movimentos contra-hegemônicos (SANTOS, 2005).

, onde estratégias de recuperação produtiva e econômica partem da comunidade.

Em coerência com esta tese, entendo que o desenvolvimento local pode reunir as três posições indicadas por Santos (2005) no parágrafo anterior, sem que uma delas tenha que se limitar ou fixar em oposição às demais. Assim, o fato de estar circunscrito no crescimento industrial global não impede a expressão de uma dinâmica própria, reflexo da ação de atores sociais locais para a constituição de estratégias de adaptação ou de saída (no sentido de Hirschman, 1970). Como parte dessa estratégia, podemos reunir elementos que se oponham ao que determina a estrutura hegemônica, por exemplo, da lógica de organização da estrutura financeira para disponibilidade e direção dos excedentes de capital.

Já Oliveira (2001a, p.11 e 12) ressalta a importância de posicionarmos o termo desenvolvimento local em duas dimensões. A primeira refere-se à sua especificidade histórica, ou seja, “o não-desenvolvimento local é um subdesenvolvimento no sentido forte de que ele é peculiar à periferia do capitalismo”, o que implica que não será o elo em uma cadeia de desenvolvimento total e que deve ser concebido como alternativa, senão reproduzirá a forma estrutural. A segunda é a da cidadania, terminologia que, segundo o autor, é de difícil mensuração, irredutível à quantificação, e ao invés de representar uma limitação, é justamente a riqueza do conceito. O sentido da cidadania é, então, o do “estado de espírito”, que engloba a ideia de bem-estar e qualidade de vida. Mas, estas duas buscas não são suficientes para

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definir o conceito. Sua justificativa é que seriam desconsiderados “como cidadãos os que não têm meios materiais de bem-estar e qualidade de vida”, o que, para ele, levaria à inversão dos sentidos da política, “pois é através desta que os cidadãos lutam pelo bem- -estar e pela qualidade de vida, e não o inverso” (OLIVEIRA, 2001a, p.12).

Assim, Oliveira (2001a) indica que, mesmo procurando relacionar indicadores de bem- estar e a qualidade de vida da população considerada no estudo (para esclarecer o desenvolvimento local como restrito à quantificação econômica), essa mensuração deve ser percebida como indireta e insuficiente. O destaque, nesse sentido, deve ser dado para mostrar o desenvolvimento local como qualidade, ou âncora da cidadania.

Decorre que a aproximação da noção de cidadania ao sentido de desenvolvimento local amplia os contornos da mensuração dos processos e estoques de bem-estar e qualidade de vida, de forma a revelar o indivíduo autônomo, crítico e reflexivo, o oposto do indivíduo- massa. Nesta direção, o desenvolvimento e a cidadania seriam aquisições, conquistas, por meio do conflito, questão importante, pois se opõe ao ponto de vista neoliberal, em que a cidadania é sinônimo de não-conflito, de harmonia (OLIVEIRA, 2001a). Essa é uma perspectiva que considera o indivíduo (cidadão) na dinâmica da vida política cotidiana, como um somatório de sujeitos passivos, meros receptores da ação política centralizada.

Outro ponto que merece destaque é que, mesmo procurando articular uma análise focada em uma dinâmica local, o desenvolvimento que então se desenrola não deve representar um fim em si mesmo, no sentido literal de que basta articular o crescimento dos envolvidos como suficiente para o progresso do todo. Discutirei isso mais à frente, principalmente a partir de Brandão (2004). Destaco que esta noção pode levar, inclusive, à intensificação das desigualdades locais e da heterogeneidade territorial nacional.

Nesse ponto, Celso Furtado oferece sustentação para avançar nesse tema. A relevância que deu ao desenvolvimento como um projeto nacional, não só como responsabilidade financiadora, mas e para os fins deste estudo, pela participação do Estado como agente coordenador. Além da necessária inversão da lógica desenvolvimentista que foca nos meios, força da acumulação capitalista, e não nos fins - melhoria das condições de vida-, a ideia de desenvolvimento deve ser compromissada com a homogeneização das oportunidades e motivação das potencialidades de nossas culturas.

O sentido do desenvolvimento deve confirmar o cidadão como participante ativo na articulação e formação de um sistema economicamente articulado e capacitado para se autogerir por meio de centros de decisão consistentes e autônomos. Dessa forma, afastaria-se

o predomínio de uma lógica articulada externamente por empresas transnacionais, potenciais à formação de tensões regionais, como defendeu em Brasil: a construção interrompida (FURTADO, 1992). Nesse sentido, Furtado (1992) ressalta que os mecanismos de comando dos sistemas econômicos nacionais apenas refletem as estruturas de decisões transnacionais, quando a questão que passa a ser de grande relevância é o destino das áreas em que o processo de formação do Estado Nacional se interrompe precocemente.

Pelo fato de serem muitas as áreas em que o Estado se omite, pelo menos na prática política efetiva para a promoção de mudanças necessárias ao desenvolvimento, como no caso que incitou essa investigação, as ações locais devem ser incentivadas, e principalmente, coordenadas. É neste tipo de ação que julgo imprescindível a participação do Estado, evitando uma não-articulação desenvolvimentista. Isso pode constituir um tecido econômico e social na geografia nacional ainda mais fragmentado, quando, em nível regional, alguns locais se articulam independentemente de outros, agravando suas heterogeneidades, e, em nível local, organizações produtivas dinamizam-se incólumes às circunvizinhas. O resultado é um amplo processo de desenvolvimento pontuado, uma personificação da verticalidade em seu sentido

lato.

Ao invés de restringirem-se a movimentos verticais, as novas práticas a serem incentivadas nascem potencialmente inseridas em uma lógica de ações, também horizontais, como as formas intermunicipais de gestão (consórcios municipais de saúde, comitês de bacias hidrográficas, conselhos regionais de desenvolvimento e outros tipos de redes). Para Dowbor (2006a), neste tipo de ação o ponto-chave é a “iniciativa, o sentimento de apropriação das políticas, que é devolvido ao espaço local, onde as pessoas podem participar diretamente, pois conhecem a realidade e a escala de decisão coincide com o seu horizonte de conhecimento”.

Adotando o mesmo raciocínio que mantém organizadas e hábeis as empresas, quando a boa gestão de cada uma de suas partes é que garante seu bom desempenho geral, Dowbor (2006b) questiona se seria possível uma racionalidade nacional (país) sem que haja uma racionalidade do conjunto de suas unidades (municípios). Ainda, se para muitos o local é pequeno demais para ser objeto significativo ao desenvolvimento nacional, vale questionar se é possível

“imaginar que a economia possa funcionar se as empresas não forem administradas de maneira competente. Da mesma forma, o desenvolvimento do país passa pela gestão racional dos recursos em todos os seus municípios. Racional e democrática, pois, nesta empresa, os habitantes são os donos. Há um imenso potencial de dinamização econômica, social e ambiental a se aproveitar, melhorando as condições ou o ambiente em que se desenvolvem as iniciativas locais (DOWBOR, 2008, p. 30).

Dowbor (2008, p. 30) lembra como os bens materiais, que marcam o cotidiano de nossas vidas, são locais. O computador, o celular, o carro são globais, mas não é diariamente que os compramos, e nem sempre se mostram essenciais. “A grande diferença é que enquanto o global nos leva a suspiros impotentes, o local pode ser objeto de nossa intervenção organizada”. Nesse sentido, vê-se no desenrolar das ações locais o caminho para outras articulações de desenvolvimento fora do pensamento mainstream.

Assim, tanto a articulação quanto a regulação tornam-se atribuições locais, sem que isso signifique isolamento ou desconsideração do papel do Estado, ou, sua substituição. Nesse sentido, Brandão (2004) contribui para que se evite uma incursão simplista à temática que relaciona território e desenvolvimento.

O autor ressalta o entusiasmo exagerado com relação à questão do território. Este tratamento não foi visto nos momentos de auge do debate sobre o desenvolvimento nacional ocorrido na década de 1950, ou dos desequilíbrios regionais na década de 1960, ou, ainda, da “questão urbana”, nos anos 70 e 80. Para ele, estas questões sócio-espaciais têm sido “vulgarizadas e reduzidas”, pois “tudo se tornou território” (BRANDÃO, 2004, p. 58).

Reforça, assim, que a referência de território não deveria conceber o local estaticamente, como receptáculo neutro, ou “um platô ou espaço reflexo, inerte, segundo essa concepção empirista do espaço-plataforma”, onde as superfícies pouco importam por serem meros “recipientes ou plataformas a propagandearem suas vantagens comparativas e a disputarem as inversões de capital” (BRANDÃO, 2004, p. 63). Em outro sentido, o espaço é dinâmico, resultado da construção social, produto de conflitos e disputas da ação e interesse dos grupos em seu processo de reprodução histórica.

Assim, o entendimento da autodeterminação tem, com Brandão (2004, p. 70), a indicação do que deve ser identificado, ou seja,

os recursos materiais e simbólicos e a mobilização de sujeitos sociais e políticos buscando ampliar o campo de ação da coletividade, aumentando sua autodeterminação e liberdade de decisão. Neste sentido, o verdadeiro desenvolvimento exige envolvimento e legitimação de ações disruptivas e emancipatórias, envolvendo, portanto, tensão, eleição de alternativas e construção de trajetórias históricas, com horizontes temporais de curto, médio e longo prazos.

Ainda, que a construção social e política dessas trajetórias sejam inclusivas de parcelas crescentes das populações marginalizadas pelo progresso técnico e endogeneizadora de centros de decisão (BRANDÃO, 2004, p. 70).

Não pretendi, pela análise das manifestações de autodeterminação na cidade de São Roque de Minas, substituir a força do Estado como ente ativo no processo de desenvolvimento, mas entender como outros atores possam fazer parte desse processo, ressaltando a necessidade de participação da população em questões em que ela pode e deve atuar. Como adiantado na introdução, formulações de inspiração cepalina oferecem apoio importante, ao tratarem das heterogeneidades estruturais de economias periféricas, especialmente o caso brasileiro, colocam como premente o papel do Estado na promoção do desenvolvimento, principalmente em meio à extensa pluralidade de decisões cruciais.

O Estado seria o agente privilegiado para avaliar e realizar a síntese das inúmeras cadeias de reações provocadas pelas múltiplas decisões. O que não significa, para fins dessa pesquisa, que ele deva permanecer como única unidade estrategista para a promoção do desenvolvimento.

Para identificar a profundidade na qual o tema foi tratado, recupero a posição de Vainer (2003), quando contrapõe duas utopias urbanas.

“De um lado tem-se a utopia da cidade-empresa, da cidade-mercadoria, da cidade- negócio [...] a cidade do marketing, a cidade consensual que repudia qualquer debate aberto e teme o conflito. De outro, tem-se a utopia da cidade democrática. Em vez de dominada pelo mercado e pela mercadoria, é dirigida pela política. Nela, o conflito, em vez de ser temido, é desejado, pois é visto como elemento fundamental da transformação da cidade. Nela os citadinos não são vistos nem como espectadores das realizações de um prefeito iluminado, nem como simples consumidores da mercadoria urbana. Seus habitantes são pensados como cidadãos em construção, que, ao se construírem, constroem também a cidade (VAINER, 2003, p.30).

Furtado (1983, p. 92) relaciona estruturas, agentes e suas decisões, pois “o estudo do desenvolvimento tende a se concentrar na caracterização das estruturas, na identificação dos agentes significativos e nas interações entre determinadas categorias de decisões e as estruturas”. Esses são os elementos que dinamizam o espaço e toda riqueza do que é

dialeticamente condicionante e condicionado, um tipo de atenção que permitira captar a intensidade do efeito multiplicador que há entre as esferas rural e urbana. Entendendo como desnecessária uma clara distinção entre os limites nítidos que há entre os termos, a força entre produção e consumo tem sido decisiva para as fases iniciais de desenvolvimento econômico de diversos territórios.

A força dessa relação é tão importante quanto a atenção que se deve ter sobre o fato de que a presença de uma significativa produção rural não garante frutos à economia local. Torna-se fundamental a identificação da forma em que são apropriados os excedentes da mesma. Nesse sentido, é possível que a produção de uma localidade rural esteja completamente deslocada do meio urbano próximo, especialmente quando tal produção está organizada sobre as bases da agricultura moderna, científica, tecnológica e informacional. Posição coerente com a de Kloppenburg (1988), para quem a ciência agrícola tem estado crescentemente subordinada ao capital, e seu contínuo processo moldou o conteúdo da pesquisa e, necessariamente, o caráter de sua produção.

Para Santos (2001), este contexto pode representar um grave fator desarticulador das capacidades locais de desenvolvimento, dado que há uma retirada dos elementos do comando próprio da região. Já Goodman e Redclift (1991) ressaltam a ocorrência dessa relação entre agricultura e desenvolvimento industrial na produção agrícola de grande escala e no papel da agricultura na expansão do capitalismo industrial, especialmente por representar alívio sobre a taxa de lucro e fornecer alimentos da dieta básica a preços baixos ao setor industrial urbano.

Diante disso, é comum a grande produção agrícola padronizada segundo a moderna presença de commodities, cujos produtos são voltados para consumos distantes, reservando ao espaço rural-urbano-local apenas uma fração dos excedentes da remuneração da atividade produtiva. Fração, porque muito do capital acumulado é direcionado a outras economias. A questão a ser analisada quando se pensa no desenvolvimento dessa espacialidade deveria ser o equilíbrio produção-consumo, e o destino dos excedentes.

Assim, independentemente do espaço considerado, o que marca a sociedade que tanto produz é sua incessante busca pela produtividade, especialmente quando se volta para a produção agrícola e industrial. Portanto, impera a necessidade dessas organizações em manterem-se competitivas, sendo que o dinamismo das relações de mercado que ignoram fronteiras na busca por incrementos de produtividade promovem intensa verticalização nas relações entre elas, como visto anteriormente.

Nesta pesquisa, busco contribuir para a melhor compreensão de como a população se manifesta no espaço vazio das práticas promotoras de desenvolvimento, uma atribuição normalmente esperada como pertencente ao Estado, mas não entendo que tenha atitude omissa em políticas de desenvolvimento. O que prevalece é que estas têm sido articuladas em benefício de centros mais ágeis e capazes de oferecer maior impacto nos retornos de produção e circulação de bens e serviços (PIB). Preocupado com o lugar que caberia às demais frações do território (sua maioria expressiva), voltei-me para a percepção de movimentos em que a promoção do desenvolvimento viesse da própria população.

Como não pretendo intimidar a presença do Estado no desenvolvimento, entendo ser necessária a participação da população complementar à do Estado, especialmente nos inúmeros e pequenos municípios brasileiros Neste sentido, procurei articular a próxima seção, conjugando desenvolvimento local com ações de autodeterminação.

Considerações finais

Ao repudiar políticas de traços keynesianos e justificar-se com argumentos anticomunistas, o neoliberalismo enfraquece o Estado naquilo que teria sido sua mais forte expressão na América Latina, o desenvolvimento econômico.

No capítulo anterior, vimos que, com a ajuda da Cepal, formou-se um Estado interventor como tentativa de transformar as estruturas oligárquicas limitadoras do desenvolvimento. Seu relativo fracasso nessa empreitada torna-se mais evidente com a crise de 1970, quando a inflação e o desemprego se fizeram nítidos e o campo tornou-se fértil para que os detratores do keynesianismo entendessem como oportuno o momento para uma nova ordem ao desenvolvimento capitalista, centrado na hegemonia do mercado.

Como saldo, tivemos as privatizações (também justificadas pela crise da dívida externa), que promoveram o desenfreado usufruto dos bens públicos estratégicos, e a desregulamentação do mercado de trabalho e de serviços sociais essenciais como os de saúde, educação e moradia. Ajuda a compor um quadro- resumo da época um índice de pobreza de 44% para o conjunto da região da América Latina, uma estrutura produtiva desarticulada, a abertura financeira e comercial (favorecendo a desnacionalização de organizações produtivas antes erigidas pelo Estado) que nos faz retornar aos elevados níveis de dependência do mercado mundial. Assim, “o neoliberalismo submeteu a região a uma situação semelhante às

formas de dependência industrial e financeira do século XIX, só que atualmente adotada a forma tecnológico-financeira” (ROSEMMANN, 2006, p. 852).

Outro fator decisivo para a ampla adoção do neoliberalismo no continente foi sua indicação de implantação completa, ou seja, os ideólogos norte-americanos e afiliados divulgavam o modelo econômico como um projeto que não poderia ser aplicado em partes. Se assim fosse, perderia sua identidade e não alcançaria sua proposta de refundar a economia de mercado. Esse fato levou-me a abordá-lo em conjunto com a força da noção de ideologia, expressão adequada para se compreender o caráter totalitário e excludente a outras propostas que não se alinhassem com seus objetivos. Cristalizou-se, então, o repúdio a qualquer outra opção de análise da realidade social e econômica vigentes, processo que contou com amparado da grande mídia.

Nestes termos, torna-se real um ambiente de desafeto ao questionamento, elemento central para a vitalidade da convivência das diferenças e afirmação da democracia. As peculiares manifestações de cada realidade local deveriam ajustar-se à ordem erigida a partir dos campos técnicos das equações econômicas. A política perde terreno para a economia, tornando a população ainda mais distante das decisões que lhes afetam. Em destaque, o status técnico da organização econômica em prol da sociedade fundamentada pelo mercado, i.é., a sociedade resumida à sociedade de mercado. O cidadão, destituído de tal saber técnico, viu-se como leigo para agir politicamente.

Os pilares das reformas neoliberais – no regime político, na constituição do Estado e na gestão pública –, tinham, na síntese da reforma do Estado, o passo fundamental para a implantação de uma nova racionalidade política (flexibilidade da mão-de-obra, desnacionalização e privatização da economia), que deixava a política refém do mercado. O cidadão torna-se consumidor, perdendo consciência política e, mesmo sem perceber, passa a contribuir (por omissão) para o projeto neoliberal em construção. A cada passo solidificava-se um regime político fundamentado na servidão ao mercado e ao consumidor, e mantido por referência à ideia de uma democracia de mercado.

Percebe-se que os princípios de justiça e igualdade social intensificam sua degradação. Como decorrência, e mesmo diante de grandes dificuldades, ressurgem movimentos sociais, sejam eles formados em relação à identidade étnico-cultural (movimentos indígenas), à carência (“movimentos sem”) ou a um hábitat compartilhado (de moradores de favelas) (TADDEI, 2006).

Apesar dos avanços que tais movimentos vêm alcançando, o objeto tratado neste estudo não só é distinto como apresenta uma dificuldade frente ao anteriormente comentados. Isso porque trata-se de uma situação onde os cidadãos não se organizam em torno de uma determinada causa sobre a qual compartilham entendimento ou traços ideológicos comuns. A realidade a partir da qual discuto a autodeterminação local reflete a simples busca pela sobrevivência de uma cidade e seus habitantes, o que parece dificultar o processo, pois nestes casos é comum haver diversas opiniões sobre como conduzir o procedimento. Diante da já discutida prevalência de inibições a novas formas de recuperação econômica, torna-se incompleto o suporte teórico até aqui organizado, insuficiente para uma percepção esmerada da organização social desenrolada em São Roque de Minas no auge da aplicação do neoliberalismo no Brasil, início da década de 1990.

Neste aspecto, organizei o próximo capítulo buscando alcançar conceitos cuja articulação pudesse auxiliar no amparo necessário à captação da forma em que se desencadearam, por meio de iniciativas da própria população, os passos que levaram à rearticulação econômica do município de São Roque de Minas. A despeito de todo movimento de desarticulação que alcançou o território nacional na última década do século passado.

IV. ARTICULAÇÕES NO LOCAL: DINÂMICA DE TRANSFORMAÇÃO