2. Araştırma Alanı ile ilgili Genel Bilgiler
1.1. Geçiş Dönemleri
1.1.1. Doğum
1.1.1.1. Doğum Öncesi
1.1.1.1.1. Kısırlığı Giderme
Ainda não existe consenso, entre as várias linhas de pesquisas dos Estudos da Tradução, sobre a forma de se traduzir, sobre o que seja relevante de ser analisado em uma tradução ou sobre a definição do conceito de fidelidade, porém, no que diz respeito à aceitação de a tradução ser uma forma de interpretação, há uma concordância quase que unânime. Ao observarmos a tradução de todos os títulos contidos notexto original da obra Le petit Nicolas, não foi difícil perceber que já ali se fez necessário o processo de interpretação e, então, a necessidade de novas escolhas que, por sua vez, justificavam-se pelos contextos, práticas e objetivos levados em conta pelos tradutores. A análise deste item encaixa-se na observação de Nord (2005) “com quais palavras”, pois acreditamos que, após a interpretação do texto, a escolha lexical reflete a intenção de seu uso. O Quadro 2,a seguir, apresenta as traduções dos títulos realizadas pelas Editoras Artenova e Martins Fontes em relação ao texto original da obra Le petit Nicolas:
Le petit Nicolas (SEMPÉ; GOSCINNY, 1999f)
Artenova (Trad. Marcelo Corção-
1975i)
Martins Fontes (Trad. Luís Rivera-1997k) 1) Un souvenir qu’on va chérir
2) Les cow-boys 3) Le Bouillon 4) Le football 5) On a eu l’inspecteur 6) Rex 7) Djodjo 8) Le chouette bouquet 9) Les carnets 10) Louisette 11) On a répété pour le ministre 12) Je fume 13) Le petit poucet 14) Le vélo 15) Je suis malade 16) On a bien rigolé 17) Je fréquente Agnan
18) M. Bordenave n’aime pas
le soleil 19) Je quittte la maison Uma lembrança de estimação Os cowboys O Sopa O Futebol A Visita do Inspetor do Ensino Rex Jojô
Um Buquê Muito Lindo As Cadernetas
Luisinha
O Ensaio Para Receber o Ministro
Eu Fumo
O Pequeno Polegar A Bicicleta
Estou Doente Rimos Para Valer
Vou em casa do Arnaldo Seu Bordonave Não Gosta do Sol
Eu Saio de Casa
Uma lembrança para guardar com carinho Os caubóis O Sopa O futebol A visita do inspetor Rex Djodjo O lindo buquê Os boletins Luisinha
O ensaio para a visita do ministro
Eu fumo
O Pequeno Polegar A bicicleta
Estou doente Foi muito divertido Fui visitar o Agnaldo O Sr. Bordenave não gosta de sol
Fugi de casa
Quadro 2: Traduções dos títulos realizadas pelas Editoras Artenova e Martins Fontes em relação ao texto original da obra Le petit Nicolas.
Doravante, no correr das análises, tomaremos como principal fonte de consulta as histórias cujos títulos traduzidos apresentaram diferenças entre si (1, 5, 8, 9, 11, 16, 17, 18 e 19). Nossa opção por privilegiar tais títulos se justifica por serem eles, se comparados aos demais, os que solicitaram dos tradutores um maior empenho interpretativo por fugirem dos padrões “artigo+substantivo” ou “pronome sujeito+verbo” ou “nome próprio”. Haverá momentos, todavia, em que precisaremos recorrer a alguns outros títulos para atender aos imperativos das categorias que elencamos como importantes para análise, o que não inviabiliza nem diminui a proposta desta pesquisa.
Na primeira história, “Un souvenir qu’on va chérir” (1999q), a tradução da Artenova foi Uma lembrança de estimação (1975p) e a da Martins Fontes: Uma lembrança para guardar com carinho (1997q). Não obstante entendermos o que quer dizer, a tradução da Artenova incomoda um pouco, afinal, no falar brasileiro, o que as pessoas têm de estimação, de forma mais recorrente, são animais ou até mesmo objetos, mas a criação semântica do tradutor fugiu um pouco do paralelismo de associações, sem, entretanto, apagar a graça do estranhamento, apesar de ter despertado uma sensação de estranheza.
A segunda história, “On a eu l’inspecteur” (1999n), teve na Artenova o título A Visita do Inspetor do Ensino (1975c) contra A visita do inspetor (1997b) da Martins Fontes. Nessa pequena variação, é possível notar a necessidade sentida pelo tradutor da Artenova de valorizar o papel do inspetor escolar com a explicitação de seu cargo: Inspetor de Ensino. Se nos remetermos aos anos em que a tradução da Artenova foi feita (1975i), lembraremos que, no âmbito educacional, o governo militar controlava, de forma incisiva, todo o corpo docente por meio dos gestores escolares, assim como o currículo das Escolas Públicas: a decisão de Marcelo Corção pela explicitação do cargo do inspetor pode sugerir a presença dessa intervenção autoritária. No entanto, em relação à tradução da Martins Fontes, considerando que já não mais se vivia um período de ditadura militar e levando-se em conta a compreensão de Rivera sobre o papel da tradução, bem como as características esperadas em seu público-alvo, podemos pensar que ele não explicitou, formalmente, o cargo do profissional em questão por entender que o contexto já diria qual seria o papel desse inspetor, atribuindo, dessa forma, maior capacidade interpretativa a seus leitores e conferindo-lhes maior autonomia na construção de seus saberes.
A história “Le chouette bouquet” (1999e) foi traduzida pela Artenova como Um Buquê Muito Lindo (1975o) e pela Martins Fontes como O lindo buquê (1997j). O título da narrativa “Les carnets” se transformou em As Cadernetas na tradução da Artenova e na Martins Fontes, em uma tradução mais atualizada virou Os boletins. É curioso perceber que, a depender da faixa etária de quem lê as traduções, esse título na tradução da Artenova pode significar, por si só, ou precisar de seu contexto para ser compreendido, diferentemente do que acontece com a tradução de Rivera (1997k), na qual a simples menção à palavra “boletim” já remete o leitor aos resultados bimestrais alusivos à avaliação/produção escolar dos alunos.
A história “On a répété pour le ministre” (1999o) foi traduzida por Marcelo Corção e ficou com o seguinte título: O Ensaio Para Receber o Ministro (1975h); já na tradução de Luis Rivera, o título ficou sendo O ensaio para a visita do ministro (1997i). Também nas traduções desse título nos deparamos com realidades contextuais diferentes quanto ao fato de lidar com uma autoridade oficial: quando nós nos prontificamos a “receber” alguém, saímos de nossa zona de conforto, realizando mudanças em nossas rotinas e nos preparamos em todos os sentidos. Nessa concepção, a pessoa que iremos receber é merecedora de todas as nossas atenções e cuidados, pois somos nós os agentes ativos e organizaremos tudo o que há de melhor a oferecer; por conseguinte, ficamos subordinados ao que imaginamos ser as necessidades de nosso hóspede/visita ou, talvez, ficamos submissos à sua autoridade: assim vivenciou e, por consequência, traduziu Corção. Por outro lado, quando alguém nos presenteia com sua visita, ao contrário da situação anterior, podemos afirmar que a ação partiu dessa pessoa que, como sujeito ativo, é quem toma a iniciativa dos fatos e, nesse caso, na tradução de Rivera, quem saiu de seu domínio para encontrar “o novo” foi o Ministro; portanto “receber alguém” nos coloca em posição diferente daquela que teríamos se fôssemos “visitados por alguém”, quando na primeira situação a responsabilidade e o engajamento deverão ser muito maiores do que aqueles demandados na segunda situação.
Na história “On a bien rigolé” (1999m), a tradução da Artenova insere o personagem no título Rimos Para Valer (1975m), escolhendo, diferentemente da proposta informal do original (com o uso do pronome on), o pronome nós, oculto, passando ao título traduzido uma formalidade inexistente no original. A Editora
Martins Fontes, por sua vez, opta por emitir um parecer circunstancial: Foi muito divertido (1997e).
A narrativa “Je fréquente Agnan” (1999c) foi, provavelmente, o título que mais se diferenciou nas traduções: Corção apresentou a seguinte tradução: Vou em casa do Arnaldo (1975q), e Rivera traduziu assim: Fui visitar o Agnaldo (1997g). Com certeza, podemos atestar o distanciamento da tradução de Corção com as práticas linguísticas usuais no Brasil, mesmo considerando o distanciamento de 22 anos entre as traduções e imaginando que mudanças podem ocorrer. A construção feita por Corção rompe com a expectativa da preposição comumente utilizada nas conjugações com o verbo “ir + casa”, pois, de acordo com estudos de regência verbal, o verbo “ir” exige a preposição “a” e não a preposição “em”, ou seja, quem “vai”, vai “a” algum lugar, vai “à” casa de alguém81. A quebra dessa estrutura pode comprometer a compreensão por parte do público-alvo, uma vez que a narrativa se dirige, em princípio, a crianças e jovens. Ao contrário do que já foi observado quanto ao tipo de tradução praticada pela Artenova – que busca aproximar o máximo possível o texto traduzido da cultura de chegada –, na escolha do título em questão, parece ter havido um revés nesse pensamento, dando a impressão não de estrangeiridade, mas de muita estranheza na estrutura do título traduzido. A Martins Fontes providenciou uma estrutura mais próxima da que é praticada na língua portuguesa e evitou qualquer ruído na compreensão, além de sintetizar, nesta escolha, o conteúdo básico da história.
No título “M. Bordenave n’aime pas le soleil” (1999l), o que chama atenção é a forma de apresentação do pronome de tratamento utilizada em cada uma das traduções. Como falantes da Língua Portuguesa do Brasil, sabemos da possibilidade de o pronome de tratamento “o senhor” transformar-se em “seu” na linguagem coloquial. Em qualquer livro francês de literatura, encontramos, de modo recorrente, expressões transmissoras de respeito e hierarquia como “Monsieur/Senhor”, “Madame/Senhora”; por isso, causa-nos estranheza ver o título, que se refere a uma das pessoas mais temidas pelas crianças (M. Bordenave), ser traduzido como Seu Bordonave não gosta do Sol (1975n), opção feita pela Editora Artenova. Assim, passa, na expressão “Seu Bordenave”, não a ideia de deferência, mas de diferença
81 Ainda que
pese a aceitação da preposição “em” na conjugação do verbo “ir” por alguns estudiosos (Vou na padaria), tal construção não era prevista no ano de 1975. MANUAL DA PUC, on-line. Disponível em: <http://www.pucrs.br/manualred/regverbal.php>. Acesso: 5 set. 2015.
de idade. Rivera manteve o peso cultural/hierárquico presente no título original e assim traduziu: O Sr. Bordenave não gosta de sol (1997m), mostrando que, além de conhecer a outra língua, é preciso que o tradutor também seja conhecedor de outras culturas: com a escolha da palavra “senhor”, o leitor fica retido na condição de autoridade do M. Bordenave em relação aos alunos e nem cogita o aspecto etário.
Finalmente, na história “Je quitte la maison” (1999d), os tradutores também fizeram opções bastante diferenciadas em termos de resultado final: o verbo quitter carrega a noção de “ir embora”, “partir”, “abandonar”, “deixar algo para trás”. Para quem não conhece a história no original, o título sugerido pela Artenova, Eu Saio de Casa (1975e), não revela a real situação do enunciador, o que ocorre, diferentemente, na escolha da Martins Fontes, que no próprio título já anuncia o enredo da narrativa: Fugi de casa (1997f). Além das diferenças nas escolhas tradutológicas, todos os títulos de 1975, da Editora Artenova, são grafados segundo o Acordo Ortográfico de 1943, o qual prevê que “a inicial de cada palavra do título, à exceção das partículas monossilábicas, deve ser grafada com letra maiúscula”82, revelando mais um detalhe que nos orienta que o texto não é atual.
A maior ou menor variação na tradução dos títulos aqui analisados pode ser, simplesmente, resultado de uma escolha do tradutor sem maiores motivações ou consequências; em alguns casos, contudo, essas escolhas, aparentemente desprovidas de justificativas, carregam o peso do contexto da época em que foram feitas, bem como das concepções de tradução de cada tradutor e de quem seria o público-alvo de cada tradução.
4.4 LEVANTAMENTO DE DADOS E ANÁLISE DO CORPUS: ELEMENTOS INTRATEXTUAIS
Nos tópicos 4.4.1 (Categoria B: O Gênero) e 4.4.2 (Categoria C: A Narrativa),