2. Araştırma Alanı ile ilgili Genel Bilgiler
1.3. Anlatmalık Türler
1.3.2. Efsane
último capítulo, “The Pastoral phármakon”, pp. 203-210: o contexto, neste caso, refere-se mais a uma teoria do drama pastoral como phármakon [quer dizer, droga medicinal], mas é iluminador a respeito da relação da pastoral com a melancolia. Ver, também, Laurent Giavarini, “Représentation pastorale et guérison mélancolique au tournant de la Renaissance: questions de poétique” in Etudes Epistémè, n° 3 (avril 2003), pp. 1-27; Laurence PLAZENET, “Inopportunité de la mélancolie pastorale: inachèvement, édition et réception des œuvres contre logique romanesque” in Etudes Épistémè n° 3 (avril 2003), pp. 28-95.
consolatória (mas antes de passar às digressões de ordem propriamente farmacológica – na Seção 4), usa exatamente o trecho de Poliziano (que também são os termos de Pibrac) que citei mais acima, associado ao famoso trecho do
Epodo II de Horácio:
Beatus ille qui procul negotiis
Paterna rura bobus exercet suis. [Horácio, Epodo II, 1-2]
Happy he, in that he is
freed from the tumults of the world, he seeks no honours, gapes after no preferment, flatters not, envies not, temporiseth not, but lives privately, and well contented with his estate;
Nec spes corde avidas, nec curam pascit inanem Nec spes corde avidas, nec curam pascit inanem Nec spes corde avidas, nec curam pascit inanem Nec spes corde avidas, nec curam pascit inanem Securus quo fata cadant
Securus quo fata cadant Securus quo fata cadant
Securus quo fata cadant. [Poliziano, Rusticus, vv. 24-25]
He is not troubled with state matters, whether kingdoms thrive better by succession or election; whether monarchies should be mixed, temperate, or absolute; the house of Ottomans and Austria is all one to him; he inquires not after colonies or new discoveries; whether Peter were at Rome, or Constantine's donation be of force; what comets or new stars signify, whether the earth stand or move, there be a new world in the moon, or infinite worlds, &c. He is not touched with fear of invasions, factions or emulations;
Felix ille animi, divisque simillimus ipsis, Quem non mordaci resplendens gloria fuco Solicitat, non fastosi mala gaudia luxus, Sed tacitos sinit ire dies, et paupere cultu
Exigit innocuae tranquilla silentia vitae. [Poliziano, Rusticus, vv. 17- 21]37
Poderíamos estender essas considerações, mas, para o que me propus aqui, esse pequeno resumo já mostra algumas possibilidades. Fazendo uma temerosa inflexão
37 “[Beatus ille...] Feliz daquele que, livre dos tumultos mundanos, não busca honras, não se
embasbaca atrás de promoções, não bajula, não inveja, não temporiza, mas vive reservado e contente com seu estado, [Nec spes...]. Não se perturba com assuntos de estado, ou se reinos prosperam melhor por sucessão ou eleição, se monarquias deveriam ser mistas, temperadas, ou absolutas; a casa de Osmã e a Áustria para ele são a mesma coisa; ele não questiona sobre colônias e novas descobertas; se Pedro está em Roma, ou se a doação de Constantino fora feita à força; que significam cometas e novos astros, se a Terra está imóvel ou movente, se há um novo mundo na Lua, ou infinitos mundos, etc. Ele não se comove por medo de invasões, facções ou emulações; [Felix ille...].” (Robert BURTON, A Anatomia da Melancolia [tradução de Guilherme Gontijo Flores], Vol. III da edição brasileira, Segunda Partição, Seção 3, Membro 3, Subseção 1, p. 204. As citações em latim estão no original inglês.).
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de ordem geral, poderíamos dizer que, na sociedade europeia pré-moderna, a disseminação da literatura pastoral se dá não apenas na aplicação recontextualizada de um modelo literário helenístico-romano, mas faz parte de uma ampla, contínua e dinâmica reflexão sobre certos padrões de comportamento e ação envolvendo a cidade e o campo. Essa reflexão canibaliza e ressignifica elementos de ordem literária na criação de um universo bastante particular de práticas sócio-culturais. E é a partir de um contexto diretamente derivado da vie rustique francesa, que por sua vez depende de topoi pastorais clássicos e modernos (apoteose da vida no campo,
phármakon pastoral, revalorização de temas agrários na literatura, melancolia
difusa, complexificação denegatória da civilité), que gostaria de analisar o texto abaixo.
II.
An. Christi 1571 aet. 38, pridie cal. mart., die suo natali, Mich.
Montanus, servitii aulici et munerum publicorum jamdudum pertaesus, dum se integer in doctarum virginum recessit sinus, ubi quietus et omnium securus (quan)tillum in tandem superabit decursi multa jam plus parte spatii: si modo fata duint exigat istas sedes et dulces latebras, avitasque, libertati suae, tranquillitatique, et otio consecravit38.
Estas linhas ornam uma das paredes da Torre do château de Montaigne e, ao que tudo indica, foram escritas logo após a entrega do posto que Michel ocupava desde 1557 no Parlement de Bordeaux (seu primeiro posto, na Cours des Aides do Perigord, em 1556, foi absorvido pelo Parlement quando a Cours foi extinta em 1557). Seu pai, Pierre Eyquem de Montaigne, morrera um pouco antes, em 1568, e parece que Michel, a partir daí Sire de Montaigne e até então parlamentar por conta
38 “No ano do Cristo de 1571, com a idade de trinta e oito anos, na véspera das calendas de
março, no aniversário de seu nascimento, Michel de Montaigne, já há muito tempo entediado com a escravidão da Corte do Parlamento e dos cargos públicos, sentindo-se ainda bem disposto, vem isolar-se para repousar no seio das doutas Virgens, na calma e na segurança; aí ele atravessará os dias que lhe restam para viver. Esperando que o destino lhe permita aperfeiçoar esta habitação, estes doces refúgios paternos, ele os dedicou à sua liberdade, à sua tranquilidade e a seu lazer.” A citação em latim encontra-se em Michel de MONTAIGNE,
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dos desejos de ascensão nobiliárquica da família, se sentia finalmente livre para cortar o último dos cordões umbilicais39.
Do ponto de vista formal, esta inscrição de 1571 não é nem literatura, nem filosofia, nem história, nem ciência, mas uma efeméride, como as que foram escritas pelos Montaigne nas Efemérides de Beuther40. E as efemérides, que se associam tanto ao
diário íntimo avant la lettre quanto a eventos de ordem cósmica, religiosa e civil, recortam um momento singular no tempo do indivíduo e do mundo. No entanto, embora efeméride, podemos facilmente ampliar seu quadro hermenêutico. Efetivamente, a inscrição pode ser entendida como o primeiro exemplo do mesmo
impulso por citações que anima a ornamentação das famosas traves da sua
Biblioteca41. Neste caso, podemos acrescentar-lhe também uma faceta gnômica
explícita – aquela que, por sua vez, é tão característica do próprio texto dos Ensaios. Se entendida assim, a inscrição de 1571 constitui o primeiro momento da economia citacional que os anima: é sua abertura simbólica e concreta, ainda que algo paradoxal42.
Com isso em mente, este pequeno texto, explicitamente arcaizante43 – e, a princípio,
claro em seus objetivos imediatos (aposentadoria parlamentar e exclusivismo da
39 “Embora Jacques-Auguste de Thou veja em Montaigne (de longe) um magistrado ‘assíduo’,
a experiência de Montaigne com a toga não deixa de ser uma série de desculpas para se esquivar, de viagens a trabalho, de férias fora de época. É significativo que a primeira referência a seu nome nos arquivos da região de Guyenne seja relativa a uma falta... E que o principal caso que conduziu, segundo os arquivos municipais, tenha envolvido a cobrança do imposto sobre bois, vacas e carneiros...” (Jean LACOUTURE, Montaigne a cavalo, p. 100).