2. KÜLTÜREL VE AHLAKİ BOCALAMANIN FELSEFİ ARKA PLANI
2.2. KÜLTÜREL VE AHLAKİ BOCALAMANIN MODERNLEŞME
Conforme apontado anteriormente, após a generalização das férias pagas, a sociedade ocidental viveu um processo de desenvolvimento de novas fórmulas de lazer em que as férias passaram a remeter às viagens. Durante essa transformação, a rede de albergues da juventude e o campismo foram fatores que impulsionaram a expansão do turismo, ajudando o setor que se formava a resolver um dos principais problemas de sua fase inicial: as acomodações. Esses movimentos, caracterizados pelo desejo de retorno à natureza com o rompimento da vida sedentária e urbana, contribuíram para que as pessoas desejassem partir de férias mesmo com o custo extra no orçamento e sem o conforto do lar.
Urry (2001) aponta que os campings eram característicos da maioria dos balneários da Inglaterra. Antes da Primeira Guerra Mundial, o desenvolvimento destes acampamentos era considerado uma reação contra a qualidade ruim dos serviços hoteleiros à beira mar. Porter (1995), por sua vez, destaca que as pessoas, cansadas dos quartos do bed and breakfast e das casas de hóspedes, viram nos campings, criados na década de 30 do século XX, uma nova forma de lazer democrático75. A grande inovação no campismo, segundo Urry, foi promovida por Billy Butlin, um sul-africano que cresceu no Canadá, ao implantar um camping de luxo em Skegness, em 193676, que proporcionava:
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recursos altamente luxuosos, com divertimentos no próprio local, comida de boa qualidade, espetáculos de alta categoria e saneamento moderno (...) o interessante é que, quando o primeiro acampamento foi aberto, os visitantes pareciam se entendiar e Butlin concluiu que necessitavam de algum grau de organização. Foram então inventados os “Casacas Vermelhas”, que ‘liderariam, aconselhariam, explicariam, reconfortariam, ajudariam e, em geral, se tornariam o que mais pudesse se assemelhar a anjos sobre a terra, durante as férias77.
De acordo com Jean-Claude Richez e Léon Strauss (1995), Butlin comprou um lote de terrenos e, em seguida, instalou chalés e cabanas ao redor de uma concentração de serviços e meios de distração. Durante todo o dia, eram oferecidos atividades de lazer. O sucesso dessa verdadeira aldeia de lonas foi grande e, posteriormente, a fórmula foi ampliada para outras localidades. Os autores assinalam: “estas empresas sem orientação ideológica reuniam, num regime, por assim dizer, militar a possibilidade de estar em família sem ter que cumprir tarefas domésticas, de estar permanentemente animado sem ter que refletir, tudo isso por pouco dinheiro” 78.
Segundo o Urry, em 1948, dos trabalhadores que tiravam férias uma pessoa em vinte se hospedava no acampamento de Butlin. Estes acampamentos de férias eram considerados símbolo da sociedade do pós-guerra e refletiam o estilo arquitetônico modernista do período79. A partir da década de 50, o esforço era formatar estes acampamentos para o público “família”, limitando o número de visitantes desacompanhados. Buscava-se impedir que a maior parte dos turistas fosse oriunda da classe trabalhadora, embora houvesse um esforço por caracterizar o público visitante como “campista”, independentemente do lugar ocupado na hierarquia social. Urry também assinala que paulatinamente a expressão “acampamento” foi abandonada na medida em que implicava a idéia de regime e regulamentação. A palavra da ordem, a partir de então, torna-se liberdade.
De acordo Richez e Strauss, experiências similares ao campismo tinham sido feitas na França antes da guerra, mas foi no início dos anos 50 que a prática se desenvolveu no país com o lançamento das aldeias de férias do Touring Club de France e do Club Méditerranée. Ambas propunham animação, distração e repouso baseadas na ruptura com o tempo e o espaço de trabalho. Para ilustrar o sucesso desta nova fórmula de férias
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que traz consigo uma nova lógica de temporalidade, os autores reproduzem a narrativa de H.Raymond, em 1959, sobre uma das aldeias do Club.
“Nunca sei que horas são, nem que dia é” é um dito corrente de satisfação; é o próprio símbolo da libertação dos deveres. O espaço, pelo contrário, sendo tão abstrato nos sítios onde se confunde com um sinal temporal, é aqui a fonte de toda a diferenciação. Na sociedade do lazer, é o meu passo que mede a quase totalidade de atividades; a aldeia oferece o retorno a um espaço onde o tempo de marcha permite uma participação completa na vida social. O tempo é curto; o seu papel é reduzido. O espaço é longo; é ele que serve de cenário à riqueza das atividades; é a medida de todas as coisas. 80
Nesse tipo de turismo, o emprego do tempo diário era concebido segundo o modelo dos cruzeiros. Eram propostas excursões, jogos coletivos e serões recreativos, entre outras atividades. O programa deixava a liberdade de escolher entre as atividades comunitárias ou não participar. Estabelecia-se, assim, uma organização do tempo que era simultaneamente rigorosa e maleável, impondo uma temporalidade ritmada unicamente pelas atividades de lazer. Na avaliação de Richez e Strauss, o Club Méditerranée foi o primeiro a levar essa lógica com sucesso até o fim e a permitir, em suas aldeias de férias, a ruptura total com o tempo ordinário. Diferentemente da rigidez e regulação do acampamento de Butlin, observa-se nos campings do Club Med a valorização da liberdade e do tempo pessoal.
Para compreender o pioneirismo do Club Med é preciso contextualizá-lo no período do pós-guerra. Alessandro Portelli81, ao apontar a formação da memória de pessoas comuns sobre a experiência da guerra e da libertação na Itália, nos dá pistas sobre a vida na Europa depois do conflito. Nas palavras do autor, “a libertação não foi uma experiência apenas política, mas também física e corporal, uma questão sensorial relacionada ao ar que as pessoas respiravam, ao alimento que comiam, à forma dos corpos”82. Um dos exemplos citados é o ato de comer. Comer não era apenas para acabar com a fome, mas também um ato para mudar a aparência “ossuda e faminta”. Desta forma, Portelli assinala que o fim da guerra marca uma rápida transformação da “penúria para o excesso”. Nesta linha, podemos inscrever a proposta de Blitz como uma destas
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81 PORTELLI, Alessando. A Bomba de Turim: a formação da memória no pós-guerra in Revista da
Associação Brasileira de História Oral, vol. 9. nº1 – jan-jun, 2006 – Rio de Janeiro: Associação Brasileira de História Oral.
experiências do pós-guerra.Marc Boyer, em História do Turismo de Massa83, descreve o que seriam as origens do Club Méditerranée.
As férias eram uma vida verdadeira; cada resort era uma “sociedade de lazer”, uma “utopia concreta” em que os GM (gentis membros) admiravam os Olímpicos, os GO (gentis organizadores). Iguais por suas roupas, pelo uso do tratamento em “tu”, o desaparecimento aparente do dinheiro (pagava-se com conchas), eles faziam competições esportivas e amorosas. Associações de turismo, familiares e sociais constituíram-se em torno dos ideais de fraternidade das férias. (...) Estas fórmulas atenuaram, pouco a pouco, sua originalidade. Os veranistas coletivos tornaram-se cada vez mais clientes liberados das limitações, exigentes com relação ao conforto, comparando preços e qualidades; o Club Médterrannée transformou-se em uma sociedade capitalista.84
Boyer afirma que a criação das aldeias de férias nas décadas de 1950 e 1960 foi muito mais limitada do que imaginavam os fundadores dessas associações. Isso porque as que não abandonaram rapidamente o caráter não-lucrativo, como o Club Med, foram atingidas por sérias dificuldades financeiras em virtude das fracas capacidades de hospedagem e a falta de notoriedade. Boyer defende que as férias remuneradas, em 1936, foram “mais outorgadas do que conquistadas”85 e, além disso, a parada de trabalho anual não resultou automaticamente na prática do turismo que passou por um lento processo de apropriação pelas pessoas. Em 1950, ainda era uma minoria de franceses que saiam de férias. O “boom” no turismo de massa ocorrido a partir dessa década foi fruto do que o autor considera “mito de 36”, fundador das utopias libertadoras que deslocaram para o lazer as esperanças do fim do século 20.
Nesta perspectiva, cabe investigar o movimento que levou a rede a, paulatinamente, migrar do campismo para o investimento em hotéis mais sofisticados e para um público de alto poder aquisitivo. Paralelamente, vale frisar que, apesar das grandes mudanças, o Club Med se vende como uma rede que ainda guarda e, principalmente, é fiel à “filosofia” e ao “estilo de vida” que norteou a sua criação.
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BOYER, Marc. História do Turismo de Massa. Bauru, SP: EDUSC, 2003.
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2. ONCE UPON A VACATION: A HISTÓRIA DO CLUB MED PELA PERSPECTIVA