2. KÜLTÜREL VE AHLAKİ BOCALAMANIN FELSEFİ ARKA PLANI
2.1. BOCALAMANIN TANIMI
O turismo como uma atividade de deslocamento temporário dos lugares normais de trabalho e moradia, tendo em vista o ócio, descanso, cultura, saúde e esportes, nasceu no século XIX junto com a revolução dos transportes que inclui o navio a vapor e as estradas de ferro. Urry60 afirma que “ser turista é uma das características da experiência ‘moderna’. Não viajar é como não possuir um carro ou uma bela casa. É algo que confere status e julga-se também que seja necessário para a saúde” 61. Marca de status e símbolo de distinção, viajar nas férias tornou-se uma necessidade.
Não se nega a existência de formas de viagens organizadas antes do século XIX, mas o turismo não era uma atividade sistemática.62 Entre os séculos XII e XIV, as viagens ocorriam sob a forma de peregrinações religiosas. Estas contribuíram para criar mapas e uma diversidade de serviços para os viajantes, como redes de hospedarias. No século XV, as peregrinações se encontravam tão estruturadas que havia excursões que iam de Veneza à Terra Santa. No fim do século XVI, surge o Grand Tour com o objetivo de contribuir e complementar a formação cultural dos filhos da aristocracia e da pequena fidalguia. No final do século XVIII, o Gran Tour se “populariza” e passa também a atender os filhos da classe média profissional. Foi também a partir do século XVIII que ocorreu o desenvolvimento da infra-estrutura turística, sob a forma de balneários, por parte da Europa. Mas, é no século XIX que as camadas mais populares passaram a viajar com a finalidade de contemplar e permanecer por motivos não ligados ao trabalho.
A análise de Urry inicia-se a partir do século XIX quando ele examina o desenvolvimento do olhar do turista e suas transformações históricas. Embora destaque que o olhar do turista seja múltiplo, o autor enumera algumas práticas sociais que reconhece como turismo. Em primeiro lugar, define o turismo como uma atividade de lazer que pressupõe o seu oposto, o trabalho regulamentado e organizado, seja este
60 URRY, John. O Olhar do Turista: lazer e viagens nas sociedades contemporâneas. São Paulo: Studio
Nobel: SESC, 2001.
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remunerado ou não. Além disso, envolve um deslocamento de espaço (a viagem) e a permanência breve e temporária no local escolhido. Estes lugares, por sua vez, são escolhidos para as férias porque existe uma expectativa em relação a prazeres intensos. Esta expectativa é construída a partir de práticas não-turísticas como cinema, literatura, vídeos, internet etc. O olhar do turista se direciona para aspectos das paisagens diferentes da experiência cotidiana e se constrói por meio de uma coleção de signos. Segundo Urry, o primeiro exemplo de turismo de massas ocorreu no norte da Inglaterra, com a democratização da viagem entre a classe trabalhadora industrial a partir da segunda metade do século XIX. Paralelamente a esta democratização, observou-se também uma hierarquização entre os lugares, em especial os balneários, levando em consideração que tipo de público o freqüentava.
Roy Porter63 também assinala que o Reino Unido foi o “primeiro país onde foram levantadas em grande escala as questões ligadas à organização do trabalho, dos lazeres e à urbanização sem precedentes que a revolução industrial produziu” 64. Em acordo com a perspectiva de Corbin de estudar a evolução dos modos de lazer, Porter analisa como os usos dos tempos livres se firmaram na Grã-Bretanha pré-industrial. Segundo o autor, com a exceção do Gran Tour, os prazeres aristocráticos eram organizados nas propriedades das famílias no campo. Aos poucos, a cidade, que nos séculos XVI e XVII era um centro de atividade comercial e fabril, se tornou, na época georgiana, um lugar de consumo e diversão para as elites.
Conforme apontado anteriormente, no decorrer dos séculos XVIII e XIX, o desafio era “tomar conta” dos lazeres dos trabalhadores pobres e moralizá-los para facilitar a disciplina temporal do sistema fabril. Nesse cenário, Porter destaca que a ferrovia, desenvolvida em função da necessidade de transportar mercadorias, foi o mais poderoso instrumento de transformação social do século XIX e responsável pela revolução no uso do tempo. Para também ganharem dinheiro nos feriados, as companhias ferroviárias criaram tarifas especiais e promocionais. Até então, os divertimentos que envolvessem uma deslocação longa eram um domínio reservado às elites.
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PORTER, Roy. Os ingleses e o lazer in CORBIN, Alain. História dos Tempos Livres. Lisboa: Teorema, 2001.
Neste cenário, destaca-se o pioneirismo de Thomas Cook que promoveu, em 1841, um pacote turístico de Leicester para Loughborought. Em 1844, Cook realizou a primeira excursão de prazer com lojas recomendadas e locais de interesse histórico no roteiro. A relevância desta nova modalidade de viagem para a história do turismo é assinala por Urry ao afirmar que “na restritiva Grã-Bretanha vitoriana, Thomas Cook proporcionava uma notável oportunidade para mulheres, freqüentemente solteiras, viajarem pela Europa sem serem acompanhadas”65. Porter também destaca o papel de Cook, um batista militante e entusiasta das ferrovias, na criação da indústria turística. De acordo com Porter, Cook:
Misturava negócios com uma moral exigente e uma preocupação de melhoramento do povo. A seu ver, o turismo era um meio de tornar as pessoas melhores e o organizador, de certo modo, tutor dos viajantes. (...) Thomas Cook conseguiu popularizar as viagens ao estrangeiro numa base comercial graças à atividade incansável, à atenção que concedia aos seus clientes e que se manifestava nos guias de viagem. Compreendeu a mentalidade do inglês no estrangeiro, satisfez as suas exigências, empenhou-se em escolher “estabelecimentos de primeira classe”e bateu-se com os hoteleiros para que se adaptassem a sua cozinha ao apetite de um “verdadeiro inglês comedor de roast-beef e de pudding”.66
Embora seus clientes pertencessem essencialmente à classe média e tivessem recursos limitados, Cook destacava em sua publicidade os ricos e célebres, criando fascínio sobre as massas. O modelo criado foi copiado e adaptado por outros empresários, sendo presente até hoje na publicidade. De acordo com o Urry, no fim do período vitoriano já existia “um sistema reestruturado de regulamentação moral, que envolvia o cultivo dos prazeres”. Entre as duas guerras mundiais, os principais fatores que afetaram o desenvolvimento do turismo foram o aumento do número de proprietários de carros e o desenvolvimento de cruzeiros de prazer. E, após a segunda guerra mundial, as férias se constituem como um direito, um período necessário para renovação pessoal. Legitima- se o direito ao prazer, constituindo a praia em parceria com a dupla sol e mar um dos principais destinos turísticos.
Os balneários de desenvolveram por toda Europa no século XVIII com objetivo medicinal. Mas, Porter destaca que foi na Inglaterra que a “cidade termal enquanto lugar de ócio e de luxo obterá seus maiores sucessos” 67. As imersões no mar eram estruturadas e ritualizadas. De acordo com Urry, inicialmente, “a praia era mais um
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lugar ‘de cura’ do que ‘de prazer’” 68. Em meados do século XIX, no entanto, a praia “medicalizada” transformou-se neste local destinado ao prazer, de escape do cotidiano. Porter explica as razões do sucesso das cidades termais inglesas:
Pertencentes, não à coroa, mas a pessoas ou sociedades privadas, puderam ser exploradas energicamente por empresários locais. O desejo de consumir das classes médias forneceu-lhes uma clientela completamente apta a provar os prazeres que o dinheiro podia dar acesso. O afluxo de visitantes estimulou a construção de instalações termais, hotéis, pensões, restaurantes, lojas, o desenvolvimento da rede de comunicações, e alimentou o clima de jovialidade apoiado por uma publicidade desenfreada. (...) Com as suas cores berrantes, a sua música, barulho, atmosfera de festa, a sua preocupação com as alegrias da família e das crianças, as estâncias balneares eram dos raros locais da Inglaterra vitoriana onde as pessoas podiam deixar-se andar e esquecer a sobriedade vigente nos seus locais de trabalho e residência.69
Por conta da popularização dos balneários, os lazeres aristocráticos tomaram novas formas como, por exemplo, os cruzeiros, definidos pelo autor como “verdadeiras ilhas artificiais nos mares, lugares inacessíveis às massas e aos tempos objetos de luxo ostentatório”70. Com o desenvolvimento das estradas de ferros, a alta sociedade inglesa também passou a freqüentar as costas mediterrânicas, francesa e italiana com objetivo de fugir dos balneários tomados por “classes inferiores”. No estudo dos usos dos tempos livres, Porter destaca o lazer como um dos fenômenos de comercialização e consumo na economia do desejo. Isso porque se, por um lado, a industrialização e a burocratização na sociedade de massas tendem, inevitavelmente, para a uniformidade; por outro, a elite busca constantemente formas de defender sua diferenciação e distinção.
André Rauch71 também descreve como os balneários se estabeleceram na Europa ao longo do século XVIII. De acordo com o autor, entre os usos do tempo de cura e de descontração criou-se um período de tensão que alterou o sentido e os costumes da estadia. Assim, os deslocamentos do hotel para o local dos banhos, os passeios junto à natureza e os espaços para jogos favoreceram as civilidades de exibição pessoal. A estadia no litoral tinha como principais divertimentos o banho e a natação. Mas, ao mesmo tempo, firmaram-se também o direito a uma vida privada e os valores que seriam os germinadores do ideal de férias: exibição do corpo, encenação do eu, desenvolvimento de um critério de jogo e a apresentação e reafirmação da sensibilidade
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71 RAUCH, André. As férias e a natureza revistada in História dos Tempos Livres. Lisboa: Teorema,
pessoal. Inicialmente com a cura e, em seguida, com a instauração de um tempo de férias, criou-se um período que conjugava os prazeres pessoais e sua ostentação, sendo o corpo o principal elemento desta transformação.
As pessoas deliciam-se a deixar ver o corpo: cada etapa deste desnudamento progressivo começa por causar escândalo, depois vulgariza-se. Mostrar o joelho ou descobrir o braço e os ombros deixa de ser indecente. O corpo não está apenas curado e reabilitado: é oferecido aos olhares. Querem fortificá-lo pela natação e pelos desportos, logo a seguir dourá-lo para subir à cena das diversões requintadas: é em função das imagens sociais do corpo que se compõe a apresentação. Fez- se uma revolução: enquanto se elabora uma encenação da aparência, um sistema de conveniências visa a esfera privada (...) Não se trata simplesmente de uma progressão do pudor, mas sobretudo de uma reformalização da relação das pessoas consigo próprias72.
Aos poucos, as estadias nos balneários para a cura perdem sua rigidez ascética e o corpo transforma-se no “lugar visível de uma identidade” capaz de atrair ou repelir o desejo do outro. E, assim, André Rauch, dentro do recorte histórico de 1830 a 1939, assinala como as férias serviram para delinear um novo tempo social e um elemento determinante da construção de identidades. De acordo com o autor, esse novo tempo inventado foi dedicado para a atenção, experiência e até revelação do eu. E, se por um lado, este tempo de férias marca a liberação das limitações e pressões, por outro, acentua a densidade e a positividade do cotidiano.
Séculos depois, observamos essa lógica de exibição e encenação do eu reproduzida no interior de um resort. Esta mudança é significativa e, em alguma medida, presente até hoje nos destinos de sol73 do Club Med. A exibição e o cuidado com o corpo nas atividades de lazer é uma questão que, no interior do resort, está colocada tanto para GOs quanto para GMs. Afinal, para o corpo ser oferecido a olhares é preciso estar dentro dos padrões do belo proposto pela sociedade, ou seja, recomenda-se ser sarado e malhado. Se por um lado, os apelos gastronômicos oferecem opções altamente calóricas, por outro, as atividades de lazer são vistas como uma forma de queimar as calorias excedentes. Os contatos no interior do resort e as propostas de novas amizadas, por um lado, também consistem em jogos de encenação do eu que deve a todo instante ser “reapresentado” na medida em que se estabelece um novo contato seja com GO ou GM, conforme pôde ser observado durante o trabalho de campo.
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Por fim, Rauch afirma que “passar algum tempo em lugares que fazem sonhar”74 transformou-se em um ideal e o tempo de férias – por oposição às horas dedicadas ao trabalho - tornou-se o período da felicidade ansiosamente esperada. Nesse sentido, o destino da viagem, muitas vezes, é escolhido em função da sua capacidade de promover o devaneio e a experiência “exótica”. No início do século XX, as férias se impõem como uma necessidade, período essencial na vida das pessoas em que o repouso e o contato com a natureza funcionam como uma contrapartida aos ritmos urbanos.