BÖLÜM 1: EDEBİYAT, KÜLTÜR VE ÇEVİRİ KAVRAMLARININ TANIMI
1.1. Kültür Kavramı
A diretora L. (2ª Turma - Grupo B) foi a profissional que mais solicitou consultoria para casos de suspeita de abuso sexual, tendo feito seis das 10 solicitações de consultoria (duas partiram dela em conjunto com as professoras das crianças e quatro partiram da própria diretora, sem a participação da professora). O seu desempenho no IAS demonstrou que ela identificou como suspeita de abuso sexual tanto sintomas específicos como inespecíficos, ou seja, ao menor sinal ela suspeitava de abuso sexual, sem fazer uma avaliação objetiva, ponderada e equilibrada. Após vários encontros durante as solicitações de consultoria, a diretora passou a identificar, com maior
objetividade, suspeitas de abuso, solicitando a presença da pesquisadora em um caso confirmado de abuso sexual.
O exagero de solicitação de consultoria a casos envolvendo suspeita de abuso sexual infantil não representou o comportamento geral dos demais participantes, ou seja, dentre 101 participantes, apenas um deles passou a atribuir comportamentos inespecíficos da criança a suspeita de abuso sexual, solicitando consultoria. Portanto, não é possível concluir que a intervenção possa ser responsabilizada por alarmar os participantes, levando-os a atribuir qualquer comportamento diferente da criança a ocorrência de abuso sexual.
Além disso, outra hipótese parece ser plausível no caso da diretora em questão. Os diversos casos apresentados por ela como suspeitos de abuso sexual envolviam crianças que estavam necessitando de ajuda profissional, de um encaminhamento para o psicólogo. Considerando que a rede municipal de ensino não possui um profissional para atender problemas de comportamento apresentados pelas crianças nas escolas, a existência de uma consultoria gratuita poderia ter levado a diretora a tentar apoio psicológico com a pesquisadora, sob alegação de estar relacionado à ocorrência de abuso sexual. Nesse caso, a diretora pode ter utilizado uma estratégia para conseguir apoio de um psicólogo na escola.
O caso 3, acompanhado durante a consultoria, ainda durante a realização da parte teórica do programa, envolveu uma reação do suposto agressor contra a professora que se envolveu na denúncia da suspeita de maus tratos contra a criança. Essa reação do agressor é, por vezes, algo que faz com que a professora sinta-se acuada e evite fazer denúncias quando suspeita de que o abuso sexual possa estar ocorrendo. A garantia de apoio à professora e à criança (pelas instituições envolvidas, tais como Conselho
Tutelar, Delegacia da Mulher, Secretaria de Educação e Sistema Judiciário), parece amenizar o medo e recuo diante da necessidade de uma denúncia.
O caso 1, acompanhado durante o período de consultoria, ilustra as dificuldades e dilemas de uma mãe diante da necessidade de fazer uma denúncia para evitar a vitimização de outras crianças e a falta de análise das conseqüências de não denunciar de alguns profissionais envolvidos no acompanhamento de uma suspeita de abuso sexual. A falta de encorajamento para a denúncia por profissionais envolvidos com a questão, permite que não haja investigação e apuração da culpa do suspeito e punição caso se confirme o abuso. Adicionalmente, a prática inadequada de policiais e profissionais do sistema judiciário ao interrogar as vítimas (Somer & Szwarcberg, 2001) e a não condenação dos agressores sexuais (Habigzang, 2005; Williams & Brino, 2004) faz com que profissionais e familiares continuem a agir desta maneira, perpetuando obstáculos para a denúncia.
No Centre for Children and Families in the Justice System, um Centro de Pesquisas e Intervenção para crianças e famílias envolvidas no sistema judiciário, localizado na cidade de London, Ontário, Canadá, diversos programas de intervenção com vítimas de abuso sexual em que os profissionais são capacitados para garantir proteção integral à criança são desenvolvidos. Neste centro de pesquisa e intervenção desenvolve-se um programa chamado Child Witness Project no qual a criança que sofreu abuso sexual tem a sua proteção garantida, na medida em que presta depoimento, sempre acompanhada por um psicólogo, em uma sala reservada e para um profissional treinado para ouvi-la de forma adequada. O seu depoimento é gravado e apresentado durante o julgamento, sem necessidade que a criança compareça ao tribunal. Há diversos aspectos importantes nesta prática que garantem a proteção à criança: o encorajamento dos profissionais à criança e aos familiares para a denúncia, a
credibilidade dada ao discurso da criança, o apoio e preparo dos profissionais para lidar com a criança neste momento delicado, a não necessidade de falar sobre o abuso sexual sofrido para inúmeros profissionais e por diversas vezes, a garantia de estar protegida uma vez que o agressor não se encontra presente na mesma sala durante o depoimento (Centre for Children and Families in the Justice System, 2006).
Um outro aspecto do período de consultoria merece destaque, a auto-revelação. Durante as oficinas com os familiares, foram feitas três auto-revelações de abuso sexual, nos casos 1, 2 e 3. As auto-revelações não foram realizadas pelas crianças que sofreram ou estavam sofrendo o abuso sexual, mas por familiares. Nos casos 2 e 3 a tia fez a revelação à professora e no caso 1 a mãe da criança.
Parece ser possível concluir que a oficina possibilitou ao familiar que revelasse a ocorrência do abuso, e que caso não houvesse esse apoio o abuso continuaria a ocorrer. Kogan (2004) aponta diversos fatores que dificultam a auto-revelação do abuso sexual , destacando que a relação familiar com o agressor prejudica a revelação do abuso sofrido.
O estudo destaca ainda há necessidade de apoio para que a vítima consiga fazer a revelação. Assim, a oficina ministrada pelos professores e pela escola parece ter se apresentado como fator de apoio e propiciado a revelação do abuso, sobrepondo-se a relação familiar com o agressor.
Ainda por meio da assessoria foi possível verificar as dificuldades enfrentadas pelo profissional e por familiares ao identificar uma suspeita de abuso sexual e quais os procedimentos a serem tomados a partir daí. Como já discutido no capítulo anterior, os profissionais demonstraram saber responder quais os procedimentos adequados após a identificação de uma suspeita de abuso sexual. Mas o acompanhamento desses profissionais e familiares no período de consultoria sugeriu há necessidade de refletir
sobre duas questões: a) a insegurança do profissional quanto a existência de uma suspeita consistente, ou seja, os sinais que a criança apresentava eram específicos ou inespecíficos do abuso sexual? Tal dúvida vai ao encontro do que foi verificado na aplicação do IAS antes e após o curso, a não capacidade do professor de discriminar entre sinais específicos e inespecíficos; b) após confirmar que há uma suspeita consistente, mesmo descrevendo o que deve ser feito de forma adequada, o profissional precisa de reflexão sobre as conseqüências de se denunciar, além de auxílio de outro profissional para que efetivamente tome as providências que descreveu como sendo adequadas. Em alguns casos o professor pode não fazer o que disse que faria, pois prevê conseqüências negativas para a criança e para si próprio a partir de suas ações, tais como represálias por parte de familiares, agressões a ele e a criança, falta de apoio social para a criança, a não condenação do agressor e o afastamento da criança da escola.
Essa reflexão aponta para a necessidade de que os programas de prevenção do abuso sexual envolvam estratégias de acompanhamento dos profissionais e familiares, garantindo a esses apoio especializado na tomada de decisões sobre que procedimentos devem ser adotados diante de uma suspeita de abuso sexual, considerando as particularidades de cada caso.
CAPÍTULO 6
MONITORAMENTO DOS CASOS NOTIFICADOS DE ABUSO SEXUAL