• Sonuç bulunamadı

KÖLELĠĞĠN KISA BĠR TARĠHÇESĠ

B. KÖLE ĠLE GULÂM ARASINDAKĠ TEMEL FARKLILIKLAR

Mostrei em momentos anteriores (cf. supra Capítulo 1.1) a trajetória político- jurídica da Reforma Psiquiátrica no Brasil, quando recompus um panorama geral do modo como as questões técnicas de uma nova proposta de Saúde Pública e Coletiva foram debatidas em algumas instâncias do Estado. Nesta sessão, irei refazer o exercício cartográfico focalizando os aparatos psiquiátricos para os consumidores de drogas, de

86

modo que no lugar dos entraves entre um projeto sanitário universalista e um neoliberal privatista, seja possível visualizar os embates entre investimentos contra as drogas (e por consequência contra seus consumidores) e outros pelos direitos dos usuários.

Com a aprovação do projeto de lei n.3.657/89 de Paulo Delgado (PT/MG), regulamentaram-se os direitos do doente mental ao tratamento e indicava-se a extinção progressiva dos manicômios públicos e privados. Passaram-se 12 anos até que se consolidasse um novo modelo assistencial de saúde mental, tornando os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) as unidades oficiais do SUS34. Mas apenas um ano depois, em 2002, o tratamento para os usuários de drogas foi vinculado aos novos equipamentos da Saúde Pública, quando se instituiu, por meio de uma política nacional, os CAPS Álcool e Drogas (CAPS AD).

A discussão aberta em Assembleia Legislativa desde a década de 1990 sobre a reestruturação dos modelos de tratamento psiquiátrico colocava em cheque um paradigma combativo à psiquiatria e à proibição das drogas, em vigor na legislação brasileira desde os anos 1920, quando se estabeleceu um regime punitivo para os consumidores de substâncias ilícitas e o tratamento psiquiátrico para a correção moral destes sujeitos (cf. Adiala, 2011; Moreira, 2015). A extinção em curso dos aparatos da psiquiatria, montados desde início do século XX, abalaram consideravelmente os projetos políticos e econômicos dos manicômios.

Se os debates sobre a universalização da saúde ganhavam força na arena pública, somado aos movimentos da luta antimanicomial, cujas alianças permitiram que uma abordagem humanista fosse agregada às políticas públicas destinadas à saúde mental, o mesmo não ocorreu com o debate sobre as drogas. Não cabe ao escopo desta pesquisa restituir um panorama de repressão às drogas no cenário brasileiro, alguns destes levantamentos bibliográficos já foram feitos com êxito (Venâncio e Carneiro, 2005; Machado e Miranda, 2007; Adiala, 1996; Andrade, 2003).

A análise que proponho tem como ponto de partida a década de 1990, a partir da qual busco traçar alguma sincronicidade entre as ações de reorganização do setor psiquiátrico e as ações de repressão às drogas. Não pretendo fazer uma associação causal estrita entre ambas, embora a “guerra ao crack” certamente tenha sido motivada pela conjunção de alguns desses fatores. Minha intenção é delinear os contornos de dois vetores de forças: um de dissolução dos aparatos psiquiátricos e outro de ascensão da

87

represália aos usuários de drogas, de modo que este último acoplou-se aos setores que mais apoiavam a decadente psiquiatra para forjarem uma ideia alarmista de epidemia do crack. Meu argumento é que este campo de força configurou uma concepção particularmente peculiar do papel do Estado no governo das drogas.

Se a gestão da loucura vinha sofrendo sucessivos deslocamentos desde o início dos anos 1990 (tal como o desmoronamento do sistema hospitalocêntrico através de leis e portarias, redirecionamento financeiro para o investimento de novos centros assistenciais comunitários, a criação de uma nova modalidade de convênio chamada de cogestão35 e a instauração de uma frente parlamentar da Reforma Psiquiátrica), se alguns desses vetores direcionaram os antigos loucos, doravante “pessoas com transtornos mentais”, para um novo território governamental e político, os agenciamentos em torno das drogas produziram ainda mais repressão e moralização de seus consumidores; eles produziram nóias.

Desde o tempo da Reforma Psiquiátrica, quando uma série de atores provocou uma rachadura no paradigma da loucura, a partir do qual se desdobrou a produção de uma gestão estatal da saúde mental, poucos princípios proibicionistas foram contestados, salvo algumas exceções. Ao contrário, neste período, os dispositivos antidrogas também vinham se fortalecendo. Em 1993, foi criada no Ministério da Justiça a Secretaria Nacional de Entorpecentes, cujas atribuições seriam fiscalizar a execução das normas estabelecidas pelo Conselho Federal de Entorpecentes (CONFEN), acentuando a vigilância e repressão do uso de substâncias consideradas ilícitas. Para tanto, a Secretaria deveria articular órgãos da Vigilância Sanitária (Ministério da Saúde), da Receita Federal (Ministério da Fazenda), da assistência social (Ministério do Bem-Estar Social) e do Conselho Federal de Educação (art.3º lei 8.764/93).

Em 1998, após uma assembleia geral da ONU (UNGASS), na qual foi deliberada uma medida de combate mundial às drogas, o CONFEN foi transformado em

Conselho Nacional Antidrogas (CONAD) e foi criada uma Secretaria Nacional (SENAD), transferindo ambos os órgãos do Ministério da Justiça para a Casa Militar da Presidência da República.

Quatro anos mais tarde, o SENAD mobilizou diversos atores envolvidos para discutir a criação de uma Política Nacional Antidrogas (PNAD). Quando o presidente

35

Sobre o cenário das novas alianças entre governo e entidade não governamentais no modelo da cogestão, sugiro a abordagem antropológica de Sartori (2015).

88

eleito Luiz Inácio Lula da Silva assumiu seu primeiro mandato, ele apontou a necessidade de integrar as políticas públicas e estreitar as relações com a sociedade e a comunidade científica. Em 2004, foi realizado um realinhamento e atualização da política no âmbito de um Seminário Internacional, com participação popular e embasamentos epidemiológicos mais atualizados. O antigo texto jurídico passou a chamar-se Política Nacional sobre Drogas e não mais “anti drogas”.

Nesse momento, começou-se produzir uma torção em direção à assistência no campo da saúde mental, tomando como parâmetro de gestão a ideia da integração setorial ou do cuidado intersetorial. O Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre

Drogas (SISNAD), criado em 2006, é exemplo desta dobra, pois com ambas as medidas, mudou-se o direcionamento das políticas para os consumidores - na prática, passou-se a considerar a aplicação de medidas de reinserção social e de prevenção aos consumidores de drogas, não apenas as punitivas.

A lei n.11.343/2006 tratou de diferenciar judicialmente a figura do traficante e a do usuário/dependente. Com o amparo desse texto legislativo, foi instituído que o usuário de drogas deveria ser encaminhado para serviços de tratamento e não para o encarceramento. Embora tenha sido esboçado um sistema diferencial do criminoso e do doente, o impacto desse novo procedimento legal tem sido bem polêmico e pouco efetivo. É o que revela uma pesquisa sobre os efeitos práticos da nova lei na capital carioca (Grillo et al, 2011: 137-142): na ponta do sistema de justiça, os policiais intensificaram as abordagens seguida de agressão física, humilhação e hostilidade. Notou-se também o aumento das negociações com usuários flagrados, mas sobretudo, a divisão decisiva entre a tipificação do traficante e do usuário, feita pelos policiais na abordagem, favoreceu práticas de extorsões para forjarem o delito.

Numa outra direção e lugar, o movimento da redução dos leitos psiquiátricos seguiu em ritmo lento, embora algumas medidas incisivas têm garantido a desconstrução gradual dos dispositivos de confinamento. Conhecida como a Lei da

Reforma Psiquiátrica (lei n.10.216/2001), este projeto redireciona grande parte dos recursos financeiros das instituições manicomiais para a nova rede de saúde mental. E ainda, para forçar a redução deste tipo de equipamento, houve a diminuição do repasse de verbas para hospitais de maior porte – acima de 160 lugares36. Para transformar, a

longo prazo, os hospitais de grande porte em estabelecimentos menores, ficou instituída

89

uma meta de redução anual dos leitos, cujo processo ficou conhecido como Política de

desospitalização.

Apesar dos esforços em extinguir progressivamente os dispositivos manicomiais do SUS, Duarte e Garcia (2013: 42) mostram que grande parte dos leitos concentrava-se em hospitais privados e não públicos. De acordo com Kilsztajn et al (2008: 2357), em 2004 mais de 78,8% dos leitos ocupados pelo SUS eram privados, para esses não havia medida alguma de intervenção.

Na mesma direção, foi instituído o Programa Nacional de Avaliação dos

Serviços Psiquiátricos (PNASH) estabelecendo critérios técnicos de vistoria dos hospitais: avaliavam-se a estrutura física das unidades hospitalares, a equipe técnica, os projetos terapêuticos, prontuários e alimentação37. No que toca os procedimentos legais para a internação, as negligências médico-jurídica não eram poucas: pacientes internados com diagnósticos quaisquer, sem acompanhamento de profissionais capacitados e sem plano de tratamento. Para ordenar esse setor tão leniente com a burocracia médica, algumas medidas tornaram as internações mais criteriosas, como a Portaria 817/2002 que inclui nos procedimentos hospitalares a regulamentação dos diagnósticos referentes à intoxicação por uso de álcool e outras drogas. E, ainda, a Portaria 2.391/2002 regulamentou o controle das internações psiquiátricas involuntárias (IPI) e voluntárias (IPV), definindo os critérios e mecanismos de acompanhamento sistemático do Ministério Público.

No período de uma década, com tantos esforços de desconstrução dos dispositivos da loucura, seja com a fiscalização dos serviços psiquiátricos, seja com regularização de procedimentos médicos claros a respeito dos diagnósticos e da internação e a pressão para a extinção progressiva dos leitos, entre os anos de 2002 e 2011 foram fechados mais de 19 mil leitos psiquiátricos38, metade do montante existente.

Em contrapartida à redução das vagas em hospitais psiquiátricos, começou-se a publicizar um problema antes pouco mencionado: o abandono a que estariam sujeitas as pessoas com transtorno mental fora das instituições de confinamento. A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), junto a outras três federações médicas brasileiras,

37 Os hospitais que tiveram baixos indicadores de qualidade necessitavam readequar os critérios para uma

segunda vistoria ou então eram descredenciados do Ministério da Saúde (cf. Brasil 2003b).

38 Estes dados foram apresentados no artigo de Duarte e Garcia (2013), no qual avaliam a trajetória de

redução dos leitos no Brasil. Entretanto, a fonte original da citação provém do Sistema de Internação Hospitalares/SUS.

90

reagiu contrariamente com uma espécie de dossiê de avaliação39 dos novos aparatos implantados pelo SUS. Insistindo na desassistência dos doentes, o relatório advertiu que o ritmo do fechamento dos leitos é mais voraz que a criação da rede de assistência e que o financiamento retirado dos hospitais psiquiátricos não estava sendo direcionado para o novo modelo. Reivindica-se ali o retorno de terapêuticas, por eles chamadas de, verdadeiramente científicas: a dependência química tem “diagnóstico, explicação genética, etiologia e fisiopatologia próprias”40, é uma doença crônica semelhante às

“diabetes, hipertensão e asma”41, enquanto que no modelo “capiscêntricos”, tal como foi

designado na contraofensiva, a dependência química era tratada como um problema social e não como de saúde. A crítica seguia numa acusação de retrocesso científico:

Criou-se e fez-se funcionar uma estrutura dispendiosa caracterizada pela desmedicalização, estrutura especialmente criada para a reabilitação psicossocial de psicóticos crônicos, uma minoria de casos no universo dos pacientes psiquiátricos, promovendo assim a desassistência e o retorno a uma fase equivalente à fase policial e

religiosa da assistência ao doente mental. Na verdade, vem sendo

promovida a exclusão sem muros e sem tratamentos de muitas pessoas dependentes ou incapacitadas. Principalmente porque qualquer programa de assistência psiquiátrica que seja desvinculada da rede geral de assistência médica finda por se fazer estigmatizante e excludente (ABP, 2006: 21, grifos meus).

Entretanto, a reação mais incisiva ao desmonte dos aparatos psiquiátricos veio da Câmara dos Deputados. Alguns projetos de leis já se desenrolavam no Congresso há anos, como o pleiteado por Givaldo Carimbão (PSB/SE), no qual se retomava a necessidade de acirrar a repressão do tráfico de drogas, e o de Demóstenes Torres (DEM), sobre a retomada da internação compulsória para os consumidores de drogas. No ano de 2010, quando os leitos psiquiátricos haviam sido reduzidos pela metade, foi aprovada a PL n.7663, de autoria do deputado federal Osmar Terra (PMDB/RS), cujo projeto assegurava quatro pontos contrários ao processo de desconstrução da cultura psiquiátrica: o financiamento do Governo Federal às comunidades terapêuticas; a

39 Cf. Associação brasileira de psiquiatria et al. Diretrizes para um modelo de assistência integral em

saúde mental no Brasil. 2006.

40 Ibid. p. 43. 41 Ibid, p. 43.

91

internação compulsória ao dependente químico sem que ele ou o juiz autorize; estabelece também novos parâmetros que diferencia o usuário do traficante; prevê penas maiores aos traficantes de entorpecentes que são considerados mais danosos, como o crack.

Em resumo, as políticas antidrogas retomaram fôlego neste momento para reerguer equipamentos psiquiátricos em obsolescência, embora as conexões desta vez não tateiem mais no campo das “pessoas com sofrimentos psíquicos”, porque o estatuto deles já estava bem assegurado em leis precedentes, mas buscou-se retomar esse agenciamento na figura do usuário de drogas, aquele que se encontra no interstício entre o doente mental e o criminoso.

2.2 – Um discurso epidêmico: a mídia na gestão do enfrentamento às