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DEVġĠRME SĠSTEMĠ VE ENDERÛN

A. ENDERÛN’UN ÖĞRENCĠ KAYNAĞI: DEVġĠRMELER

"Le thérapeute doit négocier avec l'invisible". Tobie Nathan “Debaixo da pele o corpo é uma fábrica a ferver,

e por fora, o doente brilha, reluz, com todos os poros, estilhaçados”.

Antonin Artaud

A reforma psiquiátrica, no Brasil, marcou na década de 1980-90 a intensificação do debate sobre o tema da loucura e a problematização das formas de assistência aos doentes mentais. Passou-se a questionar as tecnologias de poder em instituições psiquiátricas brasileiras, cujo modelo asilar em confinamento seguia uma economia de poder das instituições disciplinares em franca decadência no mundo desde o período posterior à Segunda Guerra Mundial. Deleuze (2008 [1990]) entende que essa crise das práticas de confinamento, que marcaram as sociedades disciplinares, antes descritas por Foucault (2009a [1975]), anunciou um novo regime de dominação cujo modelo configurou-se no controle “ao ar livre” (Deleuze, ibid.: 219). As exigências colocadas em pauta com a luta antimanicomial no Brasil trouxeram inovações conceituais sobre o modo como a saúde é pensada no âmbito das políticas públicas. Mostrei momentos antes (cf. supra Capítulo 1.2) que até a virada dos anos 1990, as políticas assistenciais tinham como conceito chave uma ideia dicotômica de saúde/doença. Com a reformulação do setor da Saúde Pública e Coletiva, uma nova concepção de saúde passou a ser expressão das demais esferas da vida do sujeito, portanto, uma ideia positiva de saúde marcou as novas formas de assistência. As inovações práticas da Reforma Psiquiátrica também marcaram a configuração de um novo modelo de

155 assistência em meio aberto.

Procurei analisar em outros momentos (cf. supra Capítulo 1 e Capítulo 2.4) a cena de construção dos aparatos de saúde nos territórios, cujo modelo assistencial em

rede é resultado da reformulação conceitual, prática e política dos debates incorporados nas políticas públicas de saúde. O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) é um dos serviços estruturados no contexto deste novo paradigma de cuidado em saúde mental. Embora as reivindicações para um novo modelo de atenção tenham iniciado no final dos anos 1980, os desdobramentos concretos das lutas antimanicomiais só foram notados em 2001, com a homologação da Lei 10.216, quando foi consolidada uma política nacional de reorganização do modelo de atenção à saúde mental com investimentos voltados para construção de serviços comunitários e abertos. Os novos serviços dispersos nos territórios deveriam compor uma rede assistencial.

Esse novo modelo de atenção substituto às instituições de confinamento suscitou uma quantidade significativa de análises. Algumas pesquisas investigaram a sua organização do trabalho e os modos de produção dos serviços de saúde (Sartori 2010; Silva 2005), outras procuraram avaliar os efeitos práticos da descentralização na gestão do trabalho (Godoy 2009) e a política de financiamento no modelo de cogestão (Sartori 2015). A investigação que escolhi fazer, entretanto, busca entender como o modelo de atenção do CAPS AD contribui para produzir um cuidado dos usuários de drogas dentro da perspectiva de uma gestão intersetorial. Interessa-me, sobretudo, compreender tal equipamento como um aglomerado de saberes e técnicas, onde é trabalhada terapeuticamente a subjetividade dos sujeitosenredados. Por essa razão, viso entender como a perspectiva terapêutica e organizacional do CAPS AD colabora na produção de um cuidado desta população.

No capítulo anterior descrevi algumas articulações feitas pelo Consultório na Rua com diversos serviços da rede. Numa perspectiva intersetorial, o CAPS AD é o principal parceiro desta equipe já que o fluxo entre eles precisa estar sempre aberto para que o usuário encaminhado da rua encontre portas abertas para entrar no serviço que fará o tratamento. Grande parte dos esforços dos profissionais do Consultório na Rua é “conquistá-los”, fazendo a gestão dos riscos mais proeminentes, para, enfim, englobá- los nos aparatos de cuidadosNo CAPS AD, o sujeito já está enredado, isto é, ele já é um

caso. O propósito dessa equipe, entretanto, é mantê-los na rede, até que suas

156 dizem.

Procurarei nesse capítulo seguir o fluxo gerado no interior do equipamento dos sujeitos encaminhados ao CAPS AD. É preciso ainda informar que este dispositivo além de uma porta de entrada para a rede oferece também uma “saída”, por isso se diz que o sujeito é “devolvido à sociedade94”. Procurarei demonstrar descritivamente os

fluxos que levam o sujeito à “saída” e com isso viso oferecer uma análise de como é pensado o cuidado neste equipamento.

Veremos que também as ações no CAPS AD são calculadas entre os profissionais. Elas têm implicações muito concretas no processo terapêutico dos sujeitos, por isso, as ações visam auxiliá-los a cumprir metas diárias de seguir no propósito do que foi estabelecido em seu projeto terapêutico. Seguindo o fluxo interno do CAPS AD, procurarei expor o modo como ocorre o encaminhamento interno (Capítulo 4.1) quando o usuário entra no CAPS, para em seguida verificar como ocorre o processo de triagem (Capítulo 4.2), isto é, aqueles que ficam na rede e os que não foram retidos nesta malha fina, porque não possuem motivação suficiente para seguir o tratamento. Uma vez testadas as suas vontades, é hora de construir um projeto

terapêutico individual - PTI (Capítulo 4.3). Quando as metas do PTI são alcançadas, o sujeito recebe a alta médica, sendo que este é o aval que lhe permite finalizar o tratamento. E, por fim, levanto a questão da internação compulsória (Capítulo 4.4).

Algumas ressalvas devem ser pontuadas antes de seguir numa análise intersetorial do CAPS. Como já mencionei, neste dispositivo concentram-se técnicas e saberes provenientes de outros campos, assim como o Consultório na Rua também agrega matérias terapêuticas e tecnologicas de outros cantos. Em momentos antes (cf. supra Capítulo 3, Capítulo 2.4), mostrei a disseminação do léxico psicanalítico em diversos outros dispositivos assistenciais no campo da saúde mental e também na assistência. Por essa razão, as tecnologias terapêuticas empregadas no CAPS não se encerram nele, apenas as atravessam, de modo que só podem ser compreendidas dentro de uma conjuntura mais ampla na qual se efetiva um governo pautado em formas de controle em meio aberto, como já notou Deleuze (2008 [1990]), e dentro da qual uma nova concepção de sujeito individualizado pode ser formulada.

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Outro aspecto importante a ser mencionado, é a substituição do termo paciente por usuário. A emergência do vocábulo ocorre num momento político de críticas às relações de poder entre médicos e pacientes, cenário este que configurou uma das pautas da Reforma Psiquiátrica. A distinção entre um termo e outro marca uma relação de poder entre o paciente subjugado ao médico, aqui ele é sujeito passivo. Já o usuário remete a um contexto de mercado, o sujeito é cliente ou consumidor dos serviços de saúde. Este aspecto é particularmente importante, como já notou Sartori (2015), para se compreender como é pensada a “ressocialização” e a restituição de suas autonomias.