A observação participante é aquela que combina observação direta, a análise de documentos e entrevista intensiva, demonstrando um grande envolvimento do
pesquisador com a situação pesquisada. Essa triangulação de dados é que diferencia a observação participante da apenas observação direta.
Entenda-se a observação participante como uma investigação que se caracteriza por um período de interações sociais intensas entre o investigador e os sujeitos em relacionamento no mesmo ambiente, durante o qual os dados são recolhidos de forma meticulosa. Sendo assim, é um trabalho de campo que começa com a chegada do pesquisador na cena a ser pesquisada, realizando negociações que lhe garantem certa interação com os sujeitos da pesquisa até o momento em que o pesquisador sai de cena, abandonando o local de pesquisa rumo à análise dos dados. Todo esse percurso realizado pelo etnógrafo torna-o partícipe das atividades por ele analisadas.
Assim, a observação participante não é de todo objetiva, pois o que se observa e como se observa a situação investigada tem relação com a bagagem cultural de quem observa. Dizemos isto porque o observador seleciona o que vai olhar, priorizando determinados aspectos da realidade e interpretando-os a partir de sua formação sociocultural. Nesse caso, Ludke e André (1983, p.25) questionam: “Como então confiar na observação como um método científico?” a resposta está no desenvolvimento de uma observação controlada e sistemática, ou seja, planejar a observação determinando com antecedência o quê e o como observar, de tal modo que sejam definidos os focos da observação e a melhor forma de captá-los.
A combinação de diferentes métodos de geração de dados, tais como a observação direta (no habitat natural dos acontecimentos), a entrevista (capta as explicações e interpretações dos envolvidos no grupo), a análise de documentos e as gravações em áudio e/ou vídeo que ajudem a compreender o fenômeno investigado, é uma maneira de obter um quadro mais completo e vivo do assunto pesquisado, dirimindo as possíveis ambiguidades. A observação participante exige um olhar atento ao contexto e a tudo que acontece no espaço observado. Faz-se uma observação sistemática das práticas sociais, sobretudo, porque para Erickson (1989), não podemos confundir a observação como técnica de geração de dados com a metodologia de observação participante. A primeira faz descrição de situações, ambientes, pessoas ou da mera reprodução de suas falas e de seus depoimentos. Enquanto que a segunda busca descrever os significados de ações e interações, segundo o ponto de vista de seus atores. Isso significa dizer que a etnografia centraliza-se na descrição dos sistemas de significados culturais dos sujeitos estudados, indo além da simples descrição.
André (1997) caracteriza a observação como a segunda fase de uma pesquisa etnográfica, pois primeiro se faz um amplo estudo da literatura relacionada ao tema a ser estudado que, por sua vez, vai gerar as perguntas e os questionamentos que conduzirão a geração de dados. Portanto, nessa segunda fase é onde acontece o trabalho de campo propriamente dito, que envolve a observação direta e intensiva e as estratégias que visam captar as opiniões e representações dos atores sociais. André (1997, n.p.) enfatiza ao dizer: “É o momento de fazer as mediações entre a teoria e a experiência vivida em campo, de dialogar com os referenciais de apoio, de rever princípios e procedimentos e fazer os ajustes necessários.” Essa mediação entre teoria e construção dos dados só é possível quando o pesquisador adota uma postura que sabe ver e ouvir atentamente, registrando o mais fielmente possível todas as informações pertinentes ao seu objeto de estudo e relacionando-as com as teorias que sustentam a investigação. É, portanto, a ligação entre teoria e dados in loco que dá condições ao etnógrafo de realizar uma descrição interpretativa. No desenvolvimento da observação participante, Ludke e André (1986) apontam três fases: exploração, decisão e descoberta. Na primeira, temos a escolha do local a ser observado, a seleção e definição do problema investigado, estabelecendo os primeiros contatos para a entrada em campo. Na etapa da decisão faz- se uma busca sistemática dos dados que o pesquisador já selecionou como mais importantes, escolhendo aqueles que melhor respondem as questões de pesquisa. No terceiro estágio, o pesquisador situa as várias descobertas da investigação num contexto mais amplo, promovendo explicações e encontrando princípios do fenômeno estudado. Nesse percurso, o pesquisador/observador é o sujeito fundamental de geração e análise dos dados, conduzindo a investigação ao registrar, descrever, interpretar e analisar as descobertas, auxiliado por procedimentos e técnicas.
Sabendo que a observação participante já envolve a entrevista e a análise de documentos, ressaltamos o uso da entrevista semiestruturada a ser realizada com formadores e cursistas do curso de formação. Além disso, também serão coletados os projetos escritos do cursos de formação de educomunicadores e planos de aula enquanto documentos que carregam em si discursos sobre a prática educomunicativa a ser ensinada pelos professores/formadores. Isso porque compreender a construção dessa prática educomunicativa na sala de aula e na voz dos alunos perpassa também pelo entendimento dos objetivos pretendidos pelos cursos, por isso, recorrer aos projetos norteadores dos cursos como dados de análise contribuem para o entendimento de nossos questionamentos.
Ao desenvolver o processo de observação participante são muitos os dados a serem coletados, portanto, além de fazermos uso de técnicas de coleta complementares, tais como a entrevista e análise de documentos, é preciso estabelecer instrumentos técnicos de coleta que auxiliem o pesquisador no registro das informações. Dentre esses instrumentos destacamos: o diário de campo e a gravação em áudio.
O diário de campo é o instrumento que permite ao pesquisador anotar aquilo que é visto e ouvido no contexto estudado. Esse instrumento é indispensável para concedermos uma estrutura narrativa às cenas discursivas. Com o diário de campo faz-se o registro de cada dia da observação, oportunizando uma leitura cuidadosa a posteriori, com o intuito de estabelecer escolhas e direcionamentos das narrativas e de outros dados, conforme os objetivos e questões da pesquisa. Esse suporte escrito dá a observação maior sistematização no processo de descrição de sujeitos, locais, atividades realizadas e interações.
O diário de campo apresenta tanto anotações descritivas quanto reflexivas. A primeira busca atingir o máximo de fidelidade no relato descritivo dois comportamentos, atitudes, discursos e ações dos sujeitos. Mas é importante destacar que, apesar de realizarmos um trabalho descritivo dos sujeitos, meio físico e atividades específicas do curso de formação, nos deteremos na descrição e análise dos discursos emitidos seja em sala de aula seja nas entrevistas realizadas. Em relação às anotações reflexivas, consistem comentários críticos do próprio observador em torno do material que está sendo coletado. Tais lampejos interpretativos já se configuram como o início de uma análise mais detida posteriormente.
Mas vale ressaltar que, como o nosso objeto de análise são os discursos de professores e alunos em torno da prática educomunicativa na rádio Escolar, faz-se necessário o uso do gravador de voz para conseguir capturar fielmente o que é enunciado nas aulas/encontros, bem como para a realização das entrevistas junto aos cursistas. Sendo assim, o registro das nossas observações se dará a partir da combinação das anotações escritas (diário de campo), gravação em áudio dos encontros de formação e das entrevistas. Faremos uma triangulação, mediante as diversas técnicas de construção dos dados a fim de encontrar caminhos que nos ajudem a responder aos questionamentos do estudo. Sobretudo, porque a etnografia abre espaço para uma variedade de técnicas de coleta de dados, buscando saber sobre as pessoas e seu modo de vida, pensando essas técnicas de forma que uma complemente a outra para que a construção dos dados seja rica em detalhes por contemplar diversos aspectos e olhares no processo de investigação.
Segundo Lüdke e André (1986, p. 1), “para se realizar uma pesquisa é preciso promover o confronto entre os dados, as evidências, as informações coletadas sobre determinado assunto e o conhecimento teórico acumulado a respeito dele.”
Após este intensivo trabalho de observação, o desafio do pesquisador é tentar organizar todos os dados como num quebra-cabeça. Nesse sentido, realizaremos uma descrição interpretativa das cenas discursivas de cada encontro, destacando os sentidos que são dados à prática educomunicativa, remetendo-os ao contexto mais amplo da educação do século XXI. Essa articulação entre o específico e o geral significa dizer que os dados são analisados na perspectiva de um olhar hermenêutico, partindo de uma interpretação contextualizada e historicizada. Assim, paralelamente à nossa observação temos a interpretação, já que selecionaremos do contexto o que há de significativo em relação à elaboração teórica que estamos realizando.
Além disso, sobre a pesquisa etnográfica aplicada ao contexto escolar, concordamos com André (2005) quando afirma:
[...] o que faz um etnógrafo não é um retrato – ou uma reprodução – da realidade, mas uma interpretação, a sua interpretação da realidade, ou seja, a descrição etnográfica é marcada pelos traços distintivos do pesquisador – idade, sexo, cor, classe social, instrução. Não é, portanto, isenta de valor. (ANDRÉ, 2005, p.117)
Assim sendo, no desenvolvimento de uma pesquisa etnográfica, com observação participante, exige-se do pesquisador um olhar para dentro de si mesmo, percebendo-se também enquanto sujeito da pesquisa, participante de um mundo a ser desvelado, revelado, apreendido, analisado e interpretado. A nossa pesquisa etnográfica situa-se na discussão do saber sobre a prática educomunicativa, do saber fazê-la e do saber estar nessa prática no interior da ação docente e discente. Por isso, faz-se necessária uma observação participante que capture os discursos enunciados por formadores e cursistas, mas que também descreva os significados dos procedimentos de uso da linguagem no rádio porque esses usos também constituem sentido para compreendermos o que é a prática educomunicativa para esses sujeitos. Portanto, a fim de melhor capturar os dados, adotamos o papel de “observador como participante”, caracterizado por Junker (1971), como aquele que revela ao grupo pesquisado as intenções de sua pesquisa, recorrendo à cooperação dos pesquisados no acesso as informações.