O espaço educativo nos acampamentos do MST se consolida na estrutura do Estado como “experiência pedagógica”, pelo Parecer nº 1.313/96, que foi aprovado em 19 de novembro de 1996, reconhecendo a Escola Itinerante nos acampamentos do MST, para, com isso, regularizar o processo de escolarização realizado pelos Sem Terrinha em uma área provisória de produção da vida material e cultural. O reconhecimento da Escola Itinerante foi um ato político do Governador do PMDB Antônio Brito (1995-1999). Este ato representou a ocupação da escola do MST nos marcos da legalidade burguesa.
Com a perinidade da escola, a EI, pelo seu caráter de “itinerância”, necessita de uma escola que sirva de sede às ações administrativas e pedagógicas. No documento oficial de criação da escola, a escola sede está denominada de escola-base, sendo uma escola pública em área de assentamento. É, portanto, uma escola com forte vínculo com o MST. Neste sentido, Weide assim nos apresenta o projeto “experiência pedagógica – Escola Itinerante”:
A estrutura e o funcionamento desse Projeto diferenciado da escolarização dos Acampamentos de Sem-Terra, é efetivada através de ligação entre a escola-base - Escola Estadual de 1º grau Nova Sociedade, em Nova Santa Rita e a(s) escola(s) Itinerante(s) localizada(s) no(s) Acampamento(s). Sendo que ‘o papel, da escola
base, articulada com a Delegacia de Ensino, Secretaria de Educação e Comissão Interinstitucional é de acompanhar e dar suporte legal à vida escolar dos alunos e professores’ (Parecer 1.313/96, p.05). (WEIDE, 1998, p. 120-121).
E como funciona esta escola? Neste caso, trazemos a contribuição de Pieri, para quem,
A Escola Itinerante está organizada em etapas o que a diferencia das escolas regulares, pois ela não tem uma época pré-determinada para iniciar suas atividades escolares. O período letivo inicia quando o Acampamento é constituído e cada etapa
possui objetivos e conhecimentos próprios a serem detalhados ao longo do processo. (PIERI, 2002, p. 91).
Portanto, a organicidade da escola se dá na constituição do acampamento, pois a situação de acampados traz o deslocamento de famílias de Sem Terra para o território do MST em construção. Assim, diante das incertezas da vida, a escola do MST é erguida junto com o acampamento, como processo de pertencimento ao movimento, mas se consolida como escola pública na estrutura de Estado, que possui uma organização administrativa para seu funcionamento. Neste sentido, Weide, com base no Parecer do CEED, traz a organização administrativa e o fazer pedagógico, conforme segue:
A organização Administrativa assim está constituída:
a) diretor da Escola-Base vale-se da administração participativa. Oportuniza a articulação com a equipe dos professores da Escola Itinerante e da 27ª Delegacia de Educação. Visa o pleno desenvolvimento da presente proposta e a inclusão da Escola para o repasse de recursos trimestralmente;
b) a secretaria da Escola-Base mantém organizada a escrituração e o arquivamento dos dados referentes a vida escolar do aluno e a vida funcional dos professores; c) o Supervisor e o Orientador da Escola-base e da Delegacia de Ensino acompanham o desenvolvimento da proposta e assessoria aos professores para o bom desempenho docente;
d) o professor coordenador da Escola Itinerante, além da docência, responsabiliza-se pela organização escolar e pela articulação da equipe de Educação do MST;
O fazer pedagógico é construído no cotidiano da Escola. A vivência da metodologia participativa é efetivada através:
a) do colegiado da direção, que estabelece linhas comuns de ação procurando unir a teoria com a prática;
b) das assembléias, onde os professores, os pais, os alunos e a equipe da Educação dos Acampamentos de Sem-Terra, têm voz e voto no debate e na tomada de decisões sobre os problemas da aplicação do Projeto pedagógico, bem como, no estabelecimento de regras de convivência e de programação das atividades; (WEIDE, 1998, p. 121).
Percebe-se, nas palavras de Weide, a presença do MST na organização da Escola Itinerante. Traz, portanto, a responsabilidade do MST na caminhada histórica da construção da escola nos acampamentos dos Sem Terra. Para o MST, portanto, organizar a Escola, tendo o Estado burguês como parceiro não significa a submissão ao Estado, mas uma ação pedagógica no âmbito do direito à educação com uma escola conquistada e, portanto, uma escola com determinados objetivos e práticas escolares que são desenvolvidas pelo Setor de Educação do MST. Neste caso, o MST necessita da escola do Estado para alfabetizar as crianças e assegurar a escolaridade dos educandos no seu processo de formação, além de certificar os alunos nas etapas cursadas. Garantir o processo de certificação faz com que o
MST busque na estrutura do Estado burguês a escola que necessita, mas, para o MST, esta escola deve ser diferente, deve ser uma escola conectada com a vida e o trabalho e isto se faz trazendo os elementos da realidade como proposta de ensino, pois o fazer pedagógico novo só tem sentido se unir as atividades de ensino à vida e à luta por terra no centro do MST. Criar as estruturas para o fazer pedagógico exige um processo de formação no qual os vícios da escola centrada na avaliação, como processo de classificação e exclusão, precisam ser desconstruídos entre os educadores da escola que o MST está construindo como educação do campo. Dentre elas, a Escola Itinerante, como escola pública nos marcos da educação do campo. Que, portanto, possui objetivos para sua materialidade.
Weide traz os objetivos da Escola Itinerante, apontando o caminho da escola diferente dessa forma
O objetivo geral da Escola Itinerante é oferecer às crianças e aos adolescentes das comunidades acampadas o acesso a Educação através de uma metodologia diferenciada, correspondente ao Ensino Fundamental de 1ª a 5ª série. Em termos de objetivos mais específicos, a Escola Itinerante deseja:
- articular ações conjuntas com os órgãos e instituições envolvidas com questões educacionais dos Acampamentos de Sem-Terra;
- divulgar a proposta pedagógica e implantá-la de forma adequada à realidade dos Acampamentos de Sem-Terra;
- desenvolver ações pedagógicas diversificadas e envolventes a partir dos interesses, das necessidades e dos níveis de conhecimento das crianças, dos adolescentes e dos jovens;
- proporcionar ao aluno oportunidades para construírem-se como seres capazes de compreender e interpretar o processo histórico, analisando, comparando, interpretando e transformando a realidade. (WEIDE, 1998, p. 119).
Isto posto, Bezerra Neto, em sua pesquisa sobre o processo de aprendizagem do MST, portanto, da educação diferente no território do MST, nos traz que
A educação do movimento difere da forma ‘tradicional’ de ensino, principalmente porque, nas escolas dos assentamentos e acampamentos, o ensino está baseado na relação educador-educando, sendo seu principal objetivo a socialização (repasse/apreensão) dos conhecimentos que vão sendo historicamente produzidos e acumulados, de modo que se constituam também em saber para os educandos. (BEZERRA NETO, 1999, p. 68).
O RS, neste sentido, faz uma história da educação pautada pelos movimentos sociais, em particular o MST, pois se estabelece uma escola pública em área de ocupação do latifúndio. A EI se estrutura como projeto de “experiência pedagógica”, mas ganha a dimensão da escola conquistada pelo MST, estruturada pela Secretaria de Estado da Educação em parceria com o movimento, se articula na democracia e nos valores educacionais em que o
MST se funda, cuja essência é o ecletismo, mas um ecletismo que se funda nas pedagogias populares e na pedagogia do trabalho como princípio educacional.
No final do governo de Olívio Dutra (1999 a 2002), do PT, o CEED, em 17 de dezembro de 2002, por meio do Parecer nº 1.489/2002, “nas escolas dos acampados do Movimento dos Sem Terra, no RS, aprova o Regimento Escolar da Escola-Base e Aprova o Regimento Escolar dos Cursos Experimentais”. (CEED/RS, 2002). Ou seja, desqualifica a escola constituída como Escola Itinerante, marca símbolo do MST, que se expandiu para os demais Estados da federação. Camini, em entrevista concedida a Samir Oliveira, fez referência a
[...] tensão entre uma exigência que o Estado faz para a escola se enquadrar nos moldes hegemônicos e a tensão entre querer mudar isso e transformar a escola. É uma briga permanente, porque o sistema capitalista tem a escola como uma instituição que o reproduz, que forma pessoas para sua continuidade e que estejam em conformação com ele. [...] (CAMINI, 2014).
Dessa forma, a Escola Itinerante, no RS, sofreu a primeira derrota, que foi a perda da identidade, em pleno governo petista. Nas lutas de classes, a escola, como aparelho ideológico de Estado e de reprodução social da ordem burguesa, no Estado dirigido pelo governo ligado ao latifúndio não poderia tolerar a existência de uma escola pública em acampamentos do MST. Diante disso, em 2009, o governo de Yeda Crusius, do PSDB, juntamente com o Ministério Público, lançou uma ofensiva contra as Escolas Itinerantes no Estado, fechando-as totalmente. Sobre este fato, Camini, quando entrevistada por Samir Oliveira em 17 de março de 2014, disse que
O MST em 2008 e 2009 já vinha sendo fragilizado. Ele fazia ocupações e o governo mandava a Brigada Militar. Começou uma perseguição tão forte do governo do Estado ao MST que não teve como segurar todas as famílias acampadas. Muitas eram recentemente chegadas, vindo das periferias urbanas, sem ter tido tempo de formação e de militância que as assegurasse lá dentro. Isso foi criando um temor muito grande em muitas famílias, que acabaram saindo dos acampamentos e voltando para as periferias das grandes cidades. O movimento começou a se fragilizar por conta disso.
Cada ataque que o governo fazia, muitas famílias não aguentavam porque não tinham a mística e uma militância que os assegurasse naquela condição. A vida num acampamento é dura, é sofrida. O Estado pisou na questão mais importante que o movimento tinha, que era a escola. À medida em que o governo retira o direito à escola itinerante e, ao mesmo tempo, o conselho tutelar obrigava a criança a estar na escola, muitas famílias voltavam a suas comunidades de origem, a maioria nas periferias urbanas.
Logo em seguida, na retomada do ano letivo de 2009, ao mesmo tempo em que a Brigada Militar ia nos acampamentos, o conselho tutelar estava lá para, junto com a BM, prender os pais que não mandavam as crianças de transporte escolar ou a pé por sete quilômetros até uma escola que a secretaria havia indicado. Então eles viveram
uma tensão grande em que muitas famílias pegaram seus filhos e foram para a casa de um amigo, de um compadre, de um irmão. (CAMINI, 2014).
Neste ato de fechamento das escolas itinerantes, o Estado gaúcho, dirigido por neoliberais, não levou em consideração os dados do processo de escolarização apresentados pela escola-base das EI, no RS, a Escola Estadual de ensino fundamental Nova Iguaçu nos seus doze anos de legalidade (1996-2008). De acordo com Camini (2009), 4.601 educandos passaram pelas salas de aulas das Escolas Itinerantes. Também não levou em consideração em 2008, que havia 320 educandos nas 8 escolas itinerantes existentes no Estado gaúcho. Nem o fato das crianças estudarem próximas aos barracos, livres dos preconceitos por sua condição social de Sem Terra e pela pobreza. Ao terminar o ano de 2008, terminou a “experiência pedagógica” da Escola Itinerante no Rio Grande do Sul, por perseguição política ao MST, pois a ação policial nos acampamentos estava presente para impedir a existência das escolas públicas nos acampamentos do MST.
Por isso é bom lembrar o que Saviani escreveu sobre a escola no Estado capitalista. Para ele,
A escola é apresentada, então, como um aparelho a serviço dos interesses da classe dominante, cumprindo a função de reproduzir as relações sociais de classes pela imposição da ideologia dominante e pelo preparo dos indivíduos para ocupar os postos que lhes são destinados pela estrutura da sociedade de classes. (SAVIANI, 2005, p. 251).
O entendimento da instituição escolar como força social reprodutora da sociedade Camini tem presente, pois ela escreveu que, “desde o surgimento da sociedade de classes, entre proprietários de terra e os não-proprietários, para manter-se, continuar se atualizando e ‘educar’ os trabalhadores para a sujeição, a classe dominante criou a instituição escolar e a encarregou da tarefa de sua reprodução”. (CAMINI, 2009, 113). Os pilares de que nasceu a escola itinerante, na sua objetividade, não atendiam aos preceitos do latifúndio, por isso, o Estado, sob o governo neoliberal e na defesa do latifúndio reagiu às escolas do MST, fechando-as em seu território.