A escola que nasceu nas lutas por RA, que produz conhecimentos sobre suas atividades didáticas-administrativas, também nasceu em Santa Catarina. Em SC, a Escola Itinerante nasceu das lutas sociais engendradas nas lutas por terra. Sua marca já estava constituída no RS e no PR como escola pública nos acampamentos do MST. Ela também tem uma escola-base como processo de centralidade administrativa. A escola-base e a Escola Estadual 30 de outubro, que está localizada no assentamento Rio dos Patos, no município de Lebon Regis. A EI nasceu sob a lona preta como estrutura física, mas com a leveza que o MST consegue implementar no seu processo pedagógico. Na sua luta, a EI também nasceu em SC como “experiência pedagógica”, conforme nos traz Puhl,
Segundo informações coletadas no Setor Estadual de Educação do MST no Estado de Santa Catarina, as Escolas Itinerantes foram aprovadas como ‘experiência pedagógica’ no dia 21 de setembro de 2004 pelo Conselho Estadual de Educação, sob o parecer nº 263. (PUHL, 2008, p. 39).
Neste caso, também nasce como escola pública, mas já tinha existência como escola do MST no acampamento. Como toda escola do acampamento, ela tem existência real como escola do acampamento. Como EI, ela se enquadra na escola pública, com um projeto pedagógico ligado à escola-base, que tem a legalidade estatal por ser aprovado pela SED. Neste sentido, Puhl nos traz que,
Legalmente, foi em 21 de fevereiro de 2005 que tiveram início as aulas nos acampamentos, muito embora, segundo consta no projeto político pedagógico (ppp), desde as primeiras ocupações do MST no Estado, a partir de 1985, iniciava-se uma crescente demanda por escolas nos acampamentos e, diante disso, logo iniciaram as primeiras experiências escolares nesses locais, mesmo sem seu reconhecimento legal. (PUHL, 2008, P. 39-40).
O projeto foi aprovado no governo de Luiz Henrique da Silveira, do PMDB (01/01/2003 a 09/04/2006). Reconhecida como “experiência pedagógica” a escola pública no acampamento do MST, denominada de Escola Itinerante, consolidou as atividades pedagógicas desenvolvidas desde o ano de 1985, quando das primeiras ocupações de terras realizados pelo MST no Estado de Santa Catarina. O fato a ser destacado na organização das Escolas Itinerantes em Santa Catarina é que sua legalização se deu na estrutura das escolas do MST existentes no acampamento, conforme nos traz Camini que “em 21 de fevereiro de 2005, houve um ato oficial de abertura das escolas itinerantes, na estrutura já existente nos acampamentos, sem que elas houvessem recebido os materiais previstos no projeto”. (CAMINI, 2009, p. 149). Mori chama a atenção quanto a ser um reconhecimento parcial:
Se houve o reconhecimento de uma Escola Itinerante pelo poder público, diria que este reconhecimento é parcial, assim como a legalização. Ao mesmo tempo em que o Estado legaliza a escola deixa-a em situação ilegal, ou seja, houve uma legalização da Escola, porém o atendimento educacional a esta população continua incompleto. (MORI, 2006, p. 16).
Diante disso, Camini afirmou que
Bem maior do que a luta pela sua legalização, no entanto, tem sido o empenho para que os órgãos públicos responsáveis cumpram sua obrigação de viabilizar as condições para o funcionamento. Conforme destacam os educadores, “a relação com o Estado é complicada, uma vez que não nega a resolver as questões de sua responsabilidade, porém, na prática, não encaminha o que solicitamos: repasse de verbas, merenda, lonas, materiais didáticos, formação de educadores, entre outros”. (CAMINI, 2009, p. 149).
Notamos nestas atenções as dificuldades impostas à realidade do acampamento pela negação do Estado em cumprir com sua responsabilidade educacional, fazendo cumprir o direito à escola das crianças em conformidade com as leis. Sua constitucionalidade também se dá dentro de políticas públicas de inclusão educacional, garantido a oferta somente para as quatro séries iniciais do ensino fundamental, mas sem as condições materiais para que a Escola Itinerante pudesse efetivamente cumprir com sua função social. Dentro da lógica criada no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina também se manteve as normas de funcionamento pedagógico, administrativo e financeiro, além do controle da EI por meio de uma escola-base, tal qual o RS e o PR, conforme se lê no site da Secretaria de Estado da
Educação de Santa Catarina,
As Escolas Itinerantes em funcionamento no Estado, sob o Parecer nº 263, aprovado em 21/09/2004, são resultado de uma política pública educacional inclusiva e de qualidade, e de mais uma conquista da luta dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Isso significa a garantia do direito à educação das crianças acampadas a partir de um processo de escolarização que compreende a realidade e as necessidades dessas crianças. O Parecer autoriza o funcionamento da Experiência Pedagógica de Escola Itinerante, para oferta de 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental, mantida pelo Estado de Santa Catarina, através da Secretaria Estadual de Educação. Está localizada no Assentamento Rio dos Patos (30 de outubro), no Município de Lébon Régis/SC, vinculada à Gerencia de Educação de Caçador. (SANTA CATARINA, 2009).
Sobre o reconhecimento das Escolas Itinerantes pelo CED, Puhl observou que, “no que se refere à formulação de suas próprias propostas pedagógicas, as Escolas Itinerantes de Santa Catarina encontram-se em processo de reelaboração de seu projeto político-pedagógico, o que é, inclusive, uma exigência para sua aprovação definitiva pelo Conselho Estadual de Educação”. (PUHL, 2009, 42-43).
No verbete “Escolas Itinerantes”, elaborado por Salomão Mufarrej HAGE, encontramos uma definição abrangente:
A Escola Itinerante foi criada no âmbito do Movimento Sem-Terra, para garantir o direito à educação das crianças, adolescentes, jovens e adultos em situação de itinerância, enquanto estão acampados, lutando pela desapropriação das terras improdutivas e implantação do assentamento. É uma escola que está voltada para toda a população acampada, pois os acampamentos são formados por famílias que foram excluídas da terra, do processo produtivo e de todos os seus direitos, inclusive o de estudar. Em âmbito nacional, a Escola Itinerante como política pública existe em seis estados: Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Alagoas, Piauí e Goiás. (HAGE, 2010, p. 1).
Nas lutas sociais pela educação desenvolvidas na região sul do Brasil, o MST soube ocupar e conquistar a escola para o seu território, mesmo em itinerância. A estratégia do MST está na ocupação da terra e, com ela, na ocupação também da escola para assegurar os direitos básicos à vida, como trabalho e educação dentro de uma singularidade, cuja categoria central é “imprevisibilidade”. Conforme Puhl,
[...] dentre os elementos que configuram a singularidade do contexto no qual se situam as Escolas Itinerantes do MST, o aspecto que se refere à imprevisibilidade deve ser enfatizado, pois, além de se encontrarem em uma situação provisória ─ o acampamento ─, essas escolas lidam com a necessidade do improviso muito mais do que uma escola com estrutura física fixa. [...]. (PUHL, 2008, p. 65).
No acampamento, portanto, a EI se materializa por meio da teimosia de seus sujeitos, que vivem a precariedade e o apartheid social imposto à sociedade pela política-social do latifúndio.