A internação (art. 112, VI, do ECA) ganha uma dimensão diferenciada para o presente trabalho, uma vez que a análise das decisões judiciais do ato infracional análogo ao
tráfico de drogas destaca exatamente a aplicação da medida socioeducativa mais gravosa, identificando a fundamentação dos Tribunais de Justiça para a aplicação tão reiterada de uma medida considerada pelo Texto Constitucional de 88 como medida excepcional. Delinear-se- ão, a seguir, os principais aspectos que constituem a medida de internação no ordenamento jurídico nacional e internacional, sobremaneira no que tange ao seu caráter expressamente excepcional e aos seus objetivos - declarados e não declarados - no Texto Constitucional de 88, no ECA e nos documentos internacionais que versam sobre a privação da liberdade do adolescente em conflito com a lei.
A medida socioeducativa de internação configura-se, indubitavelmente, como a medida mais grave e complexa das medidas socioeducativas insculpidas no Estatuto da Criança e do Adolescente quando da prática de ato infracional. Prevista nos artigos 121 e seguintes do ECA, a internação impõe grave limitação à liberdade do adolescente, sendo executada em estabelecimento destinado especificamente à contenção dos adolescentes em conflito com a lei. Em face de sua natureza extrema e segregadora, a medida de internação precisa observar estritamente os princípios da brevidade, da excepcionalidade e do respeito à condição peculiar do adolescente como pessoa em desenvolvimento. Ressalte-se que esses princípios são mandamentos constitucionais trazidos pelo artigo 227, §3, inciso V, da Constituição Federal de 1988 78.
Para Moraes e Ramos (2010, p. 844), a internação precisa ser breve, significando que ela deve alcançar o menor período possível da vida do adolescente, o qual está em processo intenso de formação e tem no seu direito fundamental à liberdade um dos mais relevantes fatores para a construção de seu caráter e de sua subjetividade. “A vida em sociedade, os direitos de expressão, de se divertir e de participação da vida políticas são exemplos da importância do gozo da sua liberdade, em um momento singular da sua existência” (MORAES; RAMOS, 2010, p. 844). Efetivamente, a adolescência constitui a menor fase da vida, já que compreende a idade entre doze e dezoito anos, e representa o momento mais intenso de construção da subjetividade humana. Emerge, por isso, a
78“Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (...) § 3º - O direito a proteção especial abrangerá os seguintes aspectos: (...) V - obediência aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, quando da aplicação de qualquer medida privativa da liberdade.” BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ConstituicaoCompilado.htm>.Acesso em: 28 mar. 2015.
preocupação do legislador com a limitação do tempo de internação, expressa no §3 do artigo 121 do ECA: “Em nenhuma hipótese o período máximo de internação excederá a três anos”. Frise-se que três anos representa a metade do período correspondente à adolescência.
Do Princípio da Brevidade decorre o mandamento constitucional no sentido de estabelecer que a privação de liberdade deve persistir pelo menor tempo possível, somente devendo manter-se até um limite máximo de três anos e com revisões periódicas ao mesmo a cada seis meses, até um juízo de que o adolescente faz-se apto ao retorno do convívio social (SARAIVA, 2010, p. 173)
Saraiva (2010, p. 173) também insere o respeito ao Princípio da Brevidade da medida de internação na necessidade de não se criar um processo de “etiquetamento” social do adolescente em conflito com a lei. Para o autor, há um risco grave de a privação de liberdade forjar no adolescente o reconhecimento “no lugar de infrator”, produzindo sequelas de superação nada simples para o adolescente. É inevitável, de fato, que o internamento de adolescentes em estabelecimentos destinados a infratores produza sobre esses sujeitos, em diversas perspectivas de suas vidas, a estigmatização e o etiquetamento social, que, historicamente, fazem parte das funções do sistema carcerário de modo geral, conforme analisado no Capítulo I do presente estudo monográfico.
Quanto ao respeito ao Princípio da Condição Peculiar de Desenvolvimento do adolescente, Moraes e Ramos (2010, p. 845) identifica que tal princípio traz uma ótica multidisciplinar sobre o comportamento diferenciado do adolescente enquanto sujeito de direitos, na medida em que ele realça as especificidades desse sujeito em relação ao adulto e impõe que sejam levadas sempre em consideração na aplicação da medida extrema de internação suas condições peculiares psíquicas, físicas e emocionais. Saraiva (2010, p. 172) assinala que o princípio da condição peculiar de desenvolvimento relaciona-se com a etapa “extraordinariamente importante na construção do ser humano”, em que “o tempo do adolescer tem um valor distinto do tempo da vida adulta”.
O princípio da excepcionalidade, que será tratado de modo mais detido em seguida, em função de o mesmo ser parâmetro fundamental de análise na tecitura do terceiro capítulo, perfaz-se a tríade principiológica que orienta a aplicação da medida socioeducativa mais gravosa e extrema. Em síntese, referido princípio assevera que a medida de internação é a exceção, quando não se visualizar medida adequada em meio aberto (já que a liberdade é a regra), devendo ser aplicada estritamente em casos extremos previstos em lei.
Conforme estabelece o ECA, a internação poderá se dar em três momentos processuais diversos, conforme suas diversas finalidades: um anterior à prolação da sentença, denominada de internação provisória, outro que lhe é simultâneo, denominado de internação
definitiva, e um terceiro que lhe é posterior, denominada de “internação-sanção”, que deriva do não cumprimento de medida mais branda anteriormente aplicada.
Analisada a medida de internação de modo geral, à luz dos postulados do ECA, analisar-se-ão, em seguida, os aspectos sensíveis e relevantes da medida extrema para a construção do Capítulo III do presente trabalho, a saber: a taxatividade das hipóteses de internação no artigo 122 do ECA; o Princípio da Excepcionalidade e a privação de liberdade como ultima ratio da doutrina da proteção integral; e, por fim, o "Princípio do Superior Interesse do Adolescente" e a medida de internação. Ressalte-se que, no próximo capítulo, tais aspectos serão analisados em face das decisões judiciais que decidem pela internação dos adolescentes em caso da prática de ato infracional análoga ao tráfico.
2.8. A Taxatividade das hipóteses de Internação no artigo 122 do ECA: afastando-se o