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As inundações são processos naturais. A urbanização modifica as dinâmicas dos sistemas hidromorfológicos e traz a dimensão social desses eventos, que passam a ser considerados situações de desastres.

Os prejuízos causados pelas inundações afetam a população em vulnerabilidade social urbana e a acumulação econômica. Dessa forma, medidas são implementadas para controlar as inundações e evitar que causem transtornos e prejuízos. Segundo Tucci (1993) as medidas de controle de inundação são classificadas em estruturais e não estruturais.

As medidas estruturais buscam reduzir os riscos das inundações e alteram o sistema fluvial através da construção de obras de engenharia. São classificadas como intensivas e extensivas.

As intensivas constituem-se em obras de macrodrenagem executadas para acelerar, reter ou desviar o escoamento das águas do rio — retificação, canalização, reservatórios de amortecimento dos picos de cheia, desvio de canais e diques —, modificando diretamente o canal fluvial. São medidas com caráter corretivo que apenas minimizam o problema, não tratando suas causas. Apresentam altos custos de implantação e manutenção, investimentos concentrados e são pouco eficientes a médio e longo prazo. E ao minimizar as inundações a curto prazo criam uma falsa sensação de segurança que resulta na ocupação de áreas inundáveis (TUCCI, 1993).

Apesar dos altos custos e da ineficiência a longo prazo, são as medidas mais divulgadas pela imprensa e órgãos públicos. Consequentemente, são solicitadas pela população e implantadas para resolver as situações de desastres causadas pelas inundações em áreas urbanas. Muitas vezes, estão associadas a obras de saneamento e ampliação de malha viária, que ocupam os fundos de vale.

As medidas estruturais intensivas não consideram a bacia hidrográfica como um sistema. As intervenções são realizadas apenas nos trechos críticos, transferindo as inundações para outros pontos. Segundo Ostrowsky e Zmitrowicz (1991, p.4):

A falta de visão global da bacia hidrográfica faz com que se corrijam problemas em pontos isolados, sem levar em consideração as conseqüências que podem ocorrer a jusante, acontecendo, muitas vezes, a transferência da área inundada, persistindo, portanto o problema. As soluções estruturais não eliminam de todo as possibilidades de inundação das várzeas, apenas diminuem sua freqüência.

As medidas estruturais extensivas, por sua vez, promovem a maior retenção e infiltração das águas pluviais na bacia hidrográfica, melhorando o equilíbrio do

sistema hidrológico. Exemplos dessas medidas são: contenção de encostas e margens dos rios para controle da erosão; captação e armazenamento de água da chuva em pequenos reservatórios para diminuir o pico de vazão, por exemplo, valos de infiltração paralelos às ruas (Figuras 25 e 26); aumento das áreas de infiltração, tal como, a ampliação de áreas verdes e o uso de pisos permeáveis, para amortecer o escoamento superficial e aumentar o tempo de concentração.

Figura 25 - Esquema de valo de infiltração. Fonte: Tucci et al. (1995, p. 295).

Figura 26 - Valo de infiltração.

Cidade de Fort Collins, Colorado/Estados Unidos.

Fonte: Material de apoio didático da disciplina PHD 5807- Drenagem Urbana, ministrada pelo Prof. Dr. Rubem La Laina Porto em 2011.

A lei do Estado de São Paulo 12.526/2007 é um exemplo de medida extensiva localizada no lote, denominada de controle na fonte (TUCCI; GENZ, 1995). Essa lei torna obrigatória a implantação de sistema para a captação e retenção de águas pluviais em construções que tenham área impermeabilizada superior a 500 m². Propõe o armazenamento das águas próximo à formação do escoamento superficial evitando a transferência dos impactos para jusante.

O conceito de controle do escoamento superficial na fonte considera que o proprietário não tem o direito de provocar inundações à jusante e passar os custos de controle para a sociedade. As vazões após a construção não devem ser superiores às condições anteriores.

As medidas não estruturais partem do princípio da convivência com as inundações, ao contrário das medidas estruturais intensivas que buscam suprimir os rios da paisagem, como as canalizações em seções fechadas.

Baseadas em estudos de zoneamento de áreas com risco de inundação e elaboração de planos de uso e ocupação do solo, realizados e executados pelo poder público municipal e estadual, as medidas não estruturais propõem o controle do crescimento das áreas urbanas, a preservação das planícies de inundação ou implementação de atividades e/ou estruturas que convivam com os extravasamentos periódicos dos cursos d’água, tais como, parques, ciclovias, locais de eventos culturais a céu aberto.

Em áreas anteriormente urbanizadas as medidas não estruturais propostas são preventivas e compensatórias, por exemplo, construções à prova de inundação (diques e comportas), sistemas de previsão e alerta, planos de evacuação e seguro- -enchente. Essas buscam atenuar os impactos e minimizar os prejuízos causados pelas inundações.

Embora apresentem custos mais baixos quando comparadas às medidas estruturais, as medidas não estruturais são de difícil aplicação, pois envolvem não somente questões técnicas, mas também sociais, legais, políticas e de gestão.

As dificuldades para a execução de medidas não estruturais preventivas e estruturais extensivas estão na necessidade de implementação de legislação mais definitiva, políticas públicas amplas e eficientes de zoneamento, uso e ocupação do solo e drenagem urbana, que promovam planos articulados a longo prazo, considerando a bacia hidrográfica como um sistema e uma unidade de análise, superando os limites municipais. Outro obstáculo é a falta de articulação dos órgãos

públicos relacionados ao planejamento urbano e gestão dos recursos hídricos, como também dos responsáveis pela implementação e fiscalização dessas medidas.

A execução das medidas não estruturais e estruturais extensivas deve estar associada a programas voltados para a conscientização da população sobre: as causas e consequências das inundações; o funcionamento e objetivos das medidas propostas, considerando a visão de conjunto da bacia hidrográfica; e a necessidade de convivência com as inundações. É importante o esclarecimento de que as obras hidráulicas não são a solução para o controle das inundações, e que devem estar associadas a os outros tipos de medidas a ser aplicadas de forma contínua.