• Sonuç bulunamadı

Üniversitesi I. Ulusal Tarih Kongresi (30 Nisan – 2 Mayıs 1997) Tarih ve Milliyetçilik, s 328.

3.3.3. İtalya’nın Eğitim Faaliyetler

Apresenta-se, nesta seção, a psicodinâmica do trabalho: no que consiste e principais pressupostos. Tendo em vista que, nas próximas seções, foram elencados alguns conceitos inerentes à disciplina para maior aprofundamento, serão enfatizados aqui, aspectos globais de forma a possibilitar ao leitor uma compreensão geral do referencial teórico.

Trata-se, primeiramente, de uma disciplina teórico-clínica, que se apoia no estudo das relações entre trabalho e saúde mental. Mais precisamente, tem como objetivo dar visibilidade e refletir sobre o trabalhar tendo como foco a racionalidade subjetiva das ações. Isto significa pesquisar as relações entre os indivíduos e respectivos coletivos de trabalho, ou seja, um grupo de pessoas que

21 Publicado o Brasil em 2004, no addendum do livro “Da Psicopatologia à Psicodinâmica do

43

REFERENCIAL TEÓRICO

compartilha regras de ofício e/ou experiências acerca das atividades realizadas (Dejours, 1997, 1998, 2000, 2004b,d,e,f, 2012b; Lancman; Uchida, 2003; Molinier, 2008, 2013; Lancman et al. 2009, 2013; Sznelwar et al. 2011; Uchida et al., 2011).

A construção do seu escopo teórico, tem como base o diálogo entre a psicanálise freudiana, sobretudo para compreensão do conceito de sujeito e; a ergonomia francofônica, para compreensão do conceito de trabalho. Soma-se ainda, a grande contribuição do debate junto aos autores da escola de Frankfurt, entre eles Jurgen Habermas e Axel Honnet, no que tange ao lugar do trabalho, das racionalidades da ação e do reconhecimento enquanto aspectos importantes no que se refere às formações sociais (Dejours, 2004b,h, 2012b; Lancman; Uchida, 2003; Lancman et al., 2009, Saint-Arnaud, Vezina, 2011, Molinier, 2013).

O termo “psicodinâmica” tem origem na teoria psicanalítica e, neste contexto, refere-se ao fato de que a investigação toma como foco os conflitos que surgem do encontro de um sujeito, portador de uma história singular, e uma situação de trabalho cujas características são, em grande parte, fixadas independentemente de sua vontade. Enfatiza a situação vivida, bem como o sentido desta para aquele que a vivencia (Dejours, 2004b, 2012b).

A PDT ao estudar o trabalhar evidencia aspectos menos visíveis e conhecidos das situações de trabalho, tais como: seu papel na construção identitária; as relações de sofrimento e prazer no trabalho; a construção de defesas individuais e coletivas para lidar com as circunstâncias nas quais emerge o sofrimento no trabalho; o desenvolvimento da inteligência astuciosa pelo trabalho; os riscos de alienação e a construção da inter-subjetividade, entre

REFERENCIAL TEÓRICO

outros (Dessors, 2009; Lancman; Uchida, 2003; Uchida et al., 2011; Dejours, 2012b, Molinier, 2013).

Para a disciplina, as situações de sofrimento no trabalho constituem-se enquanto matéria prima para o desenvolvimento da criatividade. Ou seja, o sofrimento, inerente à condição do ser humano, tem prioritariamente, dois destinos: a criação ou a patologia. Nem sempre se torna patológico porque os sujeitos conseguem se proteger e se defender, utilizando mecanismos individuais ou estratégias coletivas. A patologia surge quando se rompe o equilíbrio e o sofrimento não é mais contornável. Em outros termos, ela surge quando o trabalhador utilizou todos os seus recursos intelectuais e psico-afetivos para lidar com as atividades e demandas impostas pela organização e percebe que nada pode fazer para se adaptar e/ou transformar o trabalho (Dejours, 1998, 2004b-f, 2010b; Lancman; Uchida, 2003; Dejours; Gernet, 2012c; Molinier, 2013).

Destaca-se, entretanto, que a proteção da saúde mental dos trabalhadores não depende apenas das habilidades individuais de cada um deles. Pelo contrário, quando os sujeitos adoecem não são colocadas em evidência as fragilidades individuais, mas sim, o fracasso das estratégias coletivas de defesa que, nos contextos de trabalho, desempenham papel importante na luta contra o adoecimento (Dejours, 2004b; Dejours; Gernet, 2012c; Lancman et al., 2013; Molinier, 2013).

Para o autor, é o real da vida que coloca o sujeito diante da vivência do sofrimento. O conceito de “real” ocupa um lugar bastante significativo nesta disciplina. Não se trata aqui, do que os ergonomistas nomeiam enquanto trabalho real, mas sim o inverso, o REAL do trabalho. Real como aquilo que

45

REFERENCIAL TEÓRICO

resiste ao domínio, como algo imprevisível, inesperado, que, frequentemente coloca a todos diante dos sentimentos de impotência, raiva, decepção. São justamente estas situações que trazem à tona o sofrimento, que, nesta perspectiva, é sempre vivenciado de modo afetivo (Dejours, 2004c,d, 2012b; Uchida et al., 2011; Molinier, 2013).

Ressalta-se ainda que, para a PDT, vive-se o sofrimento no e pelo corpo. Trata-se aqui, não do corpo físico-fisiológico, mas do corpo erógeno, do corpo psíquico, onde habita-se, por meio do qual vivencia-se o cotidiano. Trata-se do corpo do afeto. É por meio dele que se reflete toda a mobilização psíquica (Dejours, 2004h, 2012b).

Para esta disciplina, a partir de seu recorte de estudo, o confronto se dá entre o sujeito e a organização do trabalho. O conceito de organização do trabalho é designado a partir de dois eixos: o primeiro, diz respeito à divisão técnica do trabalho, ou seja, o que se faz, quem faz e como faz; já o segundo refere-se à divisão social e hierárquica do trabalho, ou seja, à distribuição de poder, o papel de cada um na organização, o conjunto de normas que rege coletivamente o trabalho, as avaliações do trabalho, etc, de forma a responder aos objetivos da produção (Dejours, 1997, 2004d, 2008, 2010c, 2012b; Molinier, 2013) .

Para o autor, a organização, representando o real do trabalho, é sempre desestabilizadora da saúde dos sujeitos. Porém, algumas delas, dão margem, deixam brechas, para a transformação do sofrimento em prazer, que, para a maioria dos sujeitos materializa-se a partir da realização de si mesmo, do fortalecimento da identidade e da subjetividade, aspectos que serão tratados

REFERENCIAL TEÓRICO

mais especificamente na próxima seção. A grande questão torna-se então, a de compreender em quais condições este processo de transformação é possível.

[...] que a organização do trabalho não é absolutamente absorvida pelos assalariados [...]; todos os preceitos são reinterpretados e reconstruídos: a organização real do trabalho não é a organização prescrita. Não o é jamais: é impossível prever tudo e ter o domínio sobre tudo [antecipadamente ao trabalho]. Mas a distância entre a organização prescrita e a real não tem sempre a mesma sorte: ora é tolerante, e oferece margens à liberdade criadora; ora é restrita, e os assalariados receiam ser surpreendidos cometendo erros. O mais comum é que seja simultaneamente uma e outra, tolerante ali onde o ganho é visível, restrita lá, quando se a observa como capaz de regular a desobediência e a fraude (Dessors; Schram, 1992 apud Dejours, 2004b, p.64).

Para concluir esta seção, destaca-se, finalmente, o conceito de trabalho adotado pela PDT.

Ao insistir no componente humano do trabalho, a PDT atribui a ele uma definição precisa. Trabalho é a atividade coordenada, executada por homens e mulheres que trabalham para prover o que não está previsto na organização do trabalho. Trabalhar significa se defrontar com prescrições, procedimentos, materiais ou instrumentos a serem manipulados; significa se defrontar com pessoas para acolher e cuidar, porém trabalhar pressupõe também colaborar com uma hierarquia organizacional e com colegas, colegas a quem será preciso aprender a conhecer e com os quais será preciso poder interagir para atingir o objetivo da produção de um bem ou de um serviço... o exercício do trabalho vem inevitavelmente acompanhado da confrontação com o real... Os arranjos aos quais um sujeito procede para recuperar a diferença entre o que é prescrito e sua atividade efetiva não podem nunca ser inteiramente previstos, já que eles são reinventados cada vez. Os conhecimentos e o saber-fazer aprendidos são consideravelmente, talvez mesmo inteiramente, remanejados no curso mesmo da atividade de trabalho, e desvendam assim a parcela subjetiva do trabalho e seu caráter vivo. O trabalho real não pode, por conseguinte, ser apreendido como uma coisa ou um objeto separado daquele que o realiza (Gernet; Dejours, 2011, p.62).

47

REFERENCIAL TEÓRICO

Neste trecho, sobressaem-se alguns pontos essenciais que, por sua vez, merecem ser melhor explorados. Primeiramente, o autor dá ênfase ao aspecto humano, que, para ele, está na base do conceito de trabalho. Desta forma, as prescrições, mesmo quando claras e precisas, jamais conseguirão contemplar os desafios com os quais os sujeitos se deparam no confronto com o real do trabalho. Para ele, o trabalho acontece justamente no momento em que tais prescrições, tecnologias e demais aparatos externos ao sujeito são insuficientes para que os resultados previstos sejam alcançados. Tal concepção aponta, portanto, para um caminho no qual a criação e a implicação da subjetividade tornam-se imprescindíveis (Dejours, 2012b; Renault, 2013; Molinier, 2013).

Neste contexto, certamente os processos de industrialização e mecanização de tarefas consideradas mais desgastantes fisicamente, trouxeram novos desafios e novas demandas aos sujeitos-trabalhadores. Porém, tendo em vista os aspectos supracitados, o autor sustenta que o paradoxo “trabalho de concepção versus trabalho de produção” traduz uma falsa questão na medida em que, para ele, todo trabalho é de concepção, já que é atravessado pelo componente humano (Dejours 2004b, Renault, 2013; Molinier, 2013).

Destaca-se assim, que, para a PDT, todo trabalho constitui-se a partir da criação de algo ainda inédito, tendo em vista que três aspectos jamais poderão ser prescritos: a engenhosidade daquele que trabalha, a coordenação e a cooperação entre os agentes e, por fim, a mobilização subjetiva, necessária ao engajamento nas ações (Dejours, 2004e).

Baseado na psicanálise Freudiana, Dejours faz ainda importante esclarecimento relacionado a concepção de trabalho adotada pela PDT. Sabe- se que o trabalho de produção, o trabalho ordinário (poièses), exige o emprego

REFERENCIAL TEÓRICO

de habilidades, da inteligência, de astúcia, de criatividade, de inventividade, ou seja, uma aplicação profunda de toda subjetividade. Desta forma, dispara, certamente, uma transformação psíquica, e trata-se, portanto, de um trabalho também desenvolvido sobre si, ou seja, da subjetividade sob ela mesma (Dejours, 2012b).

Tal trabalho subjetivo era, até então, atribuído apenas às atividades que envolviam aspectos do inconsciente, como por exemplo o trabalho do luto, do sonho, etc. Entretanto, ressalta-se que, todos estes trabalhos, sejam psíquicos ou na relação com o campo social, levam a transformações importantes; levam ao desenvolvimento psíquico dos sujeitos. Ambos, confrontam o sujeito com um real que causa sofrimento; ambos estão orientados para produção; ambos fazem com que o sujeito vivencie, incialmente, a experiência do fracasso para, a partir dela, mobilizar-se em direção à realização de si (Dejours, 2012b).

No caso do trabalho ordinário, sua dinâmica sempre estará inscrita numa tríade (o próprio sujeito, o real, representado pela organização do trabalho, e o outro, materializado pelas relações restabelecidas com os colegas, clientes, subordinados e superiores hierárquicos), aspecto que o diferencia do trabalho estritamente particular do inconsciente na elaboração dos “fantasmas” individuais (Dejours, 2012b).

É a partir da inscrição neste cenário que a PDT considera o trabalho como um elemento central na constituição da saúde e da identidade dos indivíduos adultos e o principal elo entre tais indivíduos e sociedade. Seu aporte teórico busca mostrar, portanto, a importância de considerar a subjetividade, e os aspectos mentais para adaptar o trabalho ao homem (Lancman; Uchida, 2003; Molinier, 2008, 2013).

49

REFERENCIAL TEÓRICO

Para além do conteúdo acima mencionado, Dejours aponta mais alguns argumentos que se somam na sustentação de sua tese sobre a centralidade do trabalho no desenvolvimento humano. O primeiro deles refere-se ao fato do trabalho ser mediador privilegiado entre o mundo singular, ou seja, a esfera privada, e o mundo compartilhado, inscrito na esfera pública, coletiva. Para o autor, o trabalho é um espaço privilegiado para a compreensão da sociedade, pois, em nenhuma outra atividade talvez se tenha a vivência das relações de obrigação, poder, obediência, responsabilidade e autoridade tão marcadas como no espaço de trabalho. Atribui, consequentemente, lugar privilegiado ao trabalho no bojo de uma teoria social.

No trabalho, pode-se aprender o melhor, o respeito à dignidade do outro, a cautela, a entreajuda, a solidariedade, a implicação nos espaços de deliberação e a aprendizagem dos princípios mesmo da democracia. Pode-se aprender o pior, a instrumentalização do outro, a duplicidade, a deslealdade, o cada--um-por-si, a covardia, o mutismo. Assim, a organização do trabalho apresenta-se sempre como um lugar de aprendizagem da implicação ou da deserção dos espaços políticos. Para assumir o que implicam para a prática essas dimensões do trabalho, a teoria política não é suficiente. É necessário, como o dissemos anteriormente, uma teoria do trabalho. Mas qual teoria do trabalho? Uma teoria do trabalho que também seja uma teoria do ser humano, da inteligência individual e da inteligência coletiva. Em outros termos: é necessário uma teoria do “trabalho vivo” (Dejours, 2012b, p. 209).

Como último argumento, Dejours destaca o comprometimento daqueles que ficam apartados da experiência do trabalho, situação traduzida atualmente pela conjuntura de desemprego. A partir dela, o sujeito torna-se largamente excluído da possibilidade de realização de trocas sociais, situação acompanhada de efeitos, segundo o autor, bastante deletérios à saúde (Dejours, 2004b, 2012b).

REFERENCIAL TEÓRICO