1.3. İran İslam Devrimi Sonrası Dönemde İkili Stratejik İttifak Bağlamında İran - Suriye
1.3.3. İsrail’in Lübnan’ı İşgal Etmesi ve İran - Suriye İttifakında Yeni Bir Aşama
Não cabe aqui uma discussão sobre todo o processo de alfabetização, que foi desenvolvido na sala de reforço. Selecionei alguns pontos relevantes em função do problema de pesquisa.
Para compreender a dimensão afetiva no processo de alfabetização temos que recorrer aos conceitos de Wallon, que já foram expostos no referencial teórico. Relembrarei, brevemente, alguns conceitos desta teoria para elucidar este capítulo; eu o faço concordando com Mahoney:
“A escola, assim como nossa sociedade, desvaloriza, nega a emoção nas suas práticas, como se esta impedisse a consecução de seus objetivos. E esse descaso pode ser um dos muitos fatores responsáveis pelo fracasso escolar”. (Mahoney, 1993).
É importante lembrar que o ator desta pesquisa quase desistiu de frequentar o curso de alfabetização, como ele explicita:
“Eu não estava acompanhando, os outros tinham mais tempo de
escola que eu, aí eu comecei a faltar”.
Sua atitude faltosa, o que levaria ao fracasso escolar, nos leva a entender que o mesmo não estava sendo contemplado no seu saber e nos conteúdos administrados na sua sala de origem, o que o levou a ser convidado a frequentar a sala de reforço. Possivelmente, se essa atitude não fosse tomada, a sua desistência se consolidaria, engrossando as estatísticas da evasão escolar.
Diante deste contexto, penso que, para atingir um aprendizado satisfatório, é fundamental que a relação professor e aluno, assim como o conteúdo programático, sejam mediados pela afetividade. A afetividade engloba a emoção e sentimento e faz parte da constituição da pessoa, assim como a cognição e o ato motor. Se o indivíduo é constituído por esses elementos, acredito que seja fundamental o professor desenvolver um olhar
afetivo e promover estratégias de aprendizagem que contemplem todos esses aspectos no decorrer do processo de escolarização, visando atingir uma aprendizagem significativa e libertária. Almeida deixa clara a importância da mediação:
“A mediação do professor será tanto mais eficaz quanto maior for o número de linguagem de que dispõe. Os recursos da literatura, da dramatização, da música são possibilidades que servem para canalizar as emoções em favor do pensar, bem como para ampliar a cultura, e é dever da escola oferecer à criança e ao jovem, sem discriminação, o que há de melhor na cultura”. (ALMEIDA, 2010b, p. 127).
O uso da literatura não é novidade, mas também não é usual, pois a maioria das escolas prioriza a realização de tarefas (perguntas e respostas), a cognição, o pensamento lógico, a razão. Na minha prática pedagógica, eu escolhi a literatura por acreditar que é atemporal; sendo assim, está mais próxima da natureza humana em qualquer época ou lugar. É um canal lúdico para tocar a emoção e, simultaneamente, evocar a memória e mobilizar a cognição, momento fértil para despertar o aprendizado se utilizada como recurso para mediar o conteúdo programático. Ela aborda de uma forma singela a vida e a morte, o belo e o feio, a bondade e a maldade, a solidariedade, vitórias, derrotas, o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, as leis da natureza, os desejos, as dificuldades humanas, enfim ela retrata com fidelidade o ser humano em todas as suas nuances.
As falas de Raimundo em processo de alfabetização evidenciam a presença e o poder da literatura como recurso de mediação e por que razões elas ocorreram na sala de reforço e não na sua sala de origem.
Começarei pelo primeiro dia que o recebi no grupo de reforço em alfabetização. No primeiro contato com o grupo, foi lida a crônica “Vergonha do nome (ACIOLI). A escolha pela leitura de uma crônica para mediar a apresentação de educando e educador nos remete à fala de Wallon:
“O meio nada mais é que o conjunto mais ou menos durável de circunstâncias nas quais se desenvolvem existências individuais. Ele comporta, evidentemente, condições físicas e naturais, que são, porém, transformadas pelas técnicas e pelos usos do grupo humano correspondente (...)”. (WALLON, 1986, p. 170).
Como podemos perceber, Raimundo continua no mesmo espaço escolar, mas inserido em uma sala de aula diferenciada, pois o que vai mediar a relação professor e aluno, aluno e aluno, professor, aluno e conteúdo programático é a técnica “inovadora” da contação de história, dentre outros recursos permeados pela afetividade. Essa técnica foi utilizada para abrir um espaço potencial para dialogar, acessar a emoção e o pensar, o que de fato aconteceu. Os alunos e a professora contaram a história do seu nome e na esteira revelaram fragmentos da sua história de vida, elementos importantes para a seleção pertinente do conteúdo programático. Dar voz ao aluno e utilizar-se de elementos da sua realidade para planejar o conteúdo programático e as atividades é um ato de afeto, pois a sua realidade está sendo considerada e contemplada na transmissão do conhecimento sistematizado.
A abordagem do nome próprio no primeiro contato não foi por acaso, pois como afirma Garcia:
“O nome próprio possui um estatuto particular na língua, o de ser puro significante caracterizado pela afinidade do nome próprio com a sua marca (...)”. (GARCIA, 1991, p. 192).
O nome próprio identifica o indivíduo desde o seu nascimento, é a sua marca inalienável no mundo e está repleto de historicidade. Aproveitando esta riqueza que o nome representa, foi apresentado o alfabeto móvel, para que o sujeito, pelo toque das suas mãos, percebesse a estrutura de cada letra, as sua semelhanças, diferenças, e escrevesse seu nome e o dos colegas. Nesta atividade, Raimundo exterioriza:
A letra M e W são as mesmas, professora? (...) Ah tem diferença sim, a M é mais aberta e o W é mais fechado.
A letra M é diferente da letra N porque o M tem mais perna que o N. A letra d é diferente da b, a barriga de uma é prum lado, a de outra é pro outro.
Por que o uso do alfabeto móvel? Quem nos responde primeiro é Cazade & Compagnon:
“Não é possível ignorar esse simbolismo do alfabeto que se expressa na anatomia das letras e que, não por acaso, é similar à do corpo (...). (CAZADE & COMPAGNON, 1987, p. 173-182).
Acredito que a primeira resposta esteja aí! Muitas letras do alfabeto são semelhantes às partes do corpo humano, o que provoca uma aproximação legítima, pra não dizer uma fusão entre letra e corpo. Observei que essa aproximação de ambos afeta o educando de uma forma tão agradável e significativa que o convida a não só escrever o próprio nome, mas escrever
outras palavras. Afetado por esta descoberta, ele percebe que as palavras, o pensamento e o sentimento se materializam no alfabeto móvel e no mundo em que vive. Nessa atividade fica clara a conexão do cognitivo, afetivo, motor e a pessoa.
Mahoney, ao responder à pergunta: O que o conjunto cognitivo oferece para a constituição da pessoa? Também oferece elementos para justificar seu uso:
“Oferece um conjunto de funções responsáveis pela aquisição, pela transformação e pela manutenção do conhecimento por meio de imagens, noções, ideias e representações. Transforma em conhecimento a mistura combinada de coisas e ação, que constituem a experiência concreta. O concreto, a experiência bruta, é indispensável para a elaboração do conhecimento”. (MAHONEY, 2010, p. 18).
A segunda resposta está contemplada pela autora, então constatei que apesar de ser adulto, Raimundo precisou experienciar as letras e a construção de palavras no concreto, pois sabemos que o seu cotidiano profissional, social e pessoal está calcado no concreto; sendo assim, na escola, não poderia acontecer diferente, pois cabe a ela como espaço legítimo de aprendizagem contemplar a realidade do aluno, as suas dificuldades e o seu conhecimento acumulado. Observei que o contato constante do educando com o alfabeto móvel, com a palavra geradora e com o seu conhecimento prévio possibilitaram que o educando fosse vendo, escrevendo e lendo seu mundo. Nessa relação dinâmica de aprendizagem, os conjuntos funcionais se inter-relacionam.
Nesta mediação lúdica do alfabeto, da contação de história e do diálogo foram surgindo outras palavras geradoras, que foram sendo trabalhadas,
possibilitando a Raimundo se apropriar e exteriorizar os seus conhecimentos da leitura e escrita. Para ilustrar este momento, vou traçar um paralelo do personagem João, 7 (sete) anos, em processo de alfabetização (da história O Menino que Aprendeu a Ver (ROCHA, 1998, p. 28, 29, 31)) e Raimundo, de 55 (cinquenta e cinco) anos, também em processo de alfabetização. Ambos, embora com idade e vivendo fases diferentes da vida, estão vivenciando uma situação de aprendizagem muito semelhante, como ilustra o trecho abaixo:
(...) “Quando João chegou em casa foi logo falar com o pai:
- Papai, o que é que está acontecendo? Cada vez que eu vou pra escola pintam nas placas, nos livros, nos pacotes, nas paredes, as letras que estou aprendendo.
O pai de João explicou:
- É que você está aprendendo a ver, João.
- Mas eu já sei ver, papai, desde que eu era pequenino.
- Não, meu filho, você agora está aprendendo a ver o que você está aprendendo a ler. Entendeu?
Joãozinho coçou a cabeça: - Não entendi nada...” (...)
“(...) João saía da escola e se punha a procurar.
E assim João viu surgir nas placas e nos postes, no ônibus e nos postes, tudo que ele aprendia. (...)”.
Raimundo, assim como João, foi afetado pela beleza do mundo das letras que impregna o mundo da vida. As letras “unidas” se transformam em palavras com significado e nos transmitem uma informação. Ele começa a ler
de uma forma sistematizada o que já via no seu dia a dia, como nos mostram os trechos abaixo:
“Não vejo um poste que não leio!
As pessoas falam: o que você tá vendo aí? Eu tô vendo? Eu tô é lendo!”
“Fui comprar frutas com meu filho no Ceasa e li as placas dos
carros, tinha Araraquara, Sorocaba, Rio de Conta, Salvador – Salvador
começa com S e termina com O. O nome mais bonito que achei foi
Araraquara, tem muito R”.
Não é por acaso que o sujeito percebeu e reconheceu as letras no seu cotidiano. Na sala de aula, trabalhando o alfabeto, foi sugerido ao aluno que observasse as placas de rua por onde costumava passar, as embalagens de produtos que consumia, os jornais de propaganda e outros, o nome do ônibus que utilizava e isso de fato ocorreu. O educador deve oferecer os instrumentos para que o aluno se aproprie e estes devem ser aplicados na sua realidade. O educando precisa vivenciar concretamente o que aprendeu na escola, e nada é tão concreto como a realidade.
A realidade é um referencial legítimo para que os conhecimentos apreendidos pelo aluno vão adquirindo visibilidade e sentido. Nas palavras de Mahoney:
“Cabe ao ensino oferecer pontos de referência, pré-requisitos para que a aprendizagem se concretize na direção de conceitos cada vez mais diferenciados e abstratos”. (MAHONEY, 2010, p. 20).
O espaço escolar é destinado ao aprendizado sistematizado da leitura e escrita, mas é na interação social que esses conhecimentos vão se revelando, se abstraindo e se confirmando para o educando, principalmente para o jovem e adulto.
Esta fala explicita a manifestação do ato motor no aluno.
“Tô em tempo de quebrar o pescoço dentro do carro de tanto que tô lendo placa, tava passando um ônibus Perus. Perus começa com P, né professora? (o filho dirige o caminhão)
A fala “quebrar o pescoço” evidenciou que o ato motor possibilitou a expressão da emoção e a exteriorização da cognição que se objetivou na leitura da placa. Os conjuntos funcionais se inter-relacionaram, possibilitando ao sujeito acessar o seu mundo interno e externo, sendo assim:
“(...) Henri Wallon considera que o movimento corporal humano não é apenas deslocamento voluntário do corpo ou de partes do corpo no tempo e espaço, mas é uma atividade de relação da pessoa consigo mesma, com os outros e com o meio, na qual são construídos e expressos conhecimentos e valores”. (LIMONGELLI, 2010, p. 59).
A ânsia de ler o mundo é um agradável convite para que Raimundo se relacione com o seu conhecimento adquirido, com sua realidade e com o outro. É nessa relação dinâmica que a trama do conhecimento se entrelaça com a trama da vida, ambos vão se completando se transformando e se renovando. Podemos perceber que o educando, no espaço da sala de aula, pede para que o conhecimento construído neste espaço e “encontrado” no mundo seja confirmado pela escola e pela professora.
“A presença do outro humano nesse processo de aprendizagem é primordial e indispensável. A atração que a criança sente pelas pessoas que a rodeiam é uma das mais precoces e das mais poderosas”. (WALLON, 1995, p. 161).
Não é só a criança que precisa do outro para aprender, mas o adulto, embora tenha uma “consciência” mais clara de sua identidade, de sua realidade, de seus valores, de suas possibilidades e de seus limites precisa que seu conhecimento seja legitimado, isso mostra a credibilidade que o aluno deposita em ambos.
Na roça, Raimundo domava animais e atualmente ele está domando as letras com tanta propriedade que se dispõe a ler para o outro, como verificamos no trecho abaixo:
“Tava no açougue e li coxão mole, aí chegou uma senhora bem mais velha, perguntou; tem patinho? Eu olhei na placa e li patinho, e falei:
tem patinho também! Isso é bom demais”.
“É no entrelaçamento com o motor e o cognitivo que o afetivo propicia a constituição de valores, interesses, necessidades, motivação que dirigirão escolhas, decisões ao longo da vida”. (MAHONEY, 2010, p. 18).
Raimundo se utiliza do seu conhecimento de leitura e se relaciona com propriedade com o mundo. Ele vai até o açougue e localiza, pela leitura da placa, a carne que quer comprar e, ainda por meio da leitura, responde à pergunta da senhora: tem patinho? Tem patinho também! Ele é despertado pelo prazer de ler para si e ler para o outro, ou seja, de posse do conhecimento da leitura, decodifica para o outro parte do universo letrado que até há pouco
tempo lhe era estranho . Raimundo, agora, se assume como um leitor letrado e autônomo.
Essa autonomia é estendida para a leitura e assinatura de documentos e escolha de sabores, como mostram as falas abaixo:
“Antes, quando eu ia assinar um cheque dava uma suadeira, agora
de uns dias pra cá eu tô mais concentrado, eu assino”.
“Quando eu fui comprar mercadoria no Ceasa eu li na caixa: Fruta Reginaldo”.
“É bom quando você lê: 3 caixas de morango”
“Tem banheiro juntinho de homem e mulher, se você não sabe ler
você se ferra todinho, pode entrar em banheiro errado”.
“Tô ficando xarope, tudo que eu pego no mercado eu olho o nome e a data de validade, quando você vê oferta, você tem que ficar esperto com a data de validade, antes eu não olhava, agora eu olho, tô lendo né!
“Quando eu ia comprar bolo no mercado eu não lia, agora eu leio: bolo de fubá e sei o sabor que estou levando”.
Raimundo vai paulatinamente dominando e fazendo uso saborosamente da técnica de leitura e escrita nas suas relações de trabalho e pessoais, esse movimento nos lembra Soares (2013):
“(...) dos indivíduos já se requer não apenas que dominem a tecnologia do ler e do escrever, mas que saibam fazer uso dela, incorporando-a a seu viver, transformando-se assim seu “estado” ou condição, como consequência do domínio dessa tecnologia”. (Soares, 2013, p. 29).
A humanidade vive na era tecnológica. O uso da tecnologia está presente em quase todos os lugares do mundo. Sendo assim, o indivíduo analfabeto é aquele que mesmo alfabetizado não sabe fazer uso dessa técnica nas suas relações, está praticamente “excluído” socialmente. É papel da escola e tão somente da escola promover uma alfabetização significativa que facilitará a inserção social do indivíduo. Nas palavras de Leite:
“a função da escrita se concretiza por seus usos sociais, ou seja, o que dá sentido à alfabetização é a possibilidade de os indivíduos envolverem-se com práticas sociais por meio da escrita, reconhecendo que o mero domínio do código não garante o envolvimento com essa prática”. (LEITE apud LEITE, 2013, p. 35).
Para o educando se envolver com as práticas sociais de leitura e escrita é fundamental que ele perceba que as suas dificuldades e o seu conhecimento prévio sejam contemplados no conteúdo programático. É de igual importância que a mediação entre aluno, conteúdo e professor seja permeada por uma prática afetivamente positiva, ou seja, respeitar o ritmo do aluno, as suas limitações biológicas, se houver e as suas dificuldades em relação ao tempo e a permanência na escola, assim como as dificuldades na realização de tarefas são imprescindíveis para uma aprendizagem satisfatória. Esta dinâmica vai ampliando seu conhecimento, aumentando sua autoestima e despertando-lhe sensações de tonalidades agradáveis, convidando-o a buscar outras formas de leitura na vida e na escola. Em nosso caso, esta busca pode ser confirmada na fala de Raimundo:
“Hoje de manhã sentei no banco da praça, peguei o jornal e li governo do Estado, ai eu perguntei pro meu amigo: tá certo? Ele
E, também, no diálogo travado com a professora:
Após Raimundo ler a poesia, Ipê amarelo, construída pelo grupo – sala:
Raimundo: Aquele livro lá em cima tô com sede!
Professora: O senhor falou aquele livro lá em cima? Em cima de onde? Raimundo: Aquela sala lá em cima cheia de livros que de vez em quando a gente vai.
Professora: Ah, a sala de leitura!
Raimundo: É isso mesmo! É pra nois lê eles se Deus quiser! Professora: Vocês estão gostando das poesias?
Raimundo: Pra mim tá dando vida, tá clareando, porque nois tá lendo. Lá fora se tiver poesia a gente vai saber!
Leite (2013), em seus estudos com esta população afirma:
“(...) o trabalho pedagógico deve utilizar uma estratégia que possibilite, ao aluno de EJA, ampliar suas habilidades com as práticas de leitura e de escrita; tal processo deve permitir que tenha condições de usufruir melhor das possibilidades sociais e culturais que a escrita permite. Neste sentido, ao desenvolver um trabalho a partir das demandas iniciais apresentadas pelos alunos e de forma afetivamente positiva, criam-se as condições para que novas demandas sejam apresentadas pelos professores nas etapas posteriores do trabalho pedagógico. Assim, muitos jovens e adultos procuraram a EJA motivados, inicialmente, para realizar, com sucesso, o exame de habilitação para motorista, mas acabaram descobrindo a importância da leitura de jornal ou das obras da nossa literatura (...)”. (LEITE, 2013, p. 53).
Raimundo não precisou esperar a etapa seguinte para se aventurar na leitura de ler jornal e livro. De posse dos primeiros aprendizados da leitura e
escrita já leu a manchete de jornal e pegou emprestado um livro na sala de leitura.
Esse desempenho me leva a pensar o quanto o conteúdo programático e a mediação afetiva contribuíram para esta evolução. A busca pela palavra geradora carregada de sentido existencial e emocional, norteando a construção de versos poéticos, a contação de histórias, as atividades desenvolvidas vinculadas aos conteúdos contextualizados em sala de aula formam um leque de atividades que, se forem afetivamente e adequadamente desenvolvidas, desencadearão o sucesso na aprendizagem e a formação de um aluno leitor.
É importante frisar o valor da literatura na aprendizagem das séries iniciais, mesmo com jovens e adultos, e acredito que principalmente com esse segmento, pois muitos deles não tiveram quem lhes contasse uma história ou declamasse uma poesia ou cantasse uma cantiga. É resgatando a criança interior que se desperta o homem cidadão.
“Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a estória. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a escuta (...) com prazer. “Erotizada” – sim erotizada! – pelas delícias das leituras ouvidas, a criança se volta para aqueles sinais misteriosos chamados de letras. Deseja decifrá-los, compreendê-los porque eles são a chave que abre o mundo das delícias que moram no livro”! (ALVES, 2002, p. 41).
Raimundo ouvindo prazerosamente histórias, poesias e contando os seus “causos”, lendo a poesia construída por ele e pelo grupo, reconheceu-se sujeito da sua aprendizagem, capaz de ler o que ele produziu e ler outros livros e jornais. Sentindo-se um sujeito leitor, encontrou a chave para abrir as
inúmeras portas da leitura, da escrita e da literatura que o levarão a se conhecer interiormente, conhecer a sua realidade, interagir com o meio social e conhecer outros mundos imaginários e reais. Ele está a caminho para “saciar” a sua sede de ler e escrever! Convicto de que se apropriou do código da leitura, ele afirma:
“Tô lendo mais que moeda de um centavo”. “Virei o bicho, agora tô lendo tudo”.
“Papagaio véio não aprende a falar, mas aprende a voar, eu tô
voando”.
Raimundo apreendeu as letras e está em estado de letramento. Relembrando a definição de letramento por Soares:
“Letramento: Estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a escrita cultiva = dedica-se à atividade de leitura e escrita exerce = responde às demandas sociais de leitura e escrita”. (SOARES, 2012, p. 47).
Raimundo interioriza as letras, cria asas e começa a voar. Ele conquista um novo lugar no mundo no seu mais amplo sentido (um mundo letrado, ele como sujeito e cidadão). Essa conquista foi fruto de uma prática permeada pela afetividade, promovida pela escola e pela professora. Esta considerou o seu