2.1. Arap Baharını Anlamaya Yönelik Bir Çaba
2.1.3. Arap Baharı Devrimlerinin Başlangıç Sebepleri
2.1.3.1. İç Sebepler
A cidadania, entendida como conjunto de direitos e deveres do cidadão perante o Estado, remete a um conceito que evoluiu, do século XVII ao XXI, de cidadania civil e política, para uma cidadania com base nos direitos sociais, que delega ao Estado a função de provedor dos meios e das instâncias que promovam o bem-estar social e realizem justiça e reparação no caso de agravos. Entretanto, a cidadania se relaciona não só com a regulação de direitos e deveres, mas pressupõe, para que tais direitos sejam compreendidos e usufruídos, a construção do sentimento de pertencer a um determinado local ou mesmo país. Provoca, portanto, intervenções na vida cotidiana a fim de se refletir sobre as relações sociais e as referências simbólicas que podem se tornar alternativas na formação dos vínculos sociais, sensibilidade, solidariedade e reciprocidade
Nesse sentido, a política cultural desenvolvida em nível local tem o significado de tornar o Estado, enquanto poder local da Prefeitura – por meio de parcerias com instituições de representação social, desde escolas e universidades até fundações e câmaras de fomento etc., internas e externas ao Município – um intermediário cultural na transformação do cotidiano e do curso de vida de seus cidadãos,
condição imprescindível para uma gestão pública de cultura. Trata-se, portanto, de uma gestão pública de cultura em Itapecerica da Serra implementada, antes pelo Departamento e, depois, pela Secretaria Municipal de Cultura, cujo projeto "Barracões" teve a efetiva participação da sociedade e o envolvimento de outros departamentos administrativos e institucionais da Prefeitura e de órgãos do Estado de São Paulo, empresas privadas e organizações da sociedade civil.
Tomando por base esse quadro, apresenta-se aqui o registro de ações que buscaram resgatar a história e as raízes de agentes culturais, moradores em diversos bairros que participavam das atividades culturais localmente desenvolvidas. Um dos pontos mais importantes desse processo se relaciona com as mudanças ocorridas na trajetória dos moradores participantes desse projeto,. Elas vão se transformando e se modificando não só nas suas perspectivas e expectativas, mas o próprio cenário da vida e do local em que moram.
O projeto cultural começou a ser implantado no ano de 1997. A administração demonstrava interesse em desenvolver um trabalho social que buscasse atender às demandas políticas, mediante a efetiva participação da população. Assim, criou-se a tentativa de abrir debates públicos para se pensar a efetivação de um projeto de desenvolvimento cultural para o município que, de fato atendesse aos anseios da população e que contribuísse para a adoção de políticas públicas nas diversas áreas de atuação municipal.
Inicialmente, como política governamental, foram estimuladas e introduzidas alguns pontos para um debate político a partir da prática de diálogos permanentes com a população dos bairros de Itapecerica da Serra. Foi então que se implantou como primeira experiência a realização da chamada “conversa em pé de calçada”. Trata-se de uma prática muito antiga, usada especialmente em zonas rurais dos Municípios brasileiros, marcadamente em cidades com menor número de habitantes e cujos moradores mantinham o hábito saudável desse tipo de diálogo e de encontro com o outro, com a família e vizinhos. Tais encontros costumavam acontecer sempre no início da noite, sendo por isso denominada, na expressão popular, conversa de “boca da noite”. Nesse espaço amigável e de boa vizinhança, os moradores do bairro ou da vila se encontravam para “jogar conversa fora” ou, mais que isso, dialogar sobre o seu dia a dia e, muitas vezes, para avaliar resultados de trabalhos desenvolvidos em sua labuta, além de servir também, entre muitas outras finalidades, para se prognosticar sobre o futuro, falar das experiências dos
antepassados e até mesmo para fazer especulações sobre a vinda de um “bom” ou “mau inverno”. Vale lembrar que "inverno" significa tempo das chuvas para sustentação da lavoura, condição essencial para o futuro de todos, já que, na maioria das vezes, participavam desse encontro pessoas que trabalhavam na lavoura ou no roçado. A prática de prognóstico de chuva ou de um bom inverno, como se costumava falar, está mais vinculada à região nordeste do Brasil, mas esse tipo de encontro e conversas acontece em muitos cantos do Brasil.
Esses encontros, tanto na época “dos antigos”, como na prática em Itapecerica da Serra, sempre se deram no início da noite, por causa das obrigações de trabalho de grande parcela da população. A novidade, no cenário de cidade mais urbana que rural, é que as conversas aconteciam de modo a problematizar os modos de vida dos moradores. A tais encontros passamos a chamar de “escuta social” ou “auscultação social” com os moradores dos bairros, com a perspectiva de caminhar em direção à desejada participação popular.
Durante esse trabalho, as pessoas eram instigadas a contar as suas histórias e a expressar o que significaria para elas outra forma de vivenciar esse convívio e poder decidir quais as práticas culturais que consideravam importantes e deveriam ser estimuladas. Como elas se integrariam nesse novo cenário de vida? Seria possível manter, com qualidade de vida, a sua permanência nesse lugar onde moram, onde vivem? Como se poderia contribuir para isso? Geralmente, aqueles lugares eram especialmente áridos de práticas sociais e convívio humano.
Uma questão sempre abordada para essa população em grande parte oriunda de zonas rurais e que se discuta bastante se relaciona com o jeito de se viver nas cidades grandes e o que isto poderia trazer de benefícios para a saúde, educação e cultura, ou proporcionar em termos da alegria de simplesmente estar junto, ou mesmo projetar um futuro com dignidade para si e para a família. A partir de questões provocadoras como estas, se iniciavam longas conversas, muitas vezes aparentemente voltadas apenas para amenidades ou questões menores da vida cotidiana, mas que sempre evidenciavam significados interessantes no que diz respeito a se entender melhor o que pensavam e diziam desejar. Essas expressões nos forneciam pistas valiosíssimas e davam forma para se começar a entender, minimamente, quais eram os seus problemas, as suas riquezas de memória e de cultura e suas necessidades.
Essa experiência contribuiu para se construir por parte dos gestores de cultura o respeito ao saber de cada morador desse local, por preservar a convivência agradável com as pessoas em torno de assuntos cotidianos. Cotidianidade esta que carrega memória em suas práticas, ainda que muitas vezes estejam ocultas, camufladas, sufocadas ou deixadas à margem. Assim algumas experiências individuais e saberes trazidos das diversas culturas ou costumes dos muitos cantos do Brasil, riquezas que, muitas vezes, foram deixadas de lado no dia a dia por elas próprias, mas que fazem parte do repertório de suas lembranças essas experiências retomadas nas conversas "ao pé de calçada" mostravam que, apesar dessas experiências terem perdido sentido de utilidade na “cidade grande”, elas ao serem evocadas, possibilitavam ao gestor conhecer melhor o universo dos moradores em Itapecerica da Serra, dando ensejo de saber quem eram essas pessoas, quais seus referenciais, o que elas pretendiam e sabiam, o que queriam ou não. São práticas, muitas vezes, ignoradas por olhares desatentos dos gestores, que não conseguem entender o seu sentido como elemento essencial de convivência social e para a construção do sentimento de pertencimento a um grupo ou a um dado lugar.
Na “conversa em pé de calçada”, praticam-se os saberes apresentados por quem dela participa, mas também se abrem chances de se construir um outro saber, construir uma nova identidade que se desperta pelo convívio com o outro, pelas possibilidades de dizer a sua palavra, tendo a garantia de ser ouvido, o que pode se dar de maneira muito rica, por se fazer parte e pertencer a esse grupo de pessoas que estão ali a trocar ideias. Desse modo, por meio dessas ações, se amplia o repertório, geram outras ações no bairro e influem nas relações sociais. Importa acrescentar que a democratização do espaço público que assim se buscava, por um processo que envolve questionamento e busca constante do conhecimento, poucas vezes é garantida, desrespeitando-se, desse modo, essas experiências, ou desprezando-as, causando, a nosso ver, um enorme impasse com relação à perda de riquezas humanas, como se essas pessoas que se desconhece, esse outro com o qual não se convive.
Todas essas experiências contribuíram para iluminar o que estava invisível aos olhos de muitos, despercebido por ser parte de um cotidiano que se vive, mas não se vê, ou, no dizer de Machado Pais (2001), é “onde tudo se passa onde nada parece passar" (idem: 28). A simplicidade de certas práticas sociais e as
sociabilidades possíveis de serem criadas quase nunca recebem a atenção devida ou, pelo menos, passam sem serem notadas, como bem esclarece o autor.