2.3. Suriye Devrimden Buhrana
3.1.4. İran'da Suriye Bunalımı Üzerindeki Aykırı Seslerin Tavrı
A estratégia política tomada pela Fundação "Tide Setubal" ao desenvolver ações sociais transversais, visando ao seu objetivo principal – “promover e estimular ações multidisciplinares e multissetoriais como eixo articulador do desenvolvimento local sustentável” – transcendia o bairro de São Miguel Paulista, abrindo diálogos com outros bairros da região leste da cidade de São Paulo como um todo. Surgiam, assim, outras frentes de atuação, onde seria necessário realizar atividades culturais, educativas e de formação política para instigar debates e reflexões sobre as condições sociais (educação, cultura, meio ambiente, saúde, etc.) e a situação política da região, com vistas ao desenvolvimento pessoal e social de integrantes de outro tipo de público, de jovens, produtores culturais, lideranças sociais locais. Desta forma, essas frentes envolveram partidos políticos, gestores de entidades públicas e privadas, estudantes e pesquisadores interessados nas condições sociais do bairro e de vida dos moradores da região Leste e de toda a cidade de São Paulo. As discussões giravam em torno da situação de moradia, saúde, educação, questões que motivaram muitas lutas nessa região e muitas delas aconteciam com a participação de representantes da Igreja Católica dos anos 70.
As atividades culturais e artísticas tinham maior abrangência, não apenas geográfica, mas principalmente em relação à possibilidade de formação dos diversos atores sociais locais. Frente a este desafio, estava em questão a metodologia. Assim, foi proposta a formação de círculos culturais, ou seja, núcleos de formação que se subdividiam em módulos. Assim surgiram:
● Núcleo de Formação Sociocultural que compreendia os módulos de Teatro, subdivididos em leitura e escrita, figurino e moda, sonoplastia, artes visuais, montagem, cinema, dramaturgia; iluminação, direção, cenografia.
● Núcleo de Formação para Lideranças Comunitárias, Gestores e Educadores Sociais que reunia com os módulos de Leitura e escrita, noções de políticas sociais, políticas públicas de cultura, gestão e administração, Terceiro Setor e elaboração de projetos sociais e culturais, leis de incentivos à cultura e editais públicos, seminários temáticos.
● Núcleo Experimental de Música e Luteria que estava dividido nos módulos de Leitura e escrita, técnicas vocais, noções de história da música, confecção de instrumentos musicais (violão, rabeca, violino, alfaia, tambores, xequerê etc.). Neste núcleo, havia aulas práticas e teóricas, ministradas de forma expositiva e acompanhadas por consultas bibliográficas relacionadas a cada uma das disciplinas. As aulas práticas eram dadas no Núcleo para grupos de dez alunos. Para aprenderem a construir instrumentos musicais e de percussão, eram orientados por um educador luthier, acompanhados por educadores aprendizes, jovens que já
conheciam há mais tempo, as técnicas de construção e eram supervisionados de perto pelo professor luthier.
Cada participante produzia uma peça individualmente, mas as etapas eram realizadas em grupo, possibilitando aos educando a oportunidade de discutir seu trabalho com os colegas e o educador luthier. Ao final das ações do Núcleo, cada educando participou da construção de vários instrumentos e junto com outros participantes da construção de um instrumento completo. Assim, poderia a atuar como aprendiz de luthier e restaurador de instrumentos musicais. Além disso, os participantes teriam a oportunidade de tornarem-se multiplicadores dessa experiência, formando outras turmas de alunos.
Nesse sentido, o projeto se direcionou para uma formação mais completa dos participantes. Para tanto, eram ministradas aulas de teoria musical, visando agregar conhecimentos para aprimorar a capacidade dos educandos na fabricação ou restauração de instrumentos musicais. Cada participante, por meio de audições individuais e coletivas, passou a conhecer os mais diversos timbres dos instrumentos, como eram utilizados, seus estilos, suas peculiaridades e as suas nuances e diferenciações tímbricas, de acordo com a produção musical. Essa formação era complementada com o apoio de referências históricas, para se conhecer a origem dos instrumentos, os materiais utilizados na sua confecção e em quais situações eram usados.
Outras questões foram abordadas na educação Ambiental, sexual e Identitária que buscava levar tomada de consciência dos participantes sobre o corpo humano e a preservação ambiental. Este módulo buscava despertar nos educandos o interesse por questões políticas, sociais, pessoais, culturais etc.
No funcionamento desses módulos e no desenvolvimento do seu conteúdo, foi também aplicado o chamado método da ausculta social na implantação de projetos sociais liderados por representantes dos movimentos sociais locais, principalmente, os envolvidos com os movimentos de moradia, saúde, educação, meio ambiente, etc. A partir de janeiro de 2006, começou alguns contatos nessa direção por ocasião da realização de encontros com grupos sociais que se organizam na busca e melhorias nas condições de vida de seus bairros. O acompanhamento nesses encontros se deu de forma sistemática, de modo a permitir uma descrição e análise da sua dinâmica e do sentido dessas práticas sociais, bem como da sua contribuição para as mudanças observadas no bairro e também nos seus moradores.
Vale ressaltar que esses encontros se ancoravam na experiência valiosa de Itapecerica da Serra, na qual a estratégia da conversa em pé de calçada era meio eficaz de juntar as pessoas em menor número, para uma conversa em torno de assuntos do cotidiano, quando se buscava entender quem eram elas, o que pretendiam e quais os seus anseios em relação à melhoria das condições de vida naquele território. Também se buscava com isso incluir a população num projeto de participação popular no Município, cujo ponto de partida seria a implantação de uma política cultural na cidade pensada e executada com a participação de todos.
Na região leste, embora a ideia sobre a conversa em "pé de calçada" fosse semelhante ao que se faz em Itapecerica da Serra, era necessário contudo, refletir sobre sua função estratégica que para De Certeau (2002), significa:
"... o cálculo das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e de poder é isolável de um ambiente. Ela postula um lugar capaz de ser circunscrito como um próprio e, portanto, capaz de servir de base a uma gestão de suas relações com uma exterioridade distinta. " (idem :46)
Essa definição remete à ideia de pertencimento e de organização. Em Itapecerica da Serra, a conversa em "pé de calçada" era estratégica para reunir forças sociais capazes de se opor às relações de poder vigentes, no município onde seus moradores estavam relegados ao esquecimento pelo grupo social dirigente dos órgãos públicos, há mais de cem anos.
Na região leste da cidade de São Paulo, o cenário histórico era diferente. Então, essa experiência anterior também precisava passar por ajustes. Dessa forma,
o método de ausculta social requeria de uma atuação diferenciada, transformando- se em tática, distinta da noção de estratégia que, para De Certeau (2002), significa:
"...um cálculo que não pode contar com um próprio, nem portanto com uma fronteira que distingue o outro como totalidade visível. A tática só tem por lugar o do outro. Ela em si se insinua, fragmentariamente, sem apreendê-lo por inteiro, sem poder retê-lo à distância. Ela não dispõe de base onde capitalizar os seus proveitos, preparar suas expansões e assegurar uma independência em face das circunstâncias. O próprio é uma vitória do lugar sobre o tempo." (idem :46).
Assim, a forma de atuação através da ausculta social passaria, necessariamente, por um olhar de vigia cuidadosa dos acontecimentos, buscando as ocasiões de atuar. O cenário diferenciado da "região leste" é o de um território com características e disposições peculiares à cultura desta região, tanto do ponto de vista populacional quanto das relações sociais e da diversidade cultural. Por exemplo, no Município de Itapecerica da Serra, especialmente no período de 1997 a 2004, quando ali foram implantados os "Barracões Culturais da Cidadania", havia uma população pequena, em torno de 100 mil habitantes distribuídos numa área de 132 Km², o que difere em muito de um bairro como São Miguel Paulista, com uma população em torno de 384 mil habitantes, dividida em três subdistritos que, a seu modo, também têm características próprias. Portanto, era necessário desenhar o formato dos encontros e/ou reuniões que ganhariam, aos poucos, formatos mais amplos, mais parecidos com as assembléias populares; ou seja, assembleias públicas, mas em menor escala quanto ao número de participantes, se comparado às assembleias e/ou plenárias de sindicatos ou de outros movimentos sociais, como é o caso, por exemplo do Movimento dos Sem Terra. Eram, portanto, ajuntamentos menores em relação às assembleias e plenárias, mas maiores do que os encontros ocorridos em Itapecerica da Serra, parte integrante da mesma intencionalidade metodológica de compreender os efeitos da ausculta social, na apreensão e implementação de políticas culturais.