Essa seção pretende dialogar com o seguinte objetivo específico: descrever onde foram adquiridas as competências musicais e pedagógicas acionadas pelos egressos durante sua atuação na Educação Básica.
Na seção anterior, tratei sobre os conhecimentos musicológicos e pedagógicos utilizados pelos docentes de Música em seu cotidiano. Para compreendermos onde foram adquiridos esses saberes, é interessante pensarmos na formação dos professores de forma geral.
É possível que nem todas as experiências relacionadas à música vivenciadas por esses docentes tenham ocorrido no espaço da graduação. Portanto, não só na Licenciatura em Música se alicerça a formação de um professor, mas também em toda a bagagem musical adquirida durante a trajetória de vida de cada um, quer obtida na graduação, ou não.
Para refletirmos sobre o assunto, é importante saber que, ao ingressarem no Curso de Licenciatura em Música na UFCA, os estudantes, não necessariamente, teriam que possuir conhecimento prévio em Música. Isso se deve ao fato de que este curso não aplica o chamado Teste de Habilidade Específica (THE). Também bastante comum em cursos como Artes Cênicas, Audiovisual, Design e Arquitetura, esse teste busca aferir a capacidade dos candidatos nas áreas em que pretendem ingressar.
O Curso de Licenciatura em Música da UFCA é uma das poucas graduações no Brasil que não submete seus futuros licenciandos a essa prova. Mateiro (2009), ao analisar os Projetos Pedagógicos de várias licenciaturas em Música afirma: “Dos 15 cursos analisados somente dois (UFC41 e Ufes) não exigem conhecimentos musicais prévios” (p. 60). Cinco anos depois Figueiredo, Soares e Schambeck informam: “A exigência de prova específica de música para o ingresso no curso está presente em 21 (72%) IES desta amostra, sendo 19 (90%) públicas e 2 (10%) privadas.” (2014, p. 53). Portanto, uma grande maioria dos cursos optam pela prova de habilidade específica.
A questão é que a aplicação desta prova, a nosso ver, é contraproducente, visto que nem todas as pessoas têm acesso ao ensino de música em nosso país e, portanto, não podemos cobrar conhecimentos que o sistema não lhes deu oportunidade de adquirir. Segundo Pereira,
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Até o ano de 2013, o curso de Música ao qual estou me referindo, pertencia à UFC, como já citado anteriormente.
“[...] a música não é trabalhada regularmente na educação básica até mesmo em escolas particulares, e o acesso a esta música é uma possibilidade muitas vezes excluída do cotidiano da grande maioria da população” (PEREIRA, 2012, p. 183). Corroboram com esta mesma visão Figueiredo, Soares e Schambeck ao afirmarem:
[...] realizar a prova específica de música pode refletir a ausência ou a insuficiência do ensino musical na educação básica, o que pode significar um grande obstáculo para aqueles que desejam ingressar na licenciatura em música já que não disporiam de conhecimentos musicais suficientes para serem aprovados em processos seletivos de música. (2014, p. 53)
Soma-se a essas questões o fato de que “Não existem, até o momento, resultados de pesquisa que demonstrem relação direta entre a prova específica de música para ingresso nos cursos de licenciatura e o desempenho acadêmico ao longo do curso.” (Ibidem, p. 53). Portanto, são esses os motivos que nos fazem acreditar que a não aplicação das provas de habilidade específica se mostra como decisão mais acertada nesse sentido.
Isto posto, podemos então pensar inicialmente em que tipo de saberes os professores já traziam consigo antes do ingresso na Licenciatura em Música. Para tanto, faz-se necessário voltarmos ao ano de 2009 – ano anterior ao ingresso dos professores no curso – e compreender como se constituíam, naquela época os saberes daqueles professores.
Antes de tecer comentários sobre os conhecimentos dos docentes, deixo clara minha convicção de que todos sabemos algo sobre Música. No entanto, nos parágrafos a seguir, refiro-me a saberes mais sistematizados do conteúdo Música.
Baseando-me tanto na avaliação dos próprios professores em relação a esse aspecto, quanto em minha própria percepção deste assunto (afirmo isso pelo fato de que todos foram meus estudantes logo no primeiro semestre do curso. Nesta época, ministrei a disciplina de Percepção e Solfejo para essa turma. Além disso, Cecília era minha aluna de teclado) atesto que havia, entre os nove professores, três perfis distintos.
Em primeiro lugar, falo de Carlos, que trazia larga experiência no estudo de Música. Segundo ele, “Minha vida é toda pautada mesmo na questão musical. Isso vem de uma herança familiar, vem de toda uma carga cultural.” (Carlos). De fato, antes de ingressar na faculdade, Carlos já tocava vários instrumentos, já era professor de Música, já havia participado de vários festivais. Como ele mesmo afirmou, nasceu e se criou em meio a um ambiente musical.
Em segundo lugar, formo um bloco com Augusto, Marcela e William. Apesar de não apresentarem tantos conhecimentos musicais quanto Carlos, possuíam uma bagagem musical considerável. Segundo os mesmos,
Eu já tinha uma certa experiência, já tinha participado de vários cursos de formação, de bandas, de regência. (Augusto).
Tive oportunidade de participar de um coral infantil, tive a oportunidade de participar da banda de música: o meu primeiro contato com a teoria musical, questão de partitura, das figuras, das notas. (Marcela).
Aprendi a tocar violão com o meu tio. Me dividia entre violão e contrabaixo elétrico. Participei da banda de música na cidade, tocando trompete. Lá aprendi teoria musical e a ler partitura. (William).
Na fala desses professores já se percebe o contato com instrumentos, o domínio da teoria musical e a participação em grupos musicais diversos.
Fazendo um balanço apenas desses dois primeiros grupos, percebemos que, antes de entrar no curso, alguns professores já possuíam saberes musicológicos. Esses foram adquiridos: em cursos de formação; no estudo de uma prática instrumental; por meio da participação em diversas bandas.
Finalmente o grupo de Fernando, Gustavo, Cecília, Leonardo e Ivan. Segundo os mesmos, antes de ingressarem na universidade, seus conhecimentos relacionados à Música eram bastante modestos. Vejamos abaixo seus depoimentos sobre isso:
A única experiência que eu tinha com música era só de escutar. Só gostava muito, mas nunca tive oportunidade de aprender um instrumento, fazer uma aula de
canto. (Fernando).
Meu conhecimento a respeito de música era muito baixo, sabendo quase nada. (Gustavo).
Em 2010 eu ingresso no curso de música com conhecimento muito pouco da
questão teórica mesmo, quase nada. (Cecília).
Eu tocava por diversão mesmo. (Leonardo).
Eram conhecimentos rasos, sem profundidade. (Ivan) (grifos nossos).
Verifica-se, pela fala desses professores, o pouco conhecimento em relação à música quando ingressaram na universidade. Ou seja, em um grupo de nove professores, cinco confirmavam essa realidade. Podemos concluir, então, que até o ano de 2010 a maioria dos participantes desta pesquisa não havia obtido os conhecimentos musicológicos e pedagógicos aos quais recorriam em suas aulas.
Essa constatação aponta para a ousada, mas plausível, proposta da UFCA de formar professores de música em quatro anos, visto que, na sua grande maioria, os licenciandos ingressam no curso sem conhecimentos específicos na área de Música.
O fato é que, para boa parte dos professores participantes da pesquisa, os conhecimentos musicais por eles utilizados foram adquiridos, sim, dentro da graduação em Música na UFCA. Segundo Gustavo, Leonardo, Cecília, Fernando, Ivan e William,
As disciplinas musicais e práticas contribuíram de maneira importantíssima para minha formação, pois meu conhecimento musical antes de entrar no curso,
era mínimo, e essas disciplinas me deram total suporte para minha formação musical. (Gustavo).
É sempre buscando aplicar o conhecimento que eu adquiri na graduação. Porque eu não tinha esse conhecimento, nem nada. (Leonardo).
Eu adquiri esses conhecimentos na Universidade. Porque até então eu só conhecia
o ensino coletivo do canto. (Cecília).
Então o que eu aprendi de música foi realmente dentro da faculdade. (Fernando).
Antes de ingressar no curso de música sabia pouco comparado ao que sei hoje.
Adquiri esses conhecimentos musicais observando os professores. (Ivan). O conhecimento que eu utilizo é basicamente o que eu aprendi na faculdade mesmo. É o que eu aprendi lá. O que eu aprendi lá, uma hora ou outra eu utilizo em
sala de aula. (William) (grifos nossos).
Percebe-se, portanto, a importância que o Curso de Licenciatura em Música tem na formação desses professores. Quando se considera o ensino de Música, é possível afirmar que, até o momento, esse se mostra como principal local de formação destes professores. Poderíamos dizer também que, em uma região que espelha tão aguda carência de centros de formação de professores de Música, esta seria a fonte à qual poderiam recorrer.
Os professores Carlos e Augusto, dois dos poucos professores que já possuíam saberes musicais antes de ingressarem na faculdade, afirmaram que a formação no curso de Música possibilitou também a readequação e a ampliação dos saberes que já traziam consigo.
Na universidade eu tive a oportunidade de certa forma reorganizar tudo aquilo que eu aprendi antes, com um professor para cada área. Isso me deu condições de entender melhor o que eu tinha aprendido antes de forma organizada. (Carlos). Por conta da minha vivência anterior o suporte que eu tive na faculdade com as disciplinas que me deram oportunidade de corrigir as minhas falhas. (Augusto).
Percebi ainda que, alguns professores, apesar de apontarem o curso de Música como principal local de aquisição de seus saberes musicológicos, indicavam também a experiência em sala de aula como real oportunidade de aquisição de novos saberes. Segundo Marcela e Fernando:
Os conhecimentos que eu utilizo na sala de aula eu diria que a maior parte foram adquiridos no curso. Não diria cem por cento. Como eu já falei, a gente vai sempre
aprendendo mais com a experiência. Mas, é claro que o curso de Música me deu
um suporte muito grande pra isso. (Marcela).
A vivência mesmo. Quando você vai lá, trabalha realmente em sala de aula é que… Aquilo é que vai ser. Isso é que vai preparar. (Fernando) (grifos nossos).
As afirmativas de Marcela e Fernando dialogam perfeitamente com as reflexões que fiz em capítulo anterior a respeito dos saberes da experiência (TARDIF 2000, 2001, 2012, 2013; PIMENTA1999, 2008; THERRIEN, 1997a, 1997b, 2000, 2002). De fato, os saberes provenientes da experiência são indiscutivelmente um dos maiores alicerces do docente. Como afirma Therrien (1997b):
As intervenções destes atores sociais, suas decisões e seus julgamentos em situações de reflexão na ação apontam para elementos construídos na práxis, na interação, ou seja para saberes de experiência como componentes indissociáveis da
heterogeneidade dos conhecimentos que fundam a profissão. (p. 3 – grifos nossos).
Finalizando este capítulo, é possível afirmar que os saberes acionados pelos professores durante sua prática pedagógica foram adquiridos em situações e sob aspectos diferentes. Mesmo antes de ingressarem no curso de Música, alguns dos participantes já haviam tido acesso a um conhecimento musical mais aprofundado. Esses foram conquistados em cursos de formação, através do estudo individual de instrumentos, por meio da participação em grupos musicais com formações diversas. Esses professores afirmaram que adquiriram também saberes musicológicos dentro da graduação em Música. Nesse sentido, o curso foi marcante ao dar a oportunidade aos mesmos de reorganizarem e readequarem seus conhecimentos prévios.
Havia também os professores que não dispunham de qualquer sistematização do conhecimento musical antes da entrada no curso. Eles eram maioria no grupo. Para esses, a maioria dos saberes que utilizavam em sala de aula foram adquiridos no curso de Licenciatura em Música da UFCA.
Finalmente, os professores ainda apontaram a vivência em sala de aula como chance de obtenção de novos conhecimentos, ressaltando, portanto, os saberes provenientes da experiência.
7 REFLETINDO SOBRE A FORMAÇÃO EM MÚSICA NA UFCA E A DOCÊNCIA