A. KAVRAMSAL VE KURUMSAL OLARAK DEVLETİN VE
2. Anayasanın Tarihi
Nas seções anteriores deste capítulo, vinha tratando sobre a formação pedagógica do curso. Nesta seção, pretendo focar um pouco a formação musicológica construída naquela instituição.
No capítulo anterior, ao buscar esclarecer onde os professores participantes desta pesquisa haviam adquirido os conhecimentos por eles acionados durante a sua prática, concluí que a grande maioria obteve os saberes que hoje utilizam, durante o período de sua formação na UFCA (2010 a 2013).
Nessa formação, os conhecimentos referentes ao aprendizado de Música encontravam- se nas seguintes disciplinas musicológicas: Prática Instrumental (Cordas Friccionadas/Violino e Viola; Cordas Friccionadas/Violoncelo e Contrabaixo; Sopros/Madeiras; Sopros/Metais; Violão; Teclado/Piano), Oficina de Música, Canto Coral, Técnica Vocal, Percepção e Solfejo, História da Música, Regência, Harmonia, Contraponto e Análise Musical. Em relação à formação musicológica no Curso de Licenciatura em Música da UFCA, os professores afirmaram.
Com relação à parte musical da graduação, foi de fundamental importância por me proporcionar subsídios suficientes para saber como e o que trabalhar.
Através dos métodos de ensino para cursos progressivos, o trabalho de análise musical para a seleção e escolha de repertório a se trabalhar nas práticas instrumentais/musicais que desenvolvo e os métodos dos pedagogos ativos, colhendo e adequando aquilo que fosse adaptável à realidade das escolas. (Leonardo).
As disciplinas musicais e práticas como Prática Instrumental, Canto Coral, Percepção e Solfejo, Técnica Vocal, História da Música, Regência, Harmonia, Contraponto e Análise Musical, contribuíram de maneira importantíssima para minha formação, pois meu conhecimento musical antes de entrar no curso,
era mínimo, e essas disciplinas me deram total suporte para minha formação musical. (Gustavo).
Da formação musical, a gente tem a base do que é necessário dentro da Graduação. Cabe a gente que sai, aprofundar e buscar novos conhecimentos
sempre, é fundamental isso. (Cecília).
As disciplinas musicológicas, foram essenciais para, primeiro, minha formação musical e em seguida como professor. Pois para que ensine algo, devo no mínimo
entender aquele objeto de pesquisa estudado. (Ivan) (grifos nossos).
Em todo o andamento da pesquisa, os professores mostraram-se bastante satisfeitos quando se referiam à formação musicológica do curso. Isto fica claro também quando lemos as citações acima. O fato de poderem, durante quatro anos: experienciar a música nos vários grupos que o curso abriga (coral, orquestra, big band, pequenos grupos instrumentais); estudar a música na sua essência em disciplinas como Percepção e Solfejo, Harmonia e Análise;
participar de atividades como o Programa de Educação Tutorial (PET), o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) e o Programa de Iniciação à Docência (PID), parece ter sido bastante proveitoso para o grupo no que concerne à formação musicológica deles e como ela se reflete em suas vidas docentes hoje. É claro o contentamento de todos com a oportunidade que tiveram de estudar música em um curso que há muito se aguardava na região do Cariri. Pois antes, por aqui, estudar Música sempre foi para aqueles poucos que podiam pagar uma escola de Música particular. É como Cecília afirmou em um dos encontros: “A Universidade abriu as janelas desses conhecimentos” (Cecília).
Cabia ainda verificar se a formação musicológica da Licenciatura em Música da UFCA tinha sua base fundada no paradigma conservatorial, ou não. Disso, tratarei na seção seguinte.
7.2.1 Formação musicológica: o paradigma conservatorial e a Licenciatura em Música da UFCA
Em capítulo anterior, abordei questões relacionadas ao paradigma conservatorial nas Licenciaturas em Música no Brasil. Naquela parte do texto, discorri sobre essa temática, apontando que, em várias Licenciaturas em Música, predomina esse modelo, no qual há a preponderância da música erudita europeia na maioria das atividades destes cursos. Neste caso, afastam-se quaisquer outras possibilidades musicais que não sejam consideradas eruditas.
Vejamos então como essa questão se apresenta no curso de Licenciatura em Música da UFCA: em suas narrativas, os professores comentaram sobre a possível existência de um paradigma conservatorial no curso de música da UFCA, tratando para isso de algumas disciplinas que foram listadas na seção anterior. Discorro a seguir sobre o que disseram os professores em relação ao assunto. Iniciarei, propositalmente, com duas disciplinas que ministro desde o início do curso: Percepção e Solfejo e Prática Instrumental Piano/Teclado.
Na disciplina Percepção e Solfejo, utilizamos o solfejo móvel a partir da proposta de letramento musical pensada por Zoltán Kodály. No primeiro semestre, utilizamos o livro “333 olvasógyakorlat” do próprio Kodály (1960). Nos outros três semestres, seguimos o método americano “Music for Sight Singing” dos autores Robert Ottmann e Nancy Rogers (2007).
Além destes, é óbvio que utilizamos materiais avulsos de outras fontes. Porém, os livros de Kodály e de Ottmann e Rogers eram, digamos, nosso texto base.
Principalmente este último método caracterizava-se pela total predominância do repertório erudito. O material sonoro a ser trabalhado pelos estudantes consistia sempre em pequenos trechos de sinfonias, partes de óperas, excertos de sonatas, enfim, formas bem características da música erudita europeia. Portanto, a rítmica, a condução melódica e a harmonia se enquadravam neste tipo de música. Lembro que, em todo o livro, encontramos apenas um pequeno trecho de uma música brasileira.
Portanto, na disciplina Percepção e Solfejo, por mim conduzida, imperava o paradigma conservatorial. A resposta dos participantes da pesquisa em relação a essa constatação pode ser vista na sugestão de Augusto: “De repente, surgir a oportunidade de a gente fazer um método baseado no Kodály com músicas daqui”. Portanto, na opinião do professor, a proposta de Kodály é interessante, mas poderia ser pensada com a sonoridade e a rítmica daqui.
Na disciplina Prática Instrumental Piano/Teclado, utilizávamos o método “Piano 101” de Lancaster e Renfrow (2008). Esse também era um livro americano que se destinava ao ensino de piano em grupo. Na UFCA, seguimos a proposta de ensino de instrumento de forma coletiva e não tutorial. Geralmente, as turmas de Piano/Teclado contam com cerca de sete estudantes.
O método utilizado atendia bem à proposta do ensino coletivo do instrumento. Porém, o repertório era predominantemente erudito. Por isso, busquei trazer outros materiais, inclusive alguns que necessitavam da leitura de cifras. No entanto, parece que não foi suficiente. Veja abaixo o diálogo entre Cecília [minha ex-aluna de Piano/Teclado], Fernando e Carlos:
A gente ficava na leitura mínima para tentar desenvolver a parte técnica mesmo, que
eu acho que se limitou um pouco na questão erudita por causa do método. Nosso método trazia muitas peças de compositores eruditos, não é? Mas Rute não deixou de trabalhar também o repertório mais popular, mas foi em minoria. (Cecília).
Cifra. (Fernando).
É com cifra. Eu senti falta dessa parte. (Cecília). Popular? (Carlos).
Popular. De trabalhar a questão dos ritmos mesmo, de pegar o teclado e conduzir um baixo e fazer um acorde com a outra mão. (Cecília).
As levadas. (Carlos).
É, isso as levadas. A disciplina foi... Ficou mais restrito à questão do aprendizado
da leitura musical [...] é porque, na verdade, quando a gente vai para a sala de aula é isso [música popular] que precisa. (Cecília – grifos nossos).
Acredito que o leitor deva estar achando o discurso de Cecília bem parecido com o meu discurso em um capítulo anterior. Naquela parte do texto, eu falava de minha formação na Universidade Estadual do Ceará (UECE) e a falta que me faziam outros elementos não presentes na música erudita, por exemplo, os da música popular. Aqui fica clara, pelo menos em parte, a reprodução de um modelo de ensino entre gerações de professores. Meu professor me ensinou assim, eu ensino assim a meus alunos, eles ensinarão assim a seus alunos... A esse respeito, Penna (2007) afirma:
[...] costumamos “ensinar como fomos ensinados”, sem maiores questionamentos, e desta forma reproduzimos: a) um modelo de música – a música erudita, notada; b) um modelo de fazer musical; c) um modelo de ensino. E a
verdade é que tais modelos são bastante restritos, se comparados à larga e multifacetada presença da música na vida cotidiana. (p.51 – grifos nossos).
Portanto, a partir da análise dos egressos em relação às disciplinas Percepção e Solfejo e Prática Instrumental Piano/Teclado, ministradas por mim, concluo que as mesmas se apresentaram, sim, marcadas pelo paradigma conservatorial, fonte de minha formação, em sua grande maioria. Assim fui ensinada. No entanto, como Cecília e Penna afirmam acima, bem como foi exaustivamente tratado em capítulo anterior, esse modelo, sozinho, não atende às necessidades da música presente nas escolas.
Neste sentido, essa pesquisa contribuiu significativamente com o meu trabalho como docente pelo fato de ter tido o privilégio de refletir sobre minha própria prática a partir do que os professores afirmaram sobre minhas aulas e, porque não dizer, sobre mim mesma. Ao trabalhar com as histórias de vida desses professores, era natural, e eu diria, era esperado, que também aflorassem suas impressões sobre mim, já que era uma de suas professoras. Fica da mesma forma, a certeza do meu crescimento particular alcançado a partir das narrativas deles: “A invenção de si no singular plural implica então vigilância, vontade e perseverança para
que sejamos seres vivos em transformação e não seres vivos em prorrogação” (JOSSO, 2007, p. 436 – grifos nossos). Neste sentido, creio que o determinismo acima apontado – e, portanto a imutabilidade de uma prática docente fundada em modelos pré-estabelecidos – pode ser superada a partir dos saberes que serão adquiridos no percurso da vida docente, na busca por uma identidade como professor autônomo, capaz de fazer escolhas baseadas nas necessidades de seu contexto de ensino.
Como acabei de falar da Prática Instrumental Piano/Teclado, aproveito para tratar sobre as demais práticas instrumentais do curso de Música da UFCA, que são seis,
atualmente: Cordas Friccionadas/Violino e Viola; Cordas Friccionadas/Violoncelo e Contrabaixo; Sopros/Madeiras; Sopros/Metais; Violão; Teclado/Piano. Cada uma dessas práticas é conduzida por um docente. Somos então seis professores de Prática Instrumental.
Dentre os participantes desta pesquisa, contávamos com representantes da Prática Instrumental de Violão: Fernando, Gustavo, Ivan, Leonardo, William e Marcela; Sopros/Madeira: Carlos; Sopros/Metais: Augusto; Piano/Teclado: Cecília, cujas observações em relação ao paradigma conservatorial já foram destacadas. Portanto, não havia representação de discentes das Cordas Friccionadas/Violino e Viola nem das Cordas Friccionadas/Violoncelo e Contrabaixo, pois, até aquele momento, esses egressos não estavam atuando na Educação Básica.
Em relação às Práticas Instrumentais de Sopros/Madeira, Violão e Sopros/Metais e o paradigma conservatorial, os professores afirmam respectivamente:
Foi uma disciplina que ela teve sim um caráter conservador, até certo ponto sim, e também fugiu um pouquinho. Na nossa primeira Prática Instrumental, ela trabalhou músicas da tradição europeia, e tudo, mas também trabalhou músicas regionais daqui. Eu acho importante. (Sopros/Madeiras) (Carlos).
Eu acho que ele mesclou bem também. Teve umas músicas mais eruditas e também mais popular, não é? (Violão) (Marcela).
No nosso caso, a disciplina que eu participei com os companheiros, o repertório era totalmente popular. Não tinha nada de erudito. (Sopros/Metais) (Augusto).
Percebe-se, na maioria das falas, certo equilíbrio entre o repertório erudito e outros repertórios. Nas Práticas Instrumentais acima tratadas parecia haver a busca por munir os professores tanto de conhecimentos referentes à música erudita como a outros tipos de músicas, dentre elas, a música popular.
Essa parece ser uma tendência na maioria das disciplinas tocadas pelas falas dos professores, se pensarmos nessa temática específica. Em relação às disciplinas Canto Coral, Técnica Vocal e Análise, Carlos afirma:
Dentro da prática coral nós cantamos repertório de vários gêneros, regional, folclórico e realmente ela passeou um pouco nesses dois caminhos [erudito e popular]. (Canto Coral) (Carlos).
Nós trabalhamos muito utilizando nessa preparação técnica, a forma de cantar daqui. Até algumas músicas utilizando o timbre daqui, não é? Nós cantamos aqui
fazendo referência às cantoras de renovação, o pessoal do reisado aqui, usando a técnica. Isso foi importante. (Técnica Vocal) (Carlos).
Lá nós tivemos oportunidade de ver, ouvir, analisar vários gêneros musicais, não é?
Nós vimos da Quinta Sinfonia ao Funk carioca, não é? Vimos da música renascentista a menina aqui do coco, a Marinês, não é? Então, houve um ganho
Nota-se, nas falas acima, a inserção da música erudita, mas também uma grande valorização do que é nacional e mesmo regional. A região do Cariri, local em que a Universidade Federal do Cariri – UFCA se encontra, é muito rica musicalmente. O curso tem buscado não fechar os olhos para essa questão. Em razão disso, pode-se contar no curso com uma orquestra que espelhe todas as características eruditas que lhe são próprias, mas também é possível ouvir o som de uma Big Band ecoando pelos corredores do campus nas tardes de quinta-feira, ou mesmo de um quinteto de sax, tocando música regional. Como afirma Carlos: “Eu acho que esse é o caminho. Ter um pé no tradicional, mas ter um pé também no
regional para que a gente possa ter um ganho de todo o pensamento musical que já foi feito até hoje e também vivenciar, valorizar o que nós temos aqui” (Carlos – grifos nossos).
Concluindo essa seção, que tratou do paradigma conservatorial na Licenciatura em Música da UFCA, podemos afirmar que, apesar de algumas exceções, o curso tem promovido um equilíbrio entre o erudito e o popular, na busca de propiciar a seus egressos as capacidades necessárias a estarem aptos a transitar com desenvoltura nos mais variados ambientes próprios à música, sejam eles eruditos ou populares.