No ano de 2015, iniciamos o trabalho de campo descrito no capítulo anterior. Esse se prolongaria ainda até o ano de 2016. O nosso grupo tinha, além de mim, a presença de nove professores de Música atuantes na Educação Básica. Portanto, dez participantes. É interessante que todos esses professores faziam parte da primeira turma do referido curso, visto que, até o início do trabalho, não havia representantes da segunda turma na docência da Educação Básica. Assim sendo, todos eles haviam ingressado na faculdade no semestre 2010.1 e colado grau no início de 2014. Digo ainda, que essa pesquisa conseguiu atingir
100% dos professores egressos do curso de Licenciatura em Música da UFCA que estavam atuando como professores de Música, pelo menos até o ano de 2016. Ou seja, não havia professores com esse perfil que não estivessem entre os participantes desta pesquisa. Por isso, foi possível incluir todos os egressos do Curso de Licenciatura em Música que estavam atuando na Educação Básica naquela época. Isso é muito importante, pois reforça os resultados encontrados devido à adesão maciça do grupo.
Ao nos encontrarmos pela primeira vez, informei aos professores que suas identidades seriam preservadas. Para tanto, atribuí a cada um deles um pseudônimo, a fim de mantê-los em oculto. Na escolha do pseudônimo, o quesito sexo foi respeitado. Os homens receberam nomes masculinos e as mulheres nomes femininos. Figuram, portanto, os professores nesta pesquisa com os seguintes pseudônimos: Augusto, Cecília, Carlos, Fernando, Gustavo, Ivan, Leonardo, Marcela e William. Tínhamos a presença de sete homens e duas mulheres, caracterizando evidente prevalência do sexo masculino entre os participantes. Essa característica reflete o perfil das turmas do curso, que, até o momento, são formadas majoritariamente por homens - um desafio a mais para o professor de Canto Coral, que sempre tem que se esforçar bastante para buscar peças que se adequem a essa escassez de vozes femininas!
O grupo que tínhamos era composto por professores bastante jovens. Pude perceber que eles, em sua maioria, estavam apenas iniciando a vida, em todos os sentidos. No âmbito profissional, a maior parte estava em seu primeiro emprego. No lado pessoal e familiar, alguns estavam saindo da casa dos pais, outros haviam acabado de se casar e ainda havia aqueles que tinham tornado-se papais ou mamães pela primeira vez, há pouquíssimo tempo. No quesito idade, se tomarmos como data base o ano de 2015 e partirmos dos mais jovens para os mais velhos, teremos a seguinte configuração: Cecília, Leonardo e Marcela tinham 23 anos; Gustavo e William tinham 24 anos; Fernando e Ivan tinham 26 anos; Carlos tinha 34 anos e Augusto tinha 41 anos.
Em relação ao nível de atuação, percebi que os professores participantes da pesquisa atuavam em diferentes etapas da Educação Básica. Segue tabela com os diferentes níveis de atuação de cada professor.
Tabela 1 – Níveis em que os egressos do curso de Música/Licenciatura da UFCA atuavam na Educação Básica.
Egressos Nível de atuação
Augusto Ensino Fundamental I e II e Ensino Médio Cecília Ensino Médio Técnico em Regência Carlos Ensino Médio Técnico em Regência
Fernando Educação Infantil e Ensino Fundamental I e II Gustavo Ensino Fundamental II e Ensino Médio Ivan Ensino Infantil e Ensino Fundamental I Leonardo Ensino Fundamental I e II
Marcela Educação Infantil e Ensino Fundamental I e II William Ensino Fundamental II e Ensino Médio
Fonte: Elaboração própria com base em pesquisa de campo.
Observou-se, portanto, que o grupo de professores atuava em todos os níveis da Educação Básica: do Ensino Infantil ao Ensino Médio. Ou seja, o público atendido por eles era composto de alunos entre: três e cinco anos na Educação Infantil; seis a dez anos no Ensino Fundamental I; onze a quatorze anos no Ensino Fundamental II; quinze a dezessete anos no Ensino Médio. Portanto, uma grande heterogeneidade de faixas etárias, saliente-se, com diferentes características e necessidades.
Importante também chamar a atenção para os professores Cecília e Carlos que atuavam em escolas de Ensino Médio Técnico em Regência. Trata-se de uma iniciativa do Governo do Estado do Ceará que, a partir do ano 2008, vem implantando Escolas Estaduais de Ensino Profissionalizante (E.E.E.P.) em diversos municípios. Funcionando em tempo integral, essa modalidade de ensino associa o Ensino Médio à Educação Profissional nos mais variados cursos, dentre os quais, o curso Técnico em Regência.
Os professores Gustavo e William haviam retornado às suas cidades de origem após a formatura, afastando-se da região do Cariri. Devido à distância, durante todo o desenrolar da pesquisa, a participação desses dois professores se deu por meio eletrônico.
Essa pesquisa se coaduna com o que pregam as Políticas Institucionais de Integração e Avaliação de Egressos, propagadas pelo MEC, baseadas na visão de que é importante manter vínculos com os egressos, bem como conhecer e avaliar suas práticas com relação à formação adquirida. Realmente, formar e lançar professores de Música nas escolas e simplesmente virar-lhe as costas, como que a estranhos, não me parece nem um pouco aceitável. É imprescindível, pois, ter a consciência de que é nossa responsabilidade acompanhar a vida profissional de nossos egressos. Temos que manter os laços, encontrá-los, ouvi-los, incentivá- los, apoiá-los pelo tempo necessário na difícil fase de encontrarem seu lugar ao sol. É necessário, portanto, continuar convivendo, mantendo os laços. Para mim, essa proximidade era bastante natural, visto que havia convivido com esses professores, meus ex-alunos, por longos quatro anos. Estávamos em casa. Éramos chegados.
Vários autores vêm apontando a falta dessa escuta para com os professores de Música recém saídos dos muros das Universidades. Porém, é claro o desejo que esses professores têm de dividir suas experiências com aqueles que, durante anos, foram seus mentores, preparando- os para o papel que agora assumem. Desejam falar, agora de colega para colega para lhes dizer o que está, ou não, dando certo. Beineke (2012) ao realizar pesquisa com professores de Música declara: “[...] o estudo mostrou a necessidade que os professores têm de compartilhar suas experiências com outros profissionais, oportunidade esta que costuma ser escassa nos modelos de formação de educadores musicais, no Brasil.” (p. 199). Foi com esse enfoque que essa pesquisa se realizou. Nos anos 2015 e 2016 passamos bastante tempo juntos, conversando, refletindo, partilhando, analisando.
Convido, pois, o leitor a realizarmos um percurso por tudo o que foi construído. Não é demais repetir que a principal meta desta pesquisa é compreender como a formação adquirida no Curso de Licenciatura em Música da UFCA relaciona-se com a docência no Ensino Básico, observando dois parâmetros fundamentais: a formação musicológica e a formação pedagógica. Partindo desse objetivo geral, faremos paradas em cada objetivo específico propostos na introdução deste texto.
Importa ressaltar também que todos os dados que serão compartilhados neste e no próximo capítulo, são fruto das narrativas escritas e orais feitas por todos os professores participantes, bem como da análise dessas narrativas realizadas por eles e por mim. As transcrições de todas as narrativas encontram-se anexas a esse trabalho.