A. HAYATI
5. Hamidullah ve Türkiye
Constatamos na seção anterior o fato de que a formação construída nos cursos de Licenciatura em Música em nosso país tem seus alicerces mais fundamentados em bases musicais do que, propriamente, em suportes pedagógicos. Isso é um contrassenso, visto que estamos tratando de licenciaturas e, por consequência, de formação de professores. Esses cursos precisam, sim, ter um forte embasamento pedagógico.
Isto posto, surgem os questionamentos em relação aos porquês para esse cenário. Por mais paradoxal que isso possa parecer, ouso afirmar que esse problema, presente nas instituições formadoras de professores de Música, tenha sua gênese na composição dos corpos
docentes dos cursos. Esclareço: sob vários aspectos, notória é a influência do professor na escola, seja ela qual for. Convém esclarecer que, antes da criação de um curso de graduação, faz-se necessária a elaboração e submissão ao Ministério da Educação da proposta didático- pedagógica que o curso pretende seguir. Essa proposta é denominada Projeto Pedagógico de curso (PPC) 37. Para a elaboração desse documento, em geral, reúne-se um grupo de docentes da área, os quais discutirão os vários aspectos referentes ao curso que se pretende iniciar. Nessa ocasião, os professores reunidos determinam quais serão as disciplinas presentes no currículo e o que se abordará em cada uma delas, metodologias a serem seguidas, bibliografia a ser consultada, formas de avaliação, repertório que será executado, quantidade de docentes necessária para compor o grupo de professores que atuarão naquela instituição. Enfim, deliberam sobre todos os detalhes referentes ao funcionamento do futuro curso.
Após autorização e início daquele curso, é o corpo docente o responsável por executar, ou seja, dar vida à proposta apresentada. Importante ressaltar que, se necessário, o PPC poderá ser modificado mediante decisão consensual entre os pares do corpo docente. Isso se dá por ocasião das frequentes revisões feitas nesses projetos ao longo dos anos. Portanto, é o colegiado de cada curso, que escolhe o tipo de formação que se pretende desenvolver38.
Ora, após a constatação de que são os professores das Instituições de Ensino Superior (IES) que definem o perfil da proposta didático-pedagógica de cada curso, não há como negar a grande influência e, claro, responsabilidade envolvida nesta ação. Ora, com certeza as escolhas por eles feitas partirão do que esses docentes têm como fundamento em suas próprias trajetórias. Estas estarão embasadas em suas identidades, em suas formações e principalmente em suas concepções em relação à formação de professores de Música.
Partindo da relevância apontada na figura do professor e buscando responder às questões acima levantadas, sigo refletindo sobre o assunto. Primeiramente, precisamos pensar a respeito do seguinte fato: constata-se a realidade de que, nos cursos de Licenciatura em Música, locais específicos para a formação de professores, nem sempre os docentes são da área de licenciatura. Esses possuem outro perfil: “[...] os cursos de licenciatura não são ministrados exclusivamente por “educadores musicais” (stricto sensu), mas por músicos
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Documento que define objetivos, direcionamentos e ações do processo educacional a ser desenvolvido nas instituições de ensino.
38 Em 17 de junho de 2010, o Conselho Nacional de Avaliação da Educação Superior
– CONAES instituiu o Núcleo Docente Estruturante – NDE nos cursos de graduação (BRASIL, 2010). Trata-se de um grupo de docentes responsáveis pela concepção, acompanhamento, e consolidação dos Projetos Pedagógicos dos Cursos de Graduação. Importante frisar que todas as proposições feitas por este grupo são apreciadas e submetidas à aprovação pelos órgãos colegiados dos cursos.
instrumentistas, regentes, compositores” (HENTSCHKE, 2003, p. 54 – grifo nosso). Os profissionais apontados pela autora – músicos instrumentistas, regentes, compositores – provavelmente obtiveram suas titulações em cursos de Bacharelado, incluindo-se aqui uma gama diversa de variáveis como Bacharelado em Canto, em Instrumento, em Composição, em Regência, etc. Pensando na composição do corpo docente do curso de Licenciatura em Música da UFCA, foco desta pesquisa, é possível constatar a reflexão levantada pela autora. No ano de 2017, esta instituição de ensino conta com a atuação de doze professores efetivos. Deste total, seis são provenientes de cursos de Bacharelado em Música, portanto, metade dos professores que atuam nesta Licenciatura, não possui licenciatura39.
Os cursos de Bacharelado em Música, independente da habilitação, têm como foco principal a performance. Ou seja, o ensino é voltado para a preparação de intérpretes de alto nível. A técnica de execução de peças é alçada a padrões elevados na busca pelo virtuosismo musical. O reconhecimento internacional é um dos objetivos finais desse tipo de formação. O resultado almejado é o preparo de grandes pianistas, violinistas, cantores, que têm o palco como seu principal local de trabalho (não raro, é possível encontrar, nesses ambientes de ensino, velada competição entre alunos na busca desmedida pela interpretação perfeita). Deste modo, não se espera que em um Curso de Bacharelado em Música se abordem disciplinas de cunho pedagógico. Nesses locais de ensino toda atenção é dada exclusivamente à formação musicológica de seus alunos, pois o ensino não é o objetivo deste tipo de formação.
Assim sendo, um egresso do Bacharelado em Música que atua como docente em um curso de Licenciatura em Música não obteve, quando de sua formação, um direcionamento concernente às disciplinas pedagógicas: “Músicos instrumentistas, regentes, compositores e musicólogos que atuam na docência no ensino superior, por vezes, têm, na sua formação de músico profissional, uma lacuna no tocante às questões sobre educação.” (SANTOS, 2003, p. 64 – grifos nossos). Seguindo a mesma linha, Hentschke afirma que esses professores “[...] na sua maioria, não possuem uma formação pedagógica. É inegável que existe uma
disparidade de formação pedagógica entre o que denominamos de “educador musical” e o músico instrumentista ou musicólogo que atua como docente nos cursos de graduação” (HENTSCHKE, 2003, p. 54 – grifos nossos).
Imaginemos, então, quais seriam, na prática, os desdobramentos destas questões. Um professor que cursou um Bacharelado em Música, no qual não teve contato com as disciplinas
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Importante informar que muitos destes professores têm realizado seus cursos de mestrado e doutorado na área de Educação, buscando, por meio da formação continuada, aprofundamento das questões pedagógicas.
pedagógicas, onde todo o seu esforço foi voltado para a primazia em execução instrumental ou vocal. O ensino passa longe de suas vivências mais profundas. O contato que possui com a docência é a forma como seu professor o ensinou. Suponhamos agora que esse professor passe a ensinar em uma Licenciatura em Música. Qual será o reflexo mais provável dessa experiência de vida em eventual participação sua na elaboração de um PPC? Entendo que o mais natural é que a contribuição desse professor venha repleta de elementos que lhe são próximos, que lhe são caros e, portanto, lhe parecem dignos de constar na proposta. Sua ênfase será, primordialmente, de natureza musicológica, com pouca ou quase nenhuma preocupação com a formação pedagógica de seus graduandos. Acontece, com isso, uma proposição invertida, na qual o que define o currículo é a formação musicológica dos docentes que atuarão em determinada instituição. No entanto, o currículo a ser seguido deveria ser o fator determinante na definição do perfil do profissional contratado para compor o corpo docente daquele curso superior. Isso não é novidade.
Na prática, o que temos assistido mais comumente é a organização institucional
determinando a organização curricular, quando deveria ser exatamente o contrário, também, porque ela própria tem papel formador. Isso certamente ocorre,
como acima mencionado, nos cursos de licenciatura que funcionam como anexos do curso de bacharelado, o que impede a construção de um curso com identidade própria. (BRASIL, 2001, p. 18 – grifos nossos).
Destarte, mesmo cursando uma Licenciatura em Música, é possível que os futuros professores estejam trilhando caminhos de formação próximos do que poderíamos encontrar em um Bacharelado em Música. Fato, por certo, induzido, principalmente, pelo tipo de formação do corpo docente do curso. Lembremos o que foi afirmado anteriormente: são os professores que definem como se apresentará a proposta didático-pedagógica dos cursos, inclusive das Licenciaturas em Música.
Creio seja inquestionável que nos cursos de Licenciatura em Música a meta deveria ser o ensino. Tudo precisaria girar em torno da formação de professores. A busca deveria ser pela formação musical, com ênfase nos conteúdos de habilitação pedagógica. Parece-me óbvio que, se o objetivo é formar professores (de música), esses aspectos devem ser abordados. Os propósitos nesses cursos seriam: investigar sobre metodologias de ensino de música adequadas; conhecer profundamente o tipo de público com que se iria trabalhar (crianças, adolescentes, jovens, estudantes com deficiências etc.); buscar repertórios adequados às mais diferentes faixas etárias como tarefa constante. Enfim, o “chão da escola” deveria ser o palco da Licenciatura em Música. Resta claro, portanto, o papel de cada tipo de
curso aqui discutido e o distanciamento que deve impor-se entre a proposta político- pedagógica de um curso de Licenciatura em Música e a de um curso de Bacharelado em Música.
Partindo dessa perspectiva, faz-se necessária uma reflexão a respeito de como os futuros professores enfrentarão o ensino de música nas escolas de Educação Básica, principal campo de trabalho dos egressos de uma Licenciatura em Música. Vimos que o fato de tocar bem um instrumento não capacita plenamente o docente a encarar a realidade desses locais de ensino que, verdade seja dita, em muito diferem das salas de um conservatório de música. Segundo Penna (2007) “Quem toca – tendo se formado pelo modelo tradicional de ensino – provavelmente vai ensinar como foi ensinado, o que pode funcionar bem em uma escola
especializada, mas não em uma sala de aula da educação básica, com seus desafios próprios” (p. 51 – grifos nossos). Tendo sido formados em ambientes que privilegiam os conhecimentos musicais, esses professores podem considerar-se órfãos de conhecimentos pedagógicos que não foram supridos adequadamente por uma Licenciatura em Música com alma de Bacharelado em Música. Destaco, a propósito, que, por vezes, em um ambiente de ensino como a Educação Básica, o conhecimento pedagógico pode ser decisivo na atuação do professor de Música. Na verdade, em alguns momentos, pode até ser mais relevante que um esmerado conhecimento musical. Tenho absoluta convicção de que os conhecimentos pedagógicos serão imprescindíveis aos futuros docentes e, por certo, muito os auxiliarão a solucionar os questionamentos como os levantados a seguir:
• Como lidar com condições de trabalho tão diversas daquelas da escola de música, com seu piano, quadro pautado e poucos alunos por turma?
• Como lidar com diferentes vivências musicais e, por conseguinte, com as distintas músicas que os alunos podem levar para a sala de aula?
• Como lidar com as diferentes expectativas com relação à aula de música? (Ibidem, p.51)
De fato, a escola de Educação Básica possui suas especificidades e posso atestar isso por experiência pessoal, posto que, por oito anos, fui professora de música nesse ambiente. Na Educação Básica, os estudantes possuem “diferentes expectativas” concernentes à aula de Música. É possível até encontrarmos educandos que não desejam aulas de Música. Não raro, nos deparamos com estudantes que rejeitam a aula de Música e se recusam a delas participar. Saliente-se, entretanto, que, como afirmou Penna (2007) acima, esse contexto difere muitíssimo do encontrado em escolas particulares, onde os educandos não somente querem as aulas de Música como até se dispõem a pagar por elas. Acredito que essas discussões
repousam nas questões relacionadas com a obtenção tanto de conhecimentos pedagógicos como musicológicos. No entanto, como venho apontando, o conhecimento pedagógico mostra-se muito fragilizado nas Licenciaturas em Música. Arrisco a indicar como motivo, se não o principal, mas, por certo, um dos mais relevantes, o fato de a composição de grande parte dos corpos docentes desses cursos ser composta de professores oriundos dos Bacharelados em Música.
5.2.2 Disciplinas pedagógicas nos Cursos de Licenciatura em Música: o