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Foto 8 - Ipameri (GO): Jóquei Clube, 1956.

Fonte: IBGE, Enciclopédia dos municípios brasileiros, 2000.

Foto 10 - Corumbaíba (GO): rua Pedro Ludovico, 1956.

Fonte: IBGE, Enciclopédia dos municípios brasileiros, 2000. Foto 11 - Cumari (GO): rua do Comércio, 1956. Fonte: IBGE, Enciclopédia dos municípios brasileiros, 2000.

Foto 13 - Catalão (GO): vista da rua Goiânia, 1956.

Fonte: IBGE, Enciclopédia dos municípios brasileiros, 2000.

Foto 14 - Goiandira (GO): Matriz Sagrado Coração, 1956. Fonte: IBGE, Enciclopédia dos municípios brasileiros, 2000.

A cada moviment o social, possibilit ado pelo processo da divisão do t rabalho, uma nova geograf ia se est abelece,

seja pela criação de novas f ormas para at ender a novas f unções, seja pela alteração f uncional das f ormas

exist entes (SAN TOS, 1979).

DINÂMICA

SOCIOECONÔMICA

E

ESPACIAL

DOS

MUNICÍPIOS

DE

PEQUENO

PORTE

DA

MICRORREGIÃO

GEOGRÁFICA

DE

CATALÃO

CATALÃO (GO), NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX.

2.1 - Goiás: economia e sociedade na segunda metade do século XX.

2.1.1 - Goiás no contexto histórico da modernização econômica

O entendimento sobre os principais aspectos e processos que marcaram a economia e a sociedade dos municípios em estudo, na segunda metade do século XX, exige uma visão ampla da história. Reflexões em torno deste assunto não se podem desvincular das mudanças processadas na estrutura econômica dos “cerrados” brasileiros ou, mais precisamente, da região Centro-Oeste e do estado de Goiás. Da mesma forma, faz-se necessário considerar os laços estreitos entre a dinâmica local/regional e a política-econômica nacional/internacional.

Portanto, a discussão que se anuncia, neste item do trabalho, passa, obrigatoriamente, pela análise da conjuntura socioeconômica de Goiás, bem como da região Centro-Oeste, tendo em vista que ações governamentais e políticas foram direcionadas para essas áreas com intuito de integrá-las e torná-las dinâmicas, na economia brasileira.

Nesse sentido, o ponto de partida é o fato histórico de que, após a Segunda Guerra Mundial, houve intenso processo de reorganização da economia capitalista, que se refletiu em mudanças socioeconômicas, políticas, espaciais e culturais.

O pós-guerra ficou marcado, sobretudo, pelo estabelecimento de uma nova ordem econômica internacional, cujo foco passou a ser a internacionalização do capital e o desenvolvimento da acumulação capitalista mundial, sob o comando político-econômico de grandes empresas multinacionais.

Conforme explicou Brum (1998, p. 231),

os grandes grupos econômicos, fora e acima dos governos e do poder político dos estados, instrumentalizaram-se para exercerem influência decisiva nos rumos da economia e da sociedade, em âmbito mundial, subordinando o poder político à função de executor ou facilitador de suas estratégias e de seus interesses cada vez mais amplos e abrangentes.

As medidas tomadas pelos países centrais da economia capitalista, muitas destas sob a influência direta dos grupos econômicos (líderes mundiais), afetaram, diretamente, as realidades dos países ditos “periféricos”, como o Brasil.

Acresce-se, a estes aspectos de conteúdo político, o desenvolvimento técnico-científico alcançado pela sociedade, no século XX. Os avanços das ciências se deram nos diversos setores; no entanto, os ligados aos sistemas de comunicação, transporte e informação, melhoramento genético de espécies vegetais, geração de energia e descoberta de novas fontes de matéria-prima foram de primeira grandeza para o desenvolvimento de mudanças nas estruturas produtivas e na economia mundial.

Santos (1999) analisou esse contexto e apontou-o como a fase da emergência do modelo técnico único. Para este autor, a história da sociedade, em meados do século XX, ficou marcada pela constituição de um novo período, ao qual denominou período técnico-científico- informacional. Nesse sentido, explicou que

a morte dos impérios, que o fim da segunda guerra mundial vai precipitar, coincide com a emergência de uma técnica capaz de se universalizar. [...]. O surgimento de numerosos Estados nacionais, a criação de organismos supranacionais, a entrada em cena da informação e do consumo como denominador comum universal, tudo isso trabalha para facilitar o triunfo das técnicas baseadas na informação e que iriam revolucionar doravante a economia e a política, antes de incluir a cultura no processo global das mudanças.

Santos (1993, 1999) explicou a (re)configuração espacial e as mudanças processadas, nessa dimensão, no período após a Segunda Guerra Mundial, a partir da proposição da constituição do meio técnico-científico-informacional. Significa, portanto, na leitura de Santos (1993, 1999), que a dinâmica da economia mundial passou a demandar e também promover remodelações espaciais em que os conteúdos das técnicas, ciências e da informação tornaram-se os elementos mais importantes e essenciais às produções hegemônicas, configurando, nesse sentido, um novo meio geográfico – o meio técnico-científico- informacional. Neste, “a informação, em todas as suas formas, é o motor fundamental do processo social e o território é, também, equipado para facilitar a sua circulação” (SANTOS, 1993, p. 35-36). Em outras palavras, a reconstrução dos espaços tende, a partir desse contexto, cada vez mais, a ocorrer por meio da inserção de conteúdos científicos, tecnológicos e informacionais.

O processo em debate, visto a partir do conteúdo geográfico ou espacial, não se desvincula, portanto, das novas condições técnicas, científicas, produtivas, econômicas, financeiras e políticas.

Tendo em vista o caso brasileiro, o contexto em pauta foi marcado pela inserção dos espaços geográficos que constituíam o país, no processo de modernização econômica e na nova divisão internacional do trabalho. Inaugurou-se um intenso processo de reorganização socioeconômico e espacial no território, tanto pelas novas possibilidades, dadas pela política, economia internacional e condições técnicas, como pelas mudanças internas, em desenvolvimento desde os anos de 1930, bem como pelos novos rumos e estratégias delineadas nos anos de 1950, para a economia nacional.

A industrialização e a modernização da economia passaram a fazer parte dos projetos brasileiros, no início do século XX, quando começou a formação da indústria nacional no sudeste do país. Todavia, apesar dos avanços ocorridos, no sentido de criar indústrias e constituir um mercado nacional, os maiores impulsos processaram-se na segunda metade dos anos de 1900, com as políticas de interiorização e incorporação das áreas periféricas do país à economia de mercado e à produção de mercadorias para exportação, com emprego de técnicas avançadas. Tal dinamismo também se vincula à expansão do capital estrangeiro, nos diversos setores da economia do país.

No início da segunda metade do século XX, ainda predominava, conforme Brum (1998), a concepção linear de desenvolvimento-subdesenvolvimento. Este último era compreendido enquanto um estágio para o primeiro; assim, acreditava-se que “os países atrasados, para atingirem o desenvolvimento, deviam percorrer as mesmas etapas por que haviam passado os países já desenvolvidos” (BRUM, 1998, p. 231). O subdesenvolvimento não era entendido como resultado da estrutura econômica mundial de acumulação capitalista. Ele se constituía apenas em uma etapa a ser vencida, sendo, portanto, de primeira importância, naquele momento histórico, encontrar caminhos para a promoção do desenvolvimento econômico, pois “pensava-se que, acelerando-se o ritmo de crescimento econômico, se chegaria ao desenvolvimento” (BRUM, 1988, p. 231). Alguns dos mecanismos adotados no Brasil foram: a modernização econômica, via incorporação de novas técnicas na produção industrial e agropecuária (modernização da agricultura); implantação de infra- estrutura de comunicação, transporte, armazenagem e fornecimento de energia elétrica; intensificação do processo de urbanização; elaboração e implantação de programas regionais de desenvolvimento; abertura ao capital estrangeiro; entre outros.

O Estado assumiu papel central na promoção do desenvolvimento econômico brasileiro, atuando como criador de meios como, por exemplo, a implantação de infra-estrutura e geração de mecanismos de financiamento e subsídios; exerceu também a função de produtor de mercadorias e gestor de políticas públicas. Essas posturas do Estado brasileiro, de

interventor e promotor de condições para o desenvolvimento econômico, tiveram início na “Era Vargas” e foram intensificadas, nos anos de 1950 e no período do regime militar (1964- 1985).

Nesse sentido, no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960), teve continuidade o processo de incorporação de conteúdos técnicos aos espaços brasileiros, por meio de uma política nacional-desenvolvimentista, cujo marco foi o Plano de Metas48.

Guimarães e Leme (1998, p. 39-40) explicaram que

o Plano de Metas foi responsável pela montagem de um novo padrão de acumulação de capitais, em cujo arcabouço articulavam-se três grandes eixos: a) abolição dos pontos de estrangulamento da economia, por meio de investimentos infra-estruturais a cargo do Estado; b) ampliação e instalação das indústrias de base, estimulando investimentos privados nacionais e estrangeiros; c) interiorização forçada da economia, através da construção da nova capital, sintetizada na proposição de JK, segundo a qual “todos os rumos levam a Brasília”.

Para Guimarães e Leme (1998, p. 39), o Plano de Metas de JK, no caso específico do Centro-Oeste,

foi um grande divisor de águas entre o processo de ocupação – tipificado pelas frentes de subsistência e as frentes de pecuária extensiva e rudimentar – e a moderna incorporação [...] caracterizada pelas novas frentes de agricultura comercial e bovinocultura tecnificada, assim como as frentes especulativas.

Nesse sentido, a partir de meados dos anos de 1950, Goiás, bem como toda a região Centro-Oeste e diversas áreas dos cerrados brasileiros, passaram a ser vistas como espaços de uma “nova fronteira”49, cujo processo de ocupação e ou de apropriação e o desenvolvimento da produção diferia em relação aos ocorridos em momentos anteriores. Conforme explicou Ferreira (1987, p. 5), “a nova forma de avanço da fronteira está ligada à tecnificação da agricultura, ao investimento de capital, à intensificação da produção, à monocultura destinada ao abastecimento das indústrias e à exportação, à grande propriedade”.

Direcionou-se um conjunto de esforços estatais para as áreas da “nova fronteira”, com o objetivo de promover a sua incorporação à economia nacional (em vias de modernização com base no desenvolvimento urbano-industrial), como lócus importante da produção agropecuária moderna. As principais ações que promoveram mudanças intensas, nessa região,

48 O Plano de Metas consistia no planejamento de trinta metas prioritárias, distribuídas em cinco grandes grupos,

mais a construção da nova capital do país – Brasília – no Planalto Central. Os cinco setores eram: energia, transporte, alimentação, indústria de base, educação (BRUM, 1998, p. 234-235).

49 A noção de fronteira, aqui empregada, está de acordo com a apresentada por Becker (1998), em seu estudo

sobre a Amazônia. Conforme a referida autora, “a fronteira é, pois, para a nação, símbolo e fato político de primeira grandeza, como espaço de projeção para o futuro, potencialmente alternativo. Para o capital, a fronteira tem valor como espaço onde é possível implantar rapidamente novas estruturas e como reserva mundial de energia. A potencialidade econômica e política da fronteira, por sua vez, torna-se uma região estratégica para o Estado, que se empenha em sua rápida estruturação e controle” (BECKER, 1998, p. 11).

ocorreram, inicialmente, com a construção de Brasília (DF), em Goiás, e com a implantação de rodovias interligando a nova capital federal a outras áreas do território brasileiro, sobretudo com as regiões Centro-Oeste e Norte do país.

Conforme explicações de Guimarães e Leme (1998, p. 39-40),

a construção de Brasília, por si só, causou um grande impacto populacional, atraindo um imenso contingente de imigrantes, inclusive do próprio entorno de Goiás e de Minas Gerais, criando no interior do país uma área de grande adensamento populacional. A posição geográfica do Distrito Federal foi decisiva para justificar a interiorização dos vultosos investimentos federais em eletrificação, telecomunicações e, principalmente, em estradas de rodagem, que até meados dos anos 50 [1950] representavam um grande entrave ao desenvolvimento produtivo de Goiás.

Destaca-se, nesse período, a construção de importantes eixos rodoviários como a BR 153, 060, 070, entre outras, que foram essenciais no processo de integração de Goiás, bem como da região Centro-Oeste, à economia capitalista, em desenvolvimento no país. Conforme Guimarães e Leme (1998, p. 40),

duas rodovias foram fundamentais nesse processo. A primeira delas, a BR 153, ligou Goiânia a São José do Rio Preto, no sentido sul, integrando estrategicamente a capital de Goiás diretamente com a economia paulista, sem a intermediação triangulina. No sentido norte, essa rodovia aproveitou parte do traçado já existente, entre Goiânia-Anápolis-margens do rio Araguaia, prolongando-o no sentido Araguaína (TO), com entroncamento para São Luiz (MA) e Belém (PA).

A outra rodovia mais importante foi a BR 060, que, partindo de Brasília, ligou Anápolis-Goiânia-Sudoeste de Goiás, integrando-se à BR 364 e, de forma descontínua, à BR 163.

O período que vai de 1940 a 1975, conforme Castro (2005), pode ser considerado como a fase da pré-pavimentação rodoviária, nos estados da região Centro-Oeste. No entanto, percebe-se, por meio dos dados, que Goiás teve, nesse período, intensa ampliação da malha pavimentada, superior à do estado do Mato Grosso (Gráfico 4). Em 1955, Goiás contava com 4 km de rodovias pavimentadas; em 1960, eram 372 km, em apenas mais cinco anos passou para 705 km e em 1970 atingiu 1.324 km, contra os 561 km no estado do Mato Grosso (CASTRO, 2005). Em 1990, Goiás tinha 7.253 km de rodovias pavimentadas e, em 2004, registrou-se um total de 11.572,3 km (SEPLAN, 2005).

4 372 705 1324 97 561 1885 4 802 677 0 200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 2000 1955 1960 1965 1970 1975 Km Goiás Mato Grosso Centro-Oeste

Gráfico 4 - Região Centro-Oeste: malha viária pavimentada, no período de 1955 a 1970. (Anos selecionados).

Fonte: CASTRO, 2005, p. 116.

A construção de Brasília e das vias de transporte rodoviário promoveu mudanças na dinâmica espacial de Goiás. De certa forma, o transporte rodoviário superou a rota ferroviária, criou novos caminhos e possibilitou a circulação de pessoas e mercadorias, por amplas áreas do estado. A cidade de Anápolis ficou pressionada entre duas aglomerações importantes, Goiânia e Brasília, o que fez com que perdesse parte do seu potencial de centralidade regional. Goiânia consolidou sua função como o mais importante centro urbano do estado, passando absorver, juntamente com Brasília, parte importante do fluxo migratório.

As rodovias promoveram, também, impulsos em outros municípios e cidades já existentes nas áreas por onde seus traçados alcançaram, assim como relegaram ao esquecimento outros lugares, devido sua ausência. Por outro lado, novos municípios também se formaram, sobretudo ao longo dos eixos rodoviários, como, por exemplo, Professor Jamil, Goianápolis, Rianápolis, Mara Rosa, Estrela do Norte, entre outros, cuja gênese ocorreu em função da BR 153 (Transbrasiliana), ou ainda Alexânia, Indiara, Acreúna50, Santo Antônio da Barra, ligados à implantação da BR 060 (Brasília-Cuiabá).

Conforme pode ser visualizado no gráfico 5, Goiás teve um aumento intenso do número de municípios, sobretudo entre as décadas de 1950 e 1960, quando passou de 63 para 146 municípios. Houve, nesse período, portanto, uma taxa de ampliação total de 131,75%. Esse percentual não se mantevenos anos seguintes; no entanto, se em 1950, Goiás contava apenas

50 Acreúna, uma combinação do prefixo Acre, destino da rodovia que corta o município e do sufixo una, uma

com 63 municípios, em 2001 passou a contar com 246, ou seja, 183 novos municípios foram criados e/ou reconhecidos, ao longo de um pouco mais de cinqüenta anos (IBGE, 2005).

63 146 169 173 211 246 0 50 100 150 200 250 300 1950 1960 1970 1980 1990 2001 Anos Quantidade

Gráfico 5 - Estado de Goiás: número de municípios no período de 1950 a 2001 (anos selecionados)

Fonte: IBGE, 2005.

De acordo com os dados apresentados no gráfico 6, os valores percentuais do número de municípios instalados em Goiás, nos períodos de 1941-1963, 1964-1988 e 1989-1996, em relação ao total de municípios existentes em 2001, foram superiores aos nacionais; contudo, os períodos de menor intensidade coincidem, ou seja, entre 1964 e 1988. Diferente foi o caso da região Centro-Oeste, neste último período de tempo, quando, apesar da redução, teve um percentual superior ao nacional (27,86 % contra 10,50 %). Acredita-se que esse fato se justifique pela formação de novos municípios, em conseqüência da criação do estado do Mato Grosso do Sul, em 1979. No período de 1997 a 2001, o percentual de municípios instalados em Goiás (5,69 %) tornou-se inferior ao nacional (10,52 %) e ao da região Centro-Oeste (7,77 %).

42,68 18,29 16,67 5,69 14,47 31,1 27,86 18,79 7,77 25,86 39,17 10,5 13,94 10,52 16,67 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 Até 1940 1941-1963 1964-1988 1989-1996 1997-2001 Períodos Valores em % Goiás Centro- Oeste Brasil

Gráfico 6 - Estado de Goiás, Região Centro-Oeste, Brasil: evolução percentual do número de municípios instalados, em relação ao total existente em 2001.

Fonte: IBGE, 2004. Org.: MELO, 2005.

Cabe ressaltar que as emancipações municipais, ocorridas no período, não podem ser atribuídas apenas à implantação de infra-estrutura de transporte, apesar de que é perceptível que muitos dos novos municípios surgiram ao longo dos eixos rodoviários. Percebe-se, por meio do mapa 15, um adensamento da malha municipal em Goiás, no eixo entre Itumbiara (ao sul) e Porangatu (ao norte), passando por Goiânia e Anápolis, ou seja, nas margens da BR 153.

Mapa 15 - Estado de Goiás: municípios segundo o ano de instalação, 1736-1997.

No período entre 1940 e 1963, houve um aumento intenso no total de municípios do Brasil (Gráfico 6). Até o ano de 1940, contavam-se 1.438 municípios no país; em 1963, este valor era igual a 3.616. Houve, portanto, um aumento de 151,46 % (IBGE, 2004). Este fato pode ser justificado, em grande parte, pela Constituição Federal Brasileira de 1946 que, conforme explicações de Mello (1992, 2001) e Cigolini (2000), restabeleceu a democracia local e fortaleceu as finanças dos municípios, nos moldes da Constituição de 193451. Então, os estados da federação passaram a incentivar a emancipação municipal, como forma de ampliar a arrecadação52. Portanto, conforme explicações de Mello (1992, p. 26),

umas das causas da onda emancipacionista que se verifica no Brasil, a partir da década de 1940, está no sistema de tributos partilhados, o qual favorece, sobretudo, os municípios mais pobres, através do FPM [Fundo de Participação dos Municípios]. Quando foi introduzido pela Constituição de 1946, as cotas eram iguais para todos os municípios. Assim, os governos estaduais estimularam a criação de novos municípios para atrair mais recursos do governo federal para seu estado.

Observa-se ainda, no mapa 15, que muitos dos municípios goianos, localizados na área cortada pela rodovia BR 153, foram “criados” no intervalo entre os anos de 1921 e 1963, período de tempo que abrange as fases iniciais dos esforços estatais para integração territorial e econômica da região Centro-Oeste, bem como corresponde à fase “municipalista53” da Constituição brasileira (1946-1963).

No intervalo entre 1946 e 1963, foram emancipados, em Goiás, 118 distritos, o que corresponde a 47,97 % do total de municípios desse estado54, conforme dados do ano de 2001 (Quadro 6).

51 Em conseqüência da Revolução de 1930, foi adotada, em 1934, uma nova Constituição, que fortaleceu,

consideravelmente, os governos municipais. Além de dizer que os municípios seriam organizados de forma que lhes ficasse assegurada a autonomia, em tudo o que dissesse respeito ao seu peculiar interesse, explicitou as formas pelas quais a autonomia se manifestaria: eletividade do prefeito e dos vereadores da Câmara Municipal, podendo aquele ser eleito por esta; decretação dos impostos e taxas e arrecadação de suas rendas; organização dos serviços de sua competência. O prefeito poderia ser nomeado pelo governador do estado no município da capital e nas estâncias hidrominerais (MELLO, 2001, p. 81-82). No entanto, essa autonomia municipal foi dissolvida em 1937. Em termos tributários, os municípios perderam apenas o imposto sobre imóveis rurais, que era, conforme Mello (2001, p. 82), de pouca importância, no conjunto da receita municipal. Sobre este assunto, veja: MELLO, 1992 e 2001; CIGOLINI, 2000; PINTO, 2003.

52 Lima (2003), tratando sobre as emancipações ocorridas a partir de 1957, no território do município de Goiás,

identificou que “no processo de fragmentação estudado fica nítida a participação do poder público, visto que a grande parte dos novos municípios que surgiram [...], o interesse político foi objetivo principal. O desmembramento dos municípios visava o incremento de repasses do governo federal aos estados, representando o principal fator que contribuiu para justificar as emancipações” (LIMA, 2003, p. 163).

53 Cigolini (2000) identifica a Constituição Federal Brasileira de 1946 como municipalista por esta ter

reestabelecido a democracia local e fortalecido as finanças dos municípios, sobretudo como o sistema de tributos partilhados.

54 Isso conforme dados da SEPLAN (2003), apresentados por Lima (2003). Segundo dados do IBGE (2004), no

período de 1941 a 1963 foram instalados 105 novos municípios em Goiás. Este valor corresponde a cerca de 42,68% do total de municípios existentes em 2001, conforme pode ser observado no gráfico 6.

Período Anos N. de emancipações % em relação ao total de 2001 Total de municípios Município português 1726 a 1823 03 1,22 03 Constituição de 1824 1824 a 1890 14 5,69 17 Constituição Brasileira, 1891 1891 a 1933 21 8,54 38 Constituição Brasileira, 1934 1934 a 1937 03 1,22 41 Constituição Brasileira, 1937 1937 a 1945 06 2,44 47 Constituição Brasileira, 1946 1946 a 1963 118 47,97 165 Regime militar 1964 a 1987 27 10,97 192 Constituição Brasileira, 1988 1988 a 1995 50 20,32 242 Lei complementar 15/1996 1996 a 2001 04 1,62 246

Quadro 6 - Estado de Goiás: emancipações municipais segundo as principais alterações na legislação brasileira