Fonte: ANA (2011a) – Acessado em março de 2013.
A reflexão sobre o uso e ocupação dos territórios nos coloca várias questões emblemáticas, como: quais são os impactos acumulados para cada curso d’água e na bacia como um todo? Como se pode considerar que a produção de energia elétrica esteja beneficiando o desenvolvimento nacional e local? Como se prioriza o avanço de grandes empreendimentos em detrimento das condições socioambientais? Como o governo tem justificado e normatizado o avanço das usinas hidrelétricas nas diferentes regiões? O cadastramento das famílias que são e poderão ser atingidas está também consolidado, juntamente com os estudos que mostram as possibilidades de projeção das usinas? Estas são algumas das questões centrais que nos fazem pensar como os rios e o ecossistema reagirão diante de tantas alterações.
O discurso colocado pelos governos federal, estaduais e municipais é que a construção de usinas hidrelétricas de grande porte traria mais arrecadação, por meio do imposto pelo uso de um bem natural; desenvolveria a região, pois com uma base de produção energética consolidada, novos investimentos seriam alavancados, trazendo assim o progresso; as famílias atingidas seriam indenizadas e poderiam ter um modo de vida melhor; e que se trata de uma energia disponível, com aproveitamento facilitado e, principalmente, por ser uma fonte renovável.
Aspectos considerados positivos pelos agentes econômicos e políticos não faltam, por exemplo, o Atlas de Energia Elétrica no Brasil (2002, p. 17) coloca que:
No Brasil, água e energia têm uma forte e histórica interdependência, de forma que a contribuição da energia hidráulica ao desenvolvimento econômico do país tem sido expressiva. Seja no atendimento das diversas demandas da economia – atividades industriais, agrícolas, comerciais e de serviços –, ou da própria sociedade, melhorando o conforto das habitações e a qualidade de vida das pessoas. Também desempenha papel importante na integração e desenvolvimento de regiões distantes dos grandes centros urbanos e industriais.
Este discurso, já tão arcaico, sempre foi colocado como a promissora salvação para o desenvolvimento do Brasil. E, na verdade pouco se tem registrado sobre esta dinamização econômica como ferramenta para o desenvolvimento socioambiental.
Como alavanca do desenvolvimento regional, o setor elétrico se reformula e busca uma geração descentralizada, avançando para as regiões pouco exploradas e com o fomento à iniciativa privada. Este novo panorama vem junto com o discurso de sustentabilidade econômica e ambiental, e é aí que as PCHs aparecem como alternativa energética a ser aplicada em âmbito nacional.
Apesar de haver um Atlas da ANEEL atualizado em 2008, o Atlas de 2002 traz uma série de informações que reitera o debate levantado no Capítulo 2 deste trabalho.
As recentes mudanças institucionais e regulamentares, introduzindo incentivos aos empreendedores interessados e removendo uma série de barreiras à entrada de novos agentes na indústria de energia elétrica, assim como a revisão do conceito de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) têm estimulado a proliferação de aproveitamentos hidrelétricos de pequeno porte e baixo impacto ambiental no Brasil. Esses empreendimentos procuram atender demandas próximas aos centros de carga, em áreas periféricas ao sistema de transmissão e em pontos marcados pela expansão agrícola nacional, promovendo o desenvolvimento de regiões remotas do País. Com isso, espera-se adicionar ao sistema elétrico nacional cerca de 5.000 MW de potência nos próximos 10 anos. (ATLAS DE ENERGIA ELÉTRICA DO BRASIL, 2002, p. 41).
Todas as questões normativas demonstradas no Capítulo 2 complementam a argumentação acima apresentada, que se camufla no discurso de desenvolvimento regional. A ideia de atender às demandas próximas aos centros de carga pode ser uma realidade para uma população rural ou pequena comunidade em locais afastados dos centros urbanos consolidados, trazendo um pouco mais de conforto a estas pessoas. Mas este cenário é pouco visto, já que as PCHs, geralmente, produzem energia que vão para o sistema nacional interligado, não atendendo às necessidades daquela população, mas recaindo para atender a demanda nacional por energia.
No caso da expansão agrícola, quando um empresário deste setor resolve produzir energia elétrica, é porque ele está procurando diminuir os seus custos produtivos, assim, ao invés de pagar pelo uso da energia elétrica, ele próprio a produz. Ou seja, além de usufruir dos bens naturais, como o solo, a água e as condições ambientais ali existentes, ele faz uso da água para produzir sua energia, fragmentando as condições socioambientais ali existentes, não pagando
por este uso e não trazendo benefícios ampliados para as comunidades próximas da área de intervenção.
O dito desenvolvimento de regiões remotas do Brasil não acontece de fato, pois a concentração de PCHs cresce a cada dia nas regiões mais desenvolvidas do país, como no Sul e Sudeste, e mais atualmente no Centro-Oeste. Na verdade, a instalação de usinas hidrelétricas em regiões remotas serve mais para atrair novos investimentos do que para atender às necessidades das populações.
A seguir se apresenta o mapa 3, com o quantitativo de PCHs para a bacia do Paranaíba. De acordo com os dados da ANA (2011b), atualmente existem 14 PCHs implantadas, sendo 12 em operação e 02 em construção; somado a estes, temos uma prospecção de mais 57 novos empreendimentos, que estão no processo de inventário (24), outorga (03) e projeto básico (30) totalizando 71 PCHs.
É exatamente sobre este quantitativo crescente de PCHs que se discute a facilitação dada ao empreendedor e a falta de mitigação, compensação e até de barramento destas obras. É preciso olhar o todo e reconhecer a importância de se manter a estabilidade socioambiental das regiões.
A discussão levantada juntamente com os dados apresentados mostram a fragilidade pela qual as regiões brasileiras estão propensas. As características naturais do Brasil, que favorecem o aumento do número de usinas hidrelétricas, têm gerado um quadro de apelação pelo que é mais viável economicamente ao desenvolvimento do país. É preciso superar este discurso e entender que existem possibilidades de investir em novos empreendimentos hidrelétricos, de maneira equilibrada, assim como existem outros potenciais de produção energética, com base em novos estudos, em diferentes fontes, a partir do potencial de cada região, e não perante um projeto nacional que não contempla os aspectos socioambientais destas localidades.
O aumento das PCHs, na bacia analisada, não é uma característica peculiar à região. O Sudeste, Sul e Centro-Oeste do Brasil têm aumentado à prospecção de novos empreendimentos hidrelétricos. Este avanço se dá pela abertura de oportunidades para que a iniciativa privada invista no setor elétrico. E isso acarreta uma pressão sobre o uso dos bens naturais como um produto explorável e cada vez mais rentável, perante o discurso de necessidade de desenvolvimento do país.
Delegar funções a grupos e pessoas que buscam investir em setores da economia, estratégicos ao desenvolvimento nacional é um risco que geralmente nos leva a um desequilíbrio social que só amplia a desigualdade e dificulta a implantação de políticas sociais efetivas. Este contexto é debatido por Martins e Felicidade (2003, p. 33 apud RIBEIRO, 2003, p.72):
[...] submeter o acesso à água a relações lógicas de mercado significa não só privatizar e mercantilizar o ciclo hidrológico natural, mas também criar relações de domínio sobre as possibilidades de reprodução tanto dos novos excluídos do acesso ao recurso quanto de outras espécies naturais. Desse modo, a criação de mercados de direitos de água não é uma forma alternativa de gestão dos Recursos Hídricos, mas uma nova frente para investimentos e acumulação de capital, mantendo, evidentemente, todas as características excludentes que o processo resguarda. Privatizar e mercantilizar um bem natural são características do sistema capitalista. Delegar a um agente econômico o valor que ele atribui a um bem natural, é submeter toda a sociedade a uma mercantilização daquilo que é essencial à vida, o bem hídrico. A consolidação de mercados e agentes que utilizam a água como uma ferramenta para planejar e gerir as bacias hidrográficas resguarda as condições de acumulação destes agentes e exclui a população e os seus direitos. Tais agentes precisam agir em conformidade ao interesse público, suprindo as necessidades e protegendo os direitos individuais e coletivos, só assim o avanço das usinas hidrelétricas poderá ser visto como uma forma de desenvolvimento justo e com respeito às condições socioambientais.