4.2. Araştırmanın İkinci Alt Amacına İlişkin Bulgular ve Yorumlar
4.2.6. İnternet Teknolojilerinden Faydalanmayla İlgili Görüşler
a) Constituição do Projeto: histórias. Trata-‐se de um Projeto de ensino, pesquisa e
extensão (FAE/GENPEX) da Universidade de Brasília (UnB)126 a partir de sua relação com a comunidade do Paranoá, Projeto Paranoá. Trata-‐se, também, de um desdobramento das ações do Centro de Cultura e Desenvolvimento do Paranoá (CEDEP) a partir de sua relação com o GENPEX/FAE/UnB/127, Grupo de Alfabetização de Jovens e Adultos. A colocação pode soar ambígua, mas expressa dois pontos de vista presentes no discurso dos dois interlocutores, em estudos e pesquisas, em documentos e em declarações de moradores do Paranoá128. Para este estudo interessa perceber, nesses dois locais de “poder”, o trabalho conjunto realizado e as implicações na prática educativa em um chão comum, o Projeto Paranoá.
A história da Vila Paranoá rendeu e, ainda rende, versos e muita prosa.
“Mas, foi difícil te entender, Hoje bates forte em meu coração, Ó Vila és sempre viva, és festança. Também és samba és criança Eternamente a esperança é nossa paixão”129
É uma história de muita luta, “foi difícil te entender”. Dor. Sacrifícios. E esperança. “Hoje bates forte em meu coração”. Originária da construção da Capital Federal, a antiga Vila
126 No Projeto Paranoá há uma articulação de dois movimentos práxicos interrelacionados. Um diz respeito aos
alfabetizadores, alfabetizandos, dirigentes das organizações populares e moradores (atores) da Vila Paranoá-‐Brasília-‐DF: desenvolvimento com/os/nos atores de uma competência de falar/pensar/sentir agindo/transformando as próprias condições de vida, tendo o apoio da universidade. O outro movimento se refere a professores e alunos (atores) da universidade: desenvolvimento de uma competência de ensinar/pesquisar, considerando, predominantemente , os interesses das camadas populares. (Cf. Reis, 2000, p.265).
127 GENPEX – Grupo Lattes de Ensino, Pesquisa e Extensão em Educação Popular e Estudos Filosóficos e Histórico – Cultural.
É um grupo da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília e do CEDEP. A parceria com a Faculdade de Educação data de 1986, e desde então não se rompe o círculo de ensino-‐pesquisa-‐extensão. Neste sentido o GENPEX é uma célula do Movimento Popular na UNB e desta no Movimento Popular. (Cf. Jesus, 2007, p.87). Atualmente o coordenador do Projeto na Faculdade de Educação é o Prof. Renato Hilário dos Reis.
128
A questão está bem viva em Renato Hilário dos Reis. A constituição do sujeito político, epistemológico e amoroso na
alfabetização de jovens e adultos, 2000. 129
Tributo à Vila Paranoá -‐ música de composição Alan Wellington, segunda classificada no FEMUPOP (Festival de Música do Paranoá) em 1990. In: Leila Maria de Jesus. A repercussão da atuação de educadores/as populares no CEDEP/UnB na escola pública do Paranoá-‐DF, 2007, p.24.
78 Paranoá130 abrigou não só operários imigrantes como também trabalhadores rurais principalmente das regiões do norte e do nordeste brasileiro com famílias e parentes131. A princípio, o acampamento do Paranoá deveria ser desfeito no momento em que o canteiro de obras se transformou na Capital Federal. Como isso não ocorreu as vilas e os acampamentos passaram a ser considerados invasões a serem erradicadas132. A população “instalada” em condições extremamente precárias e sob pressão do governo do Distrito Federal prossegue na luta para se fixar na Vila133.
Reis; Viana134 contam que;
Os primeiros moradores organizaram o Movimento Popular Organizado (MPO), a fim de lutar por melhores condições de vida, pelos direitos fundamentais, como moradia, saneamento básico, saúde, educação, lazer. Dessa forma, em 1987 é criado o CEDEP, entidade organizada pelo MPO. Essa entidade tem como objetivo principal contribuir para o desenvolvimento social da comunidade por meio de trabalhos de educação, cultura, saúde, etc.
“Oração e Ação”.
As primeiras tentativas de organização de um movimento popular nasceram da ação de um grupo de jovens da oração135. Primeiro, em prol da moradia, Grupo Pró-‐Moradia136. Depois, o Grupo ascendeu à coordenação da Associação de Moradores137 (1982-‐1987) e, por fim, após perder a coordenação da Associação, se voltou à criação do
130 De acordo com Viviane da Silva Oliveira (2006, p.2) “Em 18 de outubro de 1956, as obras de represamento do Rio
Paranoá já haviam sido iniciadas. Para a construção dessa barragem, em 1957 foi montado um acampamento pela NOVACAP para abrigar os operários e engenheiros das empresas construtoras para agilização dos trabalhos”.
131 Ainda é muito comum a chegada de conhecidos e parentes. É assim que a Vila Paranoá cresce. Cada morador tem ao
menos a história de um parente, amigo ou conhecido que trouxera para a Vila Paranoá.
132
“O Lago Paranoá contorna quase toda a cidade de Brasília. É decorrente do represamento de vários córregos e riachos.
Contribui para a umidificação da cidade, particularmente, nos meses mais secos do ano (junho a setembro). Tem uma barragem reguladora/contentora das águas represadas, que foi construída por operários migrantes a que faço referência. Se localiza na intersecção dos dois setores de moradia mais “nobres” de Brasília: Lago Norte e Lago Sul”. (Cf. Reis, 2000).
Este segundo estudo de caso se apoia amplamente no trabalho de Reis, principalmente no Cap. I.
133 A história da ocupação e implantação da Vila do Paranoá está detalhada em Renato Hilário dos Reis (2000), Leila Maria
de Jesus (2007),Letícia de Lourdes Curado Teles (2003).
134 Renato Hilário dos Reis; Sttela Pimenta Viana. Projeto Paranoá: inserção participativa contributiva no cotidiano da educação de jovens e adultos no Cedep/Paranoá, a partir do diálogo entre sala de aula da UnB e sala de aula do Cedep,
2008
135
Lourdes lembra que na época estavam com idade entre 12 e 16 anos. (Entrevista em 29/08/2009).
136 O Movimento Pró-‐Melhorias, alguns chamam de Pró-‐Moradia (porque melhorias e moradia estão muito atreladas) é
uma estratégia de mobilização e organização da comunidade em prol de conquistar melhorias para a Vila Paranoá. As melhorias dizem respeito à água tratada, energia elétrica, esgoto, transporte, saúde, educação e a conquista da regularização da ocupação por meio da fixação, que daria fim à instabilidade e ameaças do Governo para a remoção da Vila. (Cf. Leila Maria de Jesus, 2007, p.29).
137
A gestão reorganiza a Associação de Moradores, criando Comissões: Água, Educação, Cultura, Imprensa. Faz o primeiro jornal, de duas páginas, através do qual, informava à população de todas as discussões, acertos e desacertos com o governo. (Cf. Reis, 2000).
79 CEDEP com objetivo de levar adiante os trabalhos executados nas Comissões de Educação e Cultura.
O atendimento aos jovens e adultos no Paranoá iniciou-‐se pelo MOBRAL já em fase de franco declínio (1985). A experiência durou poucos meses e, ao findar, a Comissão de Educação da Associação elaborou uma proposta de alfabetização mantendo no programa a conotação do esclarecimento político e o fortalecimento das discussões sobre as necessidades da comunidade.
A Comissão apresentou a proposta à Fundação Educacional do Distrito Federal (FEDF). Enquanto as negociações caminhavam, uma turma de alfabetização foi aberta na Igreja para atender a demanda dos alunos egressos do MOBRAL que escreviam o nome e desejavam dar continuidade dos estudos. A Diretoria do Ensino Supletivo (órgão da FEDF) não apoiou a Comissão. A Associação estudava outros caminhos quando descobriu uma experiência comunitária realizada no Gama, cidade satélite de Brasília, coordenada pela Prof. Marialice Pitaguary, da Faculdade de Educação da UnB. Disposta a conhecer a proposta da Comissão, a professora ouviu:
Óh, nós queremos que vocês nos ajudem a fazer algo diferente. Então, quando a gente foi buscar, a gente já disse – nós não sabemos o que fazer, e como fazer. Nós temos que aprender como fazer. Nós sabemos que temos que fazer. O que queremos. Tínhamos consciência de que tínhamos que fazer algo diferente, que não era aquela coisa do MOBRAL só de ficar lá, encher o quadro aquela coisa. (Lourdes. Coordenadora do GAJA, 2009).
Em comum acordo, partem a Comissão de Educação e a Professora da UnB para o estudo e a viabilização do Projeto de Alfabetização no segundo semestre de 1986. Os espaços comunitários usados para o Projeto foram a Igreja São Geraldo, o barracão do Projeto Rondom e o salão do Projeto das Bandeirantes (Escoteiros). O Grupo que negociava com a FEDF acresceu seu potencial com a participação da UnB ao alvorecer de 1987. A parceria Comissão/UnB defendia/e um programa de alfabetização baseado tanto no ler e no escrever quanto no enfrentamento dos problemas da comunidade. A Comissão tinha clareza em dois pontos. De um lado, que o “povo” não tinha acesso à informação e isso dificultaria os trâmites da fixação no Paranoá e, de outro, que seria um grande diferencial ter pessoas da comunidade trabalhando com a UnB e ter um espaço de discussão já inserido na rede oficial de educação. Todavia, a conjunção dos fatores não aconteceu. Os educadores da rede
80 pública discordam da proposta de trabalho discutida entre a FEDF138 e a Associação/UnB. Consequentemente, a busca pelo espaço público se inviabilizou dando lugar ao trabalho comunitário. Trabalho este fortalecido pela realização do primeiro Censo do Paranoá. Uma iniciativa da Associação com suporte da UnB. A questão motivadora da pesquisa era conhecer o número de analfabetos entre a população à casa das 35 mil pessoas. A estratégia usada foi o diálogo com a comunidade e a abordagem de casa em casa. O Censo ganhou importância para a comunidade ao desvelar o contigente do Projeto de Alfabetização, bem como, ao deflagar a situação qualitativa da população em geral. O aprofundamento na própria realidade trouxe insumos à recrudescida luta pela fixação que culminou, em 1988, no decreto de fixação
b) Organização: proposta pedagógica. Nesta altura, o desgaste da luta contra as
investidas governamentais e seus agentes infiltrados levaram o grupo a perder a coordenação da Associação. Os novos dirigentes (gestão 1988-‐89) focariam em projetos distintos dos ligados à cultura e à educação, entendendo que a educação deveria ser da alçada da FEDF. Sabe-‐se que nestas condições, o trabalho de educação realizado com a UnB estaria sem amparo, quer da Associação quer da FEDF. O impasse levou o grupo à criação do Centro de Cultura e Desenvolvimento do Paranoá, CEDEP, uma instituição político-‐ jurídica139. O objetivo desta entidade seria garantir os trabalhos de cultura e educação que estavam em andamento. Desde então, o Projeto funciona em parceria estabelecida com a UnB. Para Reis; Viana140;
O Projeto Paranoá: alfabetização e formação em processo de alfabetizadores de crianças, jovens e adultos de camadas populares é um projeto de extensão do Decanato de Extensão (Dex) da Universidade de Brasília. Esse projeto faz parte também da proposta curricular do curso de Pedagogia, na disciplina Projeto III, que tem como finalidade a prática do ensino-‐pesquisa-‐extensão, sendo um campo de desenvolvimento de práxis pedagógica: ação-‐reflexão-‐ ação.
138 Conforme Airan Almeida de Lima é importante registrar que a educação popular também contou com a colaboração da
FEDF, que mesmo sem assumir institucionalmente o dever de alfabetizar Jovens e Adultos alguns diretores do Paranoá disponibilizaram salas de aulas das escolas para que o movimento popular alfabetizasse os jovens e adultos moradores da cidade. (1999, p.44).
139O CEDEP é uma entidade sem fins lucrativos, devidamente registrada e reconhecida como entidade de assistência social
e agora de utilidade pública federal. (Cf. Jesus, 2007, p.84).
140 Renato Hilário dos Reis; Sttela Pimenta Viana. Projeto Paranoá: Inserção participativa contributiva no cotidiano da
81 Em 2011, o Projeto estendeu salas a duas localidades: Sobradinho dos Melos e Itapuã, áreas de ocupação junto ao Paranoá, ampliando a participação de educandos. Os locais de atendimento variam nessa caminhada. Da primeira sala na igreja até Sobradinho e Itapuã, muitas se abriram e outras tantas se fecharam. Houve certa itinerância no atendimento, resultado, em parte, das mudanças de governo do Distrito Federal e, em parte, da disponibilidade de espaço na comunidade. Sobre a falta de espaço na comunidade, conjecturamos a partir das leituras sobre o Paranoá, que houve crescimento de diferentes ramos de atividades nas instituições atuantes na comunidade, civis e religiosas, e incremento de atividades, sobretudo culturais. A exemplo, veem-‐se as igrejas evangélicas, pastorais católicas, congregações, o Centro Social São Geraldo, os Escoteiros e o Movimento Bandeirantes, o Decanato de Extensão da UnB, para citar alguns141. Daquelas, Jesus142 lembra o fechamento de salas em função dos resultados das eleições de 1998. A proposta eleita era contrária à utilização das salas de aula ociosas no período noturno pela educação popular. Essa postura levou ao fechamento de todas as salas de alfabetização das escolas públicas coordenadas pelo CEDEP. O atendimento volta ao CEDEP, porém, com 4 turmas. Em junho de 2007 havia 3 turmas no CEDEP, 01 na Igreja Anglicana na Quadra 18 do Paranoá e 02 no Itapuã. Em 2011 funcionavam 4 salas no CEDEP, 03 em Sobradinho dos Melos e 04 estavam programadas para o primeiro semestre no Itapuã, mas, por problemas da Regional não abriram.
Figura 2: Projeto Paranoá – Sala de aula no CEDEP
Foto: Equipe de Pesquisa
141 Cf. Leila Maria de Jesus, A repercussão da atuação de educadores/as populares no CEDEP/UnB na escola pública do Paranoá-‐DF, 2007, p.41. Sobre o Decanato de Extensão, a autora lamenta a saída em 1990, depois de 5 anos na
comunidade.
142
82
c) Atendimento: educando e currículo. Uma caracterização dos alunos do Projeto
Paranoá tende a vê-‐los como mulheres e homens trabalhadores. O auxílio de Fidalgo; Machado143 ajuda a ampliar o termo trabalho para além de um “fenômeno articulado a
legislação do trabalho; às formas alternativas de trabalho que correm por fora das relações assalariadas, o trabalho desregulamentado, o trabalho precário, à formação dos trabalhadores, enfim, o complexo mundo do trabalho”.
Eu diria que são jovens e adultos trabalhadores que buscam uma nova chance, uma nova oportunidade e que ainda acreditam que pode ser diferente e que podem escrever uma história da vida deles. (Leila. Entrevista em 17/6/2011).
Esses alunos que não tiveram condições de estudar a tempos atrás por causa do local de origem, por dificuldades, por não ter tempo porque trabalham. Então, eu descrevo como pessoas que querem uma chance para estudar e que eles fazem uma tentativa e muitas vezes não dá certo por causa dos problemas do dia-‐a-‐dia e depois eles têm o retorno, tentam novamente. Eu os descrevo como pessoas que buscam o sucesso e principalmente um sonho que é aprender a ler e escrever. (Eva. Educadora, 2011).
Francisco, aluno atual, aos 72 anos se empolga quando responde se ainda trabalha. – “Trabalho. Trabalho do mesmo jeito de quando eu estava com 20 anos”. As várias formas que o trabalho assume são suficientes para encaixar Maria Amélia144, aluna atual, como trabalhadora ainda que “No momento eu não trabalho... assim...” ela diz. Trabalha, sim, em casa, cuidando da família. “Inclusive quando eu entrei aqui eu estava das oito às dez, e ele [o
esposo] achou que eu estava chegando tarde para dar os remédios dele e perguntou se tinha outro horário, então, eu mudei de seis às oito”.
Em se tratando de aluno e de aluna que trabalham o horário da noite acaba sendo favorável. Ângelo145, aluno atual, concorda que “É bom porque se fosse de dia eu não
poderia, e acho que a maioria que está vindo aqui à noite é porque não pode vir de dia”. O
GAJA oferece dois horários de aula pensando em melhor atender aos alunos. Para Francisco o horário das 20 horas “é bom. Minha esposa diz que é para eu começar a estudar 6 horas
(18h), mas, só que seis horas há dias que eu não posso vir porque as vezes eu chego é oito, nove horas do meu serviço. Então, não dá para vir ao colégio”.
143 Lucíola Licínio de S. Machado; Fernando Fidalgo (Orgs.) Dicionário da Educação Profissional, 2000, p.219. 144 Entrevista com Maria Amélia. Educanda, 2011.
145
83 Além das classes de alfabetização, o Centro oferece aulas de informática (Escola de Informática e Cidadania); atividades do Grupo de Economia Solidária, do Grupo de Cultura e o Grupo de Comunicação por meio do Jornal do Paranoá, editado pelo CEDEP; a Sala de Leitura em parceria com a UnB, o GENPEX146. Recentemente foi criado o Grupo de Formação Profissional: web design, fotografia, padaria e confeitaria, malharia e confecção, jardinagem e paisagismo. A localização e o espaço físico do CEDEP parecem atender às necessidades do Projeto e ao interesse dos estudantes.
Aqui é bom, eu gosto de estudar aqui. Não tem muito barulho, não tem muita bagunça, eu não gosto de lugar que tem bagunça, aqui é mais tranquilo. Na escola tem jovem gritando, muita bagunça aí eu acho que é muito agitado para mim. Aqui há mais silêncio, mais calma, só gente que nem eu mesma, mais velhinho do que eu, às vezes tem outro da minha idade, só assim, todo mundo tem aquela calma. É bom demais! (Maria Amélia. Educanda, 2011).
Eu acho bom, porque o Centro de Cultura e Desenvolvimento ele é uma referência. Principalmente porque antes de ter esses projetos de alfabetização de jovens e adultos, só a entidade CEDEP que alfabetizava, nem uma outra aqui alfabetizava. E a entidade faz isso é por persistência, porque nós temos um trato com a gente (como alfabetizadoras) e com a comunidade, com cada um que se propõe a aprender a ler e escrever. (Eva. Educadora, 2011).
Maria Amélia se refere à idade dos colegas de turma: mais velhinhos ou iguais a ela. Há uma tendência no perfil do estudante ser mais adulto que jovem. Isso vai incidir no interesse pessoal pela alfabetização, na condução do tempo de conclusão de cada um, e possivelmente, no levantamento da situação-‐problema-‐desafio. As pessoas das diversas faixas etárias devem perceber de forma diferente as situações e os desafios, o que leva ao processo de votação da situação-‐problema-‐dasafio. Entendemos ser uma opção de trabalho da ordem do coletivo, do vivido pela comunidade. Esta afirmação permite uma inferência: este tipo de condução do currículo leva os estudantes a permanecerem mais tempo no Projeto uma vez que aí a vida vivida emerge e busca-‐se tratá-‐la de acordo com as demandas individuais/coletivas.
A gente pode utilizar todos [métodos] de forma que vá capacitar aquele aluno para que ele aprenda, de forma que ele aprenda politicamente. Eu acho que aqui a gente tem muito forte a parte política. É assim, você está
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84 aprendendo a ler de que forma? Eu estou aprendendo a escrever “o buraco da minha rua precisa ser fechado e eu vou ligar para tal número para que isso aconteça”. O médico não compareceu no hospital tal dia, no dia que era para ele comparecer. Como é que eu vou fazer para que ele compareça? Como é que eu vou lutar pelos meus direitos. E aí a gente faz um paralelo também histórico. Como é que estava o Paranoá antes e como é que está hoje, e o que precisa melhorar. Isso escrito, isso falado, isso discutido, então isso é... eu diria um método político, eu diria mais ou menos por ai! Hoje está mais ou menos por ai. (Jaqueline. Licencianda de Pedagogia, UnB, 2009)
Partindo desse pressuposto, o tempo de permanência dos educandos no Projeto é flexível. A terminalidade do curso de alfabetização está prevista em três semestres, a depender da sondagem inicial e de outros fatores subjetivos do aluno. Por exemplo, Antônio147 está há 7 anos no CEDEP e conta que “A professora falou para eu ir para o
colégio, mas eu não vou não. Ir para quê? Não vou fazer concurso em nada, o pouco que eu aprender é aqui mesmo”. De forma semelhante Maria Amélia148 tem base para avançar, mas prefere ganhar mais confiança: “E eu estou aqui, entrei no ano passado, mas já no meio do
ano, a professora Eva queria me mandar lá para o colégio. Mas eu falei que esse não dá para acompanhar. Lá ainda não, para deixar para o ano que vem”.
A gente conta que esse processo começa daí, mas ele não está cronometrado em 06 meses. Nesse período de 01 semestre de trabalho a gente espera que ele esteja preparado para sair para a rede. Agora, há aqueles que demandam um tempo maior, há aqueles que ficam 01 ano conosco, há aqueles que ficam 03 semestres conosco. Porque não é só ele estar preparado na leitura, na escrita, nos processos matemáticos para ir, não é só isso. Ele precisa estar confiante, confiando nele e, sobretudo, ele precisa desejar muito ir para que essa dificuldade que ele vai encontrar na rede não seja motivo para ele desistir. [...] Às vezes a gente até coloca eles na turma concluinte, a gente estimula, dependendo da resistência da turma, a gente até leva para fazer um intercâmbio, para conhecer a escola, como é que é, a gente faz todo um trabalho, mas se o aluno diz: “eu quero continuar aqui com vocês porque eu estou me sentindo bem aqui, então, tudo bem. (Leila. Tesoureira, 2011).
As terminologias das turmas de iniciante, intermediária e concluinte fazem alusão às fases da conquista da lecto-‐escrita descritas por Emília Ferreiro & Ana Teberosky, mas não só, adverte Reis149. Os três momentos ajudam a balizar a bagagem do aluno e, ao mesmo tempo, tentam responder à questão do tempo de permanência na turma.