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Conforme visto, um sistema de informação é definido não só pelo criador do sistema, mas se estabelece através de uma relação com o usuário, com o meio que os cerque e com o próprio acervo de que tal unidade de informação disponha. Com isso queremos reforçar que o modelo de sistema de informação para o campo cultural vá-se esforçar para não cair em um embasamento behavorista-comportamental, que fornece um perfil vago, pra não dizer equivocado, do cenário.

Assim, resguardadas ainda as possíveis intervenções instrumentais de procedimentos tecnológicos, que se podem considerar secundários – não necessariamente em importância, mas na construção de um processo de implantação de um sistema – a estrutura ampla de sistema de informação, conforme o aqui proposto, deve refletir o modo de ver e pensar o mundo do seu organizador.

Por isso a configuração esquemática de um sistema como esse para o universo cultural não pode antever um modelo de equilíbrio prévio, mas de constante adequação a desequilíbrios contínuos, provocados exatamente pelas múltiplas interpretações, leituras e as conseqüentes intertextualidades que podem incorrer. Uma forma de abordagem que “contribui para a definição da missão institucional da unidade de informação, ou, em outras palavras, a que tipos de necessidade de informação de seu público-alvo ela se propõe a atender” (Aguiar, 1991).

Poderíamos ilustrar tal contraposição com a relação entre o que chamamos de

sistemas-modelo (partes integradas que se ajustem a um modelo teórico) e modelos de sistema (um construto abstrato capaz de fornecer soluções para problemas propostos a

partir de procedimentos internos ou externos integrados por uma abordagem diversificada). Tal visão pode ser resumida no quadro exposto a seguir:

Quadro 01 – Contraposição entre Sistemas-Modelo e Modelos de Sistema

SISTEMAS-MODELO MODELOS DE SISTEMA

Paradigmático Sintagmático (abordagem sistêmica)

Visa ao genérico Visa ao particular

Isolado Aberto

Procura modos de compreensão e/ou entendimento do mundo que possam refleti-lo

Procura modos de apreensão do mundo, a partir da reflexão em diversos campos

Almeja a descoberta Considera seu caráter inventivo

Busca a classificação de um conjunto de coisas Busca as modalidades p/ descrição de uma coisa

Busca soluções simples Considera a complexidade

Tende a cair no reducionismo Tende a desconsiderar limites

Tende ao controle Tende à autonomia

Ordem x Desordem Ordem e Desordem

Alcance global Alcance local

Fonte: Teixeira, 1999.

A interlocução dessas noções de modelo de sistema proposta neste trablho e suas categorias não só se aplicam de maneira mais adequada ao estudo de grupos culturais, especialmente aqueles existentes em determinado local geográfico (como é o caso proposto por esta tese), mas também devam interagir de maneira plena com os mesmos, para que essa interação possa determinar os esquemas representativos do sistema. Uma abordagem sistêmica deve considerar a complexidade das situações apresentadas, para que o(s) modelo(s) proposto(s) para cada uma delas possam descrevê-las e absorvê-las da melhor maneira possível.

Também é necessário considerar o aspecto inventivo do sistema, isto é, não se trata de algo que reflita a natureza, mas uma intervenção humana sobre ela – o que reforça o seu caráter projetivo e a necessidade de uma interação plena, mas também de um alcance local, facilitando considerações sobre o(s) modelo (s) proposto(s) e sugerindo que, no caso de uma ação da ciência da informação sobre o campo artístico-cultural, os modelos de sistema possam surgir como configuração mais adequada para a ação (Teixeira, 1999).

Afinal, ao campo cultural notadamente se atribui a categoria de diversidade, enquanto que, ao campo dos sistemas se atribui a categoria da uniformidade, homogeneidade. Destarte, um trabalho que vise à proposição de um sistema de informação para incubadoras artístico-culturais só pode estabelecer essa relação a partir das categorias estabelecidas na segunda noção: modelos de sistemas que permitam o desdobramento, a interação e uma representação mais coerente e contínua do que os sistemas-modelos, que procuram atingir a globalidade de uma dada situação cultural, evitando a sua localidade e procurando imprimir uma categoria geral a partir da

particularidade4.

Poderíamos citar como exemplo para modelo de sistema, os centros de informação comunitários e como sistemas-modelos os esquemas distributivos de produtos, inclusive os culturais, em escala mundial. No primeiro caso, uma relação de interação visa à interferência no próprio modelo e se caracteriza pelo poder de decisão. No segundo essa mesma interação fica restrita a esquemas gerais que se aplicam nos vários locais em que o sistema atue, apesar de considerar suas particularidades (como projetos de marketing), e se caracterize pelo poder de escolha.

Enquanto no primeiro caso haja uma ênfase maior nas potencialidades do que nas possibilidades, no segundo caso, essa relação se inverte claramente e as potencialidades do poder de decisão se reduzem às possibilidades do poder de escolha. Como se vê, a dualidade entre sistema-modelo e modelos de sistema acima proposta não é excludente: as noções/relações propostas se interrelacionam – o que só aumenta a responsabilidade daqueles que o propõem. Acreditamos que, em consonância com a hipótese deste trabalho, a investigação foi extremamente interessante no caso das incubadoras artístico-culturais, exatamente por se tratar de um território em que praticamente se confluem interesses relacionados à indústria, ao marketing, à política, à produção e à fruição cultural.

Conforme exposto anteriormente, a aplicação do termo sistemas de informação ao campo cultural passa a ser vista com maior cautela, exatamente pela influência, que o termo trazia como herança do sucesso das aplicações científicas dos sistemas-modelo de Isaac Newton (termodinâmica) e Norbert Wiener (cibernética). A ciência da informação, durante muito tempo, tentou transpor esses paradigmas para o seu campo, obtendo certo êxito no que diz respeito à sua dimensão técnica, mas quase nenhum com relação ao usuário – que deveria ser o foco principal de um sistema de informação. Autores, como Araújo (2008) criticam a adequação do usuário a um sistema modelo, processo feito a posteriori e que deixa de pensar o usuário como um usuário, para pensá-lo como apenas uma parte do sistema. Como também reitera Allen (1996), apesar do levantamento das necessidades dos usuários ser importante, um sistema de informação não pode restringir-se a isso.

Dervin (1986) enumera ainda algumas diferenças a partir das seguintes contraposições:

i) o embate entre informação objetiva x informação subjetiva (o paradigma tradicional não consegue acompanhar o processo dinâmico de produção da informação);

ii) uma visão mecanicista, passiva dos usuários contra uma visão construtivista, ativa; uma visão trans-situacional contra uma visão

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situacional (sistemas modelo são vistos como algo que ultrapasse o tempo e o espaço, ao passo que deveriam ser ditados e acompanhar o movimento desses);

iii) visão atomista contra uma visão holística (falta uma complexidade aos sistemas de informação que lhes dê maior movimento, maior capacidade de abordagem) [tradução nossa] (DERVIN e NILAN, 1986).

Durante muito tempo a influência dessas novas proposições na construção de sistemas de informação ficou restrita ao público acadêmico-científico. Só posteriormente se observou o interesse por grupos profissionais específicos, como os engenheiros, assistentes de saúde e advogados, analisados por Leckie et al. (1996).

Os autores apontam inclusive alguns fatores, relacionando os dois campos: no campo acadêmico-científico, por exemplo, a ênfase de seu trabalho estaria, stricto sensu, na produção do conhecimento, enquanto que a ênfase do trabalho profissional estaria na produção de serviços. Avançando nessa comparação, os autores também apontam que, no caso acadêmico-científico, um modelo mais geral pode contemplar as várias áreas de ação acadêmicas, enquanto que, no caso dos profissionais, esse modelo será definido pelas particularidades não só de cada profissão, mas também, como cenário sugerido anteriormente por Wersig (1993), dos vários papéis que o profissional desempenhe ao longo do dia – aspecto que faz com que também oscilem as suas necessidades de informação.

Barbosa (1997) sugere que o cenário profissional contemporâneo também leve ao crescimento exponencial de fontes internas e externas de informação no âmbito das organizações. “Uma das conseqüências dessa diversidade é a dificuldade em se escolher, para efeitos de seu estudo, uma classificação dessas fontes” (Barbosa, 1997, p.7). Por isso, o autor recorre a esquema proposto por Choo para as fontes de informação internas e externas, subdivididas entre pessoais e impessoais, da seguinte forma:

i) Como fontes internas e pessoais, estariam os superiores hierárquicos, membros da diretoria; gerentes subordinados e equipe de funcionários;

ii) Como fontes internas e impessoais, os memorandos e circulares internos; relatórios e estudos internos; biblioteca da organização e serviços de informação eletrônica.

iii) Como fontes externas e pessoais, os clientes; concorrentes; contatos comerciais/profissionais e funcionários de órgãos governamentais

iv) Como fontes externas e impessoais, os jornais e periódicos; publicações governamentais; rádio e televisão; associações comerciais e industriais; conferências e viagens. (CHOO apud BARBOSA, 1997, p.11)

Silveira (2006) atualiza a proposta de Barbosa a partir de Choo, acrescentando “serviços de informação eletrônica – Internet (externa)”; “serviços de informação em CD- ROMs” e, em campo independente, “outras fontes”.

Salomão assinala que, no campo da produção artístico-cultural, que nos interessa mais de perto, o profissional da informação deve ainda “compreender as relações entre os diferentes estratos que determinam a produção dos bens culturais (...) e sem descuidar do espírito crítico, encontrar ocasião para relativizar os fundamentalismos e, apropriando-se de dinâmicas próprias (...) intermediar as redes de produção de objetos e sentidos” (Salomão, 2001, p. 110), contribuindo assim, para ampliar a ocorrência de experiências no gênero (Pinheiro, Virnez, Dias, 1994 e Cobbledick, 1996). Em seu estudo sobre profissionais da área cultural em Belo Horizonte, Salomão demonstrou que para 94,3% dos entrevistados “o exercício da atividade cultural (...) requer também a apropriação de informações existentes no campo de manifestação artística” (Salomão, 2002, p. 107).

A partir dessas questões, damos início ao nosso sistema de proposições para a as incubadoras artístico-culturais.