Em termos de atraso educacional, o Brasil é comparável a alguns dos países mais pobres do globo.
Jornal Folha de S. Paulo, 27 de abril de 200616
A história da educação brasileira pode ser relatada, desde a colonização, por intermédio de periodizações marcadas por ocorrências que, embora com variação entre um pesquisador e outro, respeitam ciclos temporais. Tema de vários estudos, com destaque para o trabalho de Mirian Limoeiro Cardoso (1977) que alerta sobre a questão da “descontinuidade na continuidade dos acontecimentos”, também, para esta pesquisa, houve a necessidade de um recorte histórico para além dos já contextualizados. O foco é entender a década compreendida pelos anos de 1997 a 2007, conforme já mencionado na apresentação, reconhecida por Lei como a Década da Educação.
Escolheu-se como base para a pesquisa a periodização de Dermeval Saviani descrita em História das Ideias Pedagógicas no Brasil (2007) por haver entendimento quanto a pertinência da proposta do autor e por ser o referido trabalho muito recente, cobrindo significativamente parte do período a que se propõe a pesquisa.
Saviani dividiu a linha do tempo em quatro períodos – entre 1549 e 1759, 1759 e 1932, 1932 e 1969 e 1969 a 2001, este último compreende cinco dos dez anos da pesquisa e o autor o intitula como O neoprodutivismo e suas variantes: neo-escolanovismo, neoconstrutivismo, neotecnicismo. A divisão temporal de Saviani considera a última realização da CBE – Conferência Brasileira de Educação, em 1991, como o marco que encerra a década anterior – 1980-1990. A defesa do autor é de que as temáticas da CBE inauguraram uma nova programação educacional para o Brasil. Tendo como tema central
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A partir deste capítulo, os recortes dos editoriais serão frequentemente inseridos ao longo do texto de maneira a evidenciar a constante repetição dos temas e a variação das datas em que foram publicados com o objetivo de chamar a atenção para o objeto e manter o diálogo necessário entre o objeto e a análise.
“Política nacional de educação” e cinco sub temas: “Escola básica”, “Estado e educação”, “Sociedade civil e educação”, “Trabalho e educação” e “Universidade e educação”, a CBE colocou em debate questões que refletiam a realidade educacional do país e pautariam as ações da próxima década – 1990-2000, que para Cláudia Pereira Vianna e Sandra Unbehaum (2004) se revelaria um período muito vasto em acontecimentos no cenário político educacional:
São grandes a preocupação e o esforço investidos em mudanças na educação básica brasileira nas últimas décadas, principalmente no final dos anos de 1980, com a consolidação da Constituição Federal de 1988, e durante todo o período dos anos de 1990, repleto de reformas educacionais. Esses fatos tornam o intervalo que vai de 1988 a 2002 um recorte histórico importante para a análise das legislações e reformas federais na área da educação. Tais documentos constituem um campo variado de estudos, desde a estrutura curricular, financiamento da educação, avaliação de desempenho e fluxo escolar, formação docente e também aspectos específicos como gênero, raça e direitos humanos. (VIANNA; UNBEHAUM, 2004)
O período restante do recorte temporal – 2002 a 2007 – após as considerações de continuidade, tendo em vista a interação entre passado e presente, a partir das contribuições de outros autores que já se debruçaram sobre a produção política educacional de Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva, será uma contribuição desta pesquisa que ao analisar os editoriais, se propõe também a um relato histórico.
É importante constar que tão somente a leitura cronológica dos editoriais já se apresenta como um significativo documento para a história da educação. Claro que foram temas escolhidos a partir de motivações políticas/empresariais e, por isso, apresentam-se de maneira tendenciosa como já no capítulo sobre as escolhas do tema a ser noticiado, mas ainda assim, fazem referência a características da história política educacional do Brasil.
Pelos editoriais é possível constatar que durante o período pesquisado o maior destaque dado pelos dois veículos de comunicação foi à educação pública, sempre em contraposição à educação privada, com foco para a gestão pedagógica, financeira e política e ênfase na educação superior, passando pela análise das várias fórmulas de avaliação (ENEM
– ENADE – Provão) e um debate sobre a democratização do acesso à educação, neste período, mais voltado para o Ensino Médio tendo em vista que a universalidade do Ensino Fundamental foi praticamente sanada ao final da década, conforme mostra os editoriais.
Uma da maiores conquistas sociais, no Brasil, nas últimas duas décadas, foi a universalização do ensino fundamental.
Jornal O Estado de S. Paulo, 17 de agosto de 2005.
Ensino fundamental está universalizado e terceiro grau cresceu 13,2% crise mais aguda ronda agora a crucial escola secundária
Jornal Folha de S. Paulo, 19 de setembro de 207.
Um dos pontos fortes da gestão Fernando Henrique Cardoso são os significativos avanços na meta de universalização da educação fundamental. Jornal Folha de S. Paulo, 13 de dezembro de 2001.
Um grande feito da gestão Fernando Henrique Cardoso no campo da educação foi ter ampliado o número de jovens nas escolas. A meta da universalização do ensino já foi quase alcançada no nível fundamental. É preciso agora cuidar para que, no futuro próximo, todos encontrem vaga também no ensino médio. A questão se complica é quando se considera a educação superior. A ¨solução¨ encontrada pelo governo FHC foi estimular a oferta de vagas em instituições privadas.
Jornal Folha de S. Paulo, 05 de janeiro de 2002.
A demanda pelo ensino médio no setor público foi reforçada em consequência do maciço ingresso no ensino fundamental promovido por governos anteriores, em especial o de Fernando Henrique Cardoso. Com efeito, entre 1992 e 2002, a taxa de crianças de 7 a 14 anos fora da escola caiu de 13,4% para cerca de 3%.
Jornal Folha de S. Paulo, 01 de dezembro de 2005.
Ainda de acordo com a leitura dos editoriais ficou evidente a presença do sujeito responsável pelas ações educativas, com grande destaque para os políticos – Presidente da República, Ministro da Educação, Governador, Secretário Estadual da Educação e Prefeito, no caso específico, da cidade de São Paulo e reitores de instituições públicas de ensino superior. Tal constatação sugeriu uma análise pontual sobre a movimentação política do período. O que será apresentado a seguir.
Antes, porém, é importante contextualizar que assim como o recorte temporal não pode ser feito sem considerar as continuidades, a análise de um fato histórico deve se dar a partir das referências com as quais o mesmo se relaciona, o que indica uma leitura dos
acontecimentos do Brasil e do Mundo sob a ótica das mudanças econômicas, sociais e culturais.