B. Bölge Planlaması
2. İkinci Dünya Savaşı Sonrası Gelişmeler
Mário Moraes (1970) ao tomar posse da cadeira 39 da Academia Amazonense de Letras, cujo patrono é o médico Alfredo da Matta, o apresenta como: administrador, professor, político, sanitarista, leprólogo, tropicalista, cientista. A atividade científica do Alfredo da Matta foi bastante intensa, publicando artigos em diferentes áreas do conhecimento, como: saúde pública, medicina tropical, “doenças de climas quentes”, entomologia, lingüística, “flora médica”, geografia médica, etc (ver a relação das publicações no anexo 1). A história das ciências da saúde no Amazonas passa necessariamente por este múltiplo personagem.
Alfredo Augusto da Matta nasceu na Bahia, em 18 de março de 1870, e faleceu no Rio de Janeiro, em 03 de março de 1954. Filho do Major Joaquim Francisco da Matta e de Leopoldina Carolina da Matta (Bittencourt, 1973). Ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia, terminando em 08 de dezembro
de 1893, com a tese intitulada Dysenteria (Meirelles, 2004). O médico atuou por 50 anos no Amazonas até se transferir para o Rio de Janeiro, em 1944, por motivos de saúde (Amazonas Médico, 1944).
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O médico baiano chegou a Manaus em outubro de 1894, como médico do Llóide Brasileiro. No mesmo mês o Governo do Pará o nomeou médico da sétima Circunscrição Sanitária, cargo que não aceitou. No mesmo ano foi nomeado médico do Exército para servir em Barbacena, Minas Gerais, mas exonerou-se do cargo porque desejava permanecer em Manaus. Casou-se com Zulmira Martins de Meneses, filha do seu colega Dr. Aprígio Martins de
Meneses63, ficando viúvo em 1901, casando-se novamente com Maria
Madalena Mavignier de Oliveira, filha do Capitão Manoel Cezário de Oliveira (Amazonas Médico, 1944, p. 65).
O jovem médico foi nomeado, segundo Ofício do Governador enviado à Diretoria de Higiene, em 21 de fevereiro de 1895, como auxiliar no Serviço de Higiene, e logo começou a responder pelo Laboratório de Análises Químicas do Estado, conforme o Ofício de 29 de março de 1895, assinado pelo próprio
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Alfredo da Matta. Quando assumiu a chefia do Laboratório fez um pedido de material e de livros de referência para fazer as análises dos produtos encaminhados ao laboratório. No ano de 1899 assumiu a direção do Serviço Sanitário do Estado, permanecendo até o ano de 1912. O período em que foi diretor foi marcado pela mudança do paradigma em relação à transmissão da febre amarela e à malária, produzindo uma significativa mudança na profilaxia destas duas doenças na cidade de Manaus.
Como gestor da saúde, Alfredo da Matta teve um papel fundamental na implantação de medidas sanitárias para o combate de doenças que mais afetavam a região, como: a malária e febre amarela, a ancilostomose, a tuberculose, a varíola e a “lepra”. O médico não somente apoiou o trabalho de comissões de saneamento em Manaus, como também esteve à frente de campanhas na capital e em viagens pelo interior para debelar epidemias de varíola e malária. Ele também foi o responsável pela saúde do Município de Manaus, em diferentes momentos da sua trajetória pública.
Alfredo da Matta participou da fundação de várias instituições do Estado, dentre elas podemos destacar a Escola Universitária Livre de Manaus, a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Amazonas, o Instituto Geográfico Histórico do Amazonas, o Instituto Pasteur. Na Universidade Livre de Manaus, fundada em 1909, ele foi professor da Faculdade de Medicina (nomeado em 1909), nos cursos de Farmácia e Enfermagem,64 ministrando as disciplinas de Higiene no curso de Farmácia (nomeado em 1911) e Odontologia (nomeado em 1914); e Entomologia para o curso de Agronomia (Amazonas Médico, 1944).
Os Congressos médicos eram eventos importantes para os médicos da região porque poderiam buscar atualização e encontrar colegas de profissão para a troca de idéias. Alfredo da Matta participou dos congressos com a apresentação de trabalhos das suas pesquisas no Amazonas. Ele fez parte da
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comissão organizadora do 4º Congresso Médico Latino-americano, do 1º Congresso Sul-Americano de Dermatologia e Syphilographia em 1917; dos 6º Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia em 1907, em São Paulo; e do 7º Congresso Latino-americano foi Delegado e Secretário dos Comitês no Amazonas. Participou e enviou trabalhos para várias exposições nacionais e internacionais: Rio de Janeiro (1908), Bruxelas (1910) e Turim (1911), onde obteve medalhas de prata e de ouro por seus trabalhos de estatística e demografia de Manaus, e coleção de madeiras amazonenses (Amazonas Médico, 1944, p. 68).
No campo da política, o médico-cientista também atuou, sendo um dos fundadores do Partido Republicano Amazonense. Em 1916 foi eleito deputado Estadual pelo Partido Republicano, e reeleito mais duas vezes (1916-1918; 1919-1921; 1922-1924), e foi Presidente da Assembléia Legislativa de 1917 a 1920. Deixou a política para trabalhar em tempo integral no Serviço de Saneamento Rural no Amazonas, em 1922. Com a “Revolução de 1930” filiou- se ao Partido Socialista do Amazonas, retornando à política como deputado à Assembléia Nacional Constituinte (1933-1934), sendo eleito Deputado Federal em 1935, e logo depois Senador (1936-1937) (Amazonas Médico, 1944). Quando da Matta assumiu o cargo de médico do Serviço de Profilaxia Rural do Amazonas, em 1922, este pediu a exoneração do cargo de deputado, pois havia uma exigência de dedicação integral ao trabalho. Um jornal local publicou que o Estado ganhou com esta decisão, porque ele era considerado melhor cientista do que político.
A figura do intelectual múltiplo pode ser exemplificada pela variedade de publicações do autor, que além de textos sobre a questão médica, escreveu também sobre entomologia, plantas de uso médico e de utilidade econômica, vocabulário amazonense, geografia médica, etc. A relação dos trabalhos publicados por Alfredo da Matta estão no último número do “Amazonas Médico” (1944)65, que totalizam 234 publicações de diferentes temas. A relação nos dá uma noção da produção do autor e de sua capacidade de pesquisa e interesse
científico. Os trabalhos foram publicados em periódicos nacionais e internacionais, e principalmente em periódicos locais.
As primeiras produções de Alfredo da Matta tinham um caráter mais técnico-administrativo, sendo relatórios anuais enviados ao governador. Estes relatórios produzidos como diretor do Serviço Sanitário do Estado (1900 a 1912) reflete a preocupação do médico em identificar a origem e a causalidade das principais doenças que ameaçavam a população, na virada do século XIX para o século XX, principalmente a tríade febre amarela, malária e varíola. Os relatórios compõem um material rico para analisar as mudanças no pensamento do autor, principalmente em relação aos desdobramentos do conjunto de “descobertas” referentes à transmissão da febre amarela e da malária.
Os relatórios tinham uma preocupação pela estatística, como uma ferramenta para o conhecimento e para o combate às doenças. O método estatístico seguia metodologia de Bertillon, como justifica o próprio médico, que consistia em organizar e cruzar os dados populacionais e os demográficos com a mortalidade e a enfermidade. Os dados climáticos eram: a temperatura e os níveis pluviométricos que poderiam explicar os surtos epidêmicos em determinadas épocas do ano. A estatística de Alfredo da Matta também partia de suas observações pessoais, desde a sua chegada em Manaus, sendo complementada com os dados oficiais do porto, do cemitério, dos hospitais, da estação pluviométrica, etc. Os dados demográficos eram questionados porque o movimento de saída e entrada de pessoas era muito elevado, principalmente na passagem do século XIX para o século XX. Para resolver este problema, o sanitarista propõe que se agregue aos relatórios os dados meteorológicos e o movimento dos passageiros que entram e saem do porto da cidade (Matta, 1903b).
O médico Alfredo da Matta permaneceu no cargo de Diretor do Serviço Sanitário por mais de 12 anos, passando por dois mandatos da família Nery (Silvério – 1900 a 1903; Constantino – 1904 a 1907), e depois pela gestão de
Antônio Bittencourt, inimigo político daquela família. Em relatório de Alfredo da Matta, referente às atividades de 1908, o médico agradece por sua “manutenção no cargo” (1910). Isto pode representar a confiança que os governantes tinham sobre a sua capacidade técnico-adminstrativa, superando as diferenças políticas regionais.
Entre 1910 e 1913, Alfredo da Matta trabalhou na obra “Flora Médica Brasiliense”, e, em 1910, publicou uma série de artigos sobre a “Flore Bresilienne – plantes medicinales de l’Amazone” no Messager de São Paulo. O livro Flora Médica Brasiliense foi publicado em 1913, 66 e ganhou a medalha de
ouro pelas Academias de Geografia Botânica de Mons, da França, e a Academia Italiana de Ciências Físico-Químicas. O livro apresenta 327 espécies seguindo uma mesma ordem: nome científico e família, características gerais, composição química, partes empregadas, indicação terapêutica, farmacologia e posologia. O ponto de partida quase sempre é popular, com muitas referências ao uso que os “naturais” ou “indígenas” fazem das plantas; mas o seu objetivo é estudar “as plantas sob o ponto de vista da química-fisiológica, da farmacodinâmica e da farmacoterapia” (2003, p. 18). O autor apresenta a obra, dizendo que apesar de toda exuberância da natureza é necessário trabalhar para poder “percorrer os ‘seus domínios’, utilizando-se dos reagentes desse inigualável laboratório”. Agradece às pessoas que “remeteram informações e amostras de seiva, resina, óleo, e exemplares da nossa flora”, e faz um agradecimento especial a J. Hüber, diretor do Museu Goeldi, que lhe auxiliou na classificação das espécies.
Outro livro que merece destaque é a obra Geographia e Topographia
Médica de Manáos, publicada em 1916.67 O trabalho foi encomendado pela “Superintendência Municipal da Capital – Manáos”, que teve como objetivo:
(...) coligar todos os precisos elementos para a elaboração de um relatório que, do ponto de vista higiênico, abrangendo o maior lapso de tempo possível, mostre a evolução das moléstias que mais comumente caracterizam a patologia local, mostrará ainda, em suas linhas capitais, quais as medidas
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indispensáveis ao saneamento do meio urbano e suburbano, salientando, principalmente, a ação que o poder público deverá exercitar no sentido de combater, com eficácia, as moléstias infectuosas, - sobretudo a malaria, a tuberculose e a lepra (Matta, 1916, p. i).
O estudo da geografia e topografia é justificado pelas seguintes questões: “Como estudar as doenças de Manaus, sem conhecer o meio, e de que modo a este precisar sem intervir em suas condições meteorológicas e topografia local? Como estabelecer as relações de mortalidade, por exemplo, desconhecendo o movimento da população?” A obra está dividida em quatro partes: 1) noções sumarias de Geografia (situação e descrição de Manaus, natureza do solo, topografia, sistema de águas, fauna e flora) ; 2) noções de
Climatologia (temperatura, chuvas, pressão atmosférica, higrometria, ventos,
luminosidade – trovoadas, atmosfera, reparos à climatologia de Manaus); 3)
demografia em Geral (censo de Manaus, demografia sanitária de Manaus); 4) notas para o serviço de profilaxia do paludismo, da lepra e da tuberculose. No
anexo do livro, acompanham: as plantas da cidade, igarapés, rede de esgotos, quadros de observações pluviométricas e térmicas, tabelas com os índices de mortalidade e população. Os mapas e os quadros demográficos, segundo o próprio autor, estavam sendo realizados pela primeira vez na cidade, demonstrando que muitos dados foram organizados pelo próprio autor. A estrutura, segundo Eduardo e Ferreira (s.d), seguia o modelo de obras de Geografia Médica mundial.
Alfredo da Mata tinha a intenção de publicar um “Manual de doenças dos países quentes”, que deveria ser apresentado no “II Congresso Médico Amazônico”, a ser realizado em Manaus, o que não aconteceu. Assim, vários artigos publicados no Amazonas Médico, terceira fase (1941, 1944) são caracterizados como notas clínicas preparadas para compor o Manual. Os artigos deste número poderiam fazer parte de uma das seções deste manual, que reunia observações e experiências no período em que Matta atuou no Instituto Pasteur e no Dispensário de Lepra e Doenças Venéreas, na década de 20. Podemos tirar algumas conclusões dessas notas: 1) o médico do Amazonas possuía um arquivo com fichas dos casos com o desenvolvimento dos exames e tratamentos, assim como tinha um registro fotográfico dos
“casos típicos” ou representativos de uma determinada doença; 2) os textos representavam um tipo de revisão dos temas que tinham ocupado as suas atividades à frente das instituições, sendo que alguns artigos trazem uma atualização da bibliografia sobre a temática; 3) os temas são representativos porque eram situações clínicas que o médico precisou enfrentar, portanto, havia um esforço em pensar teoricamente questões práticas, a partir de particularidades locais.
A lingüística também foi objeto de preocupação do médico. Publicou diversos “vocábulos amazonenses”, primeiramente, nas revistas Amazonas Médico (ns. 05, 06, 1919) e no Instituto de Geografia e História do Amazonas (IGHA), e, posteriormente, os vocábulos foram reunidas em uma obra única, intitulada “Vocabulário Amazonense: contribuição para o seu estudo”, publicada em 1939. Há mais de quatro mil vocábulos da cultura regional relacionados à flora, fauna, alimentação, acidentes geográficos e hidrográficos. Os termos são, na sua maioria, de origem indígena. O autor chama a atenção na introdução da obra, para o fato de que não havia mais uma língua “pura” no Estado, devido ao processo de miscigenação e do trabalho “catequético dos religiosos” e das “reduções indígenas (1939, p. 04). Outro aspecto, segundo o autor, que contribui para a “mistura” lingüística foi a migração em massa de nordestinos, a partir da grande seca de 1787, com o estímulo da exploração da borracha. “A linguagem amazonense participa por isto, em maior ou menor escala, dessa variada gama do falar brasileiro, guardando todavia, em diversas zonas, certo cunho que outrora lhe era privativo e tanto a distinguia” (idem, p.6). O autor também chama a atenção para o fato de que vários nomes científicos foram oriundas de nomes regionais como: Ingá cinnamomea, Bombax munguba,
Hydrocherus capivara, Parra jaçanan.
Os temas das publicações de Alfredo da Matta se entrecruzam de uma área a outra, mas podemos classificá-los do seguinte modo, conforme o quadro abaixo:
ÍTEM TEMAS PUBLICADOS QUANTIDADE
01 Botânica, Flora Médica e Patologia Agrícola 46
02 Higiene e Saúde Pública 36
03 Dermatologia 31 04 Helmintologia 19 05 Biografias 19 06 Malária e Paludismo 13 07 Leishmaniose 13 08 Entomologia 9 09 “Lepra” 9 10 Lingüística 7
11 Exames Clínicos e terapia 5
12 Clínica Médica 4
13 Doenças Veneras 4
14 Geografia Médica 3
Total 218