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BİRİNCİ BÖLÜM DENETİM VE İÇ DENETİM

1.2.5. İç Denetim Türleri

Tendo em conta os efeitos que uma obra pode causar no leitor, dar a conhecer a cultura e estimular a interculturalidade pode ser realizado com base em modelos de leitura e, ou, de análise e interpretação literária que, mais do que assentes na leitura e reconhecimento dos recursos estilísticos ou linguísticos, podem considerar a análise da dimensão histórica e antropológica que as obras literárias moçambicanas contêm, integrando os diferentes sentidos que a comunidade recetora moçambicana lhes possa conferir. Além disso, considerando que o ensino da literatura assenta sobre as tradições que a Escola pretende preservar, esta perspetiva de análise pode ser uma proposta que permita estimular para a interculturalidade, pois essa instituição, de alguma forma, coloca a obra literária em diálogo com a sua sociedade recetora, com o intuito de estimular o imaginário dos alunos; neste caso, também educando para o reconhecimento da inexistência de subalternidade entre culturas. Até porque, tal como afirma Souza (2008:168) a Escola é fundamental na disseminação de valores e crenças da realidade social, uma vez que nesse contexto existe uma reciprocidade entre a palavra e o contexto social, dado que a palavra é naturalmente composta por signos que permitem a compreensão e a interpretação da vida.

Tendo constatado limitações no que concerne à representação das culturas das diferentes nações cultuaris moçambicanas, no corpus de textos obrigatório para os 11º e

173 12º anos, propusémos mais autores e textos, de modo a integrar os grupos étnicos swahili, yao e marave, que verificámos não se encontrarem integrados nos em vigor. Além disso, uma vez que referimos que um número reduzido de excertos que integram esse corpus literário continha alguns exemplos quase impercetíveis, como o caso das representações culturais dos grupos bitonga e makonde, nesta proposta indicamos outros textos que possam contribuir para o trabalho já iniciado.

A necessidade de tal acréscimo prende-se ainda com o facto de termos constatado existir alguma opacidade na abordagem dos grupos étnicos em contexto escolar, o que, a julgar pelos questionários aplicados aos estudantes dos 11º e 12º anos do ESG, pode agudizar a valorização de uns grupos relativamente a outros.

A opacidade também advém do facto de, durante a guerra colonial e anos anteriores ao processo democrático, ter-se construído uma identidade nacional, centrada na homogeneidade cultural, assumindo-se que seria o ideal a seguir e, nesse contexto, a diversidade cultural não foi discutida, sendo considerada tabu. Foi imposta aos moçambicanos a ideia de que tinham a mesma identidade e, por isso, não havia razões para divisão social ou cultural de qualquer índole. No entanto, com o advento da democracia, a questão da identidade étnica foi retomada, por se ter verificado que algumas culturas eram consideradas dominantes. Considerando esses fatores, esta investigação surgiu orientada pela ideia de que o processo educativo pode contribuir para melhorar a compreensão da importância de se viver com a diferença, através do cânone e do corpus literário. Esse cânone e corpus literários poderiam acompanhar o discurso pedagógico existente no âmbito da promoção da interculturalidade ou da Educação intercultural. Até porque, tal como verificámos através dos documentos analisados nesta pesquisa, há um desfasamento entre o discurso sobre a inclusão e a prática.

Outra questão que merece ser apresentada, por ter contribuído para uma abordagem opaca dos grupos étnicos, reside no facto de que o traçado que demarca o país a que se designou de Moçambique congrega dentro de si várias nações representadas por diferentes grupos étnicos, que foram consideradas uma única nação, como resultado do processo histórico da ocupação de África, na era colonial. Foi nesse contexto que as micro-sociedades moçambicanas foram impelidas a constituírem a mesma dinâmica política, impondo-se nelas a mesma dinâmica cultural, o que mais uma vez abafou a discussão sobre as diferenças culturais.

174 Assim, o estado da arte e a análise documental desta pesquisa, permitiram-nos verificar que a unidade nacional pode centrar-se na preservação da integridade das pessoas reunidas dentro desse espaço geográfico, podendo realizar-se projetos comuns para o país, independentemente do grupo étnico de cada um e sem que, com isso, seja necessário unificar-se a cultura. Nesse sentido, para estimular o imaginário dos alunos para a interculturalidade, sugerimos a seleção do cânone e corpus literário multicultural que, tal como já afirmámos, retoma parte do que os 11º e 12 anos do ESG tem estado a utilizar, destacando a negrito o grupo étnico referente aos dados novos, que correspondem à atualização que sugerimos.

Além do mais, as representações culturais de cada grupo étnico mencionado na tabela abaixo foram validados por competentes nativos de cada grupo.

Tabela 17 – Outras Configurações do Cânone Literário - interação, reciprocidade e inclusividade: proposta de cânone multicultural

Cânone Literário

Representações culturais de grupo étnico (Símbolos, valores, atitudes, costumes, hábitos ou modus operandi

rituais) Grupo(s) étnicos sugerido(s) Autor Título Leite Vasconcelos

“As  Mortes  de   Lucas  Mateus”   (cenas I a VI)

Lobolo Tsonga, nguni, bitonga,

chope

Aurélio Furdela

“Gatsi  Lucere” Zimbawe, monomotapa, mambo, mocaranga, matusianhe

Shona

José Craveirinha

“  Sia-Vuma” Xicatauana, missangas, xugubo, lovolo (lobolo), tintlholos, nhangamagaízas, marrabenta, tingomas Virgem maconde; Timbilas Xipendanas Tsonga Makonde Chope Tsonga Sant´Ana Afonso

“  Ser  Mulher” Lobolo Tsonga, bitonga, chope,

nguni Paulina

Chiziane

Niketche (excerto) Dança niketche

Poliandria Lobolo

Macua-lomwe e complexo zambeze

Macua-lomwe

Tsonga, nguni, bitonga, chope

Noémia de Sousa

“Se  me  quiseres  

Conhecer” Pau-preto makonde Machanganas Muchopes

Makonde Tsonga Chope

175 Sérgio Vieira “Poema  para   Eurídice  Negra” Marimbas Chope Ungulani ba Ka Khosa

Orgia dos Loucos Canhu, Luandle, kufeni, Nyeleti, kululeko, tinlhoko, xicadju

Chikhulu, chilanzane, deliinda, dole Monomotapa, changamire Dombo, zimbabues

Hostes nguni, tchaka, os nguni

Tsonga Chope Shona Nguni Ungulani ba Ka Khosa

Ualalapi Interdição de consumir peixe, Muzila, Mawewe, Mudungazi/Ngungunhane, Ualalapi, mhondzo;

Pombe, doro, terra dos mundaus, swikiro;

Chipalapala, povo tsonga, hosi,

mhondzo, inkhosikasi, lhambelo, nkuaia, mbhangui, tinhloco, n´sope, bayethe; Machope; Pombe Nguni Shona Tsonga Chope Complexo zambeze Ungulani ba ka Khosa

Choriro (excerto) Choriro, chuanga e chicuacha, gugudas/gogodelas, achicudas Complexo zambeze Lília Momplé Os Olhos da Cobra Verde Pele aveludada

Esticar os lábios vaginais, bezuntando-os com ervas – durante a puberdade (ritos de iniciação)

Macua-lomwé

Macua-lomwé e makonde

Mia Couto Terra Sonambula Xipoco, satanhoco, xicuembo, congolote, babalazes, nhamussoro, nganga, shima,chissila, focholos, xipalapala, timaca, nkanhu, ncuácuá, xipefo “Timbilar” Mucunha, makwa Tsonga Chope Macua-lomwé ________ Júlio _________ Nónumar _______________

Lussúngo, mwani, songoma, kumánua

Swahili144 Mwani145

144

Do conjunto de livros que recenseámos, e que foram produzidos entre 2000 e 2011, não encontrámos obras literárias com representações culturais dos swahilis, povo do extremo norte da província de Cabo Delgado, com ramificações até a Somália. A tipologia proposta em Lopes (2004: 646), citando Rita- Ferreira (1976), aponta os mwanis como sendo um subgrupo dos swahilis. Entretanto, o Atlas de 1960 coloca os mwani no grupo étnico macua-lomwe. Nhapulo (2010:39) não se refere à existência dos mwanis, mas destaca a existência dos swahilis. Dado que, após uma apreciação ao conjunto de obras produzidas no período ora indicado, encontrámos obras literárias com representações culturais dos mwanis, decidimos recomendar uma dessas obras nesta proposta de cânone literário multicultural, o que não resolve o facto de não indicarmos uma obra literária com representações culturais dos swahilis, mas pode remeter o imaginário do leitor para a existência de ambos os grupos étnicos, uma vez que, de alguma forma, os mwanis partilham similaridades com os swahilis, algo que é resultado do contacto cultural entre estes dois povos. Pesquisas futuras, que coloquem um período mais amplo para a pesquisa de obras com representações culturais moçambicanas, sobre os swhahilis, poderão incluir, a obra Xigubo de José Craveirinha. Esta faz alusão a este grupo étnico, embora, não nos remeta a outros elementos que nos sugiram o conhecimento deste povo.

176 Carrilho

Graça Torres “…E  a  Raínha  

Inclinou-se…” D´litonga

146

, juás, cindona-ndona, monte yao, yao

Nyanja147

Yao Marave Graça Torres “Sitambul  em  

Noite  de  Batuque” Ce Mataka, Ce Syunguli, Nyambi, Mwembe, terra ajaua, Sitambul, Ce Bwonamali Yao Felizmina Velho Chilendela Maconde foi Riscada do Mapa

Mapiko, não se chora nos funerais, tatuagens no rosto

Maconde

Fonte: Laisse (2014) - dados decorrentes da presente pesquisa.

Para compor a tabela anterior escolhemos os textos a partir de um levantamento de obras literárias publicadas entre 2000 e 2011. A escolha foi aleatória. Esta proposta de atualização precisará, certamente, de revisões, uma vez que os grupos étnicos são entidades em constante mudança. Também é difícil atingir-se plenitude intercultural, pelo que a Escola deve encontrar outros modelos que eduquem para a interculturalidade, estimulando o agir dos alunos, a fim de se promover o exercício da cidadania e da paz.

Mesmo sendo uma proposta de cânone multicultural, ele precisa de exercícios que permitam fomentar a interculturalidade. É nesse sentido que propomos o modelo que segue.

VII.2 Proposta de Formação de Consciência Intercultural com Recurso ao