• Sonuç bulunamadı

• M20 - As vitórias e as dificuldades no combate da Aids no Brasil (24/11/1991). Duração: 7min1seg.

• M21 - As manifestações pela prevenção e combate à Aids na Europa e na África (01/12/1991). Duração: 1min57seg.

• M24 - Com o problema da Aids, chega uma nova expressão: o “sexo seguro” (19/01/1992). Duração: 10min16seg.

• M25 - O comportamento de risco para contrair a Aids, variação de parceiros

sexuais e a negligência do uso de preservativos alastram a doença (09/02/1992).

Duração: 8min23seg.

Na década de 1990, o discurso da Aids fica mais ameno, sem alarde, e sugere que a sociedade aprenda a conviver com os portadores do HIV e com a doença da melhor forma possível. Muda o perfil da doença e os heterossexuais e mulheres passam a ser os principais novos casos de Aids. Continua a cobrança de cientistas por mais ação do governo. A população passa a ser consultada sobre sua percepção em relação à Aids, como uma forma preventiva e não mais apenas os ligados diretamente com ela (como médico e pacientes). A discussão também amplia-se mundialmente, saindo do eixo EUA-Brasil. A expressão “grupo de risco” é definitivamente substituída por “comportamento de risco”. Iniciam-se matérias que se interessam em esclarecer como a população deve agir em relação à Aids, com os temas de comportamento, indicando que definitivamente a doença é problema de todos e veio para ficar.

A grande mudança se dá já na primeira matéria (M20), de 24/11/1991, com o anúncio de que uma mulher teria transmitido o vírus da Aids para um homem, neste caso o jogador de basquete dos EUA, Magic Johnson299. Mostra-se o aumento da incidência da doença entre os heterossexuais, com crescimento acelerado entre as mulheres300. Estas informações são divulgadas pouco depois do médico Luiz Melo Amorim ter informado que quem pertencer

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Mais detalhes nas páginas 17 e 23 deste capítulo.

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ao grupo de risco e estiver com alguns sintomas da doença deve fazer o teste da Aids. Pela construção do discurso ao longo da matéria fica a mensagem que, se o senso-comum indicava a relação da Aids apenas com o grupo de risco, como mencionado pelo médico, agora deve-se ficar atento para uma mudança neste quadro. Há um reforço também na existência de bissexuais, difíceis de serem estimados, entre os homens que se revelam heterossexuais, ao que o repórter conclui: “informações falsas podem estar prejudicando as estatísticas”. Há aqui um retorno à culpabilização da chegada da Aids entre os heterossexuais por meio de pessoas que preferem esconder a sua condição para os médicos e para a sociedade. O julgamento moral a todo o momento está presente, já que uma das formas de transmissão da doença é por via sexual. Em seguida Carlos Alberto de Sá, diretor do Hospital Gafrée Guinle (RJ), lembra que ninguém declara sua sexualidade. Eduardo Cortês, do Programa Nacional de Combate à Aids enfatiza que “o vírus da Aids passa por relação sexual do homem pra mulher; da mulher pro homem e do homem pra outro homem”. Com isso o programa divulga uma pesquisa301 que indica falta de informação sobre a Aids entre enfermeiras que tratam de pacientes da doença. Com isso, pretende-se mostrar que mesmo aqueles que lidam com a Aids diariamente estão desinformados, quem dirá o público em geral. Esta construção é confirmada com a divulgação de um número telefônico da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids que é colocado à disposição para tirar dúvidas da população.

Um mês depois dessa matéria ir ao ar, o Fantástico exibe outra bem no Dia Internacional da Aids (1º de dezembro – M21), fazendo um tour pelas várias manifestações que ocorreram no mundo: em Uganda, na Escócia, Inglaterra, Rússia e França. Fica a mensagem de que a doença está presente nos vários países e, portanto, preocupa a todos. Uganda, na África, no entanto, é o único país que aparece com uma imagem de enorme pobreza e desorganização. A primeira imagem mostrada é de um hospital com um paciente debruçado na cama, em um quarto sujo e abandonado, associação que ficaria cada vez mais forte em relação ao continente africano, hoje o principal afetado pela enfermidade.

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A pesquisa não é muito esclarecedora nos seus dados, entre eles estão: 35% revelam ter sofrido acidentes durante a manipulação de instrumentos hospitalares; 61% dizem não ter recebido orientação para lidar com os pacientes e 64% nunca fizeram testes de Aids.

A partir de 19/01/1992 (M24) o público começa a ser indagado sobre a Aids, não apenas mais com interesse naqueles diretamente afetados com a Aids, mas sim com o objetivo de sensibilizar a população para a prevenção. A repórter Glória Maria, hoje âncora do programa, vai às ruas perguntar sobre o que as pessoas entendem sobre “sexo seguro”, certamente um termo utilizado pelos profissionais de saúde para evitar a transmissão da doença. Logo na apresentação, a âncora Doris Giesse afirma que “muita gente está mais fiel porque não quer correr o risco de se contaminar. Mas quase ninguém sabe o que é sexo seguro”, com isso sexo seguro fica definido pelo programa como sinônimo de fidelidade. Inúmeros entrevistados por Glória Maria nas ruas definem a expressão que varia entre: abstenção de sexo, fidelidade, ou manter relações sexuais apenas com o uso de preservativo. Nesta primeira parte há a exibição de muitas imagens que indicam “sexo inseguro”, como prostitutas e travestis302 nas ruas esperando por um “programa”, dançarinas seminuas em boates e casais beijando-se. Carlos Alberto de Sá, diretor do Hospital Gafrée Guinle303 (RJ) afirma que apesar dos homossexuais e “viciados” terem mudado seu comportamento frente à Aids, a população em geral não o fez. “É preciso mudar o mais rápido possível”, alerta.

A matéria é rica no sentido que vai até o público para saber como este tem se comportado em relação à sexualidade em pleno “tempos de Aids”. Entre os entrevistados estão três atores da Rede Globo: Adriana Esteves, Miriam Pires e Maurício Mattar. A primeira com uma personagem rebelde na novela “Pedra sobre Pedra” da época, representando as jovens, a segunda uma senhora, representando as mulheres mais velhas, e o terceiro conhecido por estar sempre acompanhado de mulheres, representa as pessoas que costumam ter parceiros múltiplos. Todos definem “sexo seguro”. Em seguida, os entrevistados também tiram suas dúvidas com o médico Carlos Alberto, em um ping-pong de imagens, entre perguntas e respostas. Os questionamentos são provavelmente os mais freqüentes da época, ou seja, representavam o senso-comum, as dúvidas dos telespectadores, a saber: A mulher está imune à Aids? O vírus atravessa luva de látex? É possível contrair o vírus através da saliva?

302 A imagem do travesti aparece bem no momento em que o narrador diz a palavra “homossexual”, presente

na seguinte frase: “a doença costuma ser associada aos grupos de risco: homossexuais masculinos, viciados em drogas injetáveis e hemofílicos. Mas muitas vítimas depois, alguma coisa está mudando no comportamento das pessoas”.

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Ao final da “enquête”, Glória Maria conclui a matéria dizendo: “De tudo isso fica pelo menos uma certeza: enquanto não se encontra a cura da Aids, o sexo seguro chegou para ficar”. Termina com as mesmas imagens da abertura. O discurso, aparentemente neutro, estampa uma mensagem de retorno ao comportamento sexual moralmente aceitável, ou seja, a fidelidade.

Seguindo a linha da matéria anterior, M25, exibida um mês depois (09/02/1992), esclarece que comportamento de risco é aquele praticado por pessoas que se relacionam sexualmente com muitas pessoas e não usam camisinha. “Qualquer um pode pegar Aids se tiver um comportamento de risco, seja homem, mulher, homossexual ou não”304. Novamente com tom moralizante, a matéria focaliza prostitutas e travestis nas ruas fazendo programas com clientes, cujo perfil é descrito como sendo a maioria de homens casados. São eles que representariam agora a ameaça desestruturante da sociedade, uma vez que mexe com a base da família: o casamento. O próximo passo da reportagem é indicar que alguns travestis, portadores do HIV, cientes de sua condição optam por infectar outras pessoas com o vírus. Para sustentar esta hipótese, surge o depoimento de uma médica, Maria Inês Linhares, que trabalha com prostitutas, travestis e meninos de rua. Ela explica que alguns optam por contaminar outras pessoas porque “ninguém nunca se importou comigo, nunca ninguém ligou para mim, então, eu quero mais é contaminar todo mundo”. Com isso, conclui-se o discurso moralizante de que falamos acima. Para os que escolhem o comportamento de risco, a punição é a chance de contrair o vírus de pessoas mal intencionadas. O discurso científico é apenas utilizado para legitimar a construção moralizante da Aids.