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A. Hüküm

1. Hüküm Kavramı

Considerando que, nesta pesquisa, objetivamos focalizar os diálogos que constituem o dizer do jovem pesquisador na escrita do texto científico, procurando observar como esses diálogos participam da construção de uma voz autoral nessa escrita e como colaboram com a constituição dele como sujeito/pesquisador, e tendo em conta os pressupostos da orientação teórico-metodológica bakhtiniana, nos quais nos fundamentamos, os procedimentos de análise compreenderam, em um primeiro momento, pensar como conceber o aparelho conceitual bakhtiniano no direcionamento teórico-analítico a ser dado ao trabalho.

Tomando a noção mais ampla de dialogismo como princípio constitutivo da linguagem, o direcionamento teórico-analítico assumido se pautou na noção de compreensão

responsiva. Assim sendo, entendemos que a noção de compreensão responsiva se revela produtiva para procedermos ao estudo das vozes/palavras e das relações dialógicas que constituem o dizer do jovem pesquisador como indícios de uma voz autoral na escrita do artigo científico, e, por conseguinte, para compreendermos movimentos de inserção do jovem pesquisador nos debates de seu campo do saber e que lhe constituem como sujeito/pesquisador.

Tendo em vista que, nos estudos bakhtinianos, a compreensão responsiva é um movimento de encontro com a palavra do outro que se constrói de maneira dinâmica e interessada (BAKHTIN, 2010b) e que se dá tanto em relação ao já dito, como em relação à antecipação do dizer do outro, concebemos nossa análise procurando observar os diálogos que constituem o dizer do jovem pesquisador seguindo as duas direções mais gerais que articulam o dialogismo constitutivo da linguagem: o encontro com o outro no objeto e o encontro com o

outro na destinação.

Com relação ao encontro com o outro no objeto constitutivo de todo e qualquer tipo de enunciado, nossa análise se divide em dois momentos: um primeiro momento em que procuramos examinar procedimentos formais do discurso, focalizando formas de discurso citado e estratégias de convocação/inserção de vozes, e, um segundo momento, em que nos concentramos em focalizar os diálogos que se estabelecem entre o dizer do outro e do dizer do produtor do texto. Em ambos os casos se trata de perseguir traços enunciativos e discursivos que remetem a uma pluralidade de vozes constitutivas do dizer do jovem pesquisador.

Este nosso estudo da manifestação das relações dialógicas no dizer do jovem pesquisador focalizando o momento do encontro com o outro no objeto comporta duas dimensões por meio das quais buscamos demarcar procedimentos linguísticos que assinalam a presença da palavra alheia na construção do dizer do jovem pesquisador, bem como estratégias linguístico-enunciativas que põem em evidência como ele assume posições em relação a essa palavra:

1ª dimensão: formas de representação da palavra alheia ou mais comumente formas de citar a palavra alheia – essa dimensão comporta o exame das formas de citar a palavra alheia a partir do seu agrupamento em três eixos: da reprodução literal do dizer, da condensação do dizer e da reformulação do dizer. O nosso propósito com esse agrupamento é pensar a natureza do movimento interpretativo sobre o dizer do outro e de reacentuação desse dizer empreendido pelo jovem pesquisador, com vistas a demonstrar como ele se implica e se compromete com esse dizer ou dele se distancia de algum modo na construção do seu texto.

2ª dimensão: estratégias de convocação/inserção de vozes no texto – essa dimensão compreende um levantamento de maneiras de inserir o dizer do outro que é citado pelo jovem pesquisador em seu texto. Essa dimensão permite avaliar tanto como o jovem pesquisador assimila determinados dizeres na construção do seu texto, como também o seu grau de conhecimento da temática e de sua área do saber, objetivando evidenciar como ele constrói o seu projeto de dizer e como se situa/projeta como sujeito/pesquisador de sua área.

Assinalamos que estamos compreendendo aqui essas dimensões como expressão da posição que o jovem pesquisador ocupa na relação com os dizeres que cita, bem como da condição de principiante/iniciante que ele ocupa na esfera da produção do conhecimento, acreditando, portanto, que estas dimensões nos permitem compreender “quem fala e em que condições fala”. (BAKHTIN, 2010b, p. 192). Sendo assim, partimos da compreensão de que a construção do dizer do jovem pesquisador reflete a condição/estatuto como pesquisador que ele ocupa em sua comunidade científica.

No que diz respeito ao encontro com o outro na destinação, a análise que empreendemos se concentra no exame de marcas que permitem evidenciar que o jovem pesquisador antecipa possíveis respostas de seu interlocutor e constrói o seu dizer no diálogo com seu interlocutor. Trata-se de demonstrar algumas marcas que assinalam a presença de um outro implicado no dizer do jovem pesquisador.

Por fim, nossa análise explora a manifestação da voz autoral na construção do dizer do jovem pesquisador, tentando pensar, consequentemente, a sua constituição como sujeito/pesquisador. Primeiramente, examinamos indícios de autoria, focalizando as manifestações do diálogo entre vozes num nível mais microestrutural da construção do artigo científico; e, em segundo momento, nossa análise se centra no nível macroestrutural, explorando o todo acabado do enunciado de um exemplar de artigo científico que consideramos representativo dos movimentos de construção da voz autoral na escrita do jovem pesquisador.

Entendemos aqui a voz autoral em uma perspectiva bakhtiniana, concebendo-a como a expressão de uma experiência discursiva individual, singular do sujeito sobre o dizer e que resulta do movimento dialógico constante e contínuo de interação com outras vozes. Como a voz autoral assim entendida implica considerar que a autoria não se encontra apenas na maneira como o sujeito cita e se relaciona com as outras vozes, já que “o autor de uma obra só está presente no todo da obra, não se encontra em nenhum elemento destacado desse todo, e menos ainda no conteúdo separado do todo” (BAKHTIN, 2003, p. 399) e já que existem distintas maneiras de notar a presença do autor em um texto, nossa análise, no segundo

momento referido no parágrafo anterior, se concentra, portanto, no acabamento do todo do enunciado construído pelo produtor do artigo científico.

É necessário destacar ainda que, entendendo que as vozes com as quais o jovem pesquisador dialoga corroboram o projeto de dizer que se configura no gênero artigo científico, nosso estudo das vozes que constituem o dizer desse pesquisador implicou necessariamente considerar a organização macroestrutural do gênero, observando, evidentemente, as especificidades que caracterizam a escrita desse gênero no domínio das ciências humanas, e, em particular, no domínio dos estudos da linguagem, já que assumimos, com base em Ivanič (1998) e em Motta-Roth e Hendges (2010), dentre outros, que cada domínio disciplinar revela maneiras particulares de usar o mesmo gênero na comunicação científica.

Como as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) relativas à padronização de trabalhos científicos se constituem em uma importante referência no meio acadêmico brasileiro, já que costumam ser adotadas como parâmetro para orientar pesquisadores de diversas áreas do conhecimento na elaboração de artigos científicos com vistas à publicação em eventos e em periódicos, consideramos ser necessário pensar a organização macroestrutural do gênero artigo científico observando as orientações explicitadas nas normas dessa associação.

Na ABNT- NBR 6022 – que estabelece normas para apresentação dos elementos que constituem o artigo em publicação periódica científica impressa – consta que o artigo científico se compõe de elementos pré-textuais (título, e subtítulo (se houver); nome(s) do(s) autor(es); resumo na língua do texto; palavras-chave na língua do texto), elementos textuais (introdução; desenvolvimento e conclusão) e elementos pós-textuais (título, e subtítulo (se houver) em língua estrangeira; resumo em língua estrangeira; palavras-chave em língua estrangeira; nota(s) explicativa(s); referências; glossário; apêndice(s) e anexo(s)).

Para os propósitos de nosso trabalho, interessa considerarmos as seções que compõem o que essa norma concebe especificamente como elementos textuais. Diferentemente dessa norma, concebemos, porém, esses elementos como seções. Além disso, concordando que cada área e cada problema de pesquisa determina a configuração final do artigo (MOTTA-ROTH e HENDGES, 2010), desdobramos o elemento textual desenvolvimento, como concebido pela ABNT- NBR 6022, em três seções: fundamentação teórica, metodologia e análise e

discussão dos resultados. Essa proposta de dividir a organização macroestrutural do elemento

científico como assumida por Motta-Roth e Hendges (2010) e assim concebida: introdução,

revisão de literatura, metodologia, análise e discussão dos resultados e conclusão.

Desse modo, assumimos, em nossa análise, a organização macroestrutural do artigo científico composta das seguintes seções: introdução, fundamentação teórica, metodologia,

análise dos dados e conclusão, por entendermos que essa configuração reflete mais fielmente

o modo como se organizam macroestruturalmente os artigos da área, e, em particular, aqueles que compõem o corpus de nossa pesquisa. Dados os propósitos de nosso trabalho, não consideramos, para fins de análise, o resumo (em língua portuguesa) que consta antes da seção de introdução de cada artigo. Mesmo cientes de que o resumo (ou abstract, em outros casos) seja um elemento constitutivo do artigo científico, nossa análise não contempla (exceto no tópico 6.2) esse elemento, porque compreendemos que o aspecto da referência a autores que nele se manifesta parece-nos pouco produtivo quando temos em conta os objetivos de nosso trabalho.

Com tais direcionamentos em mente, partimos para a leitura e exame dos 10 textos do

corpus, realizando um movimento que segue do corpus à teoria e desta retornando aquele.

Esse procedimento abriu perspectivas para, por um lado, tomarmos certas categorias que recobrem a abordagem do fenômeno do discurso citado/relatado/formas de representação do discurso outro/formas de referência ao discurso do outro presentes nos estudos bakhtinianos, de Authier-Revuz (1998, 2004, 2008, 2011a), de Maingueneau (1997, 2008, 2011), de Boch e Grossman (2002), de Boch (2013), entre outros, como ponto de partida de nossa análise; e, por outro lado, explorarmos outros aspectos dos diálogos que caracterizam o dizer do jovem pesquisador que o contato (leitura e análise) com o corpus foi revelando à medida que íamos nos familiarizando mais com este.

Explicitados esses direcionamentos, tratamos, agora, de apontar o percurso analítico- interpretativo de que resulta este trabalho de pesquisa. Tal percurso compreendeu, pois, os seguintes procedimentos:

1) Após uma leitura exploratória inicial para conhecer cada um dos textos do corpus no que concerne ao conteúdo e organização textual, procedemos à realização de leitura e releitura do material, com vistas a identificar e destacar enunciados que, no texto jovem do pesquisador, pudessem ser interpretados como manifestações da presença da palavra alheia;

2) Sistematização e agrupamento dessas manifestações em categorias analíticas; 3) Descrição de categorias de análise correspondentes a essas manifestações;

4) Seleção de fragmentos/excertos dos textos do corpus para ilustrar as categorias de análise elaboradas;

5) Realização de análise qualitativa do corpus, focalizando a descrição e interpretação das manifestações da presença da palavra alheia identificadas nos textos.

Por fim, é necessário dizer que, no decorrer dos capítulos de análise do corpus, as categorias elaboradas são exemplificadas por excertos que considerados representativos, do ponto de vista tanto daquilo que é singular como daquilo que aponta para regularidades, dos diálogos que o jovem pesquisador trava com os dizeres do outro. Para assegurar a preservação da identidade dos autores, os artigos científicos foram codificados observando a seguinte identificação: AC01, AC02, AC03 e assim por diante, em que AC corresponde a Artigo Científico e os numerais cardinais 01, 02, 03 ... correspondem a ordem numérica, estabelecida aleatoriamente, dos textos em nosso corpus. Ao longo das análises, procuramos nos referir aos autores dos artigos como produtores, jovens pesquisadores, para evitar qualquer conflito com a designação das vozes que eles citam em seus textos, as quais são referidas como

autores, estudiosos, teóricos. Acompanhando a identificação do artigo, encontra-se a

indicação da(s) página(s) do artigo da qual foi recortado o excerto. Assim, AC05, p. 200-201 indica que o fragmento em análise se trata do artigo científico do produtor 05 e foi recortado das páginas 200 e 201 do referido artigo.

Os excertos/fragmentos que apresentamos ao longo de nossa análise aparecem destacados – numerados sequencialmente, na maioria das vezes com adentramento da página, redução do tamanho da fonte (fonte tamanho 10), espaçamento simples e em itálico –, para propiciar uma melhor visualização e facilitar a distinção entre texto e ilustrações/excertos. Com esse mesmo propósito, usamos, quando necessário, destaques como sublinhado e negrito por meio dos quais buscamos assinalar aspectos relevantes das categorias elaboradas tais como marcas de reformulação de um dizer, marcadores de introdução de um discurso citado, entre outros aspectos. Além disso, pontuamos que, nos excertos em que houver ocorrência de citação de mais de 03 linhas, procuramos observar um pequeno recuo da margem esquerda e reduzir o tamanho da fonte, como forma de tornar mais perceptível o trecho citado. Por fim, explicitamos que, ao longo das análises, demos destaque, em itálico, aos autores reportados pelos produtores dos textos e aos quais tivemos que nos referir, tendo em vista a necessidade de distinguir esses autores daqueles que fundamentam propriamente nosso trabalho de análise. O exemplo abaixo serve como ilustração de procedimentos relativos à identificação e à apresentação dos fragmentos que ilustram nossa análise.

(01)

Segundo Charaudeau, o sujeito da linguagem é um sujeito que se produz em função

discurso. Para esse autor, todo ato de linguagem corresponde a uma expectativa de significação. Portanto, todo ato de linguagem pode ser considerado como uma interação, em seu duplo processo de produção e de interpretação no discurso, sendo o produto da ação de seres psicossociais que são testemunhas, mais ou menos conscientes, das práticas sociais e das representações imaginárias da comunidade a qual pertencem. (AC05, p.200-201)

Neste exemplo, destacamos o uso do negrito como marca de introdução do discurso citado e o sublinhado como forma de assinalar o dizer do outro como estratégia de reformulação, além de identificar o artigo científico (a respectiva paginação do trecho recortado) do nosso corpus. Essas indicações sinalizam, portanto, como procederemos com as ilustrações ao longo de todo o trabalho de análise.

2 CONSTRUÇAO DO CONHECIMENTO E PRÁTICAS DE ESCRITA CIENTÍFICA NO UNIVERSO ACADÊMICO

Considerando, com base nos postulados bakhtinianos, que todo e qualquer enunciado reflete e refrata as suas condições de produção, recepção e circulação, o que implica assumir que, na análise de textos/discursos, é imprescindível articular a relação texto/contexto, procuramos, neste capítulo, discutir aspectos da produção do conhecimento no universo acadêmico, focalizando de modo especial a escrita do texto científico e centrando nossa atenção sobretudo no contexto brasileiro e, de modo mais específico e sempre que possível, remetendo um olhar mais direcionado para a grande área de Letras e Linguística na qual nos situamos e da qual recortamos o corpus da presente pesquisa.

No primeiro momento, procuramos discutir a especificidade da escrita científica na universidade, contemplando especialmente aspectos relativos às características que constituem essa escrita.

Em um segundo momento, buscamos abordar o artigo científico, procurando defini-lo e caracterizá-lo como gênero do discurso prototípico da atividade científica, concebendo-o como prática comunicativa que reflete e refrata as convenções da cultura de cada disciplina, procurando observar, seguindo esse entendimento, tanto a existência de traços mais gerais, comuns às diversas áreas do conhecimento, como de especificidades que caracterizam cada domínio em particular.

No terceiro e último momento, centramos nossa atenção sobre aquele que é um aspecto central na escrita científica e que, de acordo com a perspectiva bakhtiniana, lhe é também constitutivo, citar o dizer do outro. Nesse momento, procuramos focalizar o que as normas técnicas determinam quanto ao uso das citações, assim como reflexões de autores que concebem o fenômeno da citação como gerenciamento de vozes, considerando, pois, a possibilidade de aproveitar tais reflexões, sobretudo daquelas que discutem o discurso citado na escrita do texto científico, para aprofundar a compreensão de nosso objeto de estudo. Nesse sentido, contemplamos, de um lado, a perspectiva técnica, da normatização e prescrição empreendida por manuais de metodologia científica, e, de outro, a perspectiva enunciativo- discursiva como concebida em estudos da linguagem (exceto as abordagens do Círculo de Bakhtin, de Authier-Revuz e de Maingueneau, que são focalizadas em capítulo específico). Além disso, reportamo-nos à leitura sobre pensamento plagiário empreendida por Schneider (1990), para pensarmos a relação entre citação e plágio.

Para finalizar o capítulo, propomo-nos ainda a estabelecer relações entre o discurso sobre a citação e valores que lhes são associados na e pela cultura acadêmica e que se manifestam em discursos que emanam da/na esfera acadêmico-científica.