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HÜKÜM GEREKÇESİ I. Davanın kapsamı

GÖZALTINDA ŞİDDET

HÜKÜM GEREKÇESİ I. Davanın kapsamı

Elegemos Michel Foucault como nosso principal interlocutor para discutir as estratégias de poder7 sobre o governo da vida e da morte. Não é nossa intenção fazer uso exaustivo das complexas definições sobre poder que o autor desenvolve ao longo de suas obras, por isso nos deteremos, muito especificamente, em alguns aspectos que circunscrevem o direito de viver e de morrer em seu livro “Em defesa da Sociedade” (2002).

Em “O nascimento da medicina social” (2005), Foucault aponta, pela primeira vez, um deslocamento significativo nas estratégias de governo da vida, afirmando que o controle das sociedades sobre as pessoas não se opera simplesmente pela consciência ou pela ideologia, mas começa no corpo, com o corpo. A partir disso ele esclarece e aborda detidamente nas suas obras o conceito de biopoder, por oposição ao direito de morte que caracteriza o poder do soberano.

Segundo Foucault as noções de poder soberano e biopoder foram usadas durante séculos para legitimar uma determinada posição frente a um sujeito (pessoa) ou população. Posição esta que sempre implicava vida e morte. O autor usa o termo poder soberano para referir-se ao direito de vida e de morte, o que significa, na teoria clássica da soberania, que o soberano pode fazer morrer e deixar viver. Em suas palavras: “a vida e a morte dos súditos só se tornam direitos pelo efeito da vontade soberana” (2002, p. 286). A legitimação do poder soberano é justificada pelo direito de morte; é por poder matar que o soberano domina seus súditos e exerce direitos sobre suas vidas.

Afirmar que, na soberania política, o soberano tem o poder de vida e de morte implica dizer que ele pode tanto fazer morrer quanto deixar viver; que nada nessa relação é natural, uma

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Foucault compreende poder: “primeiro, como a multiplicidade de correlações de forças imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização; o jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte; os apoios que tais correlações de forças encontram umas nas outras, formando cadeias ou sistemas ou ao contrário, as defasagens e contradições que as isolam entre si; enfim as estratégias em que se originam e cujo esboço geral ou cristalização institucional toma corpo nos aparelhos estatais, na formulação da lei, nas hegemonias sociais” (História da Sexualidade I: a vontade de saber. 2001. 14 ed., Rio de Janeiro, Graal, p. 88- 89).

vez que é estabelecida pelo direito do soberano de governar a vida e a morte das pessoas. Não há nessa relação a escolha pela vida, e aí se pode encontrar a contradição, ou o paradoxo como chama Foucault, no exercício do poder soberano, pois, se o soberano tem o direito de vida e de morte, o desequilíbrio entre fazer morrer e deixar viver é fundamental. Ou seja, a prática do direito de vida e de morte não se exerce de maneira equilibrada; ao contrário, o soberano possui o poder sobre a vida por ter antes o direito de exercer o poder sobre a morte. É porque o soberano pode matar que ele tem o poder sobre a vida, e, assim, o exercício soberano coloca-se a partir do direito de fazer morrer ou deixar viver. É por isso que a vida ou a morte dos súditos só se tornam direitos pelo efeito da vontade soberana.

Esse tipo de direito sobre a vida e morte das pessoas, segundo Foucault, pertence à Idade Média, e é apenas no século XIX que se instala uma nova forma de exercer esse direito. Trata-se de uma transformação que constitui não exatamente em substituir, mas em completar esse velho direito soberano de fazer morrer e deixar viver, penetrando-lhe e ao mesmo tempo modificando- lhe. O novo direito que se instala inverte a lógica do fazer morrer e deixar viver do direito clássico; agora, trata-se de querer fazer viver e deixar morrer.

Para Foucault (2002), essa inversão é fruto das transformações do direito político. Ele assinala que, desde que as sociedades se organizaram em termos de contratos sociais, os súditos delegam poderes ao soberano porque querem que esse lhes proteja a vida. Na noção de contrato social, tem-se o direito da preservação da vida como um dos direitos fundamentais. O perigo e a necessidade são os motivos que justificam a existência de um soberano; é para poder viver que se institui um soberano.

As articulações entre esses diferentes direitos sobre a vida e morte, na visão de Foucault, propõem pensar como a vida ganha cada vez mais importância no campo da política. O caminho que o autor percorre não segue a Teoria Política, mas os mecanismos, as técnicas e as tecnologias de poder utilizadas num dado momento histórico. Ao trabalhar a questão do poder, Foucault não privilegia a abordagem jurídica institucional, mas procura analisar a forma com que o poder penetra nos corpos e produz subjetividades. Por esse motivo, suas investigações voltam-se fundamentalmente para as técnicas políticas e as tecnologias do “eu”. Essas técnicas são novas formas de exercer o direito sobre a vida e morte, e são construídas nos séculos XVII e XVIII.

Foucault analisou os mecanismos, as técnicas e as tecnologias de poder que intervêm diretamente no corpo das pessoas. A essa tecnologia disciplinar se soma outra que, durante o

século XVII, vai ser direcionada não ao “homem-corpo”, mas ao “homem-espécie”. Essa nova tecnologia disciplinar “tenta reger a multiplicidade dos homens na medida em que essa multiplicidade pode e deve redundar em corpos individuais que devem ser vigiados, treinados, utilizados, eventualmente punidos” (FOUCAULT, 2002, p. 289). O direito de fazer viver que caracteriza o biopoder se baseia nessas duas técnicas específicas, cujo surgimento marca a passagem de uma anatomo-política do corpo para uma biopolítica da vida. O autor deu o nome de biopolítica da espécie humana a essa nova forma política, significando que, depois de ter poder sobre a pessoa, este também é exercido sobre o grupo, a população, e diz respeito, entre outras coisas, aos controles de natalidade e mortalidade. Em síntese, essa nova tecnologia não se resume às pessoas como corpo; ela se dirige aos fenômenos mais globais, mais gerais, e vai afetar os processos relacionados à vida.

É da natalidade, da mortalidade, das incapacidades biológicas, dos efeitos do meio que se ocupa a biopolítica, e é daí que ela vai extrair seu saber e definir o campo de intervenção do seu poder. A biopolítica surge para lidar com a população; trata da população como problema político, científico, biológico e de poder. Em outras palavras, a biopolítica fornece mecanismos de providência em torno de eventos aleatórios que são inerentes a uma coletividade, a uma população de seres humanos, buscando níveis globais de equilíbrio. O biopoder constitui-se como uma espécie de poder regulamentador que intervém para fazer viver, controlando possíveis acidentes, para aumentar o tempo de vida e retardar a morte. Nesse âmbito, a morte passa a ser, cada vez mais, domínio da vida privada, particular. Foucault afirma que o surgimento da biopolítica acontece como se o poder, que antes tinha como modalidade a soberania, tivesse ficado inoperante para reger o corpo econômico e político de uma sociedade em face de uma explosão demográfica e de industrialização. Estamos diante de um poder que se incumbiu tanto do corpo quanto da vida, e no caso das discussões sobre a legalização do abortamento induzido, estamos falando do controle dos corpos das mulheres e da vida dos fetos.