B. Mükerrer Nüzûlü Kabul Etmeyenler ve Görüşleri
III. MÜKERRER NÂZİL OLDUĞU İDDİA EDİLEN ÂYET VE SÛRELER
2. Hûd 11/114
Nas correspondências isomórficas entre a escrita poética e o espaço referencial nordestino, essas marcas de subjetivação são constantemente reiteradas. O modo de ser pétreo, áspero, seco, cortante une o texto à paisagem. E note-se, desde já, que, para um poeta tão afeito à solaridade da expressão poética, não deixa de ser curiosa a quantidade de cemitérios presentes na poesia de João Cabral. Além da série sobre os cemitérios pernambucanos, inaugurada em Paisagem com Figuras e ampliada em Quaderna (com poemas sobre os cemitérios de Toritama, São Lourenço da Mata, Nossa Senhora da Luz, Floresta do Navio e Custódia), há poemas dedicados aos cemitérios alagoano e paraibano, bem como os textos “Cemitério na Cordilheira” e “Cemitérios Metropolitanos”, incluídos em Agrestes.
Na poesia de João Cabral, o próprio sertão figura como um grande cemitério – cemitério desprovido de monumento, arquitetura mais própria do vazio. E o que é um cemitério senão espaço ambíguo de memória e esquecimento, finitude e imobilização do devir, afirmação e dissimulação da morte?53 Assim é o sertão cabralino, a ponto de ser possível especular em que medida esse espaço sertanejo apresenta-se como lugar não de uma exterioridade enunciativa, mas de uma subjetivação bastante particular que, como foi dito, tem na dessubjetivação seu movimento mais próprio.
Talvez por isso, a partir do momento em que passa a problematizar a referencialidade da palavra poética, a poesia cabralina passa, com mais e mais intensidade, a fazer do humor negro e da ironia dois de seus traços distintivos54. Daí a possibilidade de se conceber a morte
53“De facto, se ontologicamente a morte remete para o não-ser”, argumenta Fernando Catroga (2010, p. 167), “é na memória dos vivos, enquanto imagens suscitadas a partir de traços com referente, que os mortos poderão ter existência (mnésica). Ganha desta maneira significado que a necrópole ocidental se tenha estruturado como uma textura de signos e de símbolos dissimuladores do sem-sentido da morte e simuladores da somatização do cadáver, e que o cemitério tenha sido desenhado como uma espécie de campo simbólico que, se convida à anamnesis, encobre também o que se pretende esquecer e recusar”. É nesse sentido que “o cemitério”, prossegue o autor, “revela esteticamente o próprio inconsciente da sociedade através de uma trama simbólica, estruturada e organizada à volta de certos temas e mitos unificados por esta tarefa: reforçar, depois do caos, o cosmos dos vivos e imobilizar o devir, mesmo que se tenha de recorrer ao contraste (ambíguo) da imortalidade com o curso irreversível do tempo e da vida” (CATROGA, 2010, p. 170).
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À parte as diferenças conceituais entre humor negro e ironia, considerem-se as possibilidades de ligação de ambos com a morte e o esvaziamento do sentido preestabelecido. Se, sob uma perspectiva ampla, ironia e humor em muito se assemelham, as tentativas teóricas de uma conceituação mais precisa do que cada noção designa apontam para importantes distinções. Dessa forma, ainda que uma definição definitiva nesse sentido seja, sob muitos aspectos, algo inviável, pode-se pensar a ironia como “uma estrutura comunicativa”, que prevê o agenciamento da linguagem por parte de um enunciador-ironista, bem como o reconhecimento intersubjetivo dos efeitos de sentido em jogo na interação (DUARTE, 2006, p. 18-20). Por sua vez, o humor negro – termo de matizes freudianos cunhado por André Breton, em sua Anthologie de l’humour noir (1940) e que talvez indique um dos mais estreitos liames entre a poética cabralina e a estética surrealista – caracteriza-se justo por sua negatividade radical e aversão ao sentimentalismo que, usualmente, tem na morte sua máxima expressão. Como
como marca do sujeito cabralino. Veja-se, nesse sentido, o que se dá em dois dos poemas mais mordazes de A educação pela pedra: “O urubu mobilizado” e “Duas das festas da morte” 55
.
No primeiro caso, a ironia tem por alvo o momento extremo da morte. O adjetivo no título do poema destaca, desde já, a importância cívica (e política) do urubu durante a seca:
Durante as secas do Sertão, o urubu, de urubu livre, passa a funcionário. O urubu não retira, pois prevendo cedo que lhe mobilizarão a técnica e o tacto, cala os serviços prestados e diplomas, que o enquadrariam num melhor salário, e vai acolitar os empreiteiros da seca, veterano, mas ainda com zelos de novato: aviando com eutanásia o morto incerto
ele, que no civil quer o morto claro (2008, p. 313).
Mais irônico do que o vocabulário burocrático, talvez seja o zelo do urubu em “não retirar” para não ter sua técnica imitada pelos retirantes. E ainda mais irônica é sua abdicação por uma vida melhor, sacrificando-se, caridoso e voluntário, para socorrer os “empreiteiros da seca”, “aviando com eutanásia o morto incerto”, ele que, oficialmente, só se alimenta com o que já morreu. Na estrofe seguinte, essa mórbida caridade se confunde satiricamente com a de um clérigo:
Embora mobilizado, nesse urubu em ação reponta logo o perfeito profissional. No ar compenetrado, curvo e conselheiro, no todo de guarda-chuva, na unção clerical, com que age, embora em posto subalterno:
ele, um convicto profissional liberal (2008, p. 313).
diz Breton (1966, p. 15-16): “l'humour noir est borné par trop de choses, telles que la bêtise, l'ironie sceptique,
la plaisanterie sans gravité. (l'énumération serait longue), mais il est par excellence l'ennemi mortel de la sentimentalité à l'air perpétuellement aux abois, la sentimentalité toujours sur fond bleu, et d'une certaine fantaisie à court terme, qui se donne trop souvent pour la poésie, persiste bien vainement à vouloir soumettre l'esprit à ses artifices caducs, et n'en a sans doute plus pour longtemps à dresser sur le soleil, parmi les autres graines de pavot, sa tête de grue couronnée”.
55 Desde já, é interessante notar que, com sua ironia corrosiva, Cabral se (re)aproxima de Baudelaire justamente no aspecto negligenciado pela tese do imanentiso literário: “Ora, essa ironia, desconhecida pela intriga histórico- genética, era magistral em Baudelaire, que dela propunha uma definição em Da essência do Riso, como o resultado [...] de uma ‘dualidade permanente, o poder ser ao mesmo tempo nós mesmos e um outro’. Mas a narrativa ortodoxa privilegia o lado trágico ou mallarmeano da dobra crítica, em detrimento da ironia e da melancolia baudelairianas; ela escolhe, em Baudelaire, os traços adequados para fazer dele um ponto de partida; ela privilegia um certo Baudelaire, em detrimento do outro. A dualidade é, porém, essencial na verdadeira modernidade baudelairiana” (COMPAGNON, 1996, p. 48).
Em “Duas das festas da morte”, a ironia não é menos incisiva. Na primeira estrofe, o poema tematiza a morte “com muita pompa, protocolo, e ainda mais cenografia”, como é dito na conversa entre os dois coveiros de “Morte e vida severina”:
Recepções de cerimônia que dá a morte: o morto, vestido para um ato inaugural; e ambiguamente: com a roupa do orador e a da estátua que se vai inaugurar. No caixão, meio caixão meio pedestal, o morto mais se inaugura do que morre; e duplamente: ora sua própria estátua
ora seu próprio vivo, em dia de posse (2008, p. 310).
A essa oratória cerimoniosa da morte, que consagra solene e ironicamente o cadáver, opõe-se de maneira drástica a “festa”, tematizada na segunda estrofe:
Piqueniques infantis que dá a morte: os enterros de criança no Nordeste: reservados a menores de treze anos, impróprios a adultos (nem o seguem). Festa meio excursão meio piquenique ao ar livre, boa para dia sem classe; nela, as crianças brincam de boneca,
e aliás, com uma boneca de verdade (2008, p. 310).
Irônica é a relação de causa e efeito (não necessariamente nessa ordem) entre os dois primeiros versos. Do mesmo modo, irônico é o fato de o leitor não poder decidir se o enterro de uma criança é motivo de festa pela vida que se abrevia ou se pelo “dia sem classe”, de “excursão” e “piquenique ao ar livre”, em que as crianças que seguem o enterro podem, afinal, brincar “com uma boneca de verdade”. E não menos irônica é a oposição propriamente dita em relação à oratória da estrofe anterior: etimologicamente, “infância” significa “incapacidade de falar”.