5. SONUÇLAR VE TARTI ùMA
5.5 Genel Sonuçlar
Revisitar o passado, com olhar dialético, desconstrói certezas conceituais e reconstrói práticas de liberdade, que incorporam as multiplicidades de sujeitos na dimensão de classe, raça, gênero e, também, embora em outro patamar, geração, para pensar as práticas políticas de hoje (Oliveira, 1996: 8). Este trabalho resgata diversas formas de resistência usadas pelas mulheres na ditadura militar, seja ao apoiar seus entes queridos, seja participando diretamente das estruturas partidárias, e da luta armada, seja na solidão da tortura, seja na solidão do exílio.
É interessante pontuar que a participação feminina na resistência ao regime militar se desenvolve num cenário muito particular para as mulheres em todo o mundo e no Brasil. É precisamente na década de 1960 que o movimento feminista se articula no bojo da onda revolucionária que percorre a Europa, América Latina e EUA, com os grandes movimentos estudantis e a contestação dos costumes. Mesmo com o clima de ditadura, repressão e morte no Brasil, o movimento feminista surgiu e se desenvolveu na virada para a década de 1970.
Mas, um aspecto fundamental da realidade brasileira, anterior aos anos 70, como alerta PINTO (1996: 43), é a presença dos movimentos de mulheres nas classes médias e populares, que continuou a existir, paralelamente ao desenvolvimento do feminismo. É verdade que não se podem tratar os movimentos de mulheres como algo totalmente
dissociado do movimento feminista; no entanto, é preciso levar em conta que foram movimentos organizados, não para pôr em xeque a condição de opressão da mulher, como no caso do feminismo, mas para, a partir da própria condição de dona-de-casa, esposa e mãe, intervir no mundo público. Em outras palavras, como destaca Pinto,
“O feminismo brasileiro nasceu e se desenvolveu em um dificílimo paradoxo: ao mesmo tempo em que teve de administrar as tensões entre uma perspectiva autonomista e sua profunda ligação com a luta contra a ditadura militar no Brasil, foi visto pelos integrantes desta mesma luta como um sério desvio pequeno- burguês” (PINTO, 1996: 45).
Este pano de fundo da resistência feminina à ditadura fornece algumas indicações sobre as contradições que a as mulheres enfrentaram em sua militância, no interior das organizações e em todos os aspectos de sua participação política.
A bibliografia teórica a respeito da participação feminina em conflitos é escassa. Além de Villanueva58, encontrei apenas relatos e descrições de e sobre mulheres na Nicarágua, República Dominicana e Bolívia.
No Brasil, encontrei livros como os de Luis Manfredini (‘As moças de Minas’), de Derlei de Luca (‘No corpo e na alma’), com depoimentos e relatos tocantes, que se destacaram pela denúncia da tortura física e psicológica das mulheres e ressaltaram a coragem e a dignidade das vítimas do regime militar.
Faço um parágrafo à parte para me referir ao livro de Luis Maklouf de Carvalho, (‘Mulheres que foram à luta armada’). Trata-se de um livro-reportagem sobre as mulheres que participaram da guerrilha urbana. Mas o autor, embora tenha recolhido depoimentos importantes, muitos deles inéditos, preferiu construir o livro em torno de
58 VILLANUEVA, Concepción Fernandez. Mulheres na Guerra e na Paz – reflexão e crítica dos
estereótipos de gênero. Presença da Mulher (35) 23-32. São Paulo: Anita, novembro-dezembro de 1999 e janeiro de 2000.
um episódio da guerrilha urbana, um acidente em que uma militante foi morta em conseqüência de um tiro desferido acidentalmente por outra. O livro é construído como reportagem policial em torno do episódio. Neste sentido, perde muito de sua força de denúncia da tortura e pouco explora as formas de resistência encontradas pelas mulheres. Desperdiça um grande material de pesquisa e perde-se na trama policialesca que ele próprio criou. Além disso, muitas entrevistadas vieram a público, pela imprensa, reclamar de distorções na transcrição das entrevistas, inclusive da publicação de informações fornecidas em off.
Também encontrei trabalhos, como o de Colling (‘A Resistência da mulher à ditadura militar’) e o de Ferreira (‘Mulheres, militância e memória’), que buscam estudar a construção do sujeito ‘mulher subversiva’, durante a ditadura, ou apresentam as experiências de vida dessas lutadoras a partir de sua entrada na militância e na clandestinidade, até os dias de hoje.59Sem dúvida, trata-se de contribuições importantes, no sentido de imprimir maior visibilidade às mulheres, como sujeitos ativos da resistência à ditadura, pelo estudo de suas trajetórias.
Minha preocupação com este trabalho foi, além de reforçar a importância do processo de tornar mais visível o papel desempenhado por mulheres, resgatar essa história, partindo de uma postura filosófica e ética, isto é, do ângulo dos oprimidos, em particular do gênero feminino.
Apoiando-me em Wright Mills60, busquei “usar a informação e procurar
desenvolver a razão”, a fim de captar, com lucidez, a real dimensão e as numerosas e surpreendentes formas de participação feminina na resistência à ditadura militar
59 Veja, na bibliografia, Colling, Ferreira, Carvalho, Manfredini, dentre outros. 60 WRIGHT MILLS, C. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1968.
brasileira.61 A imaginação sociológica, segundo seu autor, capacita seu possuidor a
compreender o cenário histórico da vida pública de numerosos indivíduos.O primeiro fruto dessa imaginação, ainda segundo Wright Mills, é a idéia de que o indivíduo só pode compreender sua experiência e avaliar seu próprio destino localizando-se dentro de sua época histórica:
“A imaginação sociológica nos permite compreender a história e a biografia e as relações entre ambas, dentro da sociedade. (...) Essa imaginação é a capacidade de passar de uma perspectiva a outra – da política para a psicológica; do exame de uma única família para a análise comparativa dos orçamentos nacionais do mundo; da escola teológica para a estrutura militar; de consideração de uma indústria petrolífera para estudos da poesia contemporânea.” (WRIGHT MILLS, 1969: 12- 13.)
Este caminho, evidentemente, envolve riscos. É mais fácil seguir caminhos já trilhados, apoiar-se em autores consagrados. Contudo, buscamos apoio na imaginação sociológica, no intuito de formular novas hipóteses e esboçar novas trilhas.
Pelos relatos de vida, consegui descortinar neste trabalho algumas formas mais específicas de resistência feminina. Seguramente, haverá muitas outras à espera de serem descobertas e analisadas. As que consegui apreender foram as seguintes: 1 – as mães, esposas, irmãs, tias e avós que entraram na luta pelos caminhos do coração, apoiando seus familiares e estendendo esse apoio a outros lutadores, trabalhando no apoio à resistência; 2 – as militantes, que decidiram participar nos partidos e nas entidades, e que introduziram, a duras penas, o feminino e a ternura na estrutura das organizações clandestinas; 3 – as exiladas, obrigadas a deixar o país para garantir sua sobrevivência e sua sanidade física e mental – algumas foram acompanhando seus companheiros, outras migraram, porque perseguidas e ameaçadas de morte pelo regime
militar; 4 – as presas e torturadas - aquelas que tiveram seu corpo transformado em campo de batalha, porque a repressão julgava que assim aniquilaria rapidamente aquelas figuras aparentemente frágeis; 5 – as guerrilheiras, urbanas e rurais, que ousaram pegar em armas e desafiar a ira dos poderosos.
Freqüentemente, na trama concreta da vida, estas ‘funções’ estiveram entrelaçadas. A mãe de um militante transformou-se em presa política, depois, em exilada. A militante passou pelos cárceres e pela tortura.
Ainda assim, procuro desvendar quais foram as formas de participação encontradas pela população feminina para resistir ao regime de exceção. Como diz Oliveira, “pensar as práticas políticas do passado assume um significado de liberdade, quando inserimos nosso pensamento no exercício das construções cotidianas das múltiplas relações nas quais estão envolvidos homens e mulheres. Assim é que o passado vivido deixa de ser passado, para se tornar parte integrante de cada um de nós” (OLIVEIRA, 1996: 8-9).
Vale destacar que, ao ingressarem na luta, sobretudo nas estruturas partidárias (nas quais a possibilidade de resistência armada estava exposta) e, em particular, ao participarem da guerrilha urbana ou rural, as mulheres contrariavam a tese da conexão, aparentemente natural, entre sua capacidade de dar à luz e sua responsabilidade pelo cuidado dos filhos, e a manutenção da vida. Como afirma Chodorow62, “a função materna das mulheres tem profundos efeitos nas suas vidas, na ideologia sobre elas, na reprodução da masculinidade e desigualdades entre os sexos e na reprodução de determinadas formas de força de trabalho. As mulheres como mães são agentes decisivos na esfera da reprodução social” (CHODOROW, 1990: 28).
62 CHODOROW, Nancy. Psicanálise da maternidade. Uma crítica a Freud a partir da mulher.
As pistas para o enfrentamento, diante do qual se viram colocadas, entre seu aparente destino de gênero (dar a vida) e sua militância (que implicava a possibilidade de tirar a vida de alguém) são apontadas, também, por Chodorow, ao afirmar:
“A maternagem das mulheres perpetua-se através de mecanismos psicológicos e sociais estruturalmente induzidos. Não é um produto imediato da fisiologia. As mulheres vêm a maternar, porque foram maternadas por mulheres. Por outro lado, porque os homens foram maternados por mulheres, suas capacidades de cuidar de crianças foram reduzidas.” (CHODOROW, 1990: 364; o realce é meu.)
Em outras palavras, essas mulheres enfrentaram e superaram a contradição entre seu ‘destino’ biológico de ‘dar’ a vida e a possibilidade ou realidade de ‘tirar’ a vida, em nome da gestação e parto de um projeto social de democracia.