EK 3.2 Örneklerin Lezzet Profili ùekilleri
5.36 Örneklerin lezzet profili da÷ılımları
As mulheres foram incorporadas às organizações de esquerda, tanto no campo como nas cidades, embora o número de militantes do sexo masculino fosse muito maior. Não existe um levantamento completo do número real de militantes dessas organizações armadas. Pesquisa de Marcelo Ridenti90 mostra que, a partir dos processos judiciais, no total de 4.121 processados das esquerdas, 3.463 eram homens (84%). Esses dados não fornecem um retrato da participação feminina, sobretudo levando-se em conta que elas trabalharam muito nos bastidores. Mas evidencia que organizações relutaram em envolvê-las de forma direta em ações de ponta, sobretudo armadas. Na grande maioria
90 RIDENTI, Marcelo. O fantasma da revolução brasileira. São Paulo: Editora Unesp,1993. p.
dos grupos armados urbanos, o número de mulheres denunciadas ficou entre 15% e 20% do total.
A falta de compreensão das enormes mudanças ocorridas nas relações de gênero foi importante. O relacionamento distante dessas organizações com os vários segmentos sociais, em virtude do constante esquema repressivo, contribuiu para que tivessem dificuldades de enxergar a ampliação das atividades femininas. De fato, as mudanças sociais eram pouco percebidas por essas organizações que, na clandestinidade forçada pela repressão, ainda defendiam idéias conservadoras a respeito das mulheres e também dos comportamentos sociais. Ao distanciarem-se da família e das formas de relacionamento entre as pessoas, particularmente entre homens e mulheres, essas organizações desconsideraram a aquisição acelerada de novos hábitos e costumes, resultado das transformações econômicas numa época em que a mulher devia ter uma nova atuação na chefia da família e na competição no mercado de trabalho.
A inclusão de mulheres na luta armada foi resultado da exigência das próprias mulheres que, já naquela ocasião, travavam intensos debates sobre o seu ingresso nessas organizações de esquerda.
Ao participar da luta armada de 1969 até 1974, as mulheres puderam sentir as discriminações por parte de seus próprios companheiros, tanto pela superproteção, como pela subestimação de sua capacidade física e intelectual. Nas estratégias militares, coube às mulheres executar as tarefas de observação, levantamento e informações e preparação do apoio logístico. O comando, porém, ficou a cargo dos homens. Só excepcionalmente ele coube a uma ou outra mulher.
Guiomar Lopes fala sobre a dificuldade da participação de mulheres na linha de frente das ações armadas.
“Era um grande debate se as mulheres participavam ou não das ações armadas. Mas o que era mais triste é que a coisa não era explicitada, ficava embaixo, isso era camuflado, nunca os homens assumiram essa discussão.
Quando caiu a direção do Grupo de Trabalho Armado, eu assumi o controle e fiquei coordenando o GTA. De início, alguns companheiros não se sentiram à vontade de participar de um comando armado dirigido por uma mulher...
Eu discutia muito com eles, quando ocorriam essas situações... eles recuavam, eles diziam que não era isso... Mas essa questão da mulher é complicada, eu discuti até com o ‘Velho’.91 Ele era uma figura curiosa, ele achava que a mulher tinha que
estar protegida. Ele vivia em dois mundos, um mundo em que se tinha que proteger a mulher, e outro, em que a mulher tinha que estar em pé de igualdade com o homem.”
As mulheres não precisavam se vestir como homens para ir à guerra, como fez a baiana Maria Quitéria, na guerra da Independência. Mas, em geral, os comandantes esperavam que as guerrilheiras se comportassem como homens.
Algumas guerrilheiras, por outro lado, tentaram se aproximar do modelo masculino. Acreditavam que, dessa forma, seu desempenho seria melhor nas ações militares. Fala Guiomar:
“A gente discutia, mas eles davam um jeito e acabavam se retirando da discussão. Eu cheguei lá (na direção), porque eu fazia muito esforço para me igualar a eles... Eu tinha muita consciência dessa desigualdade (entre homens e mulheres, na estrutura da organização), isso sempre me marcou muito. As mulheres... talvez seja essa a grande questão, essa diferença – elas acabaram vindo pouco para as ações de frente.”
Em alguns casos raros, as mulheres disseram não sofrer discriminações. Foi o caso, por exemplo, de Dulce Maia. Provavelmente, porque ela, proveniente de família com dinheiro e pertencente a uma elite intelectual, exercia um verdadeiro fascínio sobre seus companheiros de VPR, como ela relata:
“Eu fui uma mulher muito privilegiada. Tive carta (de motorista) aos 17 anos, fui uma das primeiras a usar minissaia. Isso, hoje, é uma bobagem, mas, na época, era avanço. Eu fazia tudo tão naturalmente, que não me dava conta. Fui muito
91 Joaquim Câmara Ferreira, conhecido como ‘O Velho’, era dirigente da Aliança Libertadora
mimada pelos companheiros. Eu era muito jovem, eu era uma mulher que vinha de outro meio, eu era uma pessoa de proa do movimento cultural dos anos 1960, fui do teatro Oficina, fui muita amiga da Lina Bo Bardi. Ela abriu a casa dela para reuniões com Marighela e Lamarca, nós fazíamos reuniões no Museu de Arte de SP. Fiz muita reunião no teatro Maria Dela Costa , até hoje é muito minha amiga.
Devido a tudo isso, os militantes com quem eu estava militando, na VPR, ficavam muito impressionados, porque eu agia muito, conseguia coisas. Nesse sentido, não teve dificuldade de ser mulher, eles me respeitavam muito.”.
Mas houve aquelas que aprenderam que deviam afirmar a diferença e buscar novas formas de vida e de fazer política. A experiência guerrilheira do Araguaia, dirigida pelo PCdoB, parece apontado novos rumos, nesse sentido. Quantitativamente, a proporção feminina ficou dentro da média das demais organizações que realizaram ações armadas: dos 69 guerrilheiros contabilizados, 12 eram mulheres (17%). Infelizmente, quase não houve sobreviventes. Mas, a ex-guerrilheira Criméia faz um relato muito interessante sobre as mudanças operadas nos corações e mentes dos guerrilheiros, homens e mulheres.
Fala Criméia:
“No Araguaia, as mulheres se destacaram. Digo que estiveram quase em pé de igualdade com os homens, porque devido à tradição e à educação eles estavam mais preparados para o trabalho pesado. As mulheres enfrentaram o fato de não terem experiência anterior. A vida ali exigia muito trabalho físico.
As mulheres aprenderam a participar de todos os trabalhos: derrubada, plantio, transporte de carga em lombo de burro, em canoa, na caça e na sobrevivência na mata. No início, o machado pesava muito na mão. Mas, aprendemos. E também nos tornamos hábeis no uso do facão, instrumento que lá serve para tudo. Aprendemos a usar a espingarda, caçávamos e pescávamos.”
Segundo a ex-guerrilheira, a vida na região da guerrilha, antes e depois de declarada a guerra, contribuiu para alterar os comportamentos e as concepções no que dizia respeito à divisão sexual de tarefas, seja no locus, por assim dizer, doméstico, seja nas tarefas de preparação da luta. Fala Criméia:
“As atividades domésticas, embora mais pesadas, eram diferentes. Boa parte de nossa vida era nômade, ainda mais quando começou a guerra. As tarefas todas
eram assumidas coletivamente em rodízio, por homens e mulheres, desde cozinhar, rachar lenha, quebrar castanha, pilar o arroz. A produção de alimentos era uma tarefa coletiva E não existia nenhuma tarefa (exclusivamente) feminina. Cada um lavava e costurava sua roupa. Isso ocorria mesmo entre os casais.
Na cabeça de alguns companheiros, existia subjetivamente a atitude de diferença entre homem e mulher. Mas, a prática das mulheres lá não permitiu que isso se concretizasse em divisão de tarefas ‘“masculinas’ e ‘femininas’. De certo modo, a situação favorecia isso, porque lá iam aprender tanto o trabalho doméstico como a viver na mata, combater. Houve mudanças no estilo de vida de todos. No início, alguns homens diziam: ‘não sei cozinhar´. Então, dava-se atenção maior a eles para aprenderem o que não sabiam fazer. E iam cozinhar.
Muitas mulheres se destacaram. Como Sônia, pela resistência física incomum, fazendo derrubada com o machado. Como Helenira, destacada combatente, como Dina, que se destacou militarmente e tinha grande pontaria.”
Isso não significa que todos os entraves à plena participação feminina, sobretudo nos postos de direção, tivessem sido superados. Continua Criméia:
“No entanto, pelo fato de ser mulher, sofri algumas discriminações. Na maioria das vezes, não eram explícitas. Eram discriminações que se manifestavam pela superproteção e, outras vezes, pela subestimação. Como fui a primeira mulher jovem a chegar à região, os companheiros diziam: depende de seu desempenho a vinda de outras companheiras. Obviamente, isso não foi colocado ao primeiro companheiro jovem que lá chegou!”
A maternidade ainda era vista como um entrave para a participação na guerrilha. Evidentemente, ter filhos num front armado oferece inúmeras dificuldades objetivas. E não houve espaço para a experiência, como destaca ainda Criméia:
“A experiência também não foi completa. Não havia, por exemplo, nenhum casal com filho. Naquelas condições, certamente, a maternidade iria complicar as coisas para as mulheres.”
Criméia foi solteira para o Araguaia. Lá conheceu André Grabois, filhos de Maurício Grabois, dirigente do PCdoB, e casaram-se.
“Foi um casamento consensual, diz ela. Você me pergunta se houve namoro. Direi que não se entende por namoro uma aproximação vagarosa. Nos conhecemos, nos gostamos e pronto. Na guerra, o amor anda mais rápido.”
Durante todo o tempo, Criméia trabalhou como enfermeira, atendendo à população local e os companheiros. Participou da resistência à primeira campanha de cerco das Forças Armadas. Entre a primeira e a segunda campanhas, ficou grávida. E foi atacada por malária. Decidiu-se que deveria sair da zona guerrilheira. No sul, foi presa e torturada, em estado gravídico. Ameaçaram matar seu filho. Ele nasceu na prisão. O pai, André, comandante militar do Destacamento A, foi assassinado no Araguaia. Ele tinha 27 anos e estava na região desde 1967.
Criméia avalia que a experiência do Araguaia alterou também a percepção da população local quanto às relações de gênero:
“A população local, principalmente depois dos combates, via muito bem a mulher estar em igualdade e até em posição hierarquicamente superior à dos homens.”
A população expressava este apoio tendo uma admiração sem limites pelas guerrilheiras. Algumas delas, como Dina, viraram mito na região.
Segundo Criméia, mesmo as diferenças biológicas, que poderiam dificultar a atividade das mulheres, perderam relevância:
“Quanto aos problemas como o da menstruação, posso dizer que isso jamais nos impediu de trabalhar, caminhar, combater. Quem ia se preocupar com cólica menstrual, quando a malária nos atacava duramente, provocando febre de 40 graus.”
Além disso, a experiência de participação na luta armada, sem dúvida, mostrou que é possível construir relações de gênero com base numa visão de equidade entre homens e mulheres:
“A nossa experiência mostrou que a mulher é capaz de assumir todas as tarefas da guerrilha, inclusive de direção, como foi o caso da Dina. Nossa experiência mostrou, também, que essa igualdade entre o homem e a mulher é possível a curto prazo, bastando que mudem as relações sociais. É claro que isso se deu entre combatentes, com consciência política e posições definidas. Mas lá se pôde viver um pouco uma experiência socialista. Não estávamos presos à produção
capitalista. A divisão de trabalho capitalista não intervinha no nosso dia-a-dia, permitindo essa liberdade.”
Além disso, a experiência de participação, na luta armada, sem dúvida, mostrou que é possível construir relações de gênero com mais equidade.