5. SONUÇLAR VE TARTI ùMA
5.1 Genel ùarap Analizlerinin De÷erlendirilmesi
Tão logo deflagrado o golpe, uma onda repressiva abateu-se sobre o país. Assim contam Amélia:
“Deu o golpe, eu trabalhava na Manessman; e o meu trabalho era de sustentação não só da minha família, mas de seis famílias, eu sustentava seis famílias com o meu salário. Era uma empresa que tinha 10 mil trabalhadores, e trabalhador naquela época tinham muitos direitos, eu era sindicalizada. Logo nos primeiros dias do golpe, meu pai foi preso; todo mundo sumiu, em todos os pontos que a gente tinha com o partido (PCdoB) você não achava as pessoas do partido, foi uma loucura.”
e Maria Auxiliadora:
“Eu já era casada, morava em Brasília com o meu ex-marido, o Aldo Arantes, e nós tínhamos, naquela época, uma militância mais dentro do governo. Eu participava como educadora popular no movimento de educação de adultos, nascente em torno do método Paulo Freire, e, ainda, discutíamos como organizar esse movimento de educação de adultos. O Aldo também era um militante político e fomos atravessados por um golpe assim, da noite para o dia. Eu me lembro que eu estava almoçando, a mesa estava posta e eu estava aguardando o Aldo chegar e uma pessoa chegou em casa e falou: “Olha, os militares estão na rua. Eles estão vindo
para a sua casa e você precisa sair daqui imediatamente”. Do jeito que eu estava vestida, eu saí e nunca mais voltei nesta casa. Eu tinha uma pessoa que trabalhava comigo, eu disse: “Vamos embora juntas!” E trancamos a porta e saímos. Então, a partir desse momento, imediatamente eu passei a viver em uma vida clandestina.”
O Comando Revolucionário outorgou à nação um Ato Institucional (na época, não numerado, presumindo-se que fosse o único), redigido por Francisco Campos, que chamava o Congresso a eleger, em 48 horas, o novo presidente da República, com
53 O IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) foi uma organização de empresários do Rio de
Janeiro e de São Paulo, fundada em 2 de fevereiro de 1962. Tinha como objetivo: "defender a liberdade pessoal e da empresa, ameaçada pelo plano de socialização dormente no seio do governo Goulart". Para mais informações sobre a participação dos grandes empresários no golpe e sobre o papel do IPES, ver: DREIFUSS, René Armand. 1964: A conquista do Estado. Petrópolis: Vozes, 1981.
poderes muito ampliados. O escolhido foi Castelo Branco, general com cursos na França e nos EUA, veterano da Força Expedicionária Brasileira, tido como correto e apolítico. Era chefe do Estado-Maior do Exército – o Estado-Maior informal dos conspiradores – e do grupo ligado à Escola Superior de Guerra, apelidado de ‘Sorbonne’.
O Ato Institucional nº 1 − AI-1, como ficou conhecido mais tarde −, autorizava a cassação de mandatos, a interrupção de direitos políticos e a suspensão da estabilidade do funcionalismo. Tinha sua validade limitada a janeiro de 1966, quando deveria haver eleição presidencial direta. Começava aí a esquizofrenia do regime: poder militar, arbitrário, mas coberto por certa formalidade legal.
A cassação de mandatos e a suspensão de direitos políticos por 10 anos atingiram 378 pessoas, incluindo os ex-presidentes Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart, seis governadores e 76 membros do Congresso Nacional. Além disso, foram aposentados compulsoriamente, ou postos em disponibilidade, 49 membros do Poder Judiciário e afastados de suas funções 10 mil funcionários civis e militares (Joffily, 1998: 181). Num primeiro momento, o alvo da repressão concentrou-se nas esquerdas, nos partidários do governo deposto, nas áreas militares contrárias ao golpe, nos militantes sindicais e estudantis e nas ligas camponesas. A seguir, acabou por abranger também boa parte das bases civis do movimento de 1964. Como todo golpe político, o brasileiro também foi autofágico.
O governo Castelo Branco promoveu, logo no início, uma ação denominada
Operação Limpeza, que durou cerca de 90 dias, fez de 10 mil a 50 mil prisões, torturou centenas de pessoas e causou as primeiras mortes. A repressão era orientada pelos Inquéritos Policial-Militares (IPMs), a cargo de quadros das três armas, do
Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e das polícias estaduais. Foram devassados os órgãos públicos nos níveis federal, estadual e municipal, empresas estatais e para-estatais, bem como vários sindicatos. No Rio de Janeiro, dois navios- prisão foram improvisados. Em Pernambuco, o líder camponês e ex-deputado do PCB, Gregório Bezerra, foi arrastado pelas ruas do bairro de Casa Forte, em Recife, amarrado por cordas a um carro de combate do exército brasileiro: “Gregório, vestindo apenas um calção preto, com uma corda de três pontas amarrada no pescoço, com os pés, que haviam sido mergulhados em soda cáustica, sangrando, banhado de suor, ainda assim mantinha no semblante uma altivez inquebrantável”.54 Tratava-se de uma criatura lutadora, mas de uma doçura ímpar.
Os sindicatos foram um dos alvos preferenciais do golpe, visto que um de seus objetivos primordiais era anular a política tida como sindicalista, do governo João Goulart. O jovem sindicalismo rural e as ligas camponesas foram, igualmente, vítimas de uma autêntica operação de guerra. O funcionamento das entidades estudantis anteriores a 1964 foi proibido, em novembro de 1964, pela Lei Suplicy (do nome do ministro da Educação, F. Suplicy de Lacerda). Os líderes da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) foram obrigados a exilar-se. No entanto, a despeito das proibições e perseguições, as entidades continuaram a atuar abertamente nas escolas e nas universidades.
A repressão à intelectualidade foi intensa. Centenas de professores universitários foram demitidos. A Universidade de Brasília, a mais atingida pelas demissões – 210 professores –, foi invadida pela Policia Militar (Joffily, 1998:181). A tortura de presos
54 Discurso da advogada pernambucana Mércia Albuquerque Ferreira, advogada de
Gregório Bezerra, em março de 2001, ao receber o título de cidadã recifense (em http://www.dhnet.org.br/memoria/mercia/trajetoria/2cidada_recifense.html)
políticos fez suas primeiras vítimas, algumas fatais. No entanto, só se converteria em prática corrente durante a segunda e mais feroz onda repressiva, que se seguiu ao Ato Institucional no 5.
O Ato Institucional nº 2 (AI-2) remeteu todos os crimes políticos à Justiça Militar. E a Lei de Segurança Nacional (decreto-lei 314) substituiu a noção de crime contra a segurança do Estado pela de crime contra a segurança nacional, mais imprecisa, indeterminada e, portanto, mais abrangente. Atingia, por exemplo, greves e manifestações do pensamento.
A proposta inicial era de um regime de exceção transitório. O próprio Castelo afirmava que, se os militares tomassem o poder pela força, nele pela força permaneceriam e dele à força sairiam. Na prática, porém, o regime instalou-se de forma muito mais duradoura.