3.3 Veri Toplama Araçları
3.3.3 Görüşme
Nesse ponto, vale retomar as críticas de Macedo (2008, p.91) no que diz respeito à “ênfase que se costuma exigir na produção”, nos projetos sociais, para atender à “demanda do retorno aos patrocinadores”. Antes, entretanto, é preciso uma consideração.
Kater (2004), distingue dois tipos de trabalho em projetos sociais: os que selecionam, entre os interessados, os mais aptos, a partir de critérios como “habilidade ou experiência anterior do ponto de vista técnico” e, do ponto de vista pessoal, o “nível de sociabilidade e adaptabilidade”; e os que são abertos à “participação da comunidade sem seleção estrita de competência”, e que, segundo o autor, são os que atendem aqueles que, em princípio, mais “precisariam se beneficiar do trabalho oferecido”. Quanto ao primeiro tipo, o autor aponta como uma de suas características, terem como um dos objetivos produzir para ser apresentado, interna ou externamente, tendo em vista a questão da visibilidade, “quase sempre reivindicada por seus patrocinadores”. (KATER, 2004, p. 46-47).
No Caso do Corpo Cidadão, pode-se dizer que trabalha das duas formas, pois, como já foi mencionado, é, proporcionalmente, muito mais aberto à comunidade, sem seleção prévia, mas, a partir dos trabalhos nas unidades, seleciona um número restrito de educandos que passam a integrar os Grupos Experimentais, como é o caso do GEM. Nesse nível, as críticas de Macedo (2008) quanto à demanda por produção merecem maior atenção, uma vez que são esses grupos que, normalmente, representam a ONG, quando solicitado pelos patrocinadores. Se bem que, quanto ao GEM, mesmo esbarrando nessa demanda, existe alguma autonomia dos educadores na construção do processo educativo musical, desde o repertório, os conteúdos, até à formação de parcerias com as escolas de música. Entretanto, como também já foi dito, o GEM não é o foco dessa pesquisa.
Nas unidades, mesmo que as demandas pela criação da trilha sonora e pela apresentação nos festivais de música, que surgiram a partir de demandas dos próprios educadores musicais, possam interromper um ou outro processo educativo, em geral, elas acabam surgindo como mais um incentivo, fornecendo material a ser trabalhado nas oficinas. Pela novidade, os festivais de música das unidades ainda acontecem de forma “independente” e aproveitam, em boa parte, as estruturas de palco, luz e som que são utilizadas nas apresentações de dança. Assim, tendo liberdade para trabalhar e escolher, junto com as turmas e como os outros educadores, os repertórios que serão gravados na trilha ou apresentados no festival de fim de ano, as produções, nas unidades, pelo menos até aqui, em geral, não sofrem tanta influência da demanda por apresentações. Mesmo que isso tenha sido mencionado, uma vez ou outra, por algum educador, o que se percebeu foi, no final,
um grande envolvimento de todos, uma satisfação com os resultados das trilhas, dos festivais e apresentações musicais de qualidade..
Quanto aos trabalhos de criação para a trilha sonora, Silvia relata que a música “O Olho Fala” (Anexo A, Faixa 8) surgiu quando ainda trabalhava o tema transversal “linguagens” com uma das turmas. Segundo ela, após algumas conversas com a turma, decidiram falar sobre a comunicação através do olhar. Silvia dividiu a turma em grupos com a finalidade de experimentar algumas melodias e, ao mesmo tempo, começaram a produzir e pesquisar textos e músicas que, de alguma forma, falavam sobre o olhar, a visão ou algo relacionado. A música acabou virando uma canção de amor.
Essa história de falar de amor veio porque soltei um dia a palavra flerte na turma e eles não sabiam o que era isso. Disse para perguntarem aos seus pais, por que eles já deviam ter feito isso, e na outra aula, chegaram exaltados de idéias dizendo sobre flerte, que praticavam isso, e daí veio a idéia de falar sobre um caso de amor (conversa por e-mail com Silvia, 13/03/2009).
Foi também trabalhando com o tema “linguagens” que surgiu a música “Configuração” (Anexo A, faixa 12). Segundo Silvia, a turma, de adolescentes, com mais tempo de projeto, queria falar sobre computadores, por que muitos deles estavam, nessa época, “descobrindo e se aventurando no mundo da internet (orkut, msn, chat...)”. A idéia surgiu quando Silvia, numa aula, comentou que, um dia, todos iriam “virar digitais, já que ninguém mais dormia direito porque ficava no computador”. Silvia conta que aquela era uma turma que estava interessada em música e os educandos começaram a explorar sons nos instrumentos para criar.
A turma do violão estava descobrindo os intervalos de segunda, que logo decidiram que isso devia ser o início da música por que haveria “suspense” que coloquei posteriormente como tensão. A turma do xilofone pensou em fazer escalas estranhas, com notas dissonantes, que soassem parecido com algo cibernético de outro planeta. A percussão veio com o refrão. Foi a música que mais precisou de ensaios com todos, pois as idéias não acabavam nunca (conversa por e-mail com Silvia, 13/03/2009).
O trabalho de Silvia de criar as trilhas, junto com os educandos, envolvendo experimentação musical, leitura e pesquisa de textos e abrindo, para além dos aspectos musicais, a discussão para questões como variadas formas de comunicação, tecnologia e cotidiano, vai ao encontro da educação musical proposta
por Koellreutter (1998, p.43,44)
Ainda com relação à produção, Silvia, na entrevista, citou uma outra turma, que havia sido formada no ano anterior, 2007, com um perfil muito parecido com aquela que tocou a música Aluá, e que, em 2008, voltou muito interessada em se dedicar aos instrumentos e criar. Isso, Segundo Silvia, possibilitou um avanço na prática dos instrumentos e, no festival de música, essa turma tocou a música “Lua, lua, lua, lua” (Anexo C, Faixa 4) do Caetano Veloso, que Silvia considerou “a mais cuidadosa, porque ela tinha mais coisas diferentes [...] A mais arranjada de todas”.
Com a mesma turma de veteranos que criou a música “Configuração”, Silvia relatou o processo que os levou a apresentar a música “Pisa na Fulô” (Anexo C, Faixa 5), com um arranjo muito próximo ao do Tom Zé. Atendendo a uma solicitação dos educandos, haviam trabalhado questões referentes às características de estilos musicais diversos, “eles pediram hip hop, samba, sertanejo, gospel”. Segundo Silvia, “a atividade foi “super bacana”. Ela levou textos, os meninos leram, discutiram. Dedicavam uma semana para cada estilo. Como as aulas eram nas segundas e quartas feiras, nas segundas, liam os textos, conversavam, ouviam cds, percebiam elementos musicais e, nas quartas, faziam vivências, tocavam os ritmos ou alguma música. Com a necessidade de preparar algo para o festival de música, pararam essa atividade e começaram a pesquisar, dentre os estilos estudados, alguma música para ensaiar. Resolveram tocar um xote e escolheram a música “Pisa na Fulô”. Silvia conta que mostrou e propôs o arranjo do Tom Zé, mas, em princípio, a turma achou muito estranho e preferiu tocar a versão que tinham escutado antes. Então, Silvia conversou com eles, lembrando elementos musicais que tinham percebido no estudo dos estilos e mostrando alguns elementos daquele arranjo, como a questão dos contra cantos que o caracterizava. Segundo Silvia, a turma topou experimentar, mas
foi super difícil, no início. Elas [um grupo de meninas da turma que, segundo Silvia, tinham maior liderança] tocaram todas mal humoradas. Depois que foi vendo a coisa funcionar, eles [todos os educandos da turma] começaram a achar interessante. Aí, depois, adoraram a música. (SILVIA, 2008).
Foto 23: Silvia com a turma que criou “Configuração” e tocou "Pisa na Fulô" Fotografia de Rodrigo Teixeira