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A. Kureyş Müşriklerinden Öldürülmesi Emredilip de Öldürülenler

6. Furât b Hayyân

Durante o período colonial brasileiro, os comportamentos divergentes dos padrões morais da Igreja e dos interesses da Coroa eram duramente reprimidos. A repressão religiosa e jurídico-política era, no entanto, descontínua e não garantia a adesão dos fiéis e dos súditos. Além disso, os interesses entre a Coroa e Igreja, nem sempre harmonizavam-se entre si e, quase sempre, entravam em choque com os interesses das famílias e potentados locais. As cidades tornaram-se o local privilegiado da contestação do poder real, sobretudo no século XVIII. A fim de conter o caos urbano, a Coroa utilizou os tradicionais mecanismos de repressão: as ordenações do reino, as devassas, as visitações, os enforcamentos, exílios, açoitamentos etc., sem, contudo, alterar a feição do espaço urbano e conseguir a adesão completa das Câmaras Municipais, ocupadas pelos representantes das famílias da elite colonial.

Após a Independência, em 1822, o nascente Estado brasileiro, a fim de conseguir manter a unidade territorial da nação e adesão e a sujeição dos potentados locais, procurou retirar a autonomia das Câmaras Municipais, dos juízes de paz, adotando medidas centralizadoras que poriam fim às lutas entre as facções locais e destas com o poder

central. Todavia, essas medidas eram de natureza jurídica e, por isso, baseavam-se também na repressão, quase sempre violenta, às resistências. A sujeição das famílias de elite e das demais camadas sociais, só poderia acontecer se o Estado passasse a ser visto como um aliado e não como um inimigo. Para responder a essa urgência política, o Estado utilizou- se dos dispositivos normativos (as práticas discursivas e não-discursivas) que, embora também prescrevessem a repressão, visavam prioritariamente produzir novas formas de comportamento, de sujeição, mediante a promessa de ganhos e recompensas aos que a elas se submetessem. Assim, sob o impulso da idéia de civilização dos costumes e de modernização, as autoridades brasileiras intencionaram estabelecer um reordenamento físico do espaço urbano, a normatização das relações familiares, a disciplinarização do tempo do trabalho e do lazer.

Contudo, a colonização dos discursos e práticas normativas pelo Estado para solucionar urgências políticas não se realizava de forma harmônica, uma vez que esses discursos e práticas tinham sua genealogia fora do aparelho estatal, mas através dos saberes disponíveis. Assim, por exemplo, o discurso médico convergia e divergia dos interesses do Estado, bem como o discurso moralizante da Igreja possuía as mesmas relações com o saber médico e o discurso jurídico.

Deste modo, os projetos de normatização dos espaços públicos e privados das cidades não se concretizaram por completo, em virtude das divergências no seio da própria elite dominante, entre os discursos da medicina, da Igreja, da Lei, da literatura etc., e, principalmente devido as resistências dos demais grupos e segmentos sociais aos quais se pretendia atingir. O projeto normativo de forjar um trabalhador “dócil” , disciplinado e devotado ao trabalho agrícola, à medida que o trabalho escravo diminuía, não se concretizou, uma vez que, no final do Império, ainda abundavam as queixas contra os vadios que se recusavam ao trabalho disciplinado. Contra esses recalcitrantes foram adotadas estratégias de repressão e exclusão dos centros urbanos.

Na Cidade de Goiás, durante o século XIX, as tentativas de normatização do trabalho, do lazer, das relações familiares, seguiram o mesmo padrão das tentativas realizadas em outras regiões do país, apresentando, porém, algumas especificidades. Em primeiro lugar, as dificuldades de inserção do saber médico nos espaços públicos e privados, eram causadas não só pelo choque entre este discurso e o discurso jurídico,

religioso, e pela resistência das famílias e dos indivíduos à medicalização. Essas dificuldades residiam nas condições sócio-econômicas da Província como um todo. A economia agrária da Província, tornava quase inexpressiva a população urbana, uma vez que a maioria da população residia na zona rural. Além disso, localizada no interior do país, a província ressentia-se do isolamento, causado pela má condição das estradas que a ligavams às regiões hegemônicas. O reduzidíssimo número de médicos dificultava a difusão do discurso da medicina. O saber médico aparecia diluído nas galhofas dos artigos de variedade dos jornais vilaboenses ou submetido ao discurso jurídico das autoridades administrativas. À semelhança de outras regiões periféricas, a figura do médico de família apresentou-se bastante inexpressiva, em virtude do número reduzido de médicos. Muitos dos filhos das famílias dos bem-nascidos que saíam da província para tornarem-se bacharéis, não retornavam pois, transformavam-se em empregados públicos que eram transferidos para outras províncias. A falta de médicos, dificultava a higienização do espaço urbano, o atendimento aos doentes, etc. O atendimento aos pobres se fazia através de uma medicina assistencialista promovida pelo Hospital de Caridade São Pedro de Alcântara, o único da província durante todo o período imperial. Aliás, devemos ressaltar que os pobres não eram tratados no interior do hospital, o tratamento era realizado em suas casas, mediante o fornecimento de remédios fornecidos pela botica do hospital.

As autoridades administrativas goianas percebiam que o progresso e a normatização almejados só poderiam ser melhor efetivados, se os recursos governamentais fossem investidos na educação. Nas escolas de primeiras letras ensinava-se, por exemplo, noções de higiene, filosofia moral, economia doméstica para as meninas, etc., conhecimentos que facilitariam a sujeição dos indivíduos. Mas a matrícula e a frequência às escolas, apesar de sua obrigatoriedade, estavam cincunscritas aos filhos da elite. A maioria da população, além de pobre, estava situada na zona rural e não via a necessidade da educação formal. Por outro lado, se a educação facilitaria a difusão dos dispositivos normativos, o analfabetismo facilitaria o domínio político da elite sobre as outras camadas sociais. Apesar da governamentalização do Estado ter como alvo a população em geral, procurando estabelecer as regularidades de suas variáveis, como a morbidade, a natalidade, etc., a fim de obter uma produção maior de riquezas, as elites que ocupavam o aparelho do Estado tinham de escolher entre utilizar a educação como um dispositivo normativo estendido a todo o corpo social, ou utilizar outras estratégias de dominação, mantendo os

outros segumentos sociais no analfabetismo. A dominação pessoal e o mandonismo político, facilitados pelo analfabetismo, demonstram qual a opção foi escolhida pela camada dominante.

A disciplinarização moral dos indivíduos na Cidade de Goiás, sobretudo com relação às suas práticas sexuais, efetuava-se através da família cristã, conjugabilidade nuclear, misoginia, machismo, casamento indissolúvel, condenação das sexualidades periféricas ou doentias. Esses foram os valores fundamentais pelos quais a Igreja lutava desde a Contra-Reforma e que se tornariam os valores do Estado. Mas a sua combinação e articulação com as outras práticas discursivas, ao longo do século XIX, modificariam a sua linguagem, embora os seus objetivos gerais continuariam idênticos àqueles propostos pelo concílio tridentino. Nesse aspecto a moralidade imposta, tendo tornado-se dominante, também não obteve um sucesso completo, haja vista, as queixas nos jornais contra os comportamentos que não se enquadravam nesse padrão moral. Esses comportamentos constituíam elementos de uma outra ordem que não era a mesma ordem dominante. O embate entre a ordem e as (des)ordens levariam ao reordenamento da sociedade, ao questionamento da “ordem natural” das coisas.