2.2. Market Markası Kavramı
2.2.5. Market Markası (özel marka) Stratejileri
2.2.5.3. Fiyat Stratejisi
instituições de ensino e a sociedade fluminense
A indústria é um termo ainda não exatamente definido. Em geral, nas matérias econômicas, se entende como sinônimo de trabalho ativo e assíduo. Assim diz-se que é industrioso um homem que trabalha com viveza constantemente para ganhar a sua vida; e se chama a um preguiçoso, e inerte um homem sem indústria. Porém mais ordinariamente se aplica aquele termo ao trabalho engenhoso, que executa com algum considerável grau de inteligência, para se distinguir do mero grosseiro trabalho braçal, e, com esta especialidade se usa de tal nome para se exprimir o trabalho exercido nas artes e manufaturas mais refinadas. Assim diz-se que um país tem muita indústria, quando tem mais fábricas.
José da Silva Lisboa, 18101
Fora absurdo o pretender anular a legítima influência das letras no vasto drama da vida das nações; fora mentido zelo por uma realidade estéril o tentar de novo reduzir a mesquinhas proporções o poderio da inteligência humana sobre o grande fato do aperfeiçoamento social; pois que longe vão já os séculos, em que escurecidos os lumes da razão pelas trevas do erro ao lúgubre som de pesadas algemas, que aviltavam a dignidade da espécie humana, se alevantaram muralhas de bronze às justas pretensões da inteligência.
Francisco de Paula Menezes, 18482
Os avanços promovidos pela técnica e pela ciência no Rio de Janeiro do século XIX transformaram lentamente a vida cotidiana dos habitantes da cidade. Esses conhecimentos passaram a marcar presença em diversos setores da vida local, do botânico — a adaptação no país de plantas de outras regiões do mundo3 — ao médico e farmacêutico, passando pelos setores econômico, arquitetônico, culinário, educacional, etc. Ao propor novas formas de transformar, pelo trabalho racionalizado, os produtos da natureza, seja em fábricas ou no campo, toda uma nova forma de vida passaria a ser engendrada no país.
1
LISBOA, José da Silva. Observações sobre a franqueza da indústria e estabelecimento de fábricas no Brasil. Rio de janeiro: Impressão Régia, 1810. Por ordem de sua alteza real. In: ROCHA, Antonio Penalves. ROCHA, Antonio Penalves (org. e introd.) José da Silva Lisboa, Visconde de Cairu. São Paulo: Ed. 34, 2001, p.222 (Coleção Formadores do Brasil).
2
Discurso recitado na Augusta presença de sua majestade o imperador por ocasião da distribuição
dos prêmios de colação de grau de bacharel em letras do imperial colégio de Pedro 2º no dia 15 de novembro do corrente ano pelo Dr. Francisco de Paula Menezes professor de Retórica no mesmo colégio. Rio de Janeiro: Typ. Do Diário de N. L. Vianna, 1848.
3
DOMINGUES, Heloísa Maria Bertol. O Jardim Botânico do Rio de Janeiro. In: DANTES, Maria Amélia M (org). Espaços da ciência no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001, p.27-56.
Vale lembrar que esse processo de modernização da vida social no oitocentos estava ocorrendo em todo o Ocidente, especialmente na Europa e nos Estados Unidos. Foram vários os tipos de técnicas e conhecimentos que passaram, então, a influir no cotidiano das populações. O sucesso da filosofia moderna,4 o aumento de registro de inventos, o crescimento das escolas politécnicas, a higienização dos espaços urbanos, o progresso da medicina e da imprensa periódica, a invenção das máquinas a vapor, a proliferação das fábricas, a ampliação da instrução pública, a explosão da moda, a diversificação dos produtos industrializados são indicativos dos avanços então experimentados.
A modernidade “aconteceu” simultaneamente nos países do Ocidente; no entanto, o processo não foi homogêneo e tampouco se desenvolveu no mesmo ritmo. A Europa era o motor que impulsionava essas transformações. As ações dos dois principais países europeus do início do século XIX, Inglaterra e França, foram decisivas para a propagação de todo um novo modo de vida pelo ocidente. O Brasil do início do século XIX, sobretudo após a transferência da Corte de D. João VI, passou a receber a influência europeia, não portuguesa, de uma maneira como nunca havia experimentado. Costumes foram assimilados e imitados em larga escala pelas populações urbanas brasileiras, especialmente no Rio de Janeiro oitocentista, e muitos hábitos “não europeus” foram proscritos ou adaptados.
As relações de viagem apontavam nossas “excentricidades” e “exotismos” e os homens de letras, principalmente por meio da palavra impressa, para “consertar” tal situação, exaltavam as vantagens da razão e dos costumes civilizados. Os governantes tomavam medidas, por vezes drásticas, para alterar o antigo padrão de vida. Juntando o esforço dos brasileiros letrados com a forte influência dos ingleses e franceses, um turbilhão de mudanças atingiu o país.5
4
Na imprensa literária da primeira metade do século XIX, como vimos, foi comum a publicação de contos e de poemas sobre as virtudes da razão. No primeiro capítulo, foram citados alguns poemas e um conto intitulado “Drama Racional” que ilustram bem a questão.
5
FREYRE, Gilberto. Sobrados & Mucambos. 12.ed. Rio de Janeiro: Record, 2000, p.326. “A colônia portuguesa na América adquirira qualidades e condições de vida tão exóticas – do ponto de vista europeu – que o século XIX, renovando o contato com a Europa – que já era outra: industrial, comercial, mecânica, a burguesia triunfante – teve para o nosso País o caráter de uma reeuropização. Em certo sentido, o de uma reconquista. Ou de uma renascença – tal como a que se processou na Europa impregnada de medievalismo, com relação à antiga cultura greco-romana. Apenas em outros termos e em ponto menor. No Brasil dos princípios do século XIX e fins do XVIII, a reeuropização se verificou (perdoe o leitor muitos mais ãos) pela assimilação, da parte de raros, pela imitação [...], da parte do maior número; e também por coação ou coerção, os ingleses, por exemplo, impondo à colônia portuguesa da América – através do Tratado de Methuen, qual colônia deles, Portugal só fazendo reinar politicamente sobre o Brasil – e mais tarde Império, uma série de atitudes morais e de padrões de vida que,
Os sobrados passaram a ser mais urbanizados e todo um estilo de vida, espelhado no estilo burguês europeu, ganhou aos poucos a sua versão tropical. Os filhos dos senhores que iam estudar no Velho Mundo ou nas novas escolas brasileiras, quando se tornavam bacharéis, renegavam a antiga vida rural e se estabeleciam nas cidades. Eles tentavam empregar os princípios da modernidade européia em seu país, princípios que ganharam grande impulso desde o início do reinado de Pedro II.6 As vestimentas multicoloridas com forte influência africana e oriental usadas pela população nas ruas, igrejas e em outras ocasiões deram lugar “à sobrecasaca preta, às botinas pretas, às cartolas pretas, às carruagens pretas”.7 A vida se “acinzentou” e o colorido virou excepcional, usado apenas em feriados como o entrudo e nas procissões,8 em que as colchas finas que adornavam as camas eram expostas nas janelas.9 No início dos anos 50 do século XIX, a revista O novo Correio das Modas publicou “o figurino dedicado à moda de inverno” no qual “mostrava um rinque de patinação no gelo e todas as crianças trajando capas e cachecóis, além dos necessários patins de gelo”.10
A mudança de hábitos na vestimenta veio acompanhada da instalação de uma “indústria da moda”, pois costureiros, sapateiros,11 cabeleireiros e modistas em geral espontaneamente, não teriam sido adotados pelos brasileiros. Pelo menos com a rapidez com que foram seguidos pelas maiorias decisivas nessas transformações sociais.”
6
A este respeito ver os estudos publicados sob a organização de Luiz Felipe de Alencastro no segundo volume da coleção História da Vida Privada no Brasil, cuja direção geral foi de Fernando A. Novais. (São Paulo: Cia das Letras, 1997).
7
FREYRE, Gilberto. Op. cit., p.338. 8
Ibid. 9
“As ruas são estreitas, pouco mais largas do que o Corso em Roma, com a qual uma ou duas têm um ar de semelhança, especialmente nos dias de festa, quando as janelas e balcões são decorados com colchas de damasco vermelho, amarelo ou verde”. GRAHAM, Maria. Diário de uma viagem ao Brasil e de uma
estada nesse país durante parte dos anos de 1821, 1822, 1823. O costume de expor colchas e tapeçarias
se manteve na cidade. Anos mais tarde, em 1851, dois missionários estadunidenses da União Cristã
Americana e Estrangeira, Daniel Parish Kidder e James Cooley Fletcher, descreveram a passagem de D.
Pedro II em uma procissão de Corpus Christi: “O imperador passa de cabeça descoberta, carregando uma tocha (...). Onde quer que passe nessa ocasião, os moradores das ruas rivalizavam uns com os outros na ostentação de tapeçarias, de ricas sedas e damascos, penduradas das janelas e balcões de suas residências.” FLETCHER, James Cooley; KIDDER, Daniel Parish. O Brasil e os brasileiros. Fichário Ernani Bruno. Equipamentos, usos e costumes da casa brasileira. São Paulo: Museu da casa Brasiléia, 2001, p.85.
10
MAUAD, Ana Maria. A vida das crianças de elite durante o Império. In: PRIORE, Mary Del (org).
História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 1999, p.143.
11
Um dos relatos que mostram a pujança da moda no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XIX foi produzido pelo artista Jean-Baptiste Debret: “O europeu que chegasse ao Rio de Janeiro em 1816, mal poderia acreditar, diante do número considerável de sapatarias [...] que esse gênero de indústria se pudesse manter numa cidade em que cinco ou seis sextos da população andam descalços. Compreendia-o entretanto, logo, quando lhe observavam que as senhoras brasileiras, usando exclusivamente sapatos de seda para andar com qualquer tempo por cima das calçadas de pedras, que esgarçam em poucos instantes o tecido delicado do calçado, não podiam ser mais de dois dias seguidos sem renová-los, principalmente para fazer visitas. As únicas cores usadas eram o branco, o rosa e o azul-céu; a partir de 1832 acrescentaram-se o verde e o amarelo, cores imperiais e usadas na Corte. Esse luxo, aliás, não é exclusivo
passaram a se instalar na cidade e com eles uma nova série de técnicas passaram a ser aplicadas e ensinadas no país. Não só a vestimenta se europeizou; a alimentação, em alguns pontos, também foi alterada. O pão branco, conhecido entre nós como pão francês, tido como refinado, começou a fazer parte da mesa do brasileiro e com isso a importação da farinha de trigo, antes quase desprezada pela farinha de mandioca, aumentou consideravelmente para atender esse novo gosto.12
O incremento de novos gêneros na vida dos cariocas não ficou restrito apenas à questão material. Com o novo cenário que passava a ser desenhado na urbe, uma série de conhecimentos técnicos se tornou gradativamente presente no dia-a-dia. A historiografia aponta que um dos marcos dessa questão foi a ação do governo joanino de promover a vinda de técnicos e artistas estrangeiros para o Brasil, num movimento que ficou conhecido como “missão francesa”.13
O esforço de incentivar a emigração de mão-de-obra qualificada para o Brasil fez-se sentir desde os primeiros anos após a transferência da Corte. Em janeiro de 1812, quatro anos antes da encomenda da “missão francesa”, foi emitido em Lisboa um edital “Pelo qual se convidam artistas de Portugal a emigrar para o Brasil”. Dizia o edital assinado por Manoel Joaquim d’Oliveira Lage:
A Real Junta da Fazenda da Marinha, em cumprimento da Imediata, e Real resolução de 4 do corrente mês faz público a todos os operários, e artistas das diferentes oficinas de Carpinteiro de machado; de Ferreiro de forja, e lima; de Latoeiro, e fundição; de Caldeiro; e de Cordoeiro que conheçam a Calda, e Estufa; que voluntariamente quiserem passar para o Rio de Janeiro, dirigindo os seus
aos senhores; ele obriga a brasileira rica a fazer calçarem-se como ela própria, com sapatos de seda, as seis ou sete negras que a acompanham na igreja ou no passeio. A mesma despesa tem a dona de casa menos abastada, com suas três ou quatro filhas e suas duas negras. A mulata sustentada por um branco faz questão também de se calçar com sapatos novos, cada vez que sai e o mesmo ocorre com sua negra e seus filhos. A mulher do pequeno comerciante priva-se de quase todo o necessário para sair com sapato novo e a jovem negra livre arruína seu amante para satisfazer essas despesas por demais renovadas.” DEBRET, Jean Baptiste. Viagem pitoresca e histórica do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Faculdade de São Paulo, 1978 (2 vols).
12
ALENCASTRO, Luis Felipe de. Vida privada e ordem privada no império. In:______(org.) História
da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, v.2, 1997. Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala descreve os usos e a importância que a farinha de mandioca tinha na vida dos
habitantes do Brasil colonial. Entretanto, apesar do aumento da importação de farinha de trigo, a farinha de mandioca não deixou de ser consumida amplamente até nossos dias.
13
Segundo Lilia Schwarcz, a “missão [francesa] tinha objetivos mais amplos do que a ‘educação artística’, (...). Afinal, faltava de tudo, e profissionais especializados em diferentes áreas vieram no mesmo navio: técnicos em construção naval, em construção de veículos, em curtume... atendendo a outros interesses do Estado e formando homens destinados aos empregos públicos, mas também à agricultura, mineralogia, indústria, e comércio (...), o fim último era a ‘civilização dos povos mormente neste continente’”. SCHWARCZ, Lilia Moritz. A longa viagem da biblioteca dos reis: do terremoto de Lisboa à Independência do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 2002, p.311.
Requerimentos ao mesmo Tribunal, para a sua qualificação, se lhes fará efetivo pagamento de tudo o que tiverem vencido, e de quatro meses de avanço de seus jornais, pagando-se um logo aqui, e os três ás suas respectivas famílias, e ração diária de Purão para cada um: Outro sim se declara, que esta deliberação se estende igualmente aos artistas, operários, que se ocupam nas oficinas, e destinos do serviço público, e dos particulares. Lisboa, 11 de Janeiro de 1812.14
Embora não seja um consenso entre os historiadores que a famosa “missão francesa” tenha contado de fato com apoio financeiro do governo joanino,15 não há controvérsia acerca da presença cada vez maior de técnicos no país depois de sua vinda. No Recife e no Rio de Janeiro, por exemplo, diversos foram os técnicos franceses e ingleses que se instalaram temporária ou permanentemente.16 Com a presença deles, mudanças na arquitetura, na moda e no mobiliário passaram a ser notórias. Vale lembrar que o termo técnico ou artista, como eram chamados esses homens no período, abrangia um amplo espectro de profissões e ofícios, como bem mostra o edital. Requisitavam-se profissionais de várias áreas como pintores, engenheiros, arquitetos, marceneiros, retratistas, modistas, impressores, entre tantos outros de que o novo país carecia.
Devido à escassez desse tipo de mão-de-obra e a outros elementos culturais, como a desvalorização por parte dos homens livres do trabalho manual,17 os aprendizes dos técnicos eram, em sua maioria, escravos, especialmente na Corte. Esses escravos que tinham algum conhecimento técnico — marceneiros, alfaiates, pintores de retratos, jardineiros, etc. — eram muito valorizados no mercado e, quando fugiam, a recompensa por sua captura era maior do que a oferecida pelos “escravos comuns”.18 Em 1823, por exemplo, Thomas Manoel de Jesus Varella encaminhou pedido à Junta do Comércio solicitando a liberação de máquinas, teares, fiadoras e de dois “escravos hábeis” para trabalharem na Fábrica da Lagoa Rodrigo de Freitas. O despacho, assinado por José Bonifácio de Andrada e Silva, concedia todas as solicitações, ficando Varella obrigado a pagar os valores dos escravos e das máquinas em dois anos.19
No Rio de Janeiro, a influência da técnica francesa na vida da cidade foi reconhecida pelos contemporâneos. A sociedade carioca viveu um clima de empolgação
14
Edital reproduzido na seção Política do Correio Braziliense, v.8, n.45, jan., p.113-114, 1812. 15
SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Sol do Brasil. São Paulo: Cia da Letras, 2008. 16
FREYRE, Gilberto. Um engenheiro francês no Brasil. 2.ed. rev. e muito ampliada. Rio de Janeiro: José Olympio, 2.t, 1969; FREYRE, Gilberto. Ingleses no Brasil: aspectos da influência britânica sobre a vida, a paisagem e a cultura do Brasil. 3.ed. Rio de Janeiro: TopBooks, 2000.
17
SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Ser nobre na Colônia. São Paulo: Unesp, 2005. 18
FREYRE, Gilberto. Um engenheiro francês no Brasil. 2.ed. rev. e muito ampliada. Rio de Janeiro: José Olympio, 2.t, 1969.
19
com os progressos que eram vivenciados. Os anúncios publicados nos jornais do período mostravam claramente o deslumbramento com as novidades de pelo menos uma parcela da população citadina. Um desses anúncios, publicado pelo advogado Antônio José d’Assa Castelo Branco Cunha e Meneses, no dia 15 de fevereiro de 1823, no
Diário do Rio de Janeiro, ilustra bem esse aspecto:
[...] alfaiates, chapeleiros, tintureiros, cabeleireiros, jardineiros franceses, juntamente com os arquitetos, pintores e gravadores franceses, entraram a influir consideravelmente com a sua técnica, com o seu gosto, com os artigos que importavam ou confeccionavam, sobre a vida da cidade, sobre a feição e os seus costumes.20
Os técnicos franceses que se instalaram na cidade não trouxeram apenas novas maneiras de trabalhar. Eram representantes – quase embaixadores – da própria cultura francesa na América portuguesa. A mudança na paisagem urbana e nas áreas rurais em torno do Rio de Janeiro não foi apenas física, mas também sinalizava mudanças no quadro social, decisivas para a reformulação de vários aspectos da sociabilidade carioca oitocentista.21
No entanto, não foram só os franceses que exerceram forte influência sobre a vida do brasileiro oitocentista. Os ingleses, principalmente, e outros povos europeus também o fizeram por meio de seus inventos. Os vapores, por exemplo, no início da década de 40, cruzavam o Atlântico em no máximo vinte e nove dias, em especial os ingleses, trazendo mercadorias e novidades das mais variadas: dentaduras, fogões, “polacas”, livros, relógios, louças, tecidos, novos inventos, máquinas etc.22 Andando pelas ruas do centro, como a rua do Lavradio ou a do Ouvidor, entrando e saindo das diversas casas comerciais que existiam na cidade,23 os habitantes podiam adquirir uma série desses objetos, objetos derivados da prosperidade da civilização industrial urbana no continente europeu e na América do Norte.24
Existia até mesmo concorrência entre os importadores, como no caso de vendedores de pianos fabricados na França ou na Inglaterra, que digladiavam nas seções
20
apud FREYRE, Gilberto. Op. cit., p.234. Em seu estudo sobre a presença dos franceses no Brasil (especificamente no Recife, Rio de Janeiro e Bahia), Freyre analisou uma série de anúncios publicados nos periódicos.
21
FREYRE, Gilberto. Um engenheiro francês no Brasil. 2.ed. rev. e muito ampliada. Rio de Janeiro: José Olympio, 2.t, 1969, p.30ss
22
ALENCASTRO, Luis Felipe. Op. cit. 23
Arquivo Nacional. Fundo: Junta do comércio, agricultura, fábrica e navegação – Fábrica e Navegação Códice 521 – relação das casas de negócio nas ruas do Rio de Janeiro (2 volumes)
24
LANDES, David. Prometeu desacorrentado: transformação tecnológica e desenvolvimento industrial na Europa ocidental, de 1759 até os dias de hoje. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.
de anúncios dos periódicos para convencer seu público sobre qual instrumento se adaptaria melhor ao clima quente.25 A modernidade ganhava suas feições tropicais, principalmente nos centros urbanos, mas não somente aí, como testemunham alguns viajantes, que encontraram, nas salas de Casas-Grandes situadas a mais de cem quilômetros da Corte, pianos trazidos da Europa.26
Engana-se, porém, quem acredita que a circulação de tantos novos produtos vinha satisfazer somente a uma nova dinâmica econômica. O forte desejo dos homens de letras de elevar o país ao patamar dos países civilizados exigia que os produtos derivados do uso sistemático da razão estivessem presentes nas casas e na vida dos brasileiros. Em outras palavras, essas mercadorias eram carregadas de significado, eram símbolos do progresso e da civilização.
O objetivo da vinda de produtos e de técnicos estrangeiros para o país era o de mudar o seu quadro social, bem como promover o contato do brasileiro com novos conhecimentos e produtos, de modo a incorporá-los no universo intelectual dos habitantes e produzi-los em território nacional. A introdução de novas técnicas se aplicou a várias atividades, tanto nas urbes quanto no campo. O governo joanino, como dito anteriormente, foi quem deu o pontapé inicial para a introdução desses novos conhecimentos e tecnologias. Para tanto, uma série de medidas foram tomadas para incrementar a indústria e a cultura de gêneros, como o alvará de 25 de abril de 1818, que isentava de tarifas de importação novos inventos ou qualquer outro tipo de equipamento que fosse melhorar a produção agrícola.