2.4. Risk Kavramı
2.4.2. Risk Algısının Boyutları
revistas literárias
Entendemos por literatura os movimentos do pensamento e a sua expressão e transmissão por meio das palavras. O primeiro supõe o
raciocínio e por conseguinte o talento, a imaginação, a firmeza de espírito e a instrução. E o segundo o conhecimento da língua própria, e a elocução nos discursos verbais e o estilo nos escritos. O primeiro para ser eminente e original supõe, além das faculdades exprimidas, o gênio ou, o que é o mesmo, uma faculdade poderosamente criadora; o segundo, a eloqüência.
O Cruzeiro do Sul, n.1, 1849, p.5
O Brasil entra hoje com todo o direito na ordem das nações civilizadas; conta felizmente algumas notabilidades em política, em literatura, e mesmo em ciências, que muito podem contribuir para o seu engrandecimento.
Possui, além disso, uma mocidade talentosa e esperançosa, a qual aguarda unicamente o dia em que, animada por essas notabilidades tenha de, por meio da imprensa, contribuir com a sua pedra, proporcionada sempre às forças, para o edifício que deve dar ao estrangeiro uma idéia da nossa civilização.
O Beija-Flor, v.1, n.8, mai, 1849, p.1
A perspectiva e o ritmo da vida do fluminense livre nos primeiros decênios do século XIX foram alterados e alargados substancialmente. A abertura dos portos não simbolizou apenas uma maior participação da Colônia na dinâmica economia moderna, mas também a possibilidade de seus habitantes tomarem contato mais íntimo com a cultura européia. O porto que recebeu a Corte em 1808 também recebeu muitos outros visitantes. Naturalistas, impressores, médicos, professores, aventureiros, prostitutas, padeiros, chapeleiros, retratistas, marceneiros, engenheiros, militares, missionários, daguerreotipistas, comerciantes de diversos tratos, entre tantos outros.1 Alguns só
1
O coronel Maler, em 1817, fez a seguinte observação sobre a presença cada vez maior de franceses e outros estrangeiros no Rio de Janeiro: “O número de franceses nesta capital aumenta consideravelmente; as duas últimas naves que chegaram trouxeram mais 54 pessoas, das quais a maioria são artesãos. Muitos outros são anunciados como vindos diretamente da França e de portos dos Estados Unidos. O governo português considera com boa vontade essas chegadas, mas esse é o único apoio que lhes é proporcionado. Parece óbvio que, por menos que se pense em protegê-los e ajudá-los desde seu embarque, este país [o Brasil] faria aquisições muito importantes que teriam uma influência fundamental para a prosperidade dessa comunidade.” apud DUMNOT, Juliette. Preciosos súditos, emigrantes atravancadores: a França e
estavam de passagem, outros vieram para ficar. A esperança era geral. Os administradores joaninos acreditavam que a presença dos estrangeiros traria modos civilizados para o Brasil e ajudaria a desenvolver a economia e a sociedade – crença mantida no período imperial. Já os estrangeiros que vinham fixar residência no país, esses estavam atrás de novas oportunidades, de ganhar e fazer a vida em uma nova terra.
Em 1823, o conde de Gestas destacou a importância das ondas migratórias francesas para o Brasil, que não apenas favoreciam o comércio dos francos no país, como também impulsionavam o desenvolvimento de uma vida mais civilizada:
De todos os estrangeiros presentes, são os franceses que são considerados com mais boa vontade: seus usos, suas maneiras, suas modas, os objetos de luxo e muitas outras coisas convêm perfeitamente aos brasileiros; é inútil recordar aqui a bondade do acolhimento que os príncipes da casa de Bragança sempre ofereceram aos franceses, mas podemos dizer que a Revolução do Brasil só fez aumentar essas disposições favoráveis, e que o príncipe regente, bem como seus ministros, deixaram isso claro recentemente. A falta de recursos que oferecem hoje nossas colônias engaja uma multidão de franceses a tentar sua chance num país onde eles estão seguros da imediata proteção do governo, e podem gozar de um clima cuja salubridade ganharia a ser conhecida [...]. Uma parte dos franceses que vão ao Brasil funda lá estabelecimentos agrícolas, alguns para construir uma fortuna que eles trazem de volta para a França; uns e outros já começam a fornecer ao Brasil ocasiões de aumentar o consumo de nossos produtos, de introduzir nossos usos, de fazer sentir neste país a influência da França, para balançar, e daqui a pouco superar a da Inglaterra no que se refere ao comércio; as vantagens seriam com efeito enormes e serão com certeza apreciadas pelas pessoas que lerão esta nota.2
As culturas francesa e inglesa foram as que mais influenciaram as transformações dos hábitos brasileiros, transformações que foram sentidas em diversos setores da vida local, do vestuário à cultura literária. Esse sonho de formar um grande Império luso-brasileiro a partir da europeização do Brasil desencadeou um processo que levou à independência do país e à entrada do Brasil na esfera direta de influência de outras potências européias. Acerca de tal influência, o historiador Evaldo Cabral de Mello, ao prefaciar a 3ª edição de Ingleses no Brasil, de Gilberto Freyre, comenta:
os franceses do Brasil no início do século XIX. In: VIDAL, Laurent; LUCA, Tânia Regina de (org.)
Franceses no Brasil (séculos XIX-XX). São Paulo: UNESP, 2009, p.109-110.
2
apud DUMNOT, Juliette. Preciosos súditos, emigrantes atravancadores: a França e os franceses do Brasil no início do século XIX. In: VIDAL, Laurent; LUCA, Tania Regina de (org.) Op. cit., p.110.
Tal reeuropeização representou a face cultural da derrocada do monopólio comercial português. Devido a ele, como também à sua posição marginal no desenvolvimento do Ocidente e às suas relações privilegiadas com o Oriente, Portugal não se achava em posição de tomar a frente da abertura do Brasil à Europa burguesa do oitocentos. À Inglaterra e à França é que caberia fazer o papel de pontas de lança deste processo, cada uma à sua maneira, ou antes, de acordo com as suas vantagens culturais comparativas, o que significa que ambas atuaram entre nós sob a forma de um condomínio não só econômico como cultural, mediante o qual, ao passo que os franceses se especializaram no comércio de luxo e de moda, os ingleses concentraram-se nos produtos da revolução industrial.3
A cultura estrangeira, porém, não foi simplesmente copiada pelo brasileiro. Como em todo processo de contato entre culturas diferentes, o que ocorreu foi uma adaptação de hábitos e costumes. Os indivíduos pertencentes aos estratos médio e alto da sociedade do período, ao mesmo tempo que encaravam o sol escaldante das ruas vestidos à inglesa ou à francesa, escarravam em público e expunham roupa de cama e tapeçarias nas janelas. Já os populares incorporaram poucos destes costumes, adaptando-os às suas práticas cotidianas.
Por vezes, as camadas populares resistiram à influência européia. A figura do estrangeiro, eleita pelas elites como a representante da civilização, foi também alvo de chacota e hostilidade. Essa “antipatia” manifestou-se nas festas populares, como o entrudo, e nas piadas e apelidos dados ao estrangeiro. Gilberto Freyre descreve esta tensão nos seguintes termos:
Dois sistemas socioculturais que se defrontaram no espaço e no tempo estudados: um sistema encarnado pelos ingleses, outro pelos brasileiros, ou pelos luso-brasileiros. Não se espante ninguém de ver o moleque incluído entre os representantes do sistema brasileiro: ele foi por excelência o caricaturista do intruso, o que o insultou nas ruas, o que o reduziu a Judas no sábado de aleluia, o que o macaqueou nas troças de carnaval, ridicularizando-o em proveito da cultura invadida. Foi quem propagou os qualificativos pejorativos do inglês no Brasil:
bode, missa-seca, bíblia (quando protestantes), gringo, baeta, bicho, beef, marinheiro.
[...]
Pois enorme como foi a influência britânica no Brasil, a cultura técnica e literariamente superior não agiu de modo absoluto, ou sempre soberanamente, sobre a inferior. Do contato dos britânicos
3
MELLO, Evaldo Cabral de. Uma história social da presença britânica no Brasil. In: FREYRE, Gilberto.
Ingleses no Brasil: aspectos da influência britânica sobre a vida, a paisagem e a cultura do Brasil. 3.ed.
com a sociedade brasileira resultaram também influências brasileiras sobre a cultura do povo imperial.4
Malgrado, no entanto, as antipatias e resistências, os homens de letras apreciavam muito os valores e conhecimentos desenvolvidos no Velho Mundo, pois consideravam que a Europa era o local onde se desenvolvia uma “cultura técnica e literariamente superior”. Ao longo dos primeiros decênios do século XIX, esses homens se dedicaram a ampliar e espalhar essa “cultura superior” no país. Aos olhos da inteligência brasileira os gaiatos de rua, os escravos, os moleques, os vadios e a populaça em geral careciam de bons modos e de uma moral condizente com os novos tempos. As odes à razão, à valorização das letras, os incentivos para a introdução de novas invenções, a abertura de fábricas, oficinas e casas de comércio por nacionais e estrangeiros, a fundação de instituições de ensino superior, como a Real Academia Militar (e posteriormente as faculdades de Medicina, Direito e Belas Artes), a ampliação da instrução a partir de um método sistematizado de ensino (Método Lancasteriano e o Imperial Colégio Pedro II), a maior circulação de impressos em geral, tudo isso, sem exceção, fez parte do movimento que estava sendo promovido na tentativa de desenvolver a cultura das letras e das ciências no país.
O projeto de transformar o Brasil por meio da razão fez parte de um movimento que não ocorreu apenas por aqui, mas em todo o Ocidente. O Iluminismo foi o grande motor dessas transformações. O movimento intelectual que emergiu no século XVIII europeu foi o principal alicerce para novas formas de vida e de sociabilidade. Os princípios iluministas deram origem a uma série de novas práticas sociais. Esquadrinhar e regrar a vida, redimensionar as relações políticas, classificar os objetos da natureza, definir os padrões de normalidade, educar e disciplinar a mente e o corpo eram elementos comuns das tópicas iluministas que passaram gradativamente a fazer parte da vida das pessoas. Como bem sintetizou Lorelay Kury, o Iluminismo
[...] não foi apenas um movimento no campo das idéias e da filosofia, mas um conjunto de transformações na esfera das sociabilidades e da circulação de textos impressos, bem como uma reunião de práticas administrativas, executadas, em geral, pelo Estado e visando racionalizar o funcionamento da sociedade, conhecer e controlar as populações, a produção, os fluxos e os usos das mercadorias [...]. Um dos componentes das Luzes foi, além disso, a crença de que o
4
FREYRE, Gilberto. Ingleses no Brasil: aspectos da influência britânica sobre a vida, a paisagem e a cultura do Brasil. 3.ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000, p.45 e 47.
principal beneficiário das políticas racionais seria a humanidade como um todo e não os interesses privados, individuais ou nacionais.5
Iluminar a vida, tirar o homem da apatia e das trevas da ignorância. Os homens de letras brasileiros incorporaram esses novos princípios. Era papel dos intelectuais levar as “boas novas” aos seus semelhantes. No Brasil, assim como em diversas regiões do Ocidente, emergia uma nova categoria de pensadores: o intelectual “universal”.6 Esse intelectual falava em nome da humanidade, versava sobre como o mundo deveria ser. Ele propunha uma nova forma de vida e, em seus textos, defendia que as sociedades deveriam entrar, obrigatoriamente, em uma nova era da história da civilização. Nesse novo período, toda a humanidade deveria seguir o mesmo destino, no qual a justiça, a liberdade, o progresso e as luzes fossem tomadas como valores universais.
Esse tipo ideal de pensador descendia do “jurista notável”, responsável por trazer as grandes questões provenientes do final do século XVIII à pauta do novo século. Porém, a luta pelo agora girava em torno da conservação e ampliação “daquilo que é justo por razão e por natureza, daquilo que pode e deve valer universalmente”.7 O “jurista notável” se transmutou, no início do século XIX, na figura do “grande escritor”, ou “escritor genial”, aquele que “empunha sozinho os valores de todos, que se opõe ao soberano ou aos governantes injustos e faz ouvir seu grito até na imortalidade”.8 Muitos dos nossos homens de letras se enquadram nesse perfil, pois no decorrer do oitocentos, sobretudo por meio da palavra impressa, dedicaram-se a combater o que eles julgavam ser obstáculos para o desenvolvimento do país.
Hipólito da Costa pode ser citado como um exemplo desse tipo de intelectual, pois, ao longo de quatorze anos, dedicou-se a escrever um magazine para combater o que entendia como arbitrariedades cometidas pelo absolutismo português9 e promover a civilização no “novo Império do Brasil”.10 Muitos outros seguiram seu exemplo, pois o redator do Correio Braziliense não foi o único a fazer esse tipo de reclamação junto ao
5
KURY, Lorelai. Homens de ciência no Brasil: impérios coloniais e circulação de informações (1780- 1810). História, Ciências, Saúde. Manguinhos, Rio de Janeiro, v.11, suplemento 1, p.109-129, 2004, p.110.
6
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p.1-14. Este livro pode ser encontrado em versão digital (.pdf) no seguinte endereço: http://www.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/. 7
Ibid., p.1-14. 8
Ibid., p.10-11. 9
Não podemos deixar de salientar que a figura de D. João não era diretamente atacada, as farpas eram direcionadas em sua maior parte aos ministros de Estado, aos gestores de Lisboa, pois Hipólito da Costa defendia a permanência do poder do soberano e o devido respeito a sua figura.
10
Em muitas ocasiões Hipólito da Costa utilizou o termo para dimensionar a importância da transferência da Corte para o Rio de Janeiro e as novas possibilidades que se abriam para o império luso-brasileiro.
sistema político e social do período.11 O Correio Braziliense ocupou aí um lugar especial, na medida em que o discurso de Hipólito da Costa e suas metas eram, em larga medida, comuns aos de outros intelectuais luso-brasileiros que atuavam tanto no Rio de Janeiro quanto em Londres, Paris e, por vezes, em Lisboa.
Nos primeiros decênios do século XIX, o que caracterizou de maneira muito marcante os debates nos quais os homens de letras se envolveram foi a ideia de que eles tinham uma missão a realizar, uma espécie de cruzada civilizatória, que deveria ter como principal instrumento uma “ação pedagógica”. A maior parte dos intelectuais teve como elemento base de sua formação o ensino jurídico, característica muito comum no mundo luso-brasileiro. No caso específico dos que nasceram no Brasil, havia um elemento ainda mais marcante na formação da elite intelectual, pois durante todo o período colonial Coimbra foi o grande centro formador da elite intelectual e política do Brasil, desde o século XVI até pelo menos o final do segundo quartel do século XIX.12
As Belas Letras produzidas no Brasil ao longo do século XIX, sobretudo nos primeiros decênios, representam para muitos historiadores e estudiosos a emergência de um pensamento tipicamente nacional.13 Buscava-se uma origem que distinguisse e caracterizasse o povo brasileiro. Os homens de letras criaram modelos ideais de comportamento, vestimenta e conduta moral. Além disso, apontaram os caminhos que a sociedade deveria seguir para se civilizar. Foi por meio da plataforma literária que a palavra escrita impressa em livros, periódicos, panfletos, etc., passou a criar uma maneira própria de a intelligentsia brasiliense representar e expressar “o mundo” e de
11
Sobre os debates em torno da formação da nova nação nos trópicos ver: LUSTOSA, Isabel. Insultos
Impressos: a guerra dos jornalistas na independência (1821-1823). São Paulo: Cia das Letras, 2000.
12
FONSECA, Fernando Taveira da. Scientiae thesaurus mirabilis: estudantes de origem brasileira na Universidade de Coimbra (1601-1850). Revista Portuguesa de História, Coimbra, t.XXXIII, p.527-559, 1999, p.528-529. Neste texto o autor analisa, a partir dos registros de matrícula da Universidade de Coimbra, a proveniência geográfica dos alunos “brasileiros” que passaram pela instituição coimbrã. O registro interessante é que, ao longo do século XVIII, as províncias da atual região sudeste ganharam certa notoriedade em relação ao número de alunos que partiram para Coimbra em relação ao nordeste da Colônia, em especial o Rio de Janeiro, porém a “Baía”, no período recortado pelo autor (1600-1850), foi a localidade que proveu o maior número de alunos para a universidade portuguesa (974, equivalente a 35,28%). Contudo, foi só a partir do início do século XVII que a matrícula de alunos brasileiros, na instituição coimbrã, apresentou alguma regularidade, antes disso os registros eram esparsos. O primeiro a defender essa tese foi José Murilo de Carvalho em A construção da ordem/O teatro de sombras. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
13
A respeito ver: SÜSSEKIND, Flora. O Brasil não é longe daqui. O narrador, a viagem. São Paulo: Cia das Letras, 1990; CANDIDO, Antônio. Formação da literatura brasileira (momentos decisivos) 1750-
1836. 8.ed. Rio de Janeiro, Belo Horizonte: Itatiaia, 1997; CANDIDO, Antônio. Literatura e Sociedade.
São Paulo: Publifolha, 2000; MARTINS, Wilson. A palavra escrita. São Paulo: Anhambi, 1957; MARTINS, Wilson. História da Inteligência brasileira. v.2 (1794-1855). São Paulo: Cultrix; Editora da Universidade de São Paulo, 1977-78; FRANÇA, Jean Marcel Carvalho. Literatura e sociedade no Rio
dotar o país de uma cultura nacional. Essa cultura escrita brasileira é fundada em, pelo menos, três elementos fundamentais: a oralidade,14 as narrativas de viagem e o florescimento de uma cultura técnico-científica.
O conhecimento técnico-científico era, nos planos dos homens de letras, indissociável da idéia de civilização e progresso. A imprensa periódica foi uma das ferramentas mais importantes utilizadas por esses homens para fazer circular o conhecimento com maior abrangência e amplitude. Os temas técnicos e científicos nela veiculados foram elementos que compuseram de maneira ímpar a nascente cultura escrita. Ao lado da literatura, das narrativas de viagem e dos ensaios de economia política – temáticas sempre tratadas por toda a imprensa – os artigos sobre ciência e técnica fizeram parte da definição de país que os letrados construíram ao longo da primeira metade do século XIX.
A imprensa periódica floresceu tanto no Brasil quanto nos outros países da América. Em todas os lugares, os papéis assumidos por ela foram, relativamente, similares.15 O papel educativo da imprensa, exposto nos capítulos anteriores, baseava-se numa crença que considerava...
...o poder das ideias de aprimorar a sociedade, e a convicção de que a imprensa periódica, veiculando ideias, tinha grande potencial para educar o público. Os periódicos eram muitas vezes descritos como eficientes ‘difusores de luz’, como ‘propagadores de ideias pela sociedade e como indispensáveis instrumentos de progresso.16
No Brasil, os instrumentos para o progresso estavam à mão. A impressão de material escrito, como vimos, foi autorizada em 1808. A partir desse momento diversos tipos de impressos passaram a fazer parte do cotidiano brasileiro, especialmente do fluminense, que pôde adquirir seus livros, panfletos e periódicos de maneira muito mais fácil. As idas à Rua do Ouvidor – com suas lojas variadas – para adquirir livros diretamente nas tipografias ou nas casas dos livreiros (brasileiros e franceses), gradativamente, tornou-se um hábito, pelo menos para a parcela letrada e abastada da população.
14
SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Cultura letrada e cultura da oralidade no Brasil do século XVIII e início do século XIX. Revista Portuguesa de História, Coimbra, t.XXXIII, p.561-577, 1999.
15
Ainda nos primeiros decênios do século XIX temos, por exemplo, no Chile, em 1818, a publicação do “El Duende de Santiago”, que queria acima de tudo “fomentar a educação do vulgo”. Alguns anos antes, em 1811, surge no México o “El Mentor Mexicano”, que imputava a si próprio a missão de acabar com a “ignorância popular”. PALLARES-BURKE, Maria Lucia Garcia. A imprensa periódica como uma empresa educativa no século XIX. Cadernos de Pesquisa, FGV, n.104, p.144-161, jul., 1998, p.147 16
Nos anos iniciais, entretanto, nem tudo era uma maravilha, pois entre 1808 e 1821 um sistema imperfeito de censura ainda se fazia sentir, tanto no Brasil quanto em Portugal. Alguns dos letrados levantaram-se contra essa situação. As críticas mais ferrenhas vieram, como era de se esperar, de Londres. Hipólito da Costa, sempre um entusiasta dos progressos que o reino do Brasil passara a vivenciar após a transferência da Corte, tornou-se o principal crítico dos pontos falhos que ainda persistiam no processo.
O redator, desde o número de estréia de seu magazine, havia alertado que se esforçaria para veicular o lançamento do maior número de obras em português. Entretanto, conhecendo o momento pelo qual passava a literatura portuguesa, não esperaria gastar muito tempo nem papel com esta temática, pois considerava que as ciências em Portugal não estavam em pé de igualdade com as das outras nações mais avançadas da Europa, como, por exemplo, as da Inglaterra.
Contudo, Hipólito da Costa frisou que o estado da literatura portuguesa não era melhor do que o da brasileira, pois, nas terras do reino, os homens de letras sofriam