“A lucta é a luz. Do suor do operario formam-se as cidades – das lagrimas do mendigo ergue-se o poema.
Benditos os que choram! Benditos os que soffrem! A vida encerra-se nesse eterno miserere e a dor é um tributo dos heroes! Sim! Porque o soffrimento é a história do coração e a dor a expressão dos ideaes supremos!
Ai dos que não choram! A chama do sentimento já não lhes illumina o espírito, são os depauperados da consciência! E tristes dos que não soffrem! Cadaveres ambulantes, caminham ao acaso, ou são levados pelo carro de Moloch...” Phocion
Primeiro de janeiro de 1890, o jornal Diário de Sorocaba púbica seu editorial saudando o ano que se inicia, já sob os auspícios da República recém proclamada:
Salve, 1890!
Como um caminheiro do futuro assenta elle a sua funda sobre um campo vasto onda há muita vida e muita cousa a fazer!
A vida industrial passando por todas as suas phases boas ou más, não dispensa o seu concurso activo para a realização de importantes commetimentos que não dependem de dias, mas de annos e até de séculos para a perfectibilidade completa da existência humana.
Venha pois com a continuidade da obra do passado tomar parte commoções elétricas do progresso, que se agita como revolvendo os elementos de uma vida nova que se inicia.
Não façamos o elogio fúnebre do anno que se despede, cercado de opprobios de uns e bençams de todos: guardemos apensas uma veneração intima pelo grande centenário político da França e pelo raiar brilhante de uma nova era para o Brazil, nem formulemos previsões pelas esperanças que se aninham em nossos corações.
Não demos tempo ao tempo.
Seja a vida ativa e laboriosa do povo a melhor garantia do seu domínio, e façamos do trabalho honrado, exclusivamente do trabalho, as bases sobre que assente todo o edifício do futuro.
(…) Assim: ao saudar os nossos leitores pela feliz entrada de 1890, não podemos esquecer aquelle que nos deu o 15 de novembro, como 1831 o 7 de abril e 1888 o 13 de maio, datas gloriosas que sybthetisam a soberania popular, a energia de um povo, que começou a agir contra o servilismo aviltante que o degradava.
Animados, pois, pelas esperanças do futuro nos é grato exclamar como um cantigo que consagramos ao progresso:
Salve, 1890! Successor do glorioso 1889!1
Esse editorial saiu da pena de Manuel Januário de Vasconcellos, um dos mais importantes jornalistas da história da imprensa sorocabana. Maneco Januário, como era conhecido na cidade, foi um republicano histórico, tendo aderido já em 1870 ao célebre manifesto de 1870. A atividade jornalística foi o meio que escolheu para exprimir seu ativismo político. Dessa forma, podemos compreender o tom otimista daquele editorial, lançando mão de expressões, tais como: “commoções elétricas do progresso”, “não dar tempo ao tempo”, além de referências ao primeiro centenário da Revolução Francesa. Trata-se de um cântico ao progresso, que a República prometia efetivar no país.
Uma das questões mais importantes nos primeiros meses do novo regime envolveu a 1 Diário de Sorocaba, 01/01/1890.
reforma financeira concebida por Rui Barbosa, na qual, dentre outras medidas, procurou substituir “o lastro-ouro pelos títulos da dívida federal como lastro de emissões bancárias.”2
Essa reforma ficou conhecida como Encilhamento e foi documentada pelos escritores contemporâneos. Dentre eles, o monarquista Visconde de Taunay, cujo livro se tornou um importante registro histórico sobre a febre especulativa que tomou conta da capital federal bem como de todo o país. Ele apresenta o Encilhamento como
uma espécie de redemoinho fatal, de Maelstrom oceânico, abismo insondável, vórtice de indômita possança e invencível empuxo a que iam convergir, em desapoderada carreira, presas, avassaladas, inconscientes no repentino arroubo, as fôrças vivas do Brasil, representadas por economias quase seculares e de todo o tempo cautelosas, hesitantes, de encontro a cujos vidros enquebráveis, convexos, se atiram , nas sombras da noite e nos vaivens da tempestade, grandes e misteriosas aves do oceano, para logo caírem malferidas, moribundas, ou sem vida e fulminadas sobre ásperos rochedos, na base das Tôrres agigantadas.3
Machado de Assis também deixou suas impressões sobre esses acontecimentos, descrevendo o suposto eldorado que tinha se transformado o Rio de Janeiro, onde se negociavam diariamente muitos milhares de contos de réis. “Eram estradas de ferro, bancos, fábricas, minas, estaleiros, navegação, edificação, exportação, importação, ensaques, empréstimos, todas as uniões, todas as regiões, tudo o que esses nomes comportam e mais o que esqueceram. (…) Cada ação trazia a vida intensa e liberal, alguma vez imortal, que se multiplicava daquela outra vida com que a alma acolhe as religiões novas. Nasciam as ações a preço alto, mais numerosas que as antigas crias da escravidão, e com dividendos infinitos.”4
Essas narrativas, apesar do forte teor crítico por parte de Taunay, parecem confirmar aquela “comoção elétrica” mencionada por Maneco Januário. E, provavelmente, esse frenesi não era algo percebido apenas na capital, uma vez que Sorocaba também se viu engolfada pelo Encilhamento.
Como escreve Aluísio de Almeida, o fenômeno foi registrado em Sorocaba, 2
CRUZ COSTA, João. Pequena história da República. 1989, pp. 52-53.
3 TAUNAY, Viconde de. O Encilhamento. [s.n.], pp. 17-18. 4 ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. 2002, p. 139.
especialmente através de Pierre Labourdenne, um estrangeiro que chegou à cidade por volta de 1888, e que poderia se encaixar perfeitamente no enredo elaborado por Taunay.
Labourdenne, ao longo de 1890, escreve artigos no Diário de Sorocaba defendendo a pujança da cidade. Por exemplo, em julho de 1890, publica um texto no jornal de Maneco Januário criticando aqueles que duvidam do progresso da cidade em função da falta de lavoura de café na região.
Muitos espíritos inconscientes e em tanto retrógrados tem avançado que Sorocaba, devida á falta de lavoura de café, tinha sido pouco aquinhoada pela natureza, e que, difinitivamente, era uma pobre e decadente; como amigos e edmiradores da elegante e faceira princeza do Sul, cumpre-nos dar immediatamente um desmentudo formal a tam errôneas e infundadas asserções.5
Labourdenne, neste mesmo ano, obtém junto à Intendência local diversos privilégios como a concessão para a construção de linha de bondes, telefones e até encanamento. Todas essas atividades são noticiadas com grande destaque pela imprensa local:
A Intendência Municipal, em sessão de 14 do corrente, lavrou contrato com o dr. Pierre Labourdenne Saint Julia um contracto para a realização de um dos mais importantes melhoramentos a que poderíamos aspirar – a construcção de linhas de bondes dentro do perímetro da cidade pelos subúrbios, e estabelecimento de linhas telephonicas. / Não é necessário ter grande penetração para comprehender á primeira vista o grande incremento que com isso vae tomar a nossa cidade e o valor que terão os terrenos até hoje desproveitados e que se prestam pela sua excellente posição ás mais commodas e hygienicas habitação.6
Porém, todos esses projetos acabaram não se realizando e a cidade ainda teria que esperar alguns anos por esses melhoramentos. O fiasco teve até um episódio pitoresco protagonizado, é claro, por Labourdenne, quando este para não perder a concessão da construção das linhas de bondes, monta uma verdadeira mise-en-scène, simulando o início das obras e a colocação dos primeiros trilhos para os bondes. Apesar de não ficar claro, certamente tratava-se de um linha de bondes a tração animal. A imprensa local, sem suspeitar 5 Diário de Sorocaba, 17/07/1890.
de nada, registrava o episódio:
Ante hontem, as 9 horas da manhã, o dr. Pierre Labourdenne de Saint Julian, concessionário das linhas de bondes, neste município, procedeu á inauguração das mesmas começando pelo fim da rua do Hospital [atual
Álvaro Soares], em frente á oficina da Sorocabana, o assentamento de
trilhos, cujo primeiro cravo, foi batido pelo sr. Tenente João Batista Fontoura, vice presidente em exercício da presidência da Intendência Municipal, colocando-se também nessa ocasião o primeiro poste da linha telefônica.
Achavam-se presentes muitos cavalheiros e o trabalho foi dirigido pelo hábil engenheiro dr. Ernesto Rodrigues Chaves, Presidente da Cooperativa de Industria e Comercio.
A bitola adaptada para os bondes é de um metro entre trilhos, o que trará, já para a condução de cargas, já para a de passageiros, grandes vantagens e comodidades.
Disse-nos, o sr. Dr. Labourdenne que já estão dadas as providencias para que continuem as obras no maior curto praso.
Finda a cerimônia, o sr, dr. Labourdenne fez servir aos seus convidados um laito e bem servido almoço no conhecido Hotel Brasileiro, manifestando-se então mais uma vez a sincera e franca jovialidade de caracter daquele amável cavalheiro.
Ao champanhe ergueram-se diversos brindes, entre os quais do diretor desta folha ao sr. Labourdenne pelo progresso desta cidade.
(…) Concluindo, felicitamos ao ilustre concessionário, fazendo votos pela prosperidade da empreza, que será também a de Sorocaba.7
Como se pode depreender, Labourdenne engabelou não apenas o redator do Diário como também autoridades gradas da cidade. Não é sem razão que o historiador Aluísio de Almeida arremate todo o ocorrido de maneira irônica: “e houve gente para tomar um regabofe com ele.”8
Interessante notar a defesa que o jornal de Maneco Januário faz em favor de toda essa movimentação de capitais e construção de novas empresas que marcaram o período do Encilhamento. Em julho de 1890, num artigo de fundo intitulado “Emprego de capitais”, um colaborador do jornal pondera a opinião daqueles que criticam a “febre de emprezas” e pedem mais prudência, mas coloca:
Até quando nos está reservada a posição de espectativa que, por demorada, torna-se ridícula? O Brazil já não é um paiz de hontem; depois o conjuncto
7
Diário de Sorocaba, 12/07/1891. Apud: GASPAR, Antonio Francisco. Sorocaba de ontem: crônicas da cidade. 1954. pp. 225-226.
de acontecimentos dos últimos tempos, e sobre tudo o golpe decisivo mudou os destinos da pátria, mostram claramente que já não vivemos nos tempos em que as responsabilidades contrahidas por partes interessados, não passavam de meras ficções para caçar o compromettimento de uns em proveito de outros.” Sem exagerar no excesso de otimismo, o articulista,
salienta que se tratava de uma nova era que se abria a todas as atividades, mas especificamente das indústrias. Assim, “Derivada, pois, de um
acontecimento ainda maior, a evolução da industria, do trabalho e da iniciativa, que actualmente se nota, não é mais que a reacção contra a inactividade em que sempre sepultou-se uma nação tam rica de elementos de vida e prosperidade.9
A historiografia sobre o tema tem, geralmente, seguido o retrato elaborado por Taunay: um momento pautado exclusivamente pela febre especulativa e crédito fácil que não poderia durar e não durou; tendo a sua débâcle provocado a ruína financeira da nação.10
No entanto, algumas pesquisas, sem negar esses aspectos deletérios acarretados pelo Encilhamento, procuram destacar também os aspectos efetivamente positivos trazidos pela política financeira de Rui Barbosa. Talvez o primeiro trabalho a apresentar uma perspectiva mais nuançada do período foi o de Stanley Stein, sobre o desenvolvimento da indústria têxtil no Brasil. Para esse historiador, apesar dos excessos especulativos, o boom provocado por essa política financeira desencadeou uma situação que não pôde mais ser contida, representando, dessa forma, “uma tentativa de romper com o lento, conservador e rotineiro passado agrícola, simbolizado pelo Império, para dar vazão à “verdadeira energia americana”. A indústria democrática apontava o caminho da modernização e revitalização do país.”11
Segundo Stein, os contemporâneos apontaram a década de 1890 como um período de grande expansão da indústria têxtil algodoeira.12 Portanto, esse período não se resumiu apenas
9 Diário de Sorocaba, 19/07/1890; 10
PRADO JUNIOR. Caio. História econômica do Brasil. 1977, pp. 219-220.
11 STEIN, Stanley J. Origens e evolução da indústria têxtil no Brasil – 1850-/1950. 1979, p. 97.
12 Wilson Suzigan em seu estudo sobre a indústria brasileira, aponta o período do Encilhamento como um dos
mais controvertidos no âmbito da historiografia econômica brasileira, ao lado do período da Primeira Guerra Mundial e dos anos da crise do café e da Grande Depressão da década de 1930. Suas pesquisas a respeito do Encilhamento e da gênese do capital industrial convergem com as análises originais de Stein. “De fato, há evidência segura de que o investimento industrial aumentou substancialmente durante o Encilhamento (…) Algumas das maiores empresas industriais brasileiras de todos os tempos foram fundadas durante o Encilhamento.” SUZIGAN, Wilson. Indústria brasileira – origem e desenvolvimento. 2000, pp. 50-51.
a empresas fictícias que não saíram do papel e personagens como Pierre Labourdenne. No contexto sorocabano, essa política acabou configurando-se como fundamental para o impulso industrial da cidade. Com efeito, grandes fábricas foram fundadas na cidade, justamente no ano de 1890. A fábrica de tecidos Votorantim , a fábrica Santa Rosália e a fábrica Santa Maria, esta começando a operar em fins de 1896. Um ano após a sua fundação, a Votorantim foi ampliada com a estamparia.13
Diante disso, podemos compreender melhor a defesa daquela política financeira por parte de um jornal como o Diário de Sorocaba que, por sua vez, expressava os anseios de boa parte da burguesia local que buscava há muito tempo, como veremos adiante, uma diversificação das atividades econômicas da cidade.
Por conseguinte, durante o último decênio do século XIX, já estava clara a preeminência da atividade industrial em Sorocaba. E não por coincidência começam a aparecer as primeiras referências da cidade como uma espécie de Manchester brasileira ou paulista.14
Provavelmente, a primeira menção nesse sentido aparece na imprensa local em março de 1895, através de uma série de textos intitulados “Viagem a Sorocaba”, escritos por Napoleão Baldy. Trata-se do relato das impressões colhidas por Baldy em sua visita a Sorocaba. Já na introdução do seu trabalho ele escreve: “Embora, não seja uma obra o que escrevo, comtudo, no meu trabalho, trata-se de um município importante, de uma florescente cidade,
13
SILVA, Paulo Celso da. De novelo de linha a Manchester Paulista – Fábrica têxtil e cotidiano no início do século em Sorocaba. 1995, p. 72.
14 É importante salientar que o título de Manchester brasileira não foi exclusivo de Sorocaba. A comparação
com a famosa cidade industrial da Inglaterra, ao que parece, estava presente no imaginário de toda a cidade brasileira que passava por um processo de industrialização, particularmente pela instalação de fábricas têxteis. É o caso de Salto, quando inaugurou a sua primeira fábrica de tecidos, em 1875. Nessa época a localidade era um bairro pertencente à cidade de Itu, interior de São Paulo. Desde a instalação dessa fábrica “tanto os jornais ituanos como os de São Paulo previam sua transformação numa pequena “Manchester Paulista”. ZEQUINI, Anicleide. O quintal da fábrica: a industrialização pioneira do interior paulista Salto – SP, séculos XIX e XX. 2004, p. 89. Outra cidade a ganhar tal cognome foi Juiz de Fora, graças à instalação de uma grande fábrica têxtil, em 1898. HARDMAN, Francisco e LEONARDI, Victor. História da indústria e do trabalho no Brasil (das origens aos anos vinte). 1991, pp. 127-128.
a Manchester do Estado de São Paulo, não sendo de admirar que tenha uma introdução.”15
Baldy descreve as fábricas e o comércio de Sorocaba relacionando-os com o crescimento da cidade: “Que de evoluções para o futuro, que de movimento, que de accumulação de industrias, que de materia prima, de que resultará excessivo augmento á cidade.”16
No ano seguinte, o jornal O 15 de Novembro intitula com a expressão Sorocaba
Manchester, uma nota sobre a instalação de uma fábrica de calçados movida a vapor, na
cidade. O texto termina da seguinte maneira: “De nossa parte, damos parabéns ao nosso amigo
Grandino [Francisco Grandino, capitalista, dono da fábrica], e a Sorocaba, por vermos que a nossa cidade há de, com razão, ser Manchester do Estado de São Paulo.”17
Essa relação, como se nota, já “estava no ar” fervilhando a imaginação da burguesia local, camadas médias e dirigentes políticos da cidade, durante toda a década de 1890. No entanto, como estamos pensando essa expressão a partir do conceito de representação, ou seja, procurando apreender e historicizar o termo a partir das significações simbólicas que ele encerra, o batismo da cidade como Manchester brasileira e/ou paulista possui data definida. Ele surgiu com toda a pompa e circunstância através do discurso de Alfredo Maia, à época superintendente da Estrada de Ferro Sorocabana.
Na sua edição do dia 5 de janeiro de 1905, o jornal O 15 de Novembro anunciava a inauguração dos trabalhos para a construção de uma grande usina hidroelétrica, junto à cachoeira do salto de Itupararanga. Tal obra seria executada pela Empresa Elétrica de Sorocaba, tendo à sua frente Bernardo Lichtenfels Júnior, um dos grandes capitalistas da cidade.18
Mas o realce maior é dado à visita de Alfredo Maia, superintendente de Estrada de Ferro Sorocabana. A burguesia sorocabana tecia os mais rasgados elogios ao superintendente 15 O 15 de Novembro, 07/03/1895.
16
O 15 de Novembro, 28/03/1895.
17 O 15 de Novembro, 09/07/1896. 18 O 15 de Novembro, 05/01/1905.
em função de sua administração ter recuperado financeiramente a Sorocabana. A própria nota do jornal ratifica mais uma vez esse fato. “Quem de viso presenciou a febre de destruição e de ruína, de loucura e de vandalismo que assolou a futurosa empreza de viação sul paulista; quem contemplou de perto o estrago e desbarato, o desmantelamento a que chegaram suas linhas devido á insânia casada á inépcia de uma diretoria tresloucada; quem, finalmente, se viu em pouco tempo reerguer-se do seu abatimento de morte, revigorar-se, sob o influxo fecundo de uma administração sabia, sensata, intelligente, não póde com justiça deixar de prestar ao nosso illustre hospede o tributo de suas homenagens.”19
Alguns dias depois, o jornal O 15 de Novembro noticia com grande destaque os festejos.
Apesar da impertinente chuva que cahiu até as três horas da tarde, tiveram grande brilhantismo, escedendo mesmo a espectativa geral, as festas realisadas nesta cidade, na ultima quinta feira, pela Empreza Electrica Sorocaba, solemnisando a inauguração dos seus trabalhos e em homenagem ao benemérito superintendente da Sorocabana dr. Alfredo Maia.
A cidade engalanou-se toda para receber o superintendente da Sorocabana. Às seis horas da tarde, vindo do Itupararanga, chega o trem à estação. Maia e sua comitiva “foram recebidos entre vivas enthusiasticos, sob as notas vibrantes do hymno nacional executado pelas bandas musicais além do espoucar de innumeros foguetes e uma bateria de 21 tiros.” Após os cumprimentos a comitiva dirigiu-se ao “grande Hotel do Vicente.”
Chegando ao Hotel o préstito, usou da palavra, em eloqüente improviso, em nome do povo, o nosso ilustrado collaborado major França Junior que saudou no sr. Dr. Alfredo Maia, o cidadão distincto, brasileiro illustre, o administrador justo e esforçado que tomando a Sorocabana em estado de ruína, conseguiu fazer della verdadeiro instrumento do progresso. O discurso do festejado, abundante de felizes expressões, agradou muito, sendo suas ultimas palavras cobertas de estrepitosos applausos.
19 Idem. Para se ter uma idéia da irritação dos sorocabanos com relação ao antecessor de Alfredo Maia, quando
da sua demissão organizou-se uma festa na cidade. É o que indica o seguinte panfleto: “Convida-se a população sorocabana para reunir-se hoje ás 7 horas da noite no largo da Matriz, em frente ao Club Aymorés, onde será organisado um prestito que percorrerá as principais ruas da cidade, manifestando, o seu regosijo pela demissão do presidente da Companhia Sorocaba, Casemiro da Costa, que tanto mal fez a esta terra e a zona Sul-Paulista. / Para commemorar este feliz acontecimento, pede-se ao povo illuminar a frente das casas, e ao commercio fechar suas casas de negócios. Viva o governo de S. Paulo! Viva o Dr. Bernardino de Campos! Sorocaba, 22-VIII-902. A commissão de festejos.” Acervo Gabinete de Leitura Sorocabano.
Em seguida toma a palavra o próprio Alfredo Maia, agradecido e comovido pela
“significativa manifestação que fazia o povo desta terra que é o berço da Estrada de Ferro Sorocabana. E passando a referir-se ao desenvolvimento da futurosa via férrea, affirmou o illustre orador que dentro de não muitos annos, ligada a Matto Grosso, ao Prata, ao Paraguay, será ella a primeira do Brasil. E quando tiver attingido a esse desenvolvimento, quando tudo isso se realisar, disse o orador, Sorocaba será a Manchester brasileira (grifo nosso). E não é isso exagero: a um povo intelligente emprehendedor e generoso como o sorocabano, disse o sr. dr. Maia, pode-se augurar um brilhante futuro. Terminou o illustre manifestado seu discurso entre enthusiasticos applausos, saudando a grandeza, o futuro, a gloria de Sorocaba.”20
O jornal Cruzeiro do Sul, que na época fazia oposição ao poder executivo da cidade,