“A sociedade que modela tudo o que a cerca construiu uma técnica especial para agir sobre o que dá sustentação a essas tarefas: o próprio território. O urbanismo é a tomada de posse do ambiente natural e humano pelo capitalismo que, ao desenvolver a sua lógica de dominação absoluta, pode e deve agora refazer a totalidade do espaço como seu próprio cenário.”
Em meados do século XVII, quem partisse da vila de Piratininga rumo a oeste em direção aos sertões da província de São Paulo, “atravessaria terrenos acidentados e recobertos de matas do Planalto Atlântico, até alcançar a área de topografia suave e vegetação menos densa da Depressão Periférica.”1 Essas duas regiões eram unidas pela larga várzea do rio Sorocaba, configurando-se, dessa forma, como um caminho natural que ligava São Paulo de Piratininga a Assunção do Paraguai.2 Os primeiros povoadores europeus foram atraídos para essa região pela atividade de apresamento de índios, bem como à mineração de ferro no morro de Araçoiaba. Em função de tais atividades, no primeiro quartel do século XVII, formaram-se alguns povoados na região. Porém, o que vingaria, seria aquele estabelecido por Baltazar Fernandes, morador do sertão de Parnaíba, que obtivera sesmaria nessas paragens. Embora soubesse da existência desses outros povoados, Fernandes decidiu escolher um novo sítio, “na margem esquerda do rio Sorocaba, sobre um espigão arenítico, onde ergueu uma capelinha, dedicando-a a Nossa Senhora”[da Ponte]3. Daí a inferência de que a fundação desse novo vilarejo tenha se dado em 15 de agosto de 1654, pois o dia e o mês se referem à padroeira da cidade.
Essa colina principal tinha, então, como limites geográficos o rio Sorocaba e seu afluente, ao norte, o rio Supiriri.4 Ainda no século XIX, grosso modo, o núcleo urbano estava contido dentro desses limites. Em 1839, atravessando o rio Sorocaba, havia apenas a rua São Paulo, que levava esse nome porque era justamente o caminho de quem vinha de São Paulo. Em 1856, essa rua foi ligada à rua-estrada dos morros [posteriormente denominada Nogueira Padilha] pela rua da Boa Morte. Além da várzea do Supiriri, erguia-se outra colina, no topo da qual foi erigido o Cemitério Municipal.5
Aluísio de Almeida, em seu estudo sobre a Revolução Liberal de 1842, ao descrever o 1
SANTOS, Elina O. A industrialização de Sorocaba – Bases geográficas. 1999, p. 71.
2 Idem.
3 Idem,. p. 72. 4
Cf. mapas em anexo. pp. 329-336
cenário urbano, mostrava que o viajante que chegasse à cidade de Itu ou São Paulo, pela estrada de rodagem ou de ferro, avistava “diante de si no bloco central das edificações o mesmo panorama que comoveu a Caxias descendo a Boa Vista, como se fora uma presa conquistada e a Feijó, como se fora a Meca do liberalismo. Entrando de carro na Avenida Siqueira Campos, que o povo ainda denomina rua de S. Paulo [felizmente o nome não foi mantido e a rua, posteriormente avenida, voltou a se chamar São Paulo], larga e aberta poderá o peregrino observar o típico feitio colonial das casas baixas, até a ponte.” Em outro trecho escreve: “Quem quiser formar uma idéia de como era Sorocaba em 1842 basta percorrer-lhe as ruas centrais de hoje [década de 1940]. Onde se lhe deparar uma casa baixa de taipa ou um sobrado antigo, creia que está ali uma testemunha muda de um século.”6
A fundação da Estrada de Ferro Sorocabana, em 1875, se constituiu como um marco na história da cidade, não apenas de uma perspectiva econômica e social, mas também geográfica, pois a existência da linha férrea no cenário urbano iria marcar profundamente o seu desenvolvimento posterior. Assim, o rio e a estrada de ferro acabaram por dar nomes muito peculiares às regiões da cidade. Com efeito, a partir do núcleo primitivo, a parte da cidade do outro lado do rio, que começava depois de se atravessar a ponte sobre o rio Sorocaba, com o tempo ficaria conhecida como Além-Ponte. Por sua vez, a região que cresceu do outro lado dos trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana, ou seja, para além da várzea do Supiriri, já que os trilhos da ferrovia corriam paralelos ao rio, ficaria conhecida como Além- Linha. Como pretendemos mostrar nesta pesquisa, o espraiamento da malha urbana em direção ao norte da cidade, quer dizer, à região do Além-Linha, traria uma série de dificuldades no que se refere às comunicações urbanas.
O Código de Posturas, editado em 1906, no seu artigo primeiro, indicava o perímetro da cidade:
Na estrada de S. Paulo, a casa que fica na esquina desta estrada e a estrada que vai ao bairro do Caputera; na estrada dos Morros, até o portão que divide com terrenos de José Ferreira Prestes; na estrada do Rio-acima, até o portão da Fábrica Santa Maria; na estrada de Piedade, até á ponte da
Água Vermelha; na estrada do Vossoroca [caminho para a atual cidade de
Votorantim], até o portão da chácara do finado padre Antonio, na estrada do bairro de Itinga, até o pontilhão da estrada de ferro; na estrada de Porto Feliz, até o fim da rua do Ipanema.7
Esse mesmo artigo se repetiria nas codificações seguintes de 1915, indicando que até a metade da década de 1910, o perímetro urbano da cidade não era muito diferente da Sorocaba da época das célebres feiras de animais, no século XIX.
Em 1870, ainda no período das feiras, o jornal O Sorocabano reclamava da precariedade da iluminação pública na cidade:
Há tempos a esta parte supprimiram a illuminação publica d’esta cidade. É uma falta sobre modo sensível, e contra a qual não podemos deixar de reclamar.
A illuminação de uma cidade não é somente objecto de luxo e commodidade, mas também, e principalmente, medida preventiva contra o vicio, e o crime, que buscam o favor das trevas, para a salvo conseguirem seus fins.
Uma boa illuminação vale meia policia…, mais, porque protege o cidadão e não tem o poder de perseguir o innocente.
São verdades comesinhas, essas.
Não sabemos a que é devida a falta, que lamentamos. Parece-nos que há, para esse serviço, verba não escassa. Existem os lampeões, e respectivos apparelhos.
A Câmara Municipal, que se tem desvelado em dotar esta cidade de notáveis melhoramentos, pedimos providenciais afim de que se restabeleça o que já tivemos. Si não é possível progredir, é preciso, ao menos, não retrogradar. Temos certeza de que a Câmara não deixará de envidar esforços para o conseguimento de serviço tam necessário, ou seja por empreitada, ou por administração.8
De acordo com o texto, a iluminação na cidade, que era feita por meio de lampiões a querosene, já tinha sido, inclusive, melhor em tempos passados. Dois anos depois, o jornal O
Americano tratava da mesma questão da iluminação pública, abordando um ponto semelhante
ao artigo anterior, ou seja, a boa iluminação como uma forma eficiente de combate à
7
Codificação das Leis da Câmara Municipal de Sorocaba, 1906, p. 19.
criminalidade, além de ser um signo de cultura e inteligência humana.9
Sorocaba, ao contrário de outras cidades, como Campinas, nunca teve iluminação a gás. Antes dos lampiões de querosene, no início do século XIX, a iluminação era feita através de azeite de peixe, “nome popular da gordura da baleia, que ainda se caçava na Bahia. Vinha em lombo de burro desde Santos.”10 O azeite era acondicionado nos lampiões colocados em alguns postes de madeira na cidade. Os lampiões a querosene apareceram em 1863 e persistiram até a chegada da eletricidade.
Portanto, na década de 1890, a questão da iluminação pública se tornava algo premente diante do reconhecido estado de obsolescência em que se encontrava o sistema de iluminação da cidade. Em dezembro de 1890, a Câmara Municipal celebrava um acordo com Francisco José Speers para a iluminação pública e particular, à base de luz elétrica “pelo sistema Westing House pelo tempo de privilégio de 50 anos.”11 No entanto, havia quem argumentasse sobre as vantagens e desvantagens da utilização da eletricidade em relação à iluminação a gás. Era o caso de um artigo publicado no Diário de Sorocaba, em dezembro de 1890:
Levado pelos mais patrióticos sentimentos, consta-nos, a Intendência Municipal, ao empossar-se, pretende dotar a nossa população com importantes melhoramentos. Entra no nº deles, um sistema mais aperfeiçoado de iluminação pública, isto é, a luz elétrica.
Não duvidamos probidade e dedicação, que envidarão todos os esforços possíveis para bem compensar a confiança do governo, escolhendo-os para os primeiros a manterem a autonomia do Município. Entretanto, convém pensar antes de fazer, estudar antes de obrar.
A luz elétrica, por exemplo, levada por uma errônea apreciação á altura de um grande cometimento, tem provado que são falsos os seus argumentos. Não discutimos. Chamamos para testemunhar as judiciosas considerações insertas num dos últimos números do estimado Diário Popular. Leiam, meditem e depois façam.
Segundo o noticiaram as folhas públicas, está pendente da aprovação do governo do Estado de São Paulo, uma proposta da Cia de Luz Elétrica para iluminar esta Capital por meio de eletricidade, em substituição aos gáz carbônico.
Não tenho a mínima dúvida a suficiência e o zelo com que o digno
9
O Americano, 21/11/1872.
10
ALMEIDA, Aluísio de. Memória histórica sobre Sorocaba (VIII). Revista de História. 1968,p. 359.
superintendente das obras públicas , Sr. Engº Paula Souza, examinará este negócio, que lhe será sem dúvida submetido pelo honrado governador do Estado, e se venho falar nele Sr. Redator por intermédio de seu conceituado jornal, é pela circunstância de haver lido ultimamente, no Jornal pariziense Le Soleil, de 11/9 próximo passado, uma notícia um tanto desanimadora sobre a iluminação.
Não há mais de um ano e meio que eu deixei a Europa, tenho residido durante oito anos em vários países daquele continente, e em nenhuma das cidades que eu visitei, a luz elétrica é ainda empregada, regularmente, na iluminação pública.
Não quero de maneira alguma estorar este, nem melhoramento algum no meu País; ao contrário, desejo sinceramente vê-lo na vanguarda da civilização. Por isso, penso que devemos proceder sempre com ciência e prudência não nos arriscarmos em experiências e inovações que não tenham ainda a sanção da prática máxima, quando se trata de melhoramentos que interessam particularmente a comodidade das populações e custam bom preço. O incucesso de tais experiências traz ordinariamente desanimo e atrazo.12
De qualquer maneira, dois anos depois, o jornal de Manuel Januário Vasconcelos volta a abordar o tema da iluminação na cidade, referindo-se ao acordo com Speer, segundo o qual o serviço seria inaugurado em janeiro de 1893. Pelo andar da carruagem, até aquele momento, nada indicava que o tal melhoramento seria efetivamente encetado. Como de fato não foi. O interessante é que nesse texto editorial, Maneco Januário se refere à iluminação da cidade como nula e marca, mais uma vez, posição em favor da iluminação a gás, fazendo inclusive uma analogia entre o gás e a evolução da cidade:
Mas, para que mesmo esse progredir electrisante para uma cidade, cuja marcha evolutiva tem sido lenta, mas segura? / Contando que aos municípios hoje se duplicaram os recursos para melhor cuidarem de seus interesses e melhoramentos, e tendo nós aqui quase que somente os percalços deste tempo de evoluções, sem qualquer doze dos prós, será demais que peçamos o gaz, que não é uma cousa de outro mundo, e que está demais nas forças do possível de um município que há de necessariamente ter de futuro cento e tantos contos de renda? / Não, não é demais, e nem é um favor que se nos faz a sua adopção.13
Podia não ser demais, mas, certamente, as autoridades públicas da cidade consideravam ser de menos, pois, ao que tudo indica, essa proposta nunca foi aventada
12
Diário de Sorocaba, 17/12/1890.
seriamente, o que os atraia era justamente a projeção de um “progredir electrisante”, um mergulho no Maelstrom da civilização e do progresso do qual a luz elétrica significava um signo por excelência. Ainda mais se se tomar como exemplo a cidade de Campinas que já possuía iluminação a gás desde 1872 e luz elétrica a partir de 1887.
Vasconcelos menciona os percalços “deste tempo de evoluções”, uma referência ao processo claudicante de instalações de muitos dos melhoramentos considerados urgentes pela municipalidade ao longo de toda a década de 1890. Foi assim, como vimos, com os serviços de águas e esgotos, e a mesma situação estava ocorrendo com o problema da iluminação. Isso sem falar nos transportes, nos serviços de viação urbana. Nos primeiros anos dessa década, Pierre Labourdenne, um personagem por nós já conhecido, estava em franca atividade na cidade, prometendo a construção dos serviços de bondes e de linhas telefônicas. Notícias alvissareiras que, evidentemente, ganhavam grande destaque nas páginas do Diário: “Não é necessário ter grande penetração para comprehender á primeira vista o grande incremento que com isso vae tomar a nossa cidade e o valor que terão os terrenos até hoje desaproveitados e que se prestam pela sua excellente posição ás mais commodas e hygienicas habitações.”14
Aqui ficava claro uma das implicações dos melhoramentos, qual seja, a valorização dos terrenos e a perspectiva de aumentos dos lucros para os capitalistas, fazendo deslanchar os negócios prediais na cidade e, conseqüentemente, a especulação urbana. Porém, nenhuma dessas propostas de concessões de bondes vingou efetivamente.
No que se refere, particularmente, aos serviços envolvendo o emprego de eletricidade, a municipalidade parecia estar no bom caminho para a solução do problema ao firmar um contrato, em 1895, com os engenheiros e irmãos João de Oliveira Lacerda e Vicente de Oliveira Lacerda. Tal como noticiado pela imprensa:
Hontem foi lavrado contrato entre a Câmara Municipal e os srs. João de Oliveira Lacerda e Vicente de Oliveira Lacerda, para a illuminação publica e particular da cidade, pelo systema de luz electrica.
A Câmara Municpal pagará pela illuminação publica, que será feita por meio de 300 lampadas, de força de 32 velas cada uma, durante todas as noites, até as 5 horas da manhã, a quantia de 20:000$, annualmente.
A nova illuminação deverá funccionar dentro do prazo de dezoito mezes.15
A notícia, nem poderia ser diferente, causou grande impacto na cidade; aqueles afeiçoados e desejosos das benesses propiciadas pelas inovações da ciência se regozijaram com a perspectiva de Sorocaba, finalmente, ter uma iluminação pública e particular decente. No entanto, houve também recepções diferentes, como uma que foi publicada no jornal O 15
de Novembro, denotando uma profunda tristeza pela notícia. Tratava-se de uma cartinha
enviada para uma das articulistas do jornal, escrita em papel velino perfumado, com letrinha miúda e regular:
Minha Séphora
Escrevo-te esta sob impressão de dolorosa tristeza. Imagina, querida amiga, que li no 15 de Novembro a noticia de que a cidade vai ser iluminada a luz elétrica, durante todas as noutes.
E o nosso luar, Séphora, o nosso luar encantador de Sorocaba vai ser desfeiado, vai ficar sem credito, vai morrer para sempre.
Podemos nós ambas, com lágrimas nos olhos, soluçantes, dizer adeus eterno e essas noutes deliciosas, em que a pallida Ophélia dos infinitos constellados, banha de arvores deslumbrantes as ruas e alvoredos, dando- lhe um aspecto mágico, risonho, puro, innocente como um véo candido de virgem.
Ah!…quanta tristeza, quanta melancholia indefinível não vai agora em minha alma.
Recordas-te? Foi por uma noute branca de luar, poética e magestosa, em que no infinito azul o disco luminoso da lua singrava, singrava e aos meus olhos de quando em vez passavam visões encantadoras, que eu sonhei a primeira vez acordada: sorriu-me ao luar a luz do amor primeiro.
E aquella noute aprazível, esplendida, em que as eltrellas sorriam pela altura, ficou me gravada na mente, povoando minha imaginação como um paraíso ideal.
Pois bem, minha amiga, nunca mais, nunca mais poderei apreciar em todo o seu esplendor uma noute de luar como aquella em Sorocaba, uma noute do céo baixando sobre a terra em ondas luminosas, diluindo-se em chuva de latuscencias sobre os capados arvoredos.
O luar, o encanto de Sorocaba, está moribundo e o sino da torre, parece-me, já dobra a finados.
E é isto que se chama progresso e é isto que se diz em bem, que se cobre de encômios: a morte de um encanto, a profanação sacrílega e brutal das perfeições da natureza!…
Bárbaros e cruéis paladinhos da civilização, não vos treme na dextra o punhal com que ides perpetrar um crime tão hediondo?…
Assassinos!…
E tu, pobre cidade, nem protestas, nem levantas um grito de dor, nem chamas por socorro, quando pretendem arracar-te as vestes mais seductoras, quando pretendem despojar-te da roupagem ethéria e branca dos luares?…
É esta, Séphora, a minha tristeza immensa, porque não só me custa muito perder um bem para sempre, como também isto ainda uma vez me vem revelar que toda a formosura se esvai, se desfeia, com a passagem do tempo minaz, com a vinda fatal do progresso…
Adeus. Tua Débora.16
Apesar de todo o lirismo, da tristeza comovente encerrada nessas palavras, tratava-se de uma voz quase solitária, daí, certamente, o tom melancólico. Isso porque os dirigentes do poder e seus estafetas, inclusive na imprensa, se consideravam justamente esses “paladinos da civilização.” Como que hipnotizados pelos desejos do progresso, desprovidos de quaisquer pruridos românticos e de relações fraternais e amorosas com a natureza, ao contrário, a natureza deveria ser domada, violentada, passando, assim, a atender aos desígnios exclusivos do homem supostamente civilizado. Porém, se servisse de pálido consolo para a leitora, a instalação efetiva desse serviço na cidade ainda demandaria mais alguns anos e estaria sujeita a uma série de peripécias, incluindo um desfecho trágico.
Em 1897, quando se encerrava o primeiro prazo, a cidade foi acometida da primeira epidemia de febre amarela, dificultando os trabalhos. No início de 1898, a Câmara Municipal decide auxiliar o “digno empresário” João de Oliveira Lacerda com um empréstimo de 35 contos de réis. Com a notícia, segundo O 15 de Novembro, a população rejubilava-se diante da perspectiva de finalmente poder gozar de “tão magnífico melhoramento”.17
No entanto, corria já adiantado o ano de 1898 e os munícipes pareciam não ver progressos significativos nos trabalhos; dessa forma, gradativamente, as autoridades e a imprensa começam a perdem a paciência com Oliveira Lacerda. Um primeiro indicativo nesse sentido foi o poema publicado no O 15 de Novembro, em setembro daquele ano:
16
O 15 de Novembro, 06/06/1895.
Luz! Luz!
Ó Lacerda, que cousa tétrica! Essas lâmpadas são mui…escuras. Sae d’ uma vez, de taes funduras Clareie essa luz…electrica!18
Em dezembro, o mesmo jornal, em nota, explicitava toda a sua irritação com o empresário responsável pela iluminação, mencionava a reclamação da população diante da ausência de luz elétrica, algo que poderia fazer com que Lacerda “se penetrasse de brios e levasse a sua tarefa a cabo.”19 Porém, debalde. E o texto levantava a questão: “O que tem feito, o que faz o sr. João Lacerda?”
Essa era também a indagação do colunista J Teimoso, que escrevia em suas Notas e
commentarios:
A única cousa quem ao que parece, ficou paralysada nesta cidade é a famigerada luz electrica. Bem podem annuncial-a postes e fios, cantem-na optimistas mellosos, reclamem-na furibundos jornalistas, tudo em vão: a luz electrica permanecerá sempre…escura.
(…) Prescindimos pois, já que é força fazel-o, de similhante melhoramento de illuminação. Contentemo-nos com os lampeões dos nossos avós e com o luar que vem desde os começos da humanidade. E o certo é que muito falta nos faz a tal electricidade. Isto ordinariamente acontece com as cousas demoradas: progressos querem-se rápidos e seguros…20
A partir daí, os fatos se sucedem. Em julho de 1899, a Câmara Municipal resolve conceder o prazo irrevogável de mais um mês para a inauguração da iluminação elétrica.21 Um mês depois, última forma, concede mais três meses de prazo.22 Finalmente, a inauguração ficava marcada para primeiro de janeiro de 1900. Acontece que em dezembro de 1899 rompe a segunda epidemia de febre amarela na cidade, ainda mais devastadora do que a anterior. No início de 1900, a cidade se encontrava desolada pela epidemia e às escuras. Em maio, com a cidade começando a se recuperar do flagelo e a retomar a sua vida, inevitavelmente, a questão