7. BULGULAR VE TARTIŞMA
7.2. Enerji analizi sonuçları
Lima Lopes (2002: pp. 100-104) observa que a estruturação do processo canônico foi composta por profissionais da Igreja de atuação no processo, o que formou a prática de autonomismo, racionalidade e formalidade para resolução de controvérsias, com nítida influência do pensamento filosófico do período. Este autor destaca ainda que o diferenciador entre o direito insular (inglês) e o continental se dá no âmbito da formação jurisdicional, pois o processo canônico nunca foi incorporado nas cortes de justiça britânicas, ao passo que, na Europa continental, o processo canônico precedeu à organização das cortes de justiça reais. Assim, o processo canônico é que proporcionou a caracterização da condução do processo por profissionais do direito, além do reconhecimento de um sistema de recursos em busca de uniformização; deu-lhe, ainda, uma característica investigativa67, e ênfase ao texto escrito, com a estruturação de um modelo
67 Aqui merece referência trabalho de Foulcaut (A verdade e as formas jurídicas; Nau Editora, Rio, 1999) em que esse intelectual francês aponta o processo inquisitório do direito canônico como base iniciadora do processo de busca da verdade científica futura.
cartorial no processo. Estas são as bases do chamado ius commune, com feição romano- canônica.
Como o processo canônico foi a base utilizada pelo processo comum na Europa continental, vale a pena observá-lo em primeiro lugar. E a base do direito canônico foi o direito natural,
a razão legal, um princípio de coerência interna. Era mais um processo de harmonização lógica, moral e política. Nada ou pouco tinha a ver com a dogmática, ou com uma exegese de regras: a dialética do caso concreto estava sempre presente (Lima Lopes; 2002: p. 99).
A atuação intelectual dos canonistas ou decretistas era principalmente harmonizar e compor hierarquicamente as fontes de autoridade, tendo como primeiro plano as escrituras sagradas e os textos dos padres da Igreja; em segundo plano, os cânones originários dos concílios eclesiásticos; e, em terceiro plano, as decretais dos papas, a par dos costumes locais a serem aplicados.
Havia dois âmbitos de foro: o interno, relativo aos pecados e penitência, vinculado à consciência do cristão, e o externo, relativo à matéria jurídica, em que era aplicado o juizado nos conflitos de direito entre os cristãos. As questões relativas à razão de matéria, ou seja, causas que envolviam problemas que se relacionavam aos sacramentos, como o casamento, juramentos, ou então tinham relação com assuntos diretamente relacionados com o cumprimento ou respeito à fé, como a usura, a heresia, etc., ou mesmo por escolha como arbitragem, eram da competência dos tribunais canônicos.
Da mesma forma, quando se tratava de questões em que eram partes pessoas integrantes da comunidade eclesiástica, ocorria a jurisdição canônica. Ela era composta, inclusive, por membros de ordens menores ou com alguma função clerical; nesse foro em razão de pessoa se incluíam aqueles que participavam de órgãos anexos às catedrais, ou mosteiros, como universidades, ou então os que participavam das cruzadas, ou mesmo os que eram atendidos pela ação beneficente da Igreja, como os miseráveis, órfãos e viúvas (o bispo era considerado, pela doutrina eclesiástica, um pai dos pobres). Mas eram os clérigos que gozavam do denominado privilégio absoluto do foro canônico (cf. Lima Lopes; 2002: pp.99-101).
No âmbito dos conflitos da esfera civil, o processo canônico fez introduzir o texto escrito e a função notarial; como um secretário do juiz, o redator das fórmulas e atos
judiciais permitia a facilitação na constatação das controvérsias apresentadas. Também foram organizadas as fases para o andamento do processo: a queixa escrita do autor, as matérias preliminares e formais para apreciação do libelo, a defesa do mérito, a fase das provas (que permitiu a superação das ordálias, salvo no caso da Inquisição) e, por fim, a decisão. A par disso, havia a presença de um perito que atuava com a parte, sem relação de interesse direto como parte: o advogado. O outro âmbito do processo canônico que ficou na história de forma ignomiosa foi o processo inquisitorial; e isso em função dos tribunais da Inquisição, que representaram o lado extremado e radical de um momento histórico. A bula papal Excommunicanibus (1231), de Gregório IX, organizou o procedimento inquisitorial e determinou aos dominicanos as principais tarefas inquisitoriais. O uso da tortura para produção da prova foi admitido por Inocêncio IV, restando à parte, no entanto, o direito a advogado.
Vale destacar, no entanto, a contribuição do direito canônico para a figura ficcional da pessoa jurídica, que se criou na concepção da corporação, que não possuía raiz da família ou da relação feudal da vassalagem. Sua concepção, certamente influenciada pela ficção bíblica da trindade (três em um), tinha como parâmetro a Igreja, considerada uma universalidade própria e distinta de cada membro. Lima Lopes (2002: pp. 101-102) aponta alguns princípios dessa criação teórica:
a) O princípio da autonomia da associação: qualquer grupo podia juntar-se para formar uma pessoa jurídica (corporação); qualquer corporação detinha jurisdição sobre seus membros (não só as corporações públicas ou políticas); c) havia casos em que o representante deveria ouvir os representados, sob pena de invalidade de seus atos; d) solidariedade entre os membros da corporação: aquilo que pertencia à sociedade pertencia aos seus membros, daí se originava o poder de taxar os respectivos membros; e) quanto aos crimes e à pena imposta o princípio era que o praticado pela maioria dos membros era imputado a todos da sociedade, os praticados pelo representante apenas não se estendia à sociedade toda.
A justiça senhorial, proveniente do império carolíngio, relacionava o direito de justiça com o senhor feudal e incorporava-se às decisões administrativas e demais poderes dessa senhoria em seu território; daí o direito do senhor feudal de confiscar, desconstituir herdades, aplicar penalidades, etc. Assim, o senhor do feudo era também juiz dos procedimentos civis, criminais, administrativos, nos limites da extensão das suas terras e sobre todos os habitantes que estavam ali fixados, ou que se mantivessem por mais de um dia no feudo, inclusive clérigos e estrangeiros naquilo que se referia ao espaço senhorial.
Desde meados do século XIII, passaram a existir dois tipos de justiça senhorial: uma, a justiça de sangue, chamada de Alta Justiça, que se relacionava a casos de derramamento de sangue, crimes em que poderia ser aplicada a pena de morte e de duelo judiciário; a Baixa Justiça atendia a todos os demais casos. A partir do século XV, surgiu o grau intermediário para os casos atendidos pela Baixa Justiça, sendo daí a Baixa Justiça atuante para causas civis de questões de menor importância ou para crimes de menor gravidade.
Principalmente na França, havia uma tradição de existir em cada feudo um tribunal senhorial, o que influenciou a Inglaterra em razão da invasão normanda à Grã- Bretanha no século XI; e a base desses julgamentos era ter o direito de cada um ser julgado por seus pares: “cavaleiros por cavaleiros, plebeus por plebeus e servos por servos” (Curtis Giordani: 1987: p.278). Mas houve também uma mudança nessa trajetória, pois, com o tempo, os plebeus vão perdendo o interesse de participar de assembléias para julgamento de seus pares (já que dispunham de pouco tempo para si mesmos) enquanto o poder de justiça do senhor feudal se consolida como algo superior68. A partir do século XII, somente os nobres mantiveram o direito de julgamento pelos pares. Aliás, nessa época, os procedimentos senhoriais eram influenciados pelas tradições francas69, notadamente na região da França, sendo os atos procedimentais todos orais, com a presença das partes, inclusive havia o julgamento oral, tudo em formas ritualísticas. A prova nesses procedimentos relacionava-se com as ordálias, atos de manifestação divina, quer por testemunhos, quando a dúvida entre eles era resolvida por duelo, quer pelas provas: de fogo, água, ferro em brasa, etc. (cf. Ellul; 1999: p. 172).
No início do século XIII, com as mudanças urbanas e de poder se concretizando mais firmemente (importância do comércio, maior presença temporal da Igreja, universidades, início dos processos de maior concentração do poder real, etc.), começa a ocorrer uma transformação no procedimento judicial, sobretudo na França, em que ocorrem éditos reais de Luís IX (S. Luís): passam os tribunais a utilizar procedimentos novos sob a influência canônico-romana, com peças e atos escritos; vão sendo eliminados
68 Desse período a existência de “corte baron” para os vassalos (quatro vassalos julgavam um vassalo) e corte costumeira para os vilãos (que era presidida por um preboste assistido por especialistas de direito e nos costumes locais). Na região meridional francesa, com maior influência romana, o exercício do julgador era visto não como algo entre pares, mas superior sobre os submetidos a julgamento,
69 Bárbaros que se cristianizaram no final do século VI e, com apoio da Igreja, expulsaram os visigodos (que anteriormente tinham sido convertidos ao arianismo – concepção considerada herética desde o concílio de Nicéia) da região da França para a Península Ibérica.
os ritualismos e acrescida a lógica racional, principalmente para as provas, com certos textos escritos valendo como prova plena; as testemunhas têm o testemunho transcrito, etc.. Tais mudanças ocorrem a partir da corte real, para os grandes senhorios feudais e paulatinamente vão se ampliando para as demais jurisdições entre o século XIII e XIV.
No âmbito das cidades revigoradas após o século XI, com a presença da burguesia, estabeleceu-se o denominado “direito de justiça” (Ellul; 1999: p. 221). Para as cidades era nomeado, pelo rei ou por importante senhor feudal, um magistrado (prévôt) que prestava os serviços judiciais, comumente assistido em seus atos por um grupo escolhido (excepcionalmente eleitos, como em Bourges) de homens íntegros (boni viri ou proud’hommes). A justiça nas cidades foi adquirindo autonomia e sucedendo à justiça senhorial, formando-se conselhos judiciários (tribunais locais) para questões civis e criminais. As penas para os delitos dos burgueses eram, por exemplo, o banimento, a destruição da casa de habitação e do lugar de atividade comercial e multa.
Os tribunais régios, como já visto, influenciados pelo direito canônico, tiveram na França, desde o reinado de Luís VII, um corpo judicial, em que eram chamados de prud’hommes, viri sapientes ou jurisprudentes ou judices nostri. Passaram a se tornar uma seção especial denominada Parlamento (maîtres de la Cour) em 1260, durante Luís IX, com quatro sessões anuais. Este o embrião do Parlamento de Paris, que veio, com o tempo, também a apreciar questões entre nobres e, neste caso, desde que composto pelos “Pares de França”.
Embora a figura da apelação fosse utilizada na região meridional francesa (Provence), o Parlamento de Paris passou a ser, a partir do século XIII, o tribunal admissível dos recursos às decisões das cortes senhoriais, quando do interesse régio, sem que houvesse, entretanto, possibilidade de revisão de decisão senhorial por outra corte senhorial. A partir desse Parlamento se deu início à contribuição ao direito pelos tribunais judiciais, por intermédio de seus julgados, com interpretação e aplicação do direito existente ao momento.
Hespanha e Macaísta Malheiros, em nota de tradução da Introdução Histórica do Direito (Gilissen; 2001: pp. 396-398), informam que em Portugal coexistiram, após sua formação, quatro sistemas jurisdicionais: o comunitário-concelhio, o senhorial, o eclesiástico e o régio. O primeiro, com bases romanas e visigóticas, correspondia ao
“julgamento dos homens livres pela assembléia dos seus convizinhos, em parte coincidente com a sua parentela”; tal sistema passou a ser regulamentado no século XIV e passou a ser reconhecido como uma instância de primeiro grau. O sistema senhorial, que se iniciou a partir das famílias (pater sobre o domus) entre os séculos XI e XIII, passou a atender o poder senhorial dos mais poderosos sobre povoações, passando a ser regra por intermédio do uso da jurisdição pelo rei, pelos senhores territoriais ou eclesiásticos. Tal justiça se fazia de forma direta ou por delegação (deputados), por juízes, vigários, mordomos, ouvidores, etc.; entre os séculos XIV e XV tal situação passou a ter uma jurisdição intermediária.
O sistema régio, integrado que era no sistema senhorial, foi pela ampliação do poder real subordinando os demais sistemas a ponto de, no século XIV, pertencer ao rei um sistema judiciário próprio e supremo, a quem cabia apreciar em grau recursal as decisões dos tribunais inferiores, passando depois a ter regulação de competência e atribuições próprias. O sistema de justiça clerical inseria-se na autonomia jurisdicional da Igreja e do clero; somente em casos excepcionais o clérigo subordinava-se à justiça secular. Tal “jurisdição eclesiástica abrangia também os leigos, em matérias espirituais, na interpretação alargada que deste conceito dava o direito canônico (abrangendo o matrimônio, certos aspectos das relações sucessórias e mesmo das relações agrárias)” (p. 397).
No século XIV, na França, ainda se dá uma luta contra a jurisdição eclesiástica, por conta da concentração real do poder político, levando em consideração a questão nacional: passa a haver uma restrição cada vez maior à jurisdição eclesiástica em favor dos tribunais reais; vão se formando princípios jurisdicionais denominados posteriormente de “galicanos”, como por exemplo, a revogação de jurisdição clerical civil aos prelados que exerciam a mercancia ou que fossem casados, ou então, a supressão jurisdicional clerical dos casos criminais em que o clérigo atuasse contra questões reais, como porte de arma, falsificação de moeda, usura, etc.. Também foi extinta a jurisdição da Igreja sobre casos que envolvessem viúvas e órfãos, e os casos externos interligados com ela.
Curtis Giordani (1987: p. 283) traduz Johan Huizinga em uma análise sobre a concepção do direito para o homem medieval que passa a ser transcrita:
O homem daquele tempo está convencido de que o direito é absolutamente fixo e certo. A justiça devia perseguir o culpado em toda a parte e até ao fim. A reparação
e a retribuição tinham de ser completas e assumir um caráter de vingança. Nesta exagerada necessidade de justiça, o barbarismo primitivo, de fundo pagão, mistura- se com a concepção cristã da sociedade. A Igreja, por um lado, aconselhava indulgência e clemência e procurava assim abrandar a moral judicial. Por outro lado, juntando à necessidade primitiva de retaliação ao horror do pecado, estimulou em certa medida o sentimento de justiça. O pecado para os espíritos violentos e impulsivos era, não poucas vezes, um outro nome dado àquilo que os inimigos faziam. A idéia bárbara de retaliação era reforçada pelo fanatismo.
Vale a pena, então, observar o pensamento que embasava as atitudes judiciais.