7. BULGULAR VE TARTIŞMA
7.3. Ekserji analizi sonuçları
Georges Lefranc (1957: pp. 124-126) nos informa que o termo ofício (métier ou corp de métier) era relativo ao grupo de pessoas que trabalhavam artesanalmente. Desde o século XII85, esses grupos se desenvolveram nos ambientes de aglomeração populacional, de forma livre (sem controle ou regulamentação); logo em seguida à multiplicação dos que se aplicavam nesses trabalhos, passou a existir uma organização entre os que trabalhavam nesses ofícios, ocorrendo uma forma comunitária de funcionamento na cidade, ressaltando- se a seriedade nas atividades e um monopólio em tal exercício.
85 Até então, os artesãos atuavam de forma esparsa e isolada (ateliês artesanais) nos domínios dos senhorios e abadias, ocorrendo nessa situação ainda uma condição servil do artesão.
Eram esses artesãos, produtores dos bens necessários para a vida cotidiana daqueles que viviam nas cidades, que foram se especializando com o passar do tempo e dos serviços: no âmbito do atendimento à alimentação, havia o moleiro, o padeiro, o confeiteiro, o açougueiro, o cozinheiro, o quitandeiro, o bodegueiro, etc.; no âmbito da construção e mobiliário, havia o pedreiro, o carpinteiro, o telheiro, o marceneiro, o vidreiro, o carreteiro, o toneleiro, o oleiro, o cesteiro, o fabricante de portas, torneiros, fabricante de panelas, fabricante de objetos de chifre, etc.; no âmbito de vestuário, havia o alfaiate, o comerciante de roupas usadas, o tecelão rudimentar, o tintureiro de lã, etc.; no âmbito da metalurgia, havia o ferreiro, o polidor, o cuteleiro, o ferramenteiro (fabricante de morsas, etc.), o ourives; e assim, em cada atividade que se fazia necessário um atendimento, havia uma especialidade produzida e aperfeiçoada pelo trabalho humano.
Este autor destaca que sistematicamente se poderia observar a consolidação dos ofícios em três fases: a primeira, a do costume oral; a segunda, a de regulamento livre elaborado pelos interesses dos artesãos integrados; e a terceira, a fase do regulamento aprovado pelo poder e sistematizado na comunidade. Mas essas duas primeiras fases foram ocasionais, nem sempre presentes.
Ellul (1999: pp. 225-230) observa que a primeira etapa da instalação de ofícios se deu pela formação de associações artesanais livres entre os artesãos que haviam se fixado nas cidades até o final do século XI e se relacionavam com as associações comerciais como forma de defesa, principalmente contra os senhores feudais que ainda possuíam muita influência nos setores urbanos relacionados com seus domínios. Tais associações, quanto às suas produções, eram objeto de fiscalização e regulamentação pelos senhores ou pelos que eram encarregados pela administração municipal; só aqueles que estavam integrados às associações fiscalizadas é que poderiam exercer o seu mister.
Essa situação criada pela estrutura de poder naquele contexto propiciou também um paradigmático formato de auto-organização das entidades montadas pelos artífices. Essa forma de organização, assim, de um lado, defendia os interesses dos artesãos para a garantia e segurança de seus trabalhos para com os de fora, quer o poder senhorial, quer a presença de forasteiros; de outro lado, essa associação montada era supervisionada pelas administrações municipais, que asseguravam o controle municipal na defesa dos interesses dos consumidores para uma boa qualidade do produzido. No século XII,
inclusive, não existe efetivamente, ainda, uma “corporação” típica, pois ainda há uma intervenção exterior (municipal ou senhorial) e não há ainda uma regulamentação própria e uma autonomia econômica do grupo.
Vale destacar que a organização comunitária entre os artífices se deu concomitantemente ao momento de revolução medieval, a partir do novo ímpeto de crescimento das cidades, como uma revolução industrial86constante e progressiva que se colocou de forma duradoura e prolongou-se no Renascimento ocidental.
II - A organização das corporações
A organização daqueles que trabalham principalmente de forma artesanal em atividades semelhantes ou afins não se originou na Idade Média, mas se tem notícia de associações assemelhadas desde a Antiguidade, como na Índia, no Oriente persa (bazar) e na Roma antiga. É a forma romana (colégio) que influenciou a formação da corporação na Europa da Idade Média, notadamente a partir do período da revolução medieval.
O termo corporação não era usado pelos franceses na Idade Média87, mas sim o de comunidade de ofícios (communauté de métiers – cf. Ellul, 1999: p.226). A figura dessa comunidade de ofícios, ou como se denominou posteriormente na Espanha, gremios, e em Portugal, corporação de ofício (expressão utilizada neste trabalho), representava mais
86 Desde o século X, mas principalmente a partir do século XII, ocorre uma verdadeira revolução industrial na Idade Média, a ponto desse tema ser objeto de obra de Jean Gimpel (2001: pp. 261-267), que relaciona diversas invenções no período; como exemplo, a criação do moinho de cerveja na Europa no século X, moinhos para ferro, casca de carvalho, cânhamo e de marés; a chaminé e a artilharia com catapulta no século XI; no século XII, temos a obtenção do álcool por destilação, moinho de vento, bússola, navios à vela sem remos, descoberta do ácido nítrico, barragens nos rios, abóbadas de ogivas, escada de caracol, vitral, martelo de joalheiro, catapulta, apuração entre os monges beneditinos cistercienses da criação dos carneiros por cruzamentos, etc.; no século XIII, temos ainda a invenção do botão, carrinho de mão, macaco-elevador, tear horizontal para dois operários, bússola com uma escala de referência dividida em 360º, comportas com dobradiça fechadas automaticamente pelo fluxo do mar, moinho para torcer a seda, cálculo da latitude de Paris, emprego do carvão na indústria, espelho de vidro, mecanismo de relógio com pesos e rodas, difusão da roda de fiar, etc.; no século XIV, há a invenção dos foles hidráulicos, da bússola portátil com tampa de vidro, moinho para cimento, canhão, pontes prefabricadas e articuladas, torno para madeira, descoberta da fundição, moinho de vento com telhado giratório, altos-fornos, ampulhetas, mostrador de relógios, garfos, instrumento de cordas com teclado fixo, etc.; no século XV, surgiu a primeira arma de fogo portátil, dissecação de cadáveres, emprego de pólvora para explosão destrutiva, caravela, canhão com alça, caracteres de imprensa móveis, etc.
87 Coornaert (1941: p. 23) nos diz que apenas em meados do século XVIII as antigas comunidades de ofícios começaram a ser chamadas de corporações na França; essa denominação é proveniente da Inglaterra e relaciona-se com corpo administrativo ou grupamentos econômicos.
do que um organismo especializado por profissão, mas um grupamento que englobava várias profissões relacionadas umas com as outras, quer por circunstância econômica, quer por circunstância histórica, quer por vontade fortuita.
A corporação de ofício se formava pela reunião de pessoas que atuavam no setor profissional próprio e, nessa comunidade, o trabalho era repartido entre o local de trabalho e o local em que permanecia o mestre responsável pelo trabalho. A corporação de ofício era dirigida por uma Juranda88, direção colegiada da corporação que, como diz o termo, era escolhida entre os pares que prestavam juramento de zelo ao grupo. Havia ainda, na corporação de ofício, o associativismo relativo à confraria, de cunho religioso intra- relacionado com o cotidiano, a crença (cristianismo) e os afazeres89.
Houve mais de um tipo de corporação de ofício: uma auto-organizada pelos mestres e seus ajudantes e formada a partir da própria atividade necessária desde antes do desenvolvimento das cidades, mas nelas estruturada em torno da atividade do mestre, como as de fundidores, curtidores, marceneiros, etc.. Outras, com apoio para formação e funcionamento do próprio poder municipal, como aquelas relacionadas com interesse público mais próximo (corporações das atividades ligadas à alimentação, construção e atividades de perigo – cirurgiões, boticários, etc.). E outras, ainda, formadas pelos interesses do comércio com produtos de ampla necessidade ou aceitação nas cidades mais ativas, como as relacionadas com tecidos. Mas também houve um tipo especial de corporação, que possuía um ofício não artesanal, mas intelectual, que merece uma atenção pela importância que representou e representa até hoje, qual seja, a universidade.