2. KOJENERASYON SİSTEMLERİ
2.4. Ege Seramik Fabrikası Uygulaması
Desde a “querela das investiduras”52, que representa a tomada de posição da Igreja e do Papado pela sua inserção definitiva no poder terreno e universal, houve vários litígios e lutas em função do poder temporal, principalmente a partir daquele momento.
Lima Lopes (2002: pp. 91-93) aponta que
... enquanto durou o regime de cristandade as relações entre o poder civil e poder religioso ou eclesiástico foram tensas. Sobretudo quando os reis quiseram afirmar seu poder jurídico-político e estender o controle jurisdicional sobre todos os habitantes de um território, inclusive o clero.
Um dos litígios ocorreu na Inglaterra do reinado de Henrique II53 (que organizou os tribunais reais e aplicou a figura dos juízos itinerantes), quando o rei promulgou as Constituições de Clarendon(1164), uma “consolidação de costumes” que subordinava a Igreja local ao rei, com inserção do poder real sobre casos de benefícios eclesiásticos, ampliação jurisdicional sobre disputas de terras da Igreja, determinações de proibições de locomoção de bispos para fora da Inglaterra sem autorização régia, proibição
52 Querela ocorrida em função de litígio entre o imperador germânico Henrique IV e o papa Gregório VII, episódio do século XI, já rapidamente observado na nota 21 anterior e no início do item III – 2.
53 Fundador da dinastia plantageneta, cujo nome provém da planta desenhada no escudo da família real, de procedência francesa.
de excomunhão de oficiais da casa real sem autorização real, e outros atos de direção integral do reino pelo rei.
Em razão dessa promulgação, o arcebispo de Cantuária (Canterbury), Thomas Beckett, mesmo que amigo pessoal de Henrique II, contrapôs-se ao texto, declarando que “a verdade supera o costume, a verdade julga a razoabilidade do costume”, citando padrão canonista inerente ao posicionamento da hierocracia do papado, ligado à autonomia jurisdicional eclesiástica. Isso deu origem ao conflito que chegou ao apogeu com o seu assassinato por outros amigos do rei. Embora Henrique II tivesse negado sua participação no ato, acabou retrocedendo quanto à sua legislação. Mas seu segundo filho, João Sem Terra, também estabeleceu histórica polêmica, com reflexos até nossos dias54, a partir do momento em que se negou a aceitar o arcebispo de Cantuária indicado pelo papa Inocêncio III. Tal ato resultou em um interdito pelo papa à Inglaterra, excomungando João
54 Se o ápice do poder plantageneta ocorreu no reinado de Henrique II, foi seu descendente João Sem Terra que veio a receber o estigma de déspota derrotado. Isso graças ao excessivo centralismo do poder e o excessivo isolamento desse exercício, a excessiva cobrança de impostos e o rompimento com o poder eclesiástico, o que levou à revolta dos barões, com o apoio da Igreja. E aqui surgem dois aspectos para o mesmo fato: em primeiro lugar, os nobres e eclesiásticos que elaboraram a Carta Magna não tinham em mente produzir um documento de garantia de liberdade universal ou de garantia constitucional – seus elaboradores, no início do século XIII, pretendiam uma lista de engajamento feita pelo rei no sentido de respeitar os diversos costumes feudais que ele e seus predecessores diretos vinham violando; no pensamento de seus autores, o texto visava a um retorno à época de ouro do rei Eduardo, o Confessor. Conforme destaca Maurois, citado por Mário Curtis Giordani (1987:p. 72): “Os barões não julgavam estar fazendo uma nova lei, exigiam o respeito dos seus antigos privilégios”. O conteúdo do documento foi, entretanto, formulado por clérigos com fundamentação teórica e teológica de valoração à pessoa humana, ainda que não de forma integral. E o mesmo Maurois, apud Giordani afirma então: “O que faz a importância da Magna Carta é, pois, mais do que ela suscita do que ela é. E aqui o segundo aspecto: para as gerações seguintes, ela se tornará, no sentido moderno, uma ‘carta das liberdades inglesas’, e cada rei até o século XV deverá jurar, várias vezes no curso do reinado, respeitar esse texto”. Entretanto, também aqui se vêem colocadas as premissas de valorização aos direitos do homem já esboçadas, entre outros posicionamentos do pensamento, no estoicismo, e assimiladas pela escolástica, tendo como perspectiva um direito natural e sua projeção histórica.
A Magna Carta merece alguns destaques aqui (cf. Giordani, 1987): em seu artigo primeiro declara que atende à Igreja na Inglaterra; a seguir, cabe observar que faz uma concessão: liberdade a todos os homens livres do reino – e aqui se destaque que, no século XIII, quando o rei concede a um senhor um privilégio de manter uma corte de justiça, ou a uma cidade o privilégio de escolher por si mesma seus oficiais, esses privilégios chamam-se ‘liberdades’. É de se observar que no texto há referência de manutenção e obtenção de privilégios para a Igreja, condes, barões e outros vassalos diretos, com a preservação do direito antigo para serviço militar, sucessão feudal, casamento, etc. Também há referência para um tipo de classe média rural feudal (cavaleiros que possuem terras de um barão), pois os barões necessitavam desses vassalos para se defenderem do rei João. Há também uma resguarda dos privilégios burgueses de Londres. E é estabelecida uma concessão de âmbito econômico: a unidade das medidas e dos pesos, a par da proibição de impostos ilegais.
Quanto à questão da justiça, cabe observar: a devolução de valores extorquidos à base de multas e apropriações de bens indevidamente requisitados; o princípio do julgamento entre pares a fim de evitar-se a violência e a arbitrariedade; proibição de multas e confiscos legais; o princípio de que a ninguém deve ser negada a justiça e de que nenhum imposto deve ser exigido sem ser aprovado pelo grande conselho do reino (barões e os lugares-tenentes – como os xeriffs).
Sem Terra e determinando o fechamento das igrejas dali. Vale lembrar que, na Idade Média, lugar sem igrejas era inadmissível, pois sem batismo, casamentos, confissões, vida cotidiana social (festas, encontros, etc.), atos de féretro e tudo o que era essencialmente para conviver naquela sociedade profundamente religiosa e centrada na Igreja.
Por óbvio, tal pressão daquela sociedade, além daquelas já existentes pelos senhores feudais em razão de tributos e manutenção de poder nos respectivos feudos, levaram à edição da Magna Carta de 1215, em que ficou expressa a especificação da liberdade da Igreja frente ao reinado, com a conseqüência da influência papal sobre o reino.
Em período próximo, houve também confronto em Portugal. Ainda conforme Lima Lopes (2002: pp. 92-93), no século XII, em 1140, temos D. Afonso Henriques, que passa a usar o título de rei, somente reconhecido após dois anos pelo tratado da paz de Zamora, feito com Afonso VII, de Leão; o título real português foi acatado pelo papa quase quarenta anos depois55. Cinqüenta anos após o episódio de Henrique II e o bispo de Cantuária, por volta do ano 1220, ocorreu uma disputa entre D. Afonso II e o papa Honório III, que não aceitou a pretensão do rei português de submeter os clérigos portugueses aos juízes régios seculares, a par de querer impor ao reino leis imperiais da cristandade. Isso porque os reis portugueses entendiam que, por terem conquistado as terras dos mouros, não havia a anterioridade de leis imperiais germânicas no seu solo e para suas gentes, sendo eles os soberanos do lugar, pelo que poderiam estabelecer suas leis. Tanto é que até o século XIII houve menções nos éditos reais ao Código Visigótico, estruturalmente texto de lei romana vulgar.
Tal conflito prolongou-se com o sucessor de D. Afonso II, D. Sancho II, deposto pelo papa Inocêncio IV, que nomeou o irmão de D. Sancho II como rei de Portugal, o Conde de Bolonha, que tomou o nome de Afonso III. A situação só se tornou estável no século XV, com o enfraquecimento de poder do papado pela sua divisão, quando represtinado, após revogação por anos, o édito do beneplácito real, pelo qual a legislação canônica só teria aplicação em Portugal com a autorização do rei.
Temos que destacar ainda o episódio conhecido como a “querela bonifaciana”, mais precisamente o conflito entre o papa Bonifácio VIII e o rei francês
55 Até então foi tratado como dux pelos papas, cabendo ao papa Alexandre III, pela bula Manifestis probatum est, reconhecer D. Afonso como rex (Gomes da Silva; 2000: p. 146).
Felipe, o Belo, no final do século XIII e início do século XIV (1295 a 1303). Enquanto o papa Bonifácio VIII se mantinha fiel ao posicionamento da Igreja desde o papa Gregório VII (parte integrante da “querela das investiduras”), com a concepção universalista do império cristão regido a partir da Igreja56, Felipe, o Belo, representa um novo posicionamento do reino francês inspirado pelo nacionalismo, até mesmo na língua nacional utilizada, como em outros reinos na mesma época.
Vale observar que Felipe IV, ou, o Belo, utilizou-se do conhecimento jurídico de seus assessores, influenciados pela recuperação ou redescobrimento do direito romano57, particularmente em relação à estrutura institucional do Império Romano, centrado na figura do Imperador como fonte principal do direito. Mas, ao mesmo tempo, não aceitavam a carga do poder histórico cristão do império germânico-romano do Ocidente, propugnando por um centralismo nacional francês, em detrimento ao domínio da hierocracia papal romana. Não aceitavam, assim, os cânones eclesiásticos romanos como fonte principal do direito, mas entendiam que o direito deveria ser observado a partir de sua natureza universal e humana.
Essa vontade de independência nacional do reino e concentração do poder no rei foi manifestada no fim do século XIII pela referida “querela bonifaciana”, que se fez representar através de dois conflitos principais: um, da décima (ou dízimo), outro relacionado à jurisdição. O conflito surgido pela décima relacionou-se com a elevação de tributo do reino junto aos prelados e sua cobrança, principalmente diante dos custos do reino frente a conflito armado com os ingleses. O clero defendia sua isenção, no que era acompanhado pela nobreza; mas a razão principal da querela é que tal aumento e cobrança de tributo não passaram pela aquiescência papal, que se tomava como superior hierárquico, inclusive quanto ao poder temporal sobre o rei. Desse modo, o rei Felipe IV, ao promover em 1294 a ordem de recolhimento do tributo, teve, diante de uma assembléia de prelados e nobres, um pedido de intervenção papal, o que ocorreu pela bula Clericis laicos. Essa legislação determinava a aprovação do papa para quaisquer tributos ao clero e ameaçava o poder laico que descumprisse tais ordens de excomunhão, assim como os clérigos que pagassem tal cobrança (cf. Basdevant-Gaudemet e Gaudemet; 2003: pp. 136-138).
56 A doutrina de que não haveria distinção entre o poder temporal e o espiritual, cabendo ao papa a superioridade frente aos demais príncipes.
Embora tenha sido editada essa rigorosa bula, o papa Bonifácio VIII e o rei francês, em seguida, atenuaram seus posicionamentos e fizeram vários atos de demonstração de entendimento e suavização de seus pontos de vista. Entretanto, já vinha de algum tempo a existência de conflitos de aspecto jurisdicional entre o reino e o clero, diante de ordenança editada em 1274, que ressalvava o privilégio de julgamento pelos juízes do reino para clérigos que fossem casados e comerciantes ou comerciantes não casados, além da possibilidade de punição aos clérigos que portassem armas ou atos correlatos, como crimes com flagrante delito, etc..
Mas, em 1301, ocorreu o chamado “caso Saisset”58, mais precisamente um conflito com o bispo de Palmiers, Bernard Saisset, que havia sido acusado de complô contra o reino: o rei Felipe IV convocou um tribunal composto de prelados e nobres dirigidos por ele para instaurar um processo contra o referido bispo. O papa, em seguida, advertiu o rei para suspender o processo iniciado, editando duas bulas: uma, tratando da superioridade temporal do papa sobre os reinos e reprovando os atos reais contra o interesse da Igreja (Ausculta fili) e, outra, convocando em Roma um concílio de bispos franceses para julgamento do bispo Bernard Saisset (Ante promotionem). Felipe, o Belo, em contraposição ao papa, convocou um tribunal na Igreja de Notre Dame e apresentou uma versão falsificada da bula Ausculta fili, passando a criticar sua violência e o rigor extremo de seus termos, referindo-se a ela nos termos de uma proclamação: “Saiba da tua enorme presunção”(Basdevant-Gaudenet e Gaudenet; 2003: p. 139)59 E o tribunal de Notre Dame, tanto a nobreza como o clero local, tomou uma resolução de apoio ao rei contra o papa, e de negativa de ida a Roma pelos clérigos franceses.
Mesmo assim, o concílio designado em Roma pelo papa Bonifácio VIII ocorreu em novembro de 1302, com trinta e nove prelados e abades franceses e, dali, surgiu uma outra bula papal, a Unam Sanctam. Tal bula insistiu na hierocracia com o papel de sujeição do reino à Igreja através do papa, sem entretanto formular críticas diretas a Felipe IV, sob influência do clero francês, que pretendia uma reaproximação entre o papa e o rei. Apresentada uma relação de doze erros reais pelo papa, nessa tentativa de composição pelas partes, o rei editou uma ordenança denominada “Reforma do Reino”, em que admitiu voltar
58 L’affaire Saisset.
atrás em alguns temas apontados na relação referida. Mas, na corte de Felipe, o Belo, o setor mais extremado, liderado pelos chamados legistas (Guilherme de Plaisian e Guilherme de Nogaret), passou a defender a tese de que ao rei francês cabia zelar pela cristandade, inclusive em relação às atitudes papais, pelo que, diante das heresias constatadas pelos atos do papa, deveria o rei instalar um concílio para julgar o papa hereje60.
O setor extremado nacionalista, tanto do reino, quanto do clero, ampliou sua posição e passou a fortalecer seus ataques com o respaldo político do reino e crítica ao clero “estrangeiro”; em resposta, o papa Bonifácio VIII editou bula excomungando o rei francês e determinou que o cardeal Lemoine afixasse o édito na catedral d’Anagni. Mas essa localidade estava sob as ordens de Guilherme de Nogaret (legista) que, com o apoio do rei, promoveu o episódio denominado “atentado d’Anagni”, em que impediu o ato de excomunhão e também submeteu o papa à sua guarda, configurando uma atitude de seqüestro. O papa conseguiu voltar para Roma, mas, pouquíssimo tempo depois, veio a falecer. Foi escolhido um outro papa, Bento XI, que se refugiou em Perúgia, mas faleceu oito meses depois.
A morte de Bonifácio VIII permitiu a Felipe IV livrar-se da excomunhão e, logo após a breve sucessão do papa posterior, veio a conseguir que fosse eleito um papa francês, em 1305, Clemente V, tendo ainda conseguido liquidar a ordem dos templários, sob a acusação de heresia, assumindo todas as suas riquezas na França. Também a eleição de Clemente V teve contestações em Roma, pelo que foi abrigado em Avignon, no sul da França, sob total influência do reino francês.
A vinda do papado para Avignon significa o início da divisão da Igreja de forma a afetá-la historicamente em seu poder sobre a cristandade. Esse fato, o nacionalismo nascente e a aliança da burguesia ascendente, que dava apoio financeiro aos reis, acrescido ainda da coleta centralizada de impostos, foram fatores de fortalecimento do centralismo monárquico, baseado na burocracia e na organização dos exércitos61, o que diminuiu
60 E por eles é retomada a concepção adotada pelo rei Felipe Augusto, logo no início do século XIII, pela qual o rei da França não se subordinava ao Império: a tese do “galicanismo”, com princípios e doutrinas próprias da Igreja gaulesa (retomado mais tarde no século XVII e simbolizado pelo grande orador eclesiástico Bossuet).
61 A burocracia foi composta pelo conjunto de normas racionais administrativas e um grupo de funcionários preparados para o exercício administrativo do poder. Os exércitos nacionais, de início, foram montados com
também a força dos nobres oriundos do feudalismo. Dá-se, neste contexto, o início do declínio da Idade Média.
IV – O contexto jurídico
Pretendemos aqui observar o contexto jurídico a partir do período da chamada “Renascença medieval”, momento em que, concomitantemente à organização temporal da Igreja, dá-se a formação efetiva do direito canônico e a sua discussão, com a incorporação do estudo do direito romano nas iniciantes universidades62.
Vale observar o Direito, no início daquele período, em que, de acordo com Lima Lopes (2002:pp. 73-78), os conflitos eram resolvidos ou com processo ou com guerra (“Deus e o meu direito”), sendo a guerra um tipo de prova judiciária (ordália) entre os senhores. Invocavam-se antes os argumentos jurídicos, os direitos costumeiros, direitos históricos, mas, não se atingindo um bom termo ou forma de arbitrar o conflito, a guerra traria o resultado esperado ou frustrado, sempre sob o uso do argumento da graça divina. O autor referido lembra o uso de compilações escritas de vários sistemas feudais, como os Usos de Barcelona, de 1068, a Carta de Pisa, de 1142, além de direitos reais na Sicília, França, etc. para a solução dos conflitos judiciais.