TRANSKRİPSİYONU
Hüküm 6: Emânet malın harcanması sebebiyle alacak hakkı da‘vâsında uyuşma
A noção de ambiente organizacional é hoje uma das mais corriqueiras em teoria organizacional sem, entretanto, que tenha perdido sua importância como fonte de inúmeras idéias atuais para a pesquisa nesta área. Discussões em torno desta noção estão, na verdade, no centro de algumas das perspectivas mais recentes da teoria organizacional, como a teoria da dependência de recursos (PFEFFER e SALANCIK, 2003), as perspectivas evolucionistas (HANNAN e FREEMAN, 1989; ALDRICH, 1999) e institucionais (MEYER e ROWAN, 1991, DIMAGGIO e POWELL, 1991b; TOLBERT e ZUCKER, 1998; SCOTT, 1995; 2001), por exemplo.
Tal noção emergiu com maior força no campo das teorias organizacionais com os modelos sistêmicos e contingencialistas de explicação do funcionamento das organizações, até porque ela implicitamente pressupõe uma idéia fortemente sistêmica, qual seja, a de que é possível e necessária alguma delimitação das fronteiras organizacionais, alguma distinção entre sistema e seu contexto. Dessa perspectiva, mesmo a noção de organizações como sistemas fechados já é uma interpretação sistêmica das teorias pré-sistêmicas de organizações,
teorias para as quais o foco tende a estar nas relações de produção e de gestão internas à organização, tratadas como problemas de engenharia física e social, mas não como problemas de complexidade maior que os apresentados pela ordem física da natureza.
Essa concepção de ordem apenas física da natureza das organizações é desde há muito desafiada no âmbito da teoria organizacional, dando lugar a noções explicativas mais amplas, de cunho político-social, além de racional. Já Selznick (1957), em perspectiva que é atualmente vinculada ao institucionalismo, apontava o processo de institucionalização das organizações na medida em que elas incorporavam valores predominantes no seu contexto de atuação mais próximo, como meio de obtenção de legitimidade. Em perspectiva sistêmica tradicional, Katz e Kahn (1970) trabalham a noção de ambiente como fonte de inputs e destino dos outputs, em relação essencial para a manutenção da capacidade operativa e para a existência das organizações, já nesse contexto ocorrendo importante distinção, para as abordagens gerenciais e administrativas, entre os vários elementos do ambiente, conforme a natureza dos inputs utilizados pelas organizações, fossem eles tecnológicos, econômicos, humanos ou de outra ordem.
Em termos contingencialistas, a idéia de ambiente organizacional se torna o ponto focal da análise organizacional. Nas perspectivas de Selznick (1957) ou de Katz e Kahn (1970) o ambiente é um aspecto importante, processado internamente na organização seja por intermédio da sua liderança que deve ativamente buscar incorporar valores predominantes, seja por intermédio da capacidade interna dos sistemas de processar os inputs captados externamente. A perspectiva contingencialista, por sua vez, admite elevado grau de determinação das forças ambientais sobre a organização, afetando decisivamente suas estruturas, funções e processos a despeito – em grande medida – da vontade dos agentes organizacionais.
Mais uma vez parece prudente ressaltar que se trata de foco de análise mais do que de qualquer desconsideração quanto a outros elementos organizacionais. De fato, como destacam Lawrence e Lorsh (1973), trata-se de chamar a atenção para limitações impostas pelo contexto às escolhas e à vontade dos decisores organizacionais, e chamar a atenção para o fato de que as opções disponíveis de cursos de ação são contingenciais. Em conformidade com dois outros autores relevantes nessa perspectiva, a forma mais eficaz de se organizar é contingente em relação a condições de complexidade e mudança no ambiente, o que implica então que diferentes condições ambientais exigem diferentes estilos de organização (BURNS e STALKER, 1961).
Essas perspectivas teóricas deram origem à abordagem do ambiente organizacional em termos de suas várias dimensões, que são geralmente tratadas como elementos externos e objetivos. Como sintetiza Hall (1984), essas dimensões geralmente são tratadas como condições tecnológicas, legais, políticas, econômicas, demográficas, ecológicas e culturais. Essa forma de tratar o ambiente tem correspondência com a noção sistêmica tradicional e positivista que traça limites claros e evidentes entre a organização e seu ambiente. Dessa forma, mesmo elementos não-objetivos do ambiente (fatores sociais, políticos, culturais, institucionais) são tratados como concretos, ou então são assumidos da perspectiva puramente contingencialista, como afetando e determinando diretamente as características organizacionais.
Wilson (1992) sugere uma distinção das formas que as teorias organizacionais analisam o ambiente das organizações. Para ele, tais ambientes vêm sendo analisados como fato objetivo que pode ser prontamente acessado, descrito e definido pelos agentes organizacionais, ou que afeta diretamente e de modo unívoco as organizações, como nas perspectivas há pouco mencionadas.
Outra possibilidade analítica é o entendimento de que o ambiente compõe-se de fatores externos e tangíveis, mas que só afetam a organização mediante processos subjetivos, de natureza cognitiva e cultural, isto é, mediante a percepção e interpretação dos agentes e que portanto ainda que composto por fatores tangíveis, não será percebido de modo unívoco. Conceber subjetivamente o ambiente implica reconhecer que indivíduos e, conseqüentemente as organizações, podem perceber diferentemente o mesmo ambiente e agir também de forma diferente nos processos desencadeados para estabelecer as relações organização-ambiente. Mais do que qualquer realidade objetiva, tais relações se estabelecem a partir de diferentes percepções subjetivas.
Assim, entende-se que as organizações lidam com ambientes ordenados a partir de processos de interpretação que se estabelecem com relação às informações apreendidas pelos atores organizacionais, na medida que variados atores e, em conseqüência, variadas organizações, focam a atenção sobre diferentes aspectos das informações captadas, e isto de diferentes maneiras, resultando em diferentes sentidos finais para os mesmos estímulos externos (DAFT e WEICK, 1984; MACHADO-DA-SILVA e FONSECA, 1996).
Uma terceira possibilidade está vinculada à noção de ambiente como produto de construção social que, sendo constantemente definido e redefinido pelos indivíduos, por outro lado se converte em influência sobre as organizações e seus agentes, em reiterada e recíproca interação. Neste caso os ambientes não são apenas interpretados e ordenados, mas de fato
criados e recriados pelos indivíduos em suas interações, e pelas próprias ações organizacionais (WEICK, 1969). Tal concepção está normalmente relacionada com perspectivas metodológicas construtivistas de análise, mas recentemente outras correntes metodológicas passaram a considera-la – ou noções aproximadas dessa idéia de construção social do ambiente – como idéia relevante, o que promove a ampliação paradigmática de algumas correntes metodológicas nas ciências sociais e na própria teoria organizacional (BECK, 1996; LUHMANN, 1976; 1995; ou WEICK, 1969, por exemplo).
Em termos dessas abordagens concorrentes ao realismo das teorias sistêmicas e contingencialistas da organização, o que em geral se admite é que não há determinação ou influência direta do ambiente sobre a organização. Mesmo que não se negue alguma realidade objetiva ou independente para o contexto ambiental (raras são, em teoria social ou organizacional, as posturas radicalmente construtivistas no que toca ao ambiente ou à estrutura social), o ambiente somente adquire sentido para agentes e organizações mediante processos de natureza interpretativa, mediante os quais aquelas organizações e agentes tanto respondem quanto, simultaneamente, constróem para si o próprio ambiente ao qual respondem.
Além disso, prevalece nessas teorias interpretativas noção de organizações como sistemas simultaneamente abertos (porque sofrem influências do ambiente) e fechados (porque é internamente que se dá o processamento das influências e mesmo o ordenamento da realidade à qual se responde). Deste modo, sistemas sociais em termos gerais, e organizações em termos específicos, não somente de processam informações e oferecem respostas a demandas ambientais externas mas, para além disso, reconfiguram e recriam por meio deste processo o seu próprio ambiente (WEICK, 1969; KNODT, 1995; HATCH, 1997)
Nos termos da abordagem sistêmica de Luhmann (1995), por exemplo, a característica de auto-referencialidade7 dos sistemas implica que um sistema só pode responder ao ambiente nos seus próprios termos. Sistemas de significados, como são os sistemas sociais (e, portanto, as organizações) só podem responder em termos de significados, que são por sua vez internamente gerados: sistemas de significados processam a complexidade do ambiente por meio de significados. “Em princípio, tudo é acessível a
7
Sistemas auto-referentes ou ´autopoiéticos´ podem ser definidos como redes de componentes e suas relações funcionais que recursivamente, por meio de suas interações, geram e implementam a própria rede que os produz e constitui (em geral, Maturana e Varela 1994, na Biologia, e Luhmann 1995, nas ciências sociais). São sistemas, portanto, ao mesmo tempo fechados (em seus processos) e abertos (em termos estruturais), como os explica Luhmann (1995), porque são responsáveis pelas condições ´externas´ (ou talvez fosse melhor dizer, externalizadas) que os influencia e determina. Sciulli (1994, p. 41) resume a idéia ao afirmar que autopoiese implica que “o sistema é o produto de [...] sua própria atividade”.
sistemas de significados, mas somente na forma de significado” (LUHMANN, 1995, p. 63). As condições externas aos sistemas sociais são os recursos, cognições e motivos de sujeitos humanos ou de outros sistemas (sistemas psíquicos são, para os sistemas sociais, fatores ambientais). Mas o sistema não responde a um ambiente objetivo, externo, senão a condições internamente processadas em termos de significados (LUHMANN, 1989; 1995).
Para a teoria sistêmica convencional (BERTALLANFY, 1975; KATZ e KAHN, 1976) os sistemas devem ser analisados tendo como base a suposta distinção fundamental de sua abertura ou fechamento em relação ao contexto ambiental. Para Bertallanfy (1975, p. 63- 64), os sistemas fechados são aqueles “[...] considerados estarem isolados de seu ambiente”, enquanto sistemas abertos “[...] por sua própria natureza e definição [...] mantém-se em um contínuo fluxo de entrada e saída, conserva[m]-se mediante a construção e a decomposição de componentes, [...]”, enfim, são permeáveis ao ambiente.
Mas para Luhmann (1989) a natureza autopoiética dos sistemas sociais exige entende-los como sistemas simultaneamente abertos e fechados. Maturana (2002, p. 15) define autopoiese como “[...] a rede de produções de componentes, que resulta fechada sobre si mesma, porque os componentes que produz a constituem ao gerar as próprias dinâmicas de produção que a produziram e ao determinar sua extensão como um ente circunscrito[...]”, isto é, compreende então a capacidade que os sistemas vivos possuem (e que os distingue dos demais sistemas) de se auto-produzirem por meio de processo organizacional fechado, processo este que é a base de sua própria conservação (MATURANA e VARELA, 2002). Luhmann (1989; 1995) aplica esta idéia aos sistemas sociais (economia, política, artes, educação, organizações e a própria sociedade) que para ele diferenciam-se uns dos outros por meio de codificação específica a cada sistema (LUHMANN, 1989), codificação que, por sua vez, constitui o seu cerne organizativo e por meio do qual “[...] um sistema pode mudar estruturas sem perder sua identidade codificada” (LUHMANN, 1989, p. 45). Com isso, “[...] um sistema adquire a possibilidade de operar como sistema simultaneamente fechado e
aberto” (1989, p. 45 – itálico no original), isto é, como sistema que incorpora em sua estrutura
as pressões do contexto ambiental sem contudo se diluir no ambiente, sem alterar sua organização.
Os sistemas sociais são, então, sistemas operacionalmente fechados, o que não significa que não possam ser afetados pelo ambiente de modo algum, mas sim que tais sistemas são ´cegos´ em relação ao que acontece além de suas fronteiras (KNODT, 1995) ou, em outros termos, não podem receber informação direta do, e reagir diretamente ao, seu ambiente. Enquanto unidade autônoma, um sistema social qualquer “[...] pode reagir ao seu
ambiente apenas de acordo com seu próprio modo de operação, o modo peculiar a ele” (BEDNARZ, Jr., 1989, p. xiii). Esse modo peculiar de operação (o que acima chamou-se de codificação) tem como fundamento, nos sistemas sociais, o processo de significação: informações presentes no ambiente não fluem diretamente através das fronteiras do sistema, para o qual elas serão algo como uma ´irritação´ (LUHMANN, 1995), que faz disparar o processo de significação que é interno e sempre auto-referente: “Significado sempre se refere a significado [e não diretamente às informações] ... Sistemas cujos limites são o significado não podem nunca experimentar ou agir de qualquer forma que seja livre de significado” (LUHMANN, 1995, p. 62). Como conseqüência, “em princípio, tudo é acessível a sistemas de significado, mas somente na forma de significado [...] tudo que pode ser percebido e processado no mundo dos sistemas de significado deve assumir a forma de significado” (LUHMANN, 1995, p. 63). E ainda como explica Cohn (1998, p. 59), “[...] nada penetra no sistema sem passar pelas suas operações próprias [estas, como visto, são processos de significação quando estamos nos referindo a sistemas sociais]: o que está fora só se torna relevante, vale dizer, significativo mediante as operações seletivas do próprio sistema auto- referido”.
Em resumo, os sistemas sociais são estruturalmente adaptáveis ou abertos porque são, ao mesmo tempo e necessariamente, operacional ou organizacionalmente fechados (ver também MORIN, 1997). Eles se comunicam de algum modo com seu ambiente apenas na medida que eles próprios, de forma auto-referida, produzem ou selecionam internamente os significados aos quais irão responder e que serão utilizados para configurar e reconfigurar as fronteiras entre sistema e ambiente (LUHMANN, 1989; 1995; PATERSON, 1997; COHN, 1998; MINGERS, 2002), o que implica, então, que o próprio sistema se auto-produz e também produz seu próprio ambiente, porque é ele quem – em última instância – define suas fronteiras.
Tal noção conceitual tem importantes conseqüências para a superação da dicotomia agência/estrutura (COHN, 1998), para a análise da possibilidade de controle dos sistemas por meios externos (PATERSON, 1997; LUHMANN, 1997) e, então, para a própria teoria organizacional, na perspectiva institucional, porque naquela perspectiva o foco predominante repousa sobre relações de afetamento mútuo entre estruturas sociais (instituições, qualquer que seja sua natureza) e agentes nelas imersos, como se viu anteriormente na discussão a respeito da recursividade na constituição da realidade social (GIDDENS, 1984).
A partir dessas noções (e em consonância com a idéia de recursividade entre estruturas sociais e agência), a teoria neo-funcionalista8 propõe redefinição da idéia de contingência, agregando importante elemento para a rediscussão das relações entre organizações e ambiente organizacional implementadas pelas teorias sociais e organizacionais interpretativas.
Convencionalmente se toma a relação de contingência como unidirecional, o que quer dizer que se admite apenas que ambientes afetam os sistemas ou, em outros termos, que apenas os sistemas lidam com o risco inerente à necessidade de escolhas e à possibilidade de desapontamento em face das várias opções oferecidas pelo ambiente (LUHMANN, 1976; 1983; 1995).
Para Luhmann (1976, p. 96), “tornou-se costume explicar organizações por algum tipo de ´teoria da contingência´ [...] Isso significa que diferenças na estrutura das organizações [e em outras propriedades organizacionais] podem ser explicadas por diferenças nos seus ambientes”. Básico a essa perspectiva é a noção metodológica de variáveis ambientais como variáveis independentes e de variáveis organizacionais como variáveis dependentes. Assim, vê-se que
[...] a teoria da contingência desenvolve duas noções diferentes: (1) dependência e (2) incerteza, lado a lado. Por um lado contingência significa que as estruturas e práticas [...] de um sistema dependem da forma em que o ambiente se torna relevante para o sistema, enquanto a situação reversa – o sistema operando sobre o ambiente – não é geralmente levada em conta porque isso dificultaria a divisão operacional entre variáveis independentes e dependentes necessária à pesquisa (LUHMANN, 1976, p. 97).
Deste modo, contingência fica sendo entendida como oposto de necessário. Ser contingente implica que havia outras possibilidades que, entretanto, não se confirmaram ou, “algo é contingente na medida que não é nem necessário nem impossível” (Luhmann, 1995, p. 106) e também implica analisar a relação entre fatos, uma vez que da perspectiva do sistema as variáveis ambientais são reconhecidas desta forma.
8
O que aqui estamos chamando de teoria neo-funcionalista refere-se à teoria dos sistemas sociais na versão desenvolvida por Niklas Luhmann (1983; 1989; 1995). Como destaca Bednarz, Jr. (1989) o arcabouço teórico desenvolvido por Luhmann tem como fonte a sistematização de várias, e em certos aspectos diversas, tradições intelectuais como o funcionalismo parsoniano, a teoria cibernética aplicada à sociedade, a fenomenologia e a teoria da organização autopoiética dos sistemas vivos (conforme Maturana e Varela, 2002). Para Cohn (1998, p. 58) tal perspectiva constitui-se em radicalização do funcionalismo: “[...] Luhmann reúne condições para inverter a ótica estrutural-funcional parsoniana, ao deslocar a questão de quais as funções requeridas pelo sistema para a questão de como este é levado a responder a exigências funcionais, vale dizer, operacionais de funcionamento”.
Mas, como se observou anteriormente, em conformidade com perspectivas interpretativas e construtivistas de teoria social e organizacional, a relação entre ambientes e sistemas não é direta, nem baseada no fluxo de informações do ambiente para o sistema. Informação é um conceito apropriado para o ambiente, mas no âmbito do sistema o que flui são significados (no que tange a sistemas sociais), de modo que o ambiente – da perspectiva do sistema – constitui-se naquilo que é seletivamente percebido, interpretado e definido pelo sistema (LUHMANN, 1995; DAFT e WEICK, 1984)9.
Nesses termos, a própria noção de ambiente só pode ser estabelecida a partir do sistema como ponto referencial, de modo que se torna coerente afirmar que o ambiente é (conceitualmente) produto do sistema10. Então, a relação de contingência não pode ser entendida como unidirecional (do ambiente para o sistema), mas de interdependência, porque não somente o sistema faz escolhas e assume riscos, mas também o ambiente depende de contingências do sistema; não somente o sistema não é da forma como se apresenta por uma questão de necessidade quanto também o ambiente não o é.
Luhmann (1976; 1989; 1995) resume essa noção circular por meio do termo ´dupla contingência´ e propõe a revisão da noção contingencial não como uma relação “[...] entre fatos, mas entre contingências. Eles [sistema e ambiente] podem variar nos dois sentidos
9
Nesse ponto ocorre uma distinção fundamental entre a teoria neo-funcionalista e outras concepções interpretativas da relação sistemas sociais-organizações e ambiente. Na teoria neo-funcionalista os significados mediante os quais se responde e se constrói o ambiente são produzidos pelo sistema, de modo necessária e estritamente autônoma (o fechamento do sistema). Não há significados fluindo ou sendo trocados no ambiente uma vez que os significados produzidos em um sistema serão, para outro sistema, apenas informações (sistemas constituem parte do ambiente de outros sistemas, conforme Luhmann, 1995; 1989). Em Giddens (1984), ou mesmo nas teorias institucionais em organizações (Meyer e Rowan, 1991; Zucker, 1991; DiMaggio e Powell, 1991; Scott, 2001), admite-se a difusão de estruturas tanto normativas quanto cognitivas, ´cristalizadas´ na estrutura social enquanto padrões institucionalizados e que, deste modo, afetam ou, são a própria base da interpretação de outras organizações e da própria reprodução das estruturas e dos agentes sociais. Em outras teorias sociais, os significados que permitem a relação dos sistemas com seus ambientes, são produzidos na interação entre sistemas ou agentes – portanto, são produtos culturais (por exemplo, Granovetter, 1985; Giddens, 1984; Scott, 2001). Em Luhmann, tais significados são produtos autônomos de cada sistema e, assim, sua natureza é predominantemente cognitiva, ainda que eles sejam constituídos, também, em referência a estruturas normativas que são percebidas como predominantes no ambiente. A relação, em Luhmann (1983), é de expectativas quanto a expectativas, o que implica então que estruturas normativas são relevantes, mas como elementos em essência externos aos sistemas e, igualmente, não afetando diretamente suas respostas, senão mediante processamento interpretativo.
10
Para entender melhor essa possibilidade deve-se recorrer ao sentido atribuído ao termo ´significado´, que é a diferença entre o real (o que se percebe como real) e suas várias possibilidades (Luhmann, 1995; Knodt, 1995). “O fato de que todo significado implica referência a outras possibilidades é a única forma em que o significado pode ser identificado” (Luhmann, 1976, p. 108). Então o real (percebido) enquanto sempre dependente do significado, depende das suas outras possibilidades, na perspectiva de quem o define. É assim que o que é real no ambiente (tanto quanto no sistema) é sempre um real provisório, dependente de com qual das suas outras possibilidades ele está sendo relacionado. Portanto, o ambiente também é contingente – também depende do sistema e também subjaz ao risco e à possibilidade de frustração em relação ao sistema. Isso se verifica, a título de exemplo, com a idéia de que um padrão ambiental pode conter uma noção do sistema que não se confirme, como uma lei que pode conter certa noção dos sistemas ao qual se destina (e uma expectativa de resposta) que não se confirma (tanto quanto a resposta).
[...]” (1976, p. 105). Por exemplo, regras em organizações “[...] são concebidas para governar o comportamento de seus membros. Mas as regras são contingentes também. Elas só adquirem significado e valor positivo através de decisões, o que implica que elas podem ser alteradas [...]” (1976, p. 99). No âmbito da teoria neo-funcionalista (e este é o sentido que Luhmann parece pretender com este exemplo) deve-se mesmo reconhecer que é exatamente isso que se espera: a regra só será efetiva enquanto tal na medida em que for ´significada´ e, portanto, re-produzida (nos termos já discutidos anteriormente).
As implicações disto para a teoria institucional (e a teoria organizacional de modo geral) parecem bastante importantes e são antecipadas parcialmente por Luhmann (1976, p. 108):
[...] os próprios sistemas organizacionais reagem à diferença entre eles e seus ambientes na base de suas escolhas estruturais, a partir do fato de que estruturas ambientais e estruturas sistêmicas algumas vezes variam ou podem ser modificadas, tanto dependente quanto independentemente umas das outras. Esse parece ser o foco especial sobre o que os sistemas organizacionais se diferenciam, e a racionalidade peculiar de sua auto- organização e gestão é que eles abraçam a dupla contingência das relações ambiente-sistema e a levam adiante.
Finamente e como ressalta Cohn (1998, p. 58),
a partir do momento em que cabe ao sistema responder a exigências funcionais, e essas exigências derivam de relações com um ambiente marcado pela contingência (incapaz, portanto, de orientar a constituição mais adequada do sistema) este enfrenta uma tarefa nova: a de criar por sua conta os seus próprios elementos, realizar operações autoconstitutivas [...].
Em conseqüência, a relação entre sistemas e ambientes se torna marcada por