Moscovici (1978) buscou explicar como os pensamentos se estruturam e se organizam em relação ao contexto social. Para tanto, ele acrescenta novos elementos às ideias contidas na teoria da representação coletiva, fazendo com que a noção de RS se situe na fronteira entre a Psicologia e a Sociologia. De acordo com o autor, um grande estímulo ao seu estudo das RS foi a necessidade de reabilitar o conhecimento do senso comum, que está fundamentado nas experiências cotidianas, na linguagem e nas práticas sociais. No período da II Guerra, o autor começou a preocupar-se com o impacto da ciência na cultura das pessoas. Na época, defendia-se, na sociedade, que o conhecimento do senso comum era contaminado, errado e deficiente; ele reagiu a essa ideia, enfatizando a importância do senso comum.
103 Nesse sentido, Moscovici (2010) assinala algumas diferenças entre o universo reificado, âmbito do conhecimento científico, e o universo consensual, do qual faz parte o conhecimento do senso comum. Enquanto o primeiro tenta estabelecer explicações do mundo, imparciais e independentes das pessoas, procurando apoiar-se no que considera fatos puros, o segundo prospera através da negociação e da conversação, apoiando-se na memória coletiva e no consenso.
A RS refere-se à maneira de o indivíduo pensar e interpretar o cotidiano, ou seja, é um conjunto de imagens, dotado de um sistema de referência, que lhe permite interpretar sua vida e dar-lhe sentido (Coutinho, 2001). Esses significados são resultantes da interação entre o senso comum e o conhecimento erudito, na qual existe uma relação de influência mútua e permanente, que resulta numa diversidade de sentidos que circulam através dos meios de comunicação formais e informais, assimilados e reelaborados socialmente (Araújo,L.F., Coutinho & Carvalho, 2005).
O processo de representação é um processo criativo, traduzido na dialética entre percepção e conceito. Moscovici (1978) acrescenta que
...representar uma coisa, um estado, não é com efeito duplicá-lo, repeti-lo ou reproduzi-lo; é reconstrui-lo, recolocá-lo, mudar-lhe o texto. A comunicação que se estabelece entre conceito e percepção, um penetrando o outro, transformando a substância concreta comum, cria a impressão de “realismo”, de materialidade das abstrações, visto que podemos agir com elas, e de abstração das materialidade, visto que exprimem uma ordem prévia (p. 56).
A elaboração e o funcionamento de uma representação podem ser compreendidos através dos processos de objetivação e ancoragem, que representam a imbricação e a
104 articulação entre a atividade cognitiva e as condições sociais em que são forjadas as representações. Moscovici (1978) sistematiza esses dois processos postulando que são como faces da mesma moeda.
A objetivação é o processo pelo qual o indivíduo reabsorve um excesso de significações, materializando-as, ou seja, é um processo de construção formal de um conhecimento pelo indivíduo (Jodelet, 2001). Segundo Moscovici (2010), a objetivação une a ideia de não familiaridade à de realidade e torna verdadeira a essência da realidade. Objetivar é descobrir a qualidade icônica de uma ideia ou ser impreciso; é reproduzir um conceito em uma imagem. A transformação do que não é familiar em algo familiar não se processa de maneira automática na vida dos indivíduos, mas conta com a participação da memória e das conclusões pré-estabelecidas (Saraiva, 2010).
Para Nóbrega (2001), a objetivação esclarece como se estrutura o conhecimento do objeto, que é organizado sob três condições estruturantes: a construção seletiva, em que as informações sobre o objeto sofrem descontextualização; a esquematização estruturante, em que ocorre a organização dos elementos na busca do sentido, e a naturalização, em que o conceito deixa de ser ideia ou imagem e torna-se realidade. Coutinho (2001) afirma que a objetivação tende a dirigir a memória para fora, derivando conceitos e imagens da memória para combiná-los e reproduzi-los no mundo externo, ou seja, criar algo novo com o auxílio do que já foi visto.
Através da objetivação, o indivíduo torna concreto aquilo que é abstrato. Ela transforma um conceito em imagem de uma coisa e retira-o de seu quadro conceitual científico. Trata-se de privilegiar certas informações em detrimento de outras, simplificando- as, dissociando-as de seu contexto original de produção e associando-as ao contexto do conhecimento imagético do sujeito ou do grupo (Trindade, Santos & Almeida, 2001).
105 Sobre o processo de objetivação, Arruda (2002) ressalta que se assemelha à forma como a criança de Piaget seleciona e descontextualiza os elementos a serem representados, aproximando-se do processo de acomodação. Segundo essa autora, uma vez feitos os recortes, os fragmentos são recosturados, num esquema que se torna o núcleo figurativo da representação. Dessa forma, aquele objeto que era misterioso, foi devidamente destrinchado, refeito e se torna, efetivamente, objetivo, palpável, naturalizado.
Trata-se, enfim, de transformar o que é abstrato, complexo ou novo em imagem concreta e significativa, apoiando-se em concepções que nos são familiares. Nesse processo, segundo Trindade, Santos e Almeida (2011), perde-se em riqueza informativa, já que há simplificação, mas se ganha em compreensão.
O outro processo formador das representações sociais, a ancoragem, como instrumento do saber, é uma modalidade que permite compreender como os elementos de representação não só exprimem relações sociais, mas também contribuem para construí-las (Jodelet, 2001). A ancoragem, portanto, assegura o elo entre a função cognitiva de base da representação e a sua função social e objetiva os elementos imaginativos para servir na elaboração de novas representações.
Sobre a ancoragem, Moscovici (1978) afirma que é um processo que transforma algo estranho, perturbador, que nos intriga, em nosso sistema particular de categorias e o compara com um paradigma de uma categoria que pensamos ser apropriada (p. 61). O processo de ancoragem transfere, portanto, aquilo que nos é desconhecido para o esquema de referência e realiza uma comparação e interpretação por meio de algo já conhecido. A ancoragem é organizada sob três condições estruturantes: a atribuição de sentido, a instrumentalização do saber e o enraizamento no sistema do pensamento (Nóbrega, 2001).
106 Segundo Trindade, Santos e Almeida (2011), a ancoragem corresponde extamente à incorporação ou assimilação de novos elementos de um objeto em um sistema de categorias familiares e funcionais aos indivíduos e que lhes estão facilmente disponíveis na memória. Esse processo permite ao indivíduo integrar o objeto da representação em um sistema de valores que lhe é próprio, denominando e classificando-o em função dos laços que esse objeto mantém com sua inserção social. Assim, um novo objeto é ancorado quando passa a fazer parte de um sistema de categorias já existentes, mediante alguns ajustes.
Esse processo diz respeito à maneira pela qual o pensamento se enraiza no social e volta a ele, pois, ao se converter em categoria e integrar-se à grade de leitura do mundo do sujeito, instrumentaliza-se um novo saber, e o sujeito recorre ao que é familiar para fazer uma espécie de conversão da novidade. Dessa forma, a ancoragem é o elo que liga os sistemas de conceitos já existentes na sociedade aos nossos sistemas de pensamento, construindo novas interpretações da realidade do senso comum (Arruda, 2002).
Percebe-se, então, que a ancoragem é um processo interligado à objetivação, onde esse último contribui para o surgimento de uma representação social frente a um novo objeto, por meio da materialização de uma entidade abstrata, que foi ancorada pela classificação e pela nomeação (Saraiva, 2010). Segundo Coutinho (2001), a ancoragem dirige a memória para dentro, buscando coisas, eventos e pessoas que ela identifica como um protótipo, ou se reconhece nomeando-o.
Conforme o modelo proposto inicialmente por Moscovici, as RS tinham duas funções: formação de condutas e orientação das comunicações sociais. Posteriormente, Abric (1994) acrescentou outras duas funções às representações, justificadas pela evolução das pesquisas realizadas a propósito das cognições e das práticas sociais. Foram elas: a função identitária, que permite salvaguardar a imagem positiva do grupo e sua especificidade, e a função
107 justificadora, que permite aos atores manterem ou reforçarem os comportamentos de diferenciação social, nas relações entre grupos (Nóbrega, 2001).
Segundo Vala (2010), as representações sociais apresentam uma dimensão funcional e prática, que acaba por ser evidente na organização dos comportamentos, das atividades comunicativas, na argumentação e na explicação cotidianas e na diferenciação dos grupos sociais. Como uma modalidade de conhecimento particular, a representação social tem por função a orientação de comportamentos e a facilitação da comunicação entre os indivíduos, considerando a indissociabilidade entre a experiência subjetiva e a inserção social dos sujeitos. Por conseguinte, a propósito do objetivo desta tese, as representações sociais da sexualidade, para os idosos, podem ser compreendidas como uma interpretação coletiva da realidade vivida e falada por aquele grupo social, que direcionam comportamentos e comunicações.
Moscovici (2010) classifica e analisa os três tipos de sistemas indutores das representações: difusão, propagação e propaganda. O primeiro pode ser caracterizado por uma indiferenciação dos laços entre o emissor e o receptor da mensagem, ao contrário do segundo, que exige uma organização mais complexa das mensagens. Essa modalidade de comunicação tem propriedades semelhantes às do conceito de atitude (Nóbrega, 2001). O terceiro sistema, diferentemente dos dois anteriores, é uma forma de comunicação de um grupo cuja dinâmica se encontra inscrita nas relações sociais conflituosas e que tem por objetivo engendrar a ação relativa à representação que ele se faz do objeto do conflito.
Estudar as vivências sexuais dos idosos ancorando-se nas RS significa estudá-las não apenas por meio dos aportes teóricos, normativos e científicos, mas com vistas a um novo olhar, voltado para a construção de um conhecimento prático e compartilhado por um determinado grupo de pertença (Coutinho, 2005; Coutinho & Saldanha, 2005).
108 Apreender as representações sociais dos idosos acerca da sexualidade, nessa etapa da vida, significa compreender os processos de classificação e nomeação que permitem entender as vivências sexuais do anonimato e ancorá-los numa rede de significação, através do consenso desse grupo. Em seu ambiente social, são veiculadas crenças, opiniões e sentimentos acerca desses eixos temáticos no grupo de pertença.
As RS referem-se à maneira como as pessoas pensam e interpretam o cotidiano. Elas constituem um conjunto de imagens, dotado de um sistema de referência, que permite interpretar sua vida e lhe dar sentido, compartilhando sua interpretação com seu meio social e cultural (Coutinho & Saldanha, 2005). De acordo com Trindade, Santos e Almeida (2011), quando exprimimos nossas opiniões e atitudes sobre um objeto, já formulamos uma representação desse objeto, o que equivale a dizer que estímulo e resposta se formam juntos.
Desse modo, acessar as representações sociais da sexualidade, para os idosos, é procurar compreender as formas que utilizam para criar, transformar e interpretar essa temática vinculada à sua realidade. De acordo com Coutinho (2005), é também
[...] conhecer seus pensamentos, sentimentos, percepções e experiências de vida compartilhadas, destacadas nas modalidades diferenciadas de comunicação, de acordo com o contexto cultural e a classe social a que pertencem e as instituições às quais se está vinculado, prolongando-se para além das dimensões intrapsíquicas e concretizando-se em fenômenos sociais palpáveis de serem identificados e mapeados (p. 26)
Nesse direcionamento, entende-se que estudar as representações sociais é procurar conhecer o modo como um grupo, neste estudo, os idosos, constrói um conjunto de saberes acerca de um objeto social, neste caso, a sexualidade. O referencial teórico sobre a Teoria das
109 Representações Sociais é aqui adotado enfatizando um saber real, construído a partir de suas vivências, edificando significados em que se encontra circunscrita a sexualidade do idoso.