BÖLÜM 1: ELEùTøREL TEORø VE HABERMAS
1.1. Frankfurt Okulu
1.1.2.2. Eleútirel Teori (Pozitivizm ve Araçsal Akıl Eleútirisi)
A ampliação da cobertura nos sistemas de saúde foi um processo importante nas últimas décadas, na Alemanha e na França. Os dois sistemas, enquanto estruturas de proteção predominantemente bismarckianas, pautavam a proteção sobre a condição de trabalhador. No mundo pós-guerra, de forte crescimento econômico e de quase pleno emprego, isso representava um amplo acesso aos sistemas de saúde, aproximando-se da perspectiva universal do NHS britânico. Os poucos habitantes que não se encaixavam nesse perfil eram incluídos nos sistemas mediante mecanismos assistenciais. Na Alemanha, a inclusão ocorria como parte do seguro-desemprego ou axílio-desemprego e, para períodos muito longos, pela assistência social181, enquanto na França, o acesso ocorria pela carte santé, que era gerida por cada departamento, com diferenças de acesso regionais182 (GIOVANELLA, 1998; TABUTEAU, 2013).
No entanto, a partir da crise econômica da década de 1970, o aumento do desemprego e de ocupações precárias no mercado de trabalho ampliou o contingente populacional descoberto pelos mecanismos tradicionais. Na França, essa situação ensejou a criação da Couverture Maladie Universelle (CMU), que entrou em vigor em 2000183, seguida da implementação da Couverture Maladie Universelle – Complementaire (CMU- C)184, em 2003.
A CMU e a CMU-C permitiram o acesso gratuito ao sistema de saúde a toda população abaixo de determinado nível de renda185. Nestes casos, ao contrário do mecanismo tradicional de reembolso, não há pagamento por parte do paciente, sendo que
181 Na Alemanha, em 1998, 90% dos desempregados eram incluídos no sistema de seguro social via seguro-
desemprego e o restante tinha acesso à proteção à saúde via assistência social (GIOVANELLA, 1998).
182 No final dos anos 1990, estimava-se que cerca de 300.000 franceses se encontravam excluídos do sistema
de seguro à saúde (POULLIER e SANDIER, 2000).
183 O debate com relação a isso se iniciou já no bojo do Plano Juppé, em 1995, que trouxe a proposta de
criação da Assurance Maladie Universelle, ou seja, a criação de mecanismos que garantissem a cobertura frente ao risco de doença de todos os indivíduos no país, independentemente da contribuição direta para o financiamento do sistema. Cabe ressaltar, no entanto, que a criação da CMU e CMU-C não contemplou os estrangeiros residentes na França em situação irregular. Neste caso, o acesso deles aos serviços de saúde não ocorre via Seguridade Social, mas mediante um dispositivo específico de ajuda médica do Estado (Aide Médicale de l’État – AME). Em 2013, cerca de 251 mil pessoas acessavam o sistema de saúde por meio da AME (TABUTEAU, 2013; BATIFOULIER, 2014; AMELI, 2015).
184 O financiamento da CMU-C é realizado a partir de uma taxa que incide sobre o faturamento das
seguradoras privadas complementares. Essa taxa se modificou desde sua criação: em 2004, era de 1,75%, passando para 2,5% em 2007, 5,9% em 2009 e 6,27% em 2011 (BATIFOULIER, 2014).
185 Em outubro de 2014, o teto para acesso a CMU e CMU-C gratuita era de cerca de €800 mensais por
os serviços são remunerados diretamente pela Seguridade Social186. Essa política viabilizou à população de baixa renda o mesmo tipo de acesso ao sistema de saúde, retirando as idiossincrasias da política departamental até então existente. Por sua vez, a CMU-C permitiu acesso sem ter que arcar com o alto co-pagamento ou com o pagamento do seguro complementar. Em 2005, essa política foi complementada pela criação da Aide à la Complémentaire Santé (ACS), que visa atingir a parcela da população com renda mais elevada do que o teto do CMU-C, mas que, ainda assim, não possui recursos suficientes para pagar um seguro complementar. A ACS foi definida a partir do teto da CMU-C, com um acréscimo de até 35% na renda. Neste caso, ao invés do pagamento de 100% de um seguro complementar, como na CMU-C, a ACS fornecesse um “vale”, cujo valor varia conforme a idade da pessoa (dado que o seguro complementar é mais caro para as pessoas mais velhas)187 (PELLET, 2004; CHADELAT, 2005; BATIFOULIER, 2014).
Na Alemanha, ainda que o seguro social, somado aos mecanismos assistenciais, garantissem quase plena cobertura, estimava-se, em 2006, entre 80 a 300 mil o número de alemães sem qualquer tipo de cobertura à saúde. Sendo assim, em 2007, tornou-se obrigatória a adesão a alguma forma de seguro (social ou privado) para toda a população. Nesse sentido, em termos legais, o sistema de saúde alemão tornou-se universal apenas a partir de 2007, com toda população obrigatoriamente coberta (HASSENTEUFEL e PALIER, 2007; HINRICHS, 2010).
Deve-se ponderar, no entanto, que a ampliação da cobertura de acesso aos sistemas de saúde ocorreu principalmente no que tange aos cuidados essenciais. Nos três países estudados, a cobertura foi prejudicada em setores em que houve aumento dos mecanismos de co-pagamento e/ou redução da obrigatoriedade de acesso por meio do sistema público (capítulo 3). Ou seja, a universalidade veio acompanhada de redução na integralidade do acesso aos sistemas. Destacam-se quatro setores com essa dinâmica: acesso a medicamentos (fora dos hospitais); tratamentos dentários; oftalmológicos (óculos); e de enfermagem de longa duração (principalmente que demandam cuidados
186 O pagamento direto pela Seguridade Social é conhecido, na França, como tiers payant, um terceiro que
paga pela relação médico-paciente. Em 2015, a França iniciou um debate parlamentar para aprovação da universalização do mecanismo do tiers payant. Ou seja, a Seguridade Social pagaria diretamente todos os prestadores de serviços de saúde, extinguindo o sistema de reembolso. Até o início de 2016, o tema ainda estava em debate.
187 Em 2013, o valor do “vale” era de € 100, por mês, para menores de 16 anos, € 200 para pessoas entre
16 e 49 anos, € 350 para a faixa de 50-59 anos e € 550 para pessoas com mais de 60 anos (BATIFOULIER, 2014).
em domicílio). Nestes casos, a redução da cobertura pública manteve (ou até mesmo ampliou) o financiamento e a provisão desses serviços pelo setor privado: “o espaço deixado para o mercado varia inversamente com a importância da cobertura [pública]” (POULLIER e SANDIER, 2000, p. 901).
2.4.6 Ampliação do Setor Privado e dos Mecanismos de Mercado –